N/A: Furuba nao me pertencia no cap passado e, apesar de todos os meus esforços, também nao me pertence agora.

Made to be broken

And I'd give up forever to touch you

E eu desistiria do eterno para poder te tocar

Cause I know that you feel me somehow

Porque eu sei que, de alguma forma, você me sente

You're the closest to heaven that I'll ever be

Você é o mais próximo do Paraíso que eu jamais vou estar

And I don't want to go home right now

E eu não quero ir para casa agora

(…)

When everything's made to be broken

Quando tudo é feito para ser quebrado

I just want you to know who I am

Eu só quero que você saiba quem eu sou

"Iris" – Goo Goo Dolls

O barulho da porta batendo pareceu uma explosão na casa silenciosa. Kagura permaneceu calada muito tempo depois de a porta ter se fechado.

Viu Rin sair apressada, mas não chegou a registrar o fato em sua cabeça.

Sempre fechada em seus próprios problemas... Ainda que, para os outros, tudo pelo que ela passava parecesse nada. Para ela importava.

"Pare de ficar imaginando coisas e rastejando pelos cantos por algo que não vai acontecer. É patético. Me deixa constrangida o jeito como você fala sobre ele."

Repetiu mentalmente as palavras duras. Rin com certeza não era a primeira a pensar dela assim, mas era a primeira a dizê-lo de forma tão direta.

Havia de fato tornado-se estúpida. E o que mais lhe angustiava era ter se tornado assim sem ter realmente mudado em nada. Continuava uma garotinha, chorando por aquilo que não conseguia alcançar, com apenas desejos vãos.

Sem nada pelo que ansiar.

Era mesmo uma boneca de porcelana. Frágil; delicada no exterior e vazia por dentro, pronta para se quebrar ao menor toque.

Sem querer, acabara presa àquele amor por Kyo.

Sempre se prendia a qualquer outra coisa que pudesse salvá-la daquele ódio que tinha por si mesma. Fora por isso que se apaixonara por ele, afinal.

Perguntou-se se alguém no mundo seria capaz de entender como um amor que existia para mascarar uma culpa podia ser sincero. Se algo começava errado não era natural que continuasse errado até o fim?

Ela própria era toda cheia de falhas. Uma boneca de louça; podre por dentro, trincada por fora. Se refugiando em suas próprias ilusões tolas, atrás de absolvição. A pessoa que mais desesperadamente tentara enganar era a si mesma. E conseguira. Afinal se convencera de que seu suposto amor por Kyo era verdadeiro.

Kagura parou de pensar. De respirar. Por um instante, pensou ter sentido o coração parar de bater. O silêncio de repente era demais para ela e a casa parecia muito pequena. Precipitou-se para a porta.

Não agüentava encarar quem era de verdade. Motivos podres, degradantes... A única coisa que valia a pena era aquele sentimento. Não conseguia ficar sozinha; consigo mesma. Ia se despedaçar...

Mal sentiu, ao sair da casa, o vento gelado contra si, arrepiando-lhe cada centímetro de pele. Andou, andou e andou. Cada vez mais rápido, naquela ânsia por não ficar mais sozinha.

Reparava nas árvores, na neve que caía na calçada, no céu cinzento, em qualquer coisa que lhe desviasse a atenção dos pensamentos que estavam sempre no fundo de sua cabeça. Incapazes de ser esquecidos, mas evitados com teimosia.

Seus pés a dirigiam quase automáticos para a Mansão Sohma. Ao contrário dos outros, a idéia de encontrar Akito e o resto da família naquela reunião não lhe causava tanto repúdio assim.

As palavras cruéis que Akito sempre encontrava um jeito de dizer a seus juunishi quando os encontrava, não a incomodavam. Kagura achava que era inclusive necessário que ela ouvisse e fosse posta em seu devido lugar, como uma autopunição.

E, em cada reunião familiar, ela via uma chance de encontrar Kyo e tentar ser aceita. Naquela ilusão infantil de que, se fosse perdoada, poderia ser uma pessoa diferente.

Absorta em si mesma; andava olhando em volta, mas sem realmente observar nada em seu caminho. Forçou-se a sair dos pensamentos e ver. Conhecia bem aquele lugar, mas percebeu de súbito, que havia algo que esquecera quando seus passos morreram aos poucos, sem que ela ordenasse.

Era quase em transe que ela observava aquele parque infantil. Em outras ocasiões, mal teria reparado, mas estava tão frágil... Lembranças indo e vindo. Aquele parque estar ali era uma coincidência perfeita demais para que ela pudesse evitar se dirigir, sem pensar duas vezes, para os balanços vazios.

Olhou os brinquedos tingidos de branco pelo gelo. Com uma das mãos enluvadas, espanou a neve de cima da tábua de madeira e acomodou-se sobre ela. Os pés no chão, empurrando o corpo num balançar ritmando pra frente e para trás. Para frente e para trás...

Para frente e para trás... Como naquele dia, há tanto tempo. Só de lembrar, ela quase podia sentir o sol sobre si, enquanto ouvia a correria e a agitação das outras crianças pelo parque...

A lembrança daquele menino solitário era tão clara. Mesmo que ela tivesse apenas dez anos, na época. O sentimento estava para sempre gravado em sua memória. Aquela criança agachada na terra, brincando sozinha.

O sol caía sobre aqueles cabelos, deixando sua coloração laranja ainda mais vívida. E ela achara tão bonito. Observou-o por um tempo. Sabia quem era; e por isso se aproximara dele.

O Gato.

Ele parecera tão feliz em ter companhia... Por isso ela fora capaz de permanecer ao lado dele. O tempo todo o olhando de cima... Era tão melhor assim.

Mesmo sua amizade com Kyo começara por causa de seus próprios motivos egoístas. Mas aquilo era mesmo capaz de estragar tudo? Os momentos de felicidade, os momentos de paz, podiam ser estragados por serem fruto de razões individualistas?

Uma mancha que não poderia ser removida nunca. E só o que ela fazia era deixar esse pensamento de lado e tentar esquecer. Funcionava sempre, mesmo que ela nunca esquecesse de verdade.

Todos os dias se encontravam naquele parque. Brincavam juntos. Conversavam. Apenas dois amigos; não havia nada de errado nisso. Pensou se naquela época ela já o amava... Se ela podia ter começado a amá-lo antes daquele dia...

Um dia de sol, um dia no parque como outro qualquer. Outro daqueles encontros; outro dia normal. Até que ela resolvera fazer algo estúpido. Nunca soube explicar porque se interessara tão de súbito naquela pulseira que Kyo usava. Mas queria vê-la, tocá-la, usá-la. Apenas curiosidade infantil.

"Me deixa experimentar... Só um pouquinho..."

E não ouvira enquanto o Gato negava. Não vira seu olhar assustado, enquanto ela puxava a pulseira de seu braço. Só se lembrava de quando ele começara a mudar na sua frente... Para aquela forma assustadora.

O grito que dera então, junto com os olhos cruéis da "verdadeira forma" do Gato, ainda a assombravam em pesadelos de quando em quando.

Mesmo com o passar dos anos, ainda se sentia suja por ter fugido daquele jeito. Sabia que fora cruel. Não sabia o que a levara a pensar que se pudesse se apaixonar por ele e ele pudesse amá-la de volta, seria como se aquele dia jamais tivesse existido.

Por isso, ela voltara a se aproximar, aos poucos, como se nada tivesse acontecido. Sempre esperando o dia em que ele a amasse. Sempre sonhando com uma versão gentil de si mesma, capaz de aceitar o monstro.

Vivera por tempo demais se enganando para pensar agora que não o amava de verdade. Pensando nisso, talvez pudesse ter sido antes. Em gestos de amizade, em cada um daqueles encontros...

Talvez ela pudesse ter se apaixonado antes sem que percebesse?

O balanço continuava indo e vindo, agora muito rápido. Kagura percebeu que seus pés não tocavam mais o chão. Agora era o balanço que empurrava seu corpo pelo ar, não o contrário. Odiava ver-se sem o controle da situação.

Esticou os pés. O movimento foi, aos poucos, cessando e a velocidade diminuindo. Desceu do brinquedo, lançando um olhar de despedida ao parque. Àquele e ao de suas lembranças.

Era uma parte de si mesma que ela jamais queria ter que encarar de novo. Todos tinham seus segredos inconfessáveis e apenas queriam que eles permancessem enterrados.

Continuou andando.

Em poucos minutos, estava diante da Casa Principal dos Sohma, batendo à porta.

Era possível impedir que certas verdades voltassem à superfície quando ela mesma era incapaz de enterrá-las? Um acerto era capaz de anular um erro?

Viu a porta se abrindo e preparou seu melhor sorriso falso para cumprimentar a todos quando entrasse. Já tinha aquela expressão perfeita e serena de boneca, mesmo que, por trás daquilo, estivesse num caos.

Sabia que sua atitude não era um acerto, mas queria tão desesperadamente que fosse. Pensava que talvez apenas aquele desejo fosse forte o bastante para apagar seus enganos... E baseara todos os seus atos nessa crença.

Jamais percebendo que continuava sem se importar, que continuava pisando nos sentimentos de outros.

Dentro da casa, a festa era um zumbido. O zunido coletivo de todos os membros do Clã Sohma. Até mesmo aqueles que sequer conheciam Akito eram obrigados a prestar suas homenagens no aniversário do patriarca.

Kagura sentia inveja deles. Ignorantes em relação a quem era aquela pessoa, ao que era a dor de ser amaldiçoado.

Soltou um suspiro amargo, enquanto procurava Kyo com os olhos. Encontrou apenas Haru circulando pela festa; suspeitava que à procura de Rin. Viu Hiro lançar alguns olhares distantes para onde Kisa estava.

Por ora, não sentia ânimo o bastante para falar com nenhum deles. Até mesmo dos outros juunishi sentia inveja. Mesmo que tivessem seus próprios problemas e batalhas; eles tinham o que ela buscava.

Ser amada... Ser aceita... Precisava daquilo.

Mesmo que continuasse errada. Não sentia culpa o bastante para abrir mão do único desejo, que não lhe parecia fútil. Mesmo que se quebrasse no meio do caminho...

... Em vários pedaços de porcelana...

xXxXx

N/A: Sem muito a comentar. A nao ser que no cap passado esqueci de deixar um credito pra Ling Sumemori pq quem me deu a idéia de usar aquela música pra Haru/Rin foi ela.

E agradecer também a todo mundo que tá acompanhando e comentando essa saga porque deu trabalho pra escrever e é lógico que eu queria ter um retorno por isso.

Próximo capítulo: Kisa/Hiro, no final da semana que vem!

Lyra