Armas e Rosas
Terceiro Capítulo
As modelos altas e esbeltas caminhavam altivas pela passarela, sob os olhares extasiados dos expectadores. As jovens que ostentavam sofisticados vestidos para o dia e noite, passeavam por entre belas estátuas de marfim branco e cuja beleza se igualava às míticas imagens das divinas deusas gregas, imortalizadas por grandes nomes da arte mundial.
E era exatamente por esses resquícios de arte que os homens da Fênix Vermelha estavam lá.
- É... Inacreditável. – balbuciou Hyoga.
- Então quer dizer que elas estavam o tempo todo aqui?! – Jabu questionou alteradamente e só não chamou mais atenção porque Shun lhe retesou os movimentos com o braço.
- Não faça escândalo, senão todo o nosso esforço será em vão! – Amamiya repreendeu Unicórnio e falando mais baixa e pausadamente, continuou. – Então... Resgataremos todas as estátuas na madrugada de amanhã. Portanto, estudem bem todo o Partenon: janelas, portas e principalmente, o teto. Entenderam?
- Sim. – os homens responderam em uníssono.
Shun respirou fundo. Aquele seria um trabalho bastante perigoso.
...x...x...x...
O cemitério municipal estava quase vazio àquela hora da manhã. O gramado recém podado era pisado por Ikki que mantinha um olhar vazio e na mão, um ramalhete de rosas vermelhas. As flores que ela mais gostava.
Deu um "bom dia" rápido ao coveiro que juntava algumas folhas secas e seguiu até o centro daquela necrópole, rumo ao túmulo que continha uma pedra sepulcral feita em granito rosa e escrita com letras douradas. No meio do ornamento fúnebre havia uma moldura de bordas também douradas e trabalhadas com esmero. Tal suporte resguardava a imagem que jamais saiu do coração do homem mais considerável da máfia daquela cidade.
Com um gesto de quase reverência, Ikki Amamiya pôs um dos joelhos no chão perante o sepulcro e depositou o ramalhete aos pés da pedra. Ele esboçou um tímido sorriso e disse:
- Desculpe a demora, mas é que eu tive muito trabalho hoje de manhã.
...x...x...x...
Já era perto do meio dia quando Shun, Hyoga e Jabu desceram do carro rumo a um Café situado em frente a uma das praças mais conhecidas de Creta. Os planos já haviam sido todos acertados e a partir da meia noite do dia seguinte, eles agiriam sem pestanejar. Até porque, sabiam mais do que ninguém que Saga sempre cumpria o que dizia.
A escolha do Café Monet não havia por outro motivo que não fosse à dispersão – discreta – dos rapazes, a fim de não levantarem maiores suspeitas com a Polícia Metropolitana que após a prisão do Grande Mestre, havia ficado ainda mais atenta à ação dos ditos "criminosos de classe".
Depois de um resumo das coordenadas que deveriam seguir logo após, Jabu e Hyoga tomaram rumos ignorados. Shun preferiu permanecer em uma das mesas ao ar livre, mãos cruzadas sustentando o queixo, pensativo ante tantas dúvidas, tantos anseios... Mal havia saído da adolescência e agora era condicionado a dirigir um "negócio" onde o menor deslize poderia muito bem significar a morte. Ou na melhor das hipóteses, a prisão perpétua. O irmão mais jovem de Ikki suspirou pesadamente e por um breve espaço de tempo, sentiu saudade da época em que brincava de mocinho e bandido com seu irmão nos jardins da bela mansão em que viviam completamente alheios as verdadeiras dores e vícios da vida adulta. Lembrou também do sorriso protetor de sua mãe e de como ela fazia festa em seu cabelo. Também sorriu.
- Um café amargo, por favor.
A voz aveludada tirou Shun de seus pensamentos de forma violenta. Ao virar o rosto para a sua esquerda, viu a cerca de dez metros de distância, ela.
Camaleão.
- Ange... – o jovem balbuciou, encantado com a loira que sorria despreocupada para o garçom.
Olhou depois para o outro lado, ansioso para ver algum vendedor de flores, doces ou o que diabo fosse, mas infelizmente, não viu nenhum, o que dificultaria uma abordagem com um motivo "justificável".
Foi então que repentinamente, ao longe, alguns flashes lhe chamaram atenção. Foi então que teve uma idéia um tanto inusitada, mas original, deveria admitir. Deixou as pressas alguns trocados do café que bebeu e saiu em direção ao homem que estava mais ao leste da praça.
- Quanto custa? – perguntou sem rodeios.
- Isso...? Não, não posso vender... É meu ganha pão rapaz!
- Ofereço dez vezes mais e poderá comprar outra bem melhor.
- Está falando sério?
A cor verde das cédulas novas fez com que o homem ficasse crédulo de imediato. Balbuciou algumas palavras de agradecimento, enquanto entregava ao rapaz o objeto momentaneamente tão desejado.
- Mas para quê vai querer essa, podendo comprar outra mais moderna?
- Porque se deixar para depois, não terei tempo de eternizar um anjo. – Shun respondeu, sorrindo gentilmente.
...x...x...x...
Estava completamente abstraída de qualquer pensamento. Para não dizer que estava no mundo efêmero dos sonhos, sentia que de vez em quando a brisa lhe tocava a face e o ouvia o som de risos de crianças a brincar na praça. Um momento de paz, como há muito não desfrutava.
- Me permite?
A indagação feita sob voz suave enlevou o olhar da loira para o lado e não deixou de emitir um sorriso de prazer ao ver o atrevido rapaz da noite anterior.
- Há uma lenda que diz que a alma de quem foi alvejada pelas luzes de tal máquina, ficará eternamente presa no mundo dos sonhos... – ela respondeu, ainda na dúvida de permitir que aquele belo desconhecido lhe fizesse tal fineza.
- Então me deixe ao menos, olhá-la e futuramente direi ao diabo que pude em vida, ver um anjo de óculos de sol e tomando café na Praça de Creta.
A resposta foi uma gostosa gargalhada seguida pela atrevida resposta.
- Faça melhor então: prove ao diabo que além de ver, você conseguiu tirar fotos do anjo que usava óculos escuros.
- Ele sentirá inveja de mim. – Shun retorquiu orgulhoso.
- Eu sei.
Completamente a vontade diante das lentes da câmara fotográfica que Shun trazia pendurada no pescoço, Camaleão sorria e fazia caras e bocas. Para os transeuntes, o casal não era nada mais do que uma bela modelo sendo fotografada por um excepcional fotógrafo, para alguma daquelas revistas que mostravam às mulheres de posse, que o poder da beleza e da riqueza poderiam transformá-las em verdadeiras divas.
...x...x...x...
Ikki mal havia retornado do cemitério, quando foi surpreendido por uma criada que o avisou de um convite que fora destinado a ele e ao seu irmão e que havia sido deixado sob a mesa do escritório da família.
Ao abrir o envelope, deparou-se com um cartão de papel trabalhado e letras cuidadosamente desenhadas.
- Um convite... Daquele velho?
Ao virar o cartão, viu um pequeno recado escrito às pressas:
"Acreditou mesmo que era um convite do prefeito?
Ele ainda não caducou.
Mas quero que esteja lá.
Ass.: Saga"
Ikki arqueou a sobrancelha. Ele realmente pensou que o prefeito havia ficado caduco de vez.
- O senhor ainda precisa de algo? – a empregada indagou da porta do escritório.
- Separe um smoking e avise ao motorista que prepare a limusine. Vou sair hoje à noite.
...x...x...x...
Enquanto isso, Shun e June passeavam a esmo pela praça, entretidos pela conversa despreocupada.
- Então faz pouco tempo que trabalha lá?
- Sim... Na realidade, eu trabalhava em outros lugares, fora da cidade, mas resolvi me estabelecer por aqui. E você? O que faz?
Shun ficou calado por algum tempo até responder...
- Sou fotógrafo.
A loira sorriu sem graça.
- Ah, claro... Que pergunta cretina a minha.
- Não diga isso. – Shun retaliou de imediato. – Muitas pessoas não imaginam que eu siga essa profissão e...
- Você já viajou muito? Conheceu muitos lugares bonitos? Muita gente interessante? – ela perguntou bastante curiosa.
- Bom... – Shun já começava a se sentir incomodado com a mentira que criara, mas preferiu prosseguir. – Viajei o suficiente para conhecer algumas paisagens esplendidas. Mas quanto a pessoas interessantes... Aqui, nessa cidade, posso encontrar todas as pessoas interessantes do mundo. E você é uma.
Ele pode perceber que um leve rubor passou pela face da loira que tirou o olhar dele e riu.
- Não ria. Estou falando sério.
- Eu sei que fala sério. E é lindo por isso.
Agora, foi a vez de o rapaz ficar envergonhado.
- Ora, ora... E eis que o fotógrafo ficou com vergonha. – ela sorriu jocosamente.
- É que não sou muito acostumado a esse tipo de gracejo.
- Pois deveria. – ela retrucou, enquanto olhava para o relógio de pulso. – Nossa, estou atrasada! Preciso ir...
- Posso te deixar...
- Eu agradeço por sua cortesia, mas não posso. – ela sorriu sem graça.
- Que pena. – Shun respondeu sinceramente pesaroso. – Mas antes que vá, por favor... Diga-me seu nome.
- Meu nome?
- Você sabe o meu. – respondeu, sorrindo marotamente.
- June...
Shun sentiu por um breve momento, que as palavras saiam vacilantes dos lábios da mulher.
- É um lindo nome.
- Obrigada. – e olhando em volta, viu um táxi parado a menos de cinco metros da calçada. Acenou ao motorista que já abria a porta para ela. – Shun, se quiser, apareça por lá hoje! Farei uma apresentação extra.
Os olhos do rapaz brilharam com a expectativa de poder revê-la mais uma vez.
- Sim, é claro! Que horas?
- Meia noite.
- Tudo bem. Conte comigo.
A resposta final da loira foi um sorriso. Ao entrar no carro, ela soltou um beijinho com uma das mãos para Shun que ficou com uma completa cara de bobo... Ou seria de apaixonado?
- Meia noite... Ótimo! – entretanto, o sorriso se desfez, pois lembrou de um outro compromisso. – Droga! A visita ao Partenon é hoje!
Definitivamente, estava entre o céu e o inferno.
...x...x...x...
Casa de espetáculos Moulin Rouge.
Aldebaran estava em seu escritório, localizado nos fundos da casa noturna. Compenetrado com a contabilidade do empreendimento, seus olhos castanhos não saiam da barulhenta máquina de calcular Clary. Dessa forma, não percebeu a presença de uma outra pessoa no minúsculo compartimento que exalava a perfume de 2ª categoria, aroma esse muito apreciado por Aldebaran.
- Bom dia...?
O robusto moreno não escutou o tímido "bom dia" e continuava a calcular freneticamente, parando apenas para anotar alguns dados num bloco de papel.
- Bom dia? – o outro falou com mais força, mas mesmo assim, não se fez ouvido. Foi então que apelou e...
- Qual é?! Não está me enxergando não?! – gritou.
- Hum...? – foi aí que Aldebaran finalmente tirou sua atenção nos números e fincou seu olhar no moreno de olhos e longos cabelos azulados e que portava uma mala surrada e um violão pelo visto, bastante velho.
- Err... Bom dia.
- O que quer? – o outro perguntou, arqueando a vasta sobrancelha. – Desculpe, mas não estamos com vagas para cantores. Pode se retirar.
- É sobre a vaga para garçom. – e colocando em cima da mesa um papel amassado com o anúncio, continuou. – Que pelo visto, ainda não foi preenchida.
- Ah, sim... – e verificando o anúncio, continuou. – E você tem experiência?
- Trabalhei um restaurante no interior e em alguns bares da capital e...
- Tem onde dormir?
- Não, mas...
- Fuma? Bebe? Usa alguma droga?
- Não! Sou limpo!
- É casado?
- Deus me livre! Digo! Ainda não...
- Tudo bem, começa hoje. – Aldebaran outorgou finalmente e após um breve momento procurando algo dentro dos bolsos do paletó, jogou a chave para o rapaz dizendo. – Esta chave é daquele quarto que fica no final do corredor. Vai ser o seu quarto. Depois de arrumar tudo por lá, por um rapaz chamado Afrodite para que ele possa lhe arrumar a farda de trabalho e... Por favor, quando for trabalhar, amarre este cabelo.
- Algo de errado no meu cabelo? – o moreno indagou afetado.
- Estou trabalhando, não percebeu? – o dono da casa retorquiu com certa impaciência.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou. – deu meia volta, mas antes que saísse do escritório, ele foi interceptado por mais uma pergunta do novo patrão.
- Antes que eu me esqueça... Qual é o seu nome?
- Miro. – respondeu sorrindo de forma galanteadora.
- Certo... Vá com Deus.
Miro saiu do escritório para sua nova "casa" assobiando We are the champions e quão grande foi a sua decepção ao ver que o quarto – na realidade, um cubículo mal ventilado – estava completamente abarrotado de produtos de limpeza e caixas. Após alguns minutos, conseguiu localizar, em meio a grande bagunça, uma cama de solteiro.
Retirou algumas caixas de cima do dormitório, dando lugar assim para a mala que trazia. Abriu e retirou um pequeno quadro que colocou na parede, acima da cabeceira da cama.
- Certo Elvis... Você ficará aqui.
...x...x...x...
Já eram onze horas quando um furgão estacionou furtivamente nos fundos do Centro de Convenções. Do veículo, saltaram seis homens, todos eles equipados com cordas, hastes e fivelas próprias para o alpinismo.
Após uma breve explicação do que deveriam fazer, Shun ficou a observar Hyoga, Jabu e Jeki lançarem as hastes amarradas na extremidade das cordas, que ficaram firmes após caírem sob o teto do último pavimento do edifício.
Shun foi o primeiro a escalar o prédio e depois que chegou até o alto, olhou rapidamente ao redor e constatou que tudo estava tranqüilo. Deu sinal para que os outros subissem e enquanto o faziam, consultou rapidamente o relógio de bolso.
"Espero que dê tempo..." – pensou, ansioso pelo outro encontro que aconteceria dentro de uma hora.
Finalmente, todos estavam no telhado e próximos à abóbada de vidro que iluminava claramente o interior do salão principal do Partenon. Hyoga, Jeki e Jabu passaram à frente de todos e ajoelhados sobre o orbe, começaram a cerrar o vidro cuidadosamente.
Em poucos minutos, outras três cordas caiam discretamente no interior do salão que pela manhã, foi o palco de um aguardado desfile de moda.
- Certo, vamos. – ordenou Shun à Hyoga e Jabu que tomaram suas cordas e desceram para dentro do recinto. Jeki ficou aguardando no teto.
Ao descerem, os homens puderam contemplar todas as estátuas que eram o motivo daquela invasão.
- Como essas malditas são... Maravilhosas. – rosnou Jabu enquanto se aproximada de uma, réplica perfeita da Vênus de Milo.
- Como diria um velho ditado, "o que importa realmente, é a beleza interior". – Hyoga ironizou por sua vez.
- Sem perca de tempo, vamos içá-las. – Shun interveio e tomando a corda pela qual desceu, prendeu-a a uma estátua e após um sinal dado à Jeki, a arte começou a se elevar do solo.
De acordo com os cálculos do jovem Amamiya, a operação não deveria demorar mais do que quinze minutos e pelo andar dos fatos, seus cálculos seriam afirmados em menos de cinco minutos. Entretanto, a angústia parecia tomar ainda mais o coração do jovem. Sentia que algo não estava bem.
Finalmente, a última estátua – exatamente a Vênus – era içada e foi recebida por Jeki que por sua vez, já havia descido com as quatro estátuas para a rua, e que seriam aparadas por Nachi e Ichi que rapidamente, acomodava uma a uma no interior do furgão.
- Tudo certo. – murmurou Hyoga a Shun e Jabu. – Vamos sair logo daqui antes que...
- Mãos ao alto!!!
A penumbra do local era grande, mas não o suficiente para esconder as insígnias douradas e em forma de estrela, que brilhavam no peitoral de cada um daqueles homens armados com revólveres.
Shun suspirou. Agora estavam perdidos.
Continua...
...x...x...x...
Notas da autora:
Mais um capítulo de Armas e Rosas! E mais personagens entram nessa trama alternativa... O que acharam do Miro? Sinto que ele vai ser um dos meus queridinhos nessa fanfic, mas acredito que muita gente vai querer adotá-lo também. P
Ah! Antes que eu me esqueça, eu inaugurei meu novo blog e lá eu criei uma galeria com imagens referentes a Armas e Rosas. Para quem quiser ver o Shun, o Ikki, o Máscara da Morte e até a calculadora ultra-moderna do Aldebaran, por favor, acessem o link que se encontra no meu profile!
Quero agradecer a todo apoio que venho recebendo para continuar essa fic e em especial para: Margarida (sabe aquele projeto? Eu ainda não desisti dele! Espero finalizar tudo até o final dessa semana. ), Juliane.chan, Nany Babalu, Harpia, Cíntia, Hamiko, Pisces Luna, Ametista, Ephemeron e Fabi que teceram comentários para o capítulo anterior. Muito obrigada meninas! o/
Enfim... Até a próxima!
Arthemisys
