CAPITULO 16

O Guerreiro de uma estrela.

A lágrima que descia pela face de Aleck parou subitamente seu percurso. Havia se congelado pelo cosmo da Coroa Boreal que voltava a ser emanado pelo corpo do jovem guerreiro. Seu corpo se remexia devagar no meio do berço de pedras em que foi deixado. O ruído das pedras rolando umas sobre as outras fizeram Troy interromper seu caminho.

- Não...

- Argh...

Aleck, empenhando todas as suas forças, começava a se levantar. Troy se virava devagar e, incrédulo, assistia à cena do jovem, que mais parecia morto, pôr-se de pé e em posição de combate.

- Volte aqui… Não terminamos… Ainda não acabei com você!

Troy continuava estático. Ainda não podia acreditar no que via, nem no que ouvia. Havia, há pouco, sentido o cosmo do garoto sumir, agora podia senti-lo forte novamente. Algo que sem dúvida merecia sua admiração.

- Estavas morto...

- Estava. É estranho dizer isso, mas esta rápida passagem pelo mundo dos mortos me fez bem. Abriu-me um pouco os olhos. Vejo que não pôde sentir o grande cosmo que explodiu na estrela cadente...

- Cosmo? Do que estás falando?

- Não sei ao certo... Apenas senti o cosmo de meu mestre Camus fundindo-se a outra energia muito poderosa. Foi ela que me trouxe de volta. Como não sentiu uma energia tão imensa explodindo nos céus? Ah sim... Você não tem sentimentos... Sem sentimentos não poderia senti-la mesmo...

- Hunf... Estás delirando. Já não pertences a este mundo! Volte para onde lhe mandei!

Troy empunha sua lança na mão direita e mira a lâmina bem no peito de Aleck. Com toda força a arremessa. A arma percorreu o espaço com tamanha velocidade que dilacerou o ar como um trovão, indo impiedosamente rumo a seu alvo. Mas não o atingiu. Ao se aproximar do guerreiro que voltara à vida, a lança começou a se cobrir de uma camada de gelo e perder velocidade e força. A alguns metros ela tombou no chão como um animal abatido pelo caçador.

A perplexidade de Troy aumentava. Sentia do cosmo do garoto tudo aquilo que não sentira antes: a ausência de sentimentos.

- Agora será um confronto de homens. Sem armas. Apenas nossos punhos!

Aleck era outro agora. O jovem que tinha medo de matar havia ficado no mundo dos mortos. Este era forte, estava decidido, convicto de seu objetivo. E também havia um brilho a mais em seu olhar, o mesmo brilho que há nos olhos de um assassino.

- Sim... – começa a falar Troy, dando-se conta da real situação – Agora sim será o combate que esperava. Mesmo sem minha lança suas chances são quase inexistentes, pois não possuis mais tua veste sagrada. Bastaria um toque de meu punho em teu peito para vará-lo.

- ...

- Acha que podes me vencer em um combate justo? Então veremos!

Troy explode seu cosmo com força. Uma luz branca é emanada pelas frestas de sua armadura e as peças voam para longe de seu corpo. O Guerreiro da Estrela Polar fica desnudo de sua armadura, trajando o mesmo que Aleck: uma simples calça de tecido e sua própria pele, mostrando seu corpo de músculos tão definidos como se fossem desenhados e cicatrizes espalhadas por todos eles.

- Para um guerreiro intocável você tem muitas cicatrizes, não?

- Não se aprende lições sem marcas. Elas são a prova da minha bravura, das incontáveis lutas justas que travei. Todos os homens que me fizeram algumas marcas hoje estão no inferno. Vais tentar deixar as suas?

- Eu já lhe disse... Só preciso lhe tocar uma vez da forma certa. Ficará com apenas uma cicatriz. A última.

- Garoto, não sei se gosto ou desprezo essa tua ousadia... Tente fazer verdade tuas palavras!

Como animais selvagens, aparentemente movidos por seus instintos, desnudos de armaduras sagradas, eles partem um para cima do outro. Eram como feras selvagens, utilizando-se das forças de seus punhos e, com os dentes a ranger em meio a gritos de combate, golpes aperfeiçoados de artes marciais são disparados com excelência. Cada vez que um era atingido pelo outro um estrondo se seguia abafado por um grito.

Os golpes arrancavam sangue seja pelo impacto no abdome atingindo os órgãos e fazendo o oponente expelir sangue pela boca, seja pelos cortes provocados pelo vácuo tão afiado quanto uma lâmina.

Após uma infinidade de golpes, ambos tomaram distância e por alguns instantes ficaram apenas se encarando, numa tentativa de antever o movimento alheio enquanto retomavam o fôlego.

Os dois ofegavam bastante e pareciam estar próximos da exaustão. Mas Aleck sofreu mais. Sentia seu braço esquerdo quebrado em pelo menos três pontos. Seus órgãos pareciam ter sido moídos junto com as costelas, e toda hora o sangue lhe subia à boca, obrigando-o a cuspi-lo. Apesar das dores tomarem seu corpo, seu cosmo continuava tão aceso como nunca. Havia tanta força e garra como jamais houve e, esquecendo as dores, ele se aliava à sua mente numa tentativa de encontrar uma brecha na defesa de Troy e atingir o ponto certo. Mas não era nenhuma luz divina que lhe mostraria claramente caminho, era preciso tentar e arriscar da forma que ele enxergava com seus próprios olhos.

Após um gole de coragem e uma última olhada atenta aos movimentos de seu inimigo, Aleck incendeia seu cosmo novamente e salta mais uma vez para o confronto.

O cavaleiro de Cristal mirava um murro certeiro no peito de Troy, mas o guerreiro da Estrela Polar não se deixou atingir. Com um soco desviou o punho de Aleck ao mesmo tempo em que lhe atingiu uma joelhada no abdome. Assim que o corpo do garoto se arqueou Troy explodiu um gancho no queixo dele, arremessando-o metros para trás.

- Mas o que pensas que vai fazer? Queres me atingir no peito e tentas me atacar pela frente? – Troy ri – Como és tolo! Tente isso mais uma vez e lhe arranco a cabeça com outro golpe!

Suas palavras lhe soaram como inteira verdade. Este último golpe foi muito mais forte do que ele esperava, o suficiente para deslocar o maxilar de Aleck, que teve que o recolocar com as próprias mãos. Numa nova cusparada de sangue estava um de seus dentes do fundo da boca.

- Argh... Ele está certo. Se ele me atingir com outro gancho desses vai arrancar minha cabeça. Devo ser preciso na próxima tentativa. Tenho que me concentrar.

De súbito uma parede de gelo ergueu-se entre Aleck e Troy.

- Mas... Que covardia é essa?

- Covardia nenhuma. Só preciso enxergar uma coisa... Não ouse me atacar, pois vou sentir quando tocar essa parede e terei tempo suficiente para lhe atingir enquanto seu golpe vara os escombros.

Troy sabia disso, não poderia atacar Aleck enquanto ele estivesse detrás daquela parede de cristal. Pelo menos não com um golpe de seu punho. Obviamente se Aleck persistisse por muito mais tempo com aquela atitude, que lhe soou um tanto covarde, Troy desferiria uma fulminante rajada de cosmo.

O tempo passava e Aleck, protegido temporariamente por sua barreira, mantinha-se de olhos fechados. Seu cosmo se expandia de forma serena, ampliando seus sentidos. Enfim havia chegado o ponto exato. Como se olhasse para um mapa de anatomia ele via o corpo de Troy e todos os seus fluxos energéticos se concentrando num único ponto de seu corpo. Era preciso um golpe certeiro e fulminante. E só havia uma chance.

O guerreiro da Estrela Polar mantinha todos os seus sete sentidos voltados para o corpo e o cosmo do cavaleiro da Coroa Boreal. Nenhum movimento que o garoto fizesse escaparia do seu olhar.

Aleck esperava o momento certo. Não havia razão nenhuma que pudesse lhe dizer quando ele seria, sabia apenas que tinha que ser logo. Foi então que um instinto explodiu no fundo de sua alma e lhe gritou. Era agora!

Seus olhos se abriram e seu cosmo explodiu como um relâmpago, esfarelando a parede de cristal. Seu corpo se projetou com a velocidade da luz contra seu oponente, carregando todo o pó de cristal, desenhando um rastro brilhante, como uma estrela cadente que irrompe os céus. Troy efetuou seu contra ataque, utilizando-se de sua percepção aguçada.

Quando os dois corpos se chocaram um estrondo, como um trovão, se seguiu de um clarão.

Veio um longo silêncio.

Um veio de sangue escorreu pelo punho de Troy e pingou no chão. Aleck cambaleou para trás e caiu de costas, exausto.

Seu peito estava rasgado e o músculo quase que totalmente exposto. O ferimento ainda fumegava, como se atingido por um golpe incandescente. Olhando para o céu suas pupilas se perdiam na imensidão negra enquanto tentava encontrar o ar. Aos poucos ele voltava a si e recobrava totalmente sua consciência. A primeira coisa que fez foi virar seu olho para sua mão esquerda e contemplar seus dedos indicador e médio sujos de sangue.

- Ah... Foi por pouco...

Empenhando toda a força física que lhe restara Aleck se põe de pé e começa a caminhar na direção de Troy, que ainda estava de pé. Ficando frente a frente com seu maior inimigo ele encara aqueles olhos de pupilas esmiuçadas.

- Foi por pouco que não varou meu peito. Mas consegui acertar onde queria. Acho que até agora ainda não compreendeu direito o que houve, então vou explicar-lhe o que errou, assim como me explicou anteriormente. Todos nós nascemos sob a força dos cosmos, seja uma estrela ou uma constelação, ele guiará nossa força e indicará o rumo de nossas vidas. Aqueles que nascem sob constelações têm as estrelas que a compõe representadas em pontos vitais no corpo e que se atingidos da forma certa podem salvar ou tirar a vida. Eu nasci sob a guarda da Coroa Boreal e dela tiro minha força. Você nasceu sob a Estrela Polar. Note que é apenas uma estrela, representada por um único ponto em seu corpo. Não fiz nada mais do que atingi-lo com um único golpe neste ponto. Admito que não foi nem um pouco fácil enxergar o lugar exato e atingi-lo, mas uma vez feito eis o resultado: Sua circulação começa a parar lentamente, o sangue acumula-se entre os tecidos, os músculos ficam sem oxigenação e travam, a respiração fica difícil e a fala impossível. A morte é questão de tempo.

- ...

- Se tivesse me demorado mais um milésimo de segundo seu punho atravessaria meu peito. Foi realmente por pouco. Eu realmente espero que possa me ouvir agora, pois eu pude lhe ouvir quando falava há pouco, quando me abateu. Suas palavras foram de grande valia e me ajudaram a fixar meu objetivo e atingi-lo. Confesso que devo lhe agradecer por me ajudar a enxergar seu próprio ponto fraco.

Os lábios de Troy começam a perder a cor, assim como todo o resto de seu corpo. Seus músculos estavam estirados de forma forçada, quase arrebentando. Em seu peito, no ponto atingido, restava apenas um furo, e em volta formava-se uma grande mancha escura.

Depois de tomar um novo fôlego e buscar novamente as forças para andar, o guerreiro vitorioso começa a seguir seu caminho adiante. Próximo da escadaria ele interrompe seu trajeto e, sem se virar, ainda fala:

- Agora sabe por que eu disse que lhe derrotaria com um único toque, não é?

-...Sim... É... Admirável...

As últimas palavras de Troy em vida. Suas pupilas se contraíram uma última vez e se expandiram definitivamente. O sangue explodiu a jorrar de seu peito como água de uma fonte, seus músculos voltaram à flacidez e seu corpo tombou para frente e caiu sobre seu próprio sangue.

O Cavaleiro da Constelação da Coroa Boreal subia adiante as escadas, quase sem forças. O Guerreiro da Estrela Polar jazia pálido sobre todo o sangue que um dia lhe correra às veias.

Continua...