CAPITULO 17

O sucumbir de uma montanha

Imagens vagas flutuavam na escuridão. Como lembranças dispersas elas se misturavam, resultando em um mosaico de cores, sons e sensações. O tempo ali não era linear, pois em um momento se via uma criança e ouvia o som de sua gargalhada, em outro era um jovem chorando a morte dos pais e em outro ele estava quieto, encolhido em um canto, sujo de sangue, se escondendo de algo. As dores trocavam de lugar com as alegrias, que de súbito tornava-se solidão e novamente tornava-se dor. Mas ela persistia mais que as outras sensações, o choro se ouvia mais que o riso. Este, aliás, parecia ser tímido, pois eram poucas às vezes que ele era ouvido.

Então um turbilhão luminoso tragou todas as lembranças dispersas, tornando tudo escuridão. A sensação de corpo voltava à medida que os sentidos ressurgiam. As lembranças agora deviam ser deixadas para trás. Kolckier estava voltando para lutar.

Leviatã ia se afastando do túmulo de Kolckier com passos lentos e até pesarosos. A vitória de há pouco lhe incomodava um pouco. Era como se algo não estivesse certo. Era incompreensível para ele que alguém pudesse lutar usando tamanha força de cosmo por uma causa errada, por algo ilógico. Apenas o instinto de sobrevivência não podia ser, afinal não se tira tanto poder dos instintos. É preciso que haja a convicção, mas se Kolckier teve tanta convicção, é porque a verdade estava ao seu lado, então Leviatã estaria errado. Hipótese tola! Impossível que um humano medíocre pudesse ter razão. Tanto é que ele agora jaz sob um túmulo. Ou pelo menos jazia.

Uma força cósmica começa a ser emanada e faz tremer todo o solo, aumentando as fendas que já havia. A terra começa a se remoer e lápide é engolida pela terra. Leviatã interrompe seu caminho e, sem nítida surpresa em sua face, observa a ressurreição.

Uma explosão de energia se dá. A terra é jogada para o alto e se desfragmenta em pó, caindo novamente, mas agora brilhante e congelada. A aura de Kolckier, envolvendo seu corpo, agora é um misto de branco e tons azuis e à medida que avança vai tornando gelo todo o solo que toca. Até mesmo o ar que começa a cair como neve.

- Ainda não terminamos, besta!

- Hunf... Não me surpreendo em vê-lo de pé. Por um momento até pus meus desejos à frente de minha obrigação, almejando que você sobrevivesse. Ainda quero descobrir que força milagrosa é esta capaz de mover os tolos e trazê-los em direção à morte.

Kolckier abaixa a cabeça e balança-a levemente. Leviatã continua.

- Você sabe que está do lado errado! Sei que pôde enxergar que estou certo. Os humanos não são merecedores deste mundo magnífico! Não podem continuar manchando esta terra com sua imundice, com sua carne pecadora! Isto é um fato, não há argumentos. Mas mesmo assim insiste em lutar, ainda se levanta e ergue seu punho contra mim!

- Não pode enxergar, Leviatã.

- Ou vocês são muito ignorantes... Ou de uma sabedoria que supera aos deuses...

- Nem um nem outro. Apenas acreditamos com vontade. Temos a esperança ao nosso lado e sabemos que não há certo ou errado.

Neste instante Leviatã mudou subitamente seu semblante, tornou-se repentinamente agressivo, como se tivesse ouvido um desaforo.

- Do que está falando criança?! Como ousa questionar a existência do certo e do errado? São leis naturais! É preciso a sabedoria para enxergar e optar pelo lado certo. Sempre haverá a luz e as trevas. Aqueles que fazem seu caminho pelas trevas devem morrer pelos que seguem a luz! É esta nossa missão!

Kolckier afasta suas pernas e ergue seus punhos, única parte de seu corpo ainda recoberta pela armadura. Seu cosmo ascendia gradativamente e tornava-se cada vez mais agressivo.

- Não temos tempo para discutir. Você tem suas crenças. Eu possuo as minhas. E elas me dizem para acabar com você!

- Tolo... Pois venha, criança!!

- Seaaaaah!

Kolckier investe mais uma vez contra seu oponente. Mas desta vez seus movimentos estavam diferentes. Cada golpe de Leviatã desferia – e não eram golpes simples, com seus punhos do tamanho da cabeça de um homem ele poderia varar uma muralha – Kolckier apenas esquivava e não passava da menção de atacar, porém não efetivava o golpe. Quando houve uma brecha o cavaleiro de Yeti suspendeu-se no ar e apoiando os pés no peito de seu adversário deu impulso. Não foi exatamente um chute e sim apenas uma manobra para tomar distância.

- O que está fazendo?! Acha que vai poder fugir por toda a eternidade?

- Estou lhe estudando. Estou usando a força que meu pai me deu e os ensinamentos de Camus. Agora vejo como pôde derrotar todos os Guerreiros Deuses, os sete defensores de Hilda e os três que lutavam por Durval, entre eles meu pai! Sua técnica se adapta ao seu tamanho, potencializando ao máximo o poder de destruição dos seus golpes. Com punhos como estes poderia desfazer em pó qualquer armadura e o que restasse do guerreiro você varreria com seu poder de cosmo. Admirável, mas há uma brecha. Todos têm! Você não pode ser exceção.

Kolckier estava de fato diferente. Agora estava dominado pela razão e o motivo dessa serenidade foi o esclarecimento de suas atormentadas lembranças. Quando estava à beira da morte, a alguns passos de cair no Yomutsu, o cosmo que havia explodido nos céus, fruto da fusão de Camus e Edgar, inundou a alma de Kolckier e a fez retornar ao seu corpo. Não só lhe dera a vida como também a luz. Finalmente pôde se livrar das amarras de seus medos e encarar seu passado.

Kolckier cresceu e passou sua infância entre os Guerreiros Deuses do Valhala. Sob árduo treinamento de seu pai, Rung de Mellingard, seguidor de Durval, Sacerdote de Odin. Um mestre severo demais para lidar com uma criança, mas que no fundo nutria amor por seu filho, defendendo-o no que fosse preciso e não deixando que lhe faltasse nada. Apesar de estar destinado a viver no ponto mais ao norte do mundo, privado do sol, Kolckier sentia-se feliz. Mas esta felicidade ruiu de um dia para o outro.

Numa noite sem estrelas, pelo que lembra uma criança, começaram a explodir as edificações, homens gritavam, soavam os sinos e corriam para uma mesma direção, mas logo seus corpos voltavam pelo ar, já sem vida. Todos os Guerreiros Deuses foram chamados e um a um iam tombando. Mulheres e crianças foram levadas para fora da cidade e os homens ficaram para o combate. Kolckier foi embora com os refugiados e enquanto seguiam seu caminho pela estrada puderam ver, atrás e ao longe, a sua querida Asgard em chamas. Mesmo ao longe ainda se ouviam os gritos. E nunca mais viu seu pai, nem sua terra natal.

Foram momentos de dores. Mas todas as dores precisam ser superadas, ou então não se pode prosseguir. Assim foi. Consciente de tudo que realmente aconteceu, Kolckier se via à frente do causador de suas dores. Era a chance de obter sua vingança, de todo seu povo e mais: De salvar todos aqueles que ainda esperam confinados na Sibéria. Se se deixasse levar pelos sentimentos agora poderia ser o fim. Era preciso ser racional, centrar seus focos e examinar cada suspiro daquele gigante, que mais parecia com uma montanha.

- Sim... Já fiz tantas vezes. Preciso fazer mais uma vez... – Kolckier falava como se fosse consigo mesmo, observando os movimentos de seu oponente e tirando suas conclusões.

- Mas do que está falando, criança?

- Estou falando de como vou te derrotar. Já fiz outras vezes. Mas agora não devo falhar, tenho essa obrigação.

- Está louco! Isso, sim! Que técnica milagrosa é essa que pode derrubar um gigante, filho das terras de Jotunheim? Não pode me derrubar, pois até mesmo você, que para os da sua raça é como um gigante, para mim não passa de inseto!

- Não se iluda... Até as montanhas podem sucumbir ante um verdadeiro poder!

- Pois venha me mostrar! Venha de uma vez, Cavaleiro de Yeti, venha numa última investida! Faça com que seja seu último movimento! E se falhar lhe tirarei a vida agora!

Kolckier não podia mais adiar. Seria agora. Com um acréscimo de cosmo, fazendo uma aura branca envolver todo seu corpo, podendo ser sentida ao longe, ele enche-se de coragem.

- Sim, Leviatã! Irei agora, com todas as minhas forças! E quando sentir o ar faltando-lhe os pulmões e o sangue parando nas veias... Lembre-se de meu nome!

Como um raio Kolckier dispara contra seu oponente. Seus pés moviam-se com toda a velocidade que podiam, em seus olhos a determinação e a consciência de que aquela seria provavelmente seu último movimento, assim sendo ele deveria fazer valer o esforço de um combate de tais proporções. Mas não havia o pavor da consciência de que aquele era seu último movimento, Kolckier sabia que muita coisa dependia dele, então que fosse o último, mas fosse o melhor.

Leviatã viu o jovem correndo em sua direção, por um instante se viu obrigado a refletir. Não era um qualquer, estava sendo movimentado por algo maior, algo que lhe dava certeza de seu caminho. Se havia tanta força em um cosmo, talvez fosse por que ele estava do lado certo, pois como o gigante acreditava, há de fato esta distinção nítida de lados. Talvez fosse hora de Leviatã enxergar o verdadeiro lado, mas mesmo que enxergasse seria tarde demais. Sendo assim seu último golpe devia acabar com seu oponente, comprovando que Leviatã estava do lado certo. Quem morresse era o verdadeiro pecador.

- Fúrias das Bestas!

- Seaaaah!

Por um instante houve uma cena impensável: Um homem corria contra uma avalanche inteira, como não a visse ou simplesmente tivesse perdido a razão. Ou não tivesse mais motivos para continuar. E a montanha que desencadeou a avalanche continuava em seu lugar, apenas observando, admirada, como o homem a enfrentava.

Então ela se concluiu, arrasando tudo que havia em seu caminho. A neblina e o pó suspendiam-se no ar como nuvens, que aos poucos iam abaixando, lentamente. E foi só após alguns instantes, depois até mesmo de suspirar aliviado, que Leviatã deu-se conta que não havia acabado. Seu inimigo ainda estava ali, ocultado pela neblina, agarrado a seus pés e expandindo seu cosmo, tentando congelá-los.

- ...! Louco!

Leviatã não pensou duas vezes, juntou os punhos e desceu-os com toda a velocidade, visando a nuca de Kolckier. Porém o cavaleiro nórdico desaparece em um rápido brilho, quase no instante em que se dá um estrondo seco. Mas não foi o punho de Leviatã. Este interrompera seu trajeto. Logo após o estrondo veio uma terrível dor.

Foi algo confuso, afinal Leviatã estava mirando a nuca de seu oponente e sentiu, junto com o estrondo, a sua própria espatifar-se. Deu-se uma dor em cadeia, descendo por sua coluna, explodindo em cada uma das vértebras e culminou na bacia, quando sentiu suas pernas queimarem como fogo, cambalearam e forçaram-no a cair sobre elas próprias, ajoelhado. Quando caiu viu voarem por cima de sua cabeça estilhaços de uma armadura escura e sentiu escorrer pelo pescoço um líquido quente e viscoso. Era sua armadura e seu próprio sangue.

Foi após alguns instantes que pôde compreender a situação. Enquanto ele ocupava-se em desprender toda sua energia para aplicar a Fúria das Bestas, seu oponente atirou-se em suas pernas, na intenção de congelá-las para imobilizá-lo. Assim que Leviatã percebeu e mirou um outro golpe Kolckier, usando-se da velocidade da luz, rolou por debaixo de suas pernas e saltou à suas costas, agarrando-lhe o pescoço e desferindo o mais poderoso murro, bem na nuca de Leviatã. Atingira o espaço exato entre um espinho e outro de sua armadura, exatamente sobre a última vértebra cervical, na base do pescoço. Um último movimento sabiamente usado para um golpe fatal, e Leviatã compreendeu isso, sabia que em alguns instantes ia morrer, mas não antes de levar consigo seu assassino.

- Argh!! Criança maldita!

- ...

Leviatã agarra Kolckier pelo pescoço e o arremessa, com suas últimas forças, ao chão, abrindo nele uma nova cratera, como uma cova. Enfim sua armadura de Yeti desfizera-se em pó até a última peça, deixando seu corpo nu estirado na terra.

- Como...Como pôde... Não é possível...!!

Aos poucos os sentidos de Leviatã iam sumindo. O tato e paladar já se foram. A audição ia enfraquecendo junto com o olfato.

- O mal não deveria sobrepor-se ao bem... Como é possível? Será que... Não há nada disso? Talvez nós próprios é que trilhamos nossos caminhos... Então... Maldição! Eu estava do lado errado! Não!!! Não pode... eu... argh...

E seu último suspiro deu-se em meio ao silêncio. Seu corpo enorme tombou no chão, fazendo a terra tremer. Sua visão ia sumindo, embaçando e enegrecendo até que o gigante não enxergou mais nada.

E Kolckier permaneceu estirado onde sabia que seria seu túmulo. A força com que havia sido arremessado ali foi única. Todos os seus ossos se partiram em várias partes. Ele mal conseguia respirar, podia sentir algumas costelas lhe atrapalhando, dentro de seu pulmão. Não havia mais o que fazer. Seus amigos não poderiam ir até lá só para ajudar um cavaleiro ferido, nem deviam, pois havia outros guerreiros para serem derrotados. Mas o que importava era que Kolckier fizera sua parte e agora estaria livre. Finalmente se juntaria a seus pais e seu povo. Talvez houvesse um lugar no céu para ele.

Fechando os olhos lentamente e sentindo seu corpo flutuar no infinito, enquanto ao longe ouvia a melodia de uma harpa tocando seu réquiem, Kolckier de Yeti enfim descansou em paz.

Continua...


Palavras do Autor: Espero que ainda hajam leitores esperando por essa fic. Eu sei que é a que eu mais demoro para atualizar, mas juro que vou terminar, ela não está abandonada! Abraços e comentem! Pinguim.Aquariano