Disclaimer: Ainda não consegui comprar os direitos autorais de Furuba XD
Right from the Start
Nobody knows it
Ninguém sabe disso
When I was down
Quando eu estava por baixo
I was your clown
Eu fui seu palhaço
Nobody knows it
Ninguém sabe disso
Right from the start
Desde o início
I gave you my heart
Eu te dei meu coração
"Don't go breaking my heart" – Elton John
Pegou-se encarando outra vez o mostrador do Rolex. Suspirou ao constatar que apenas meia hora havia se passado.
Não que já estivesse entediado, estava apenas exausto depois de um dia inteiro passado verificando se Akito estaria bem para a festa.
Suspirou. Queria poder ir embora.
Já não tinha mais os grandes desejos e aspirações dos outros juunishi. Há muito tempo, Hatori abandonara aquelas velhas ilusões. Atualmente, sua maior vontade era apenas poder descansar de vez em quando.
Shigure tinha razão. Ele parecia mesmo um velho mal humorado com aquele jeito de pensar.
De um jeito ou de outro, a festa seria longa e ele teria que ficar até o fim. Pensou se não seria melhor buscar uma bebida; talvez assim passasse mais rápido.
Acabou se decidindo por pegar um café na cozinha, na esperança de que isso o mantivesse acordado.
Se bebesse, no estado em queencontrava, provavelmente acabaria caído desmaiado em algum canto. Ou daria um vexame digno das bebedeiras de Shigure e Ayame nas festas de Ano Novo.
Caminhou meio distraído, naquele jeito mecânico que se acostumara a usar para fazer qualquer coisa. Demorou a entender o que acontecera quando colidiu com alguma coisa.
E demorara ainda mais a entender que não esbarrara em algo, mas em alguém e que aquele alguém seria a última pessoa que ele jamaisimaginaria ver outra vez.
"Senhor Hatori!"
O Dragão piscou. Não uma, mas várias vezes. Aquela voz... Por que ainda soava familiar? E por que agora ele percebia o quanto sentira falta da voz de Kana, ainda que estranhasse aquele tom tão formal?
"Ahm... Kana? Desculpe-me por ter esbarrado em você." Ele disse atordoado. Era quase como se custasse a acreditar no que acontecia. Como se os pensamentos se recusassem a sair do estado de caos em que se achavam.
"Não precisa se desculpar, Senhor Hatori. Eu que fui muito estabanada, mas quando o vi, quis vir até aqui falar com o Senhor! Achei que nem se lembraria de mim... Faz tanto tempo..."
Fazia mesmo tempo demais. Muito mais do que ele achava que teria agüentado sem ela.
"É... Muito tempo..."
"Como tem passado?"
"Bem. Trabalhando." Seus lábios se contorceram em algo que parou no meio termo entre um esgar e um sorriso cansado. "E você?" A pergunta saiu automática, antes que ele pudesse se conter.
Não queria realmente ouvir, porque já sabia o que Kana diria.
"Bom... Eu me casei..." Ela disse, com um enorme sorriso. Daqueles que costumava dar quando ela e Hatori estavam juntos. "Eu enviei um convite para o Senhor. O Senhor recebeu?"
"Eu... Não recebi. Soube do seu casamento recentemente inclusive." Disse desconcertado. Provavelmente aquela mentira era melhor queinventar que um contratempo qualquer o impedira de comparecer. "Mas você está feliz, não?"
Pergunta estúpida. Por que prolongava aquilo? Sentia falta de conversar com ela, mas precisava torturar-se assim?
Cada uma daquelas lembranças que destruíra com suas próprias mãos... Voltando. E Hatori não sabia se adorava ou odiava esse sentimento destrutivo.
"É uma pena que meu marido não tenha podido comparecer. Gostaria que você o conhecesse Senhor Hatori. Mas nós estamos felizes sim. Pensando em ter filhos. Sempre quis ter uma família grande."
O Dragão franziu a testa, sem perceber. A formalidade com a qual Kana se dirigia a ele era esperada, uma vez que a garota não se lembrava de ter sido mais que sua estagiária.
Mas aquele comentário... Não parecia coisa dela. Não que Hatori e a garota tivessem conversado sobre formar uma família. Era até esquisito que, à época em que namoravam, sempre evitassem, inconscientemente, o assunto.
"Não quis seguir carreira em medicina? Que eu me lembre era esse seu projeto antes."
"Ah, eu pensei sobre isso, Senhor Hatori, mas às vezes nós acabamos deixando alguns sonhos de lado... Quando surgem outras coisas." Ela sorriu.
O Dragão não conseguiu se forçar a retribuir o gesto. Não era a sua Kana. A garota que conhecera era cheia de projetos, sonhos... Não o tipo de pessoa que esquecia seus desejos, tão fácil.
Pelo menos ela estava feliz.
"Kana!" uma terceira pessoa chamou, fazendo com que tanto o Dragão quanto a garota procurassem o dono da voz.
"Ahhh! Me desculpe, Hatori-san! Deixei minha irmã sozinha me esperando quando vim falar com o senhor." Ela disse, um pouco embaraçada. "Foi ótimo revê-lo! Quem sabe numa outra ocasião eu não lhe apresente meu marido?"
"Claro. Foi bom rever você também..." retrucou reticente. As palavras lhe fugiam para dizer o que realmente queria.
Na verdade, não tinha muita certeza do que queria mesmo ter dito. Sequer podia definir o que sentiu ao ver Kana curvar-se num cumprimento cordial e ir se juntar a uma garota mais nova que ela, mas muito parecida.
O mesmo sorriso gentil.
As duas ainda estavam perto o bastante para que Hatori ouvisse a menina perguntando:
"Quem era, mana?"
"Hatori Sohma. Eu trabalhei para ele há algum tempo atrás. Acho que ele nunca gostou muito de mim... Sempre foi meio frio comigo." Kana respondeu com um sorriso meio triste.
Mais uma vez, Hatori sentiu-se culpado por fazê-la infeliz.
Pelo menos assim era mais fácil se convencer de que estavam melhores separados. Ou, pelo menos, Kana estava; por mais mudada que estivesse.
Era normal que ela tivesse esquecido alguns sonhos e mudado algumas opiniões ao longo dos anos... Mesmo assim, era como se ele a perdesse mais um pouco. Como se a Kana que ele conhecera não fosse mais real.
Estava inalcançável agora. Por mais que ele soubesse que, de qualquer jeito, jamais teria podido alcançá-la de novo depois do dia em que apagara sua memória.
Por que sentia como se tivesse perdido algo que não tinha mais?
Não deu um passo ou fez menção de se mexer. Já se esquecera do café que ia buscar, mas a bebida não lhe pareceria mais nem remotamente apelativa.
Não tinha qualquer ânimo ou energia para sair dali. O barulho das muitas vozes à sua volta não o incomodava mais, como se tivesse cessado. O corpo já não clamava por descanso.
Seus olhos encontraram alguns flocos de neve caindo no peitoril da janela.
Neve... Lembrava-se de quando Akito costumava compará-lo à neve. Se, antes de conhecer Kana, ele era frívolo; agora era amargurado.
Amargurado em perceber que, por mais que as estações tivessem se passado desde que a vira pela última vez, ele jamais conseguira sair novamente do Inverno.
Os passos que dava sem se dar conta levaram-no até a janela. Agia sem perceber quando levou as mãos à tranca da janela e abriu-a. Quando estendeu uma das palmas para fora, sentindo os flocos brancos caírem gelados em sua pele.
Quando...
"YAAAAHHH! TORI-SAN!"
Hatori deu um pulo. Levou alguns segundos para recuperar a audição.
"Ayame?"
"Tori-san! Há quanto tempo! Sentiu minha falta? Besteira, é claro que sentiu!"
Não ocorreu a Hatori dizer que ainda no dia anterior Ayame invadira sua casa para relatar outro avanço em sua relação com Yuki.
"Só falta o Gure-san conosco! E então poderemos nos reunir mais uma vez para celebrar beber e fazer coisas ilícitas, como nos velhos tempos!" e Ayame tinha nos olhos aquele brilho de 'completamente fora da realidade' enquanto falava.
"Quando nós fizemos isso antes?" o Dragão perguntou incrédulo. Aqueles surtos imaginosos do primo o incomodavam, ainda mais quando não estava com cabeça para isso.
"Nunca, mas você sempre quis, não, Tori-san? Às vezes é difícil lidar com o fato de ser amigo de um príncipe não?"
"Ayame... Eu não quero entrar nessa conversa de novo. Quantas vezes eu tenho que dizer que você não é um príncipe?"
"Tori-san! É muito rude dizer a alguém que ele não é um príncipe! Ainda mais se esse alguém for um príncipe!"
Hatori ergueu as mãos, num gesto de desistência. Aquela sua discussão com Ayame já durava anos e sempre acabava do mesmo jeito.
"Contei para o Tori-san que eu falei com meu irmão Yuki? Estamos tão próximos de criar laços fraternais verdadeiros e duradouros..."
"Ontem você me disse isso só umas seis ou sete vezes ontem, Ayame."
Os olhos dourados, por um ou dois segundos, pareceram tornar-se opacos. Mas se Aaya se abalara, não demonstrou.
"Que resposta mais grosseira, Tori san! Vamos!"
"O que? Aonde?"
"Lá fora!" Disse alegre.
"Por quê?" Hatori perguntou, sem a menor vontade de se mexer.
"Me espera que eu já volto , Tori-san!"
O Dragão pensou perplexo, se havia qualquer outra coisa que pudesse fazer. Não estava em condições de lidar com Ayame.
"Vem, Tori San!" A Serpente chamou-o de longe.
Relutou um pouco antes de chegar à conclusão que seria bem menos cansativo se o seguisse logo. Acabaria porfazê-lo, cedo ou tarde.
O branco encheu seus olhos, assim que pôs os pés para fora. A neve que cobria o que restara das plantas como uma imensa mortalha branca que aumentava cada vez mais, conforme o gelo continuava a cair.
Atravessou a pontezinha, sobre o pequeno olho d'água congelado.
Das frondosas árvores, restavam apenas galhos encurvados sobre os quais o gelo se acumulava.
Na Primavera, aquela paisagem era simplesmente um espetáculo. O inverno, sempre arrasador, insistia em sepultar tudo em seus braços gélidos.
"Tori!" o primo chamou outra vez.
Hatori virou o rosto em sua direção. Os cabelos prateados da Serpente se camuflavam quase perfeitamente com o fundo pálido de neve, enquanto seu casaco vermelho, junto com seus olhos cor de champagne, tinha um contraste vívido.
Uma imagem bonita num cenário triste.
O que estavam fazendo ali, afinal?
O que no mundo poderia fazer Ayame preferir o silêncio congelante do jardim ao barulho e o calor de dentro da casa? Ainda mais quando a Serpente odiava o frio.
"Está ventando, não?"
"Eu realmente gostaria de saber o que deu em você pra vir pra cá! Olha só para você! Está congelando!" disse, dando um suspiro impaciente. "Vamos voltar lá pra dentro!"
"Não! Eu trouxe o Tori-san aqui fora por um motivo! Ou você acha que eu faço as coisas à toa?"
O Dragão não respondeu. Não pensou que era possível que aquela pergunta fosse séria, mas percebeu que não sairiam dali tão cedo. Suspirou, mais uma vez, demonstrando impaciência, enquanto, com muita relutância, retirava seu sobretudo.
"Pra que isso, Tori?"
"Pra você não morrer congelado em dois ou três minutos."
"Eu trouxe outra coisa pra isso." Ele disse com um sorriso.
"Como assim? Está parecendo o Shigure fazendo suspense desse jeito."
A Serpente retirou uma garrafinha de porcelana do casaco vermelho. O primo encarou-o, estupefato.
"Você está mesmo uma cópia do Shigure hoje. Desde quando carrega saquê no bolso, Ayame?"
"Ora! É regra que um príncipe deve sempre ter consigo sua adega particular!"
"Você acabou de inventar isso." O Dragão disse, sem entonação, enquanto concluía que o primo devia ter roubado a bebida no meio tempo em que o deixara esperando no salão.
Aaya deu um gole e estendeu a garrafa.
"Deixa de ser chato, Tori! Não é qualquer pessoa que é abençoada com o privilégio de beber em minha companhia, Hohoho!"
Mesmo do alto de toda sua mentalidade racional, Hatori não conseguia encontrar um argumento para recusar. Algo dentro dele pedia por aquilo. Aquela anestesia... Aquilo que espantaria sua tensão... Aquilo que o faria esquecer, ou, pelo menos, lhe entorpeceria os sentidos por alguns minutos de alívio.
Sentaram-se lado a lado, sem dizer mais nada. Apenas passavam a garrafa um para o outro, dando generosos goles.
Estranho. Aquele silêncio... Eram seus pensamentos ficando confusos ou começava a se sentir melhor? Como se estivesse de volta àquela época em que apenas sentar-se com Shigure e Ayame e observar a neve caindo era divertido...
Exceto é claro que antes, teria sido interrompido pelos dois amigos falando alguma besteira qualquer. Agora, Ayame estava tão calado quanto o próprio Hatori.
Estranho.
Virou-se para a Serpente mais uma vez, procurando seus olhos dourados. Foi quando entendeu.
"Ayame... Por que isso?"
"Isso o quê?"
"Isso!" Não tinha como explicar melhor; sabia que a bebida enrolaria suas palavras, caso tentasse. Não estava muito acostumado a beber.
"Eu quis vir para fora, Tori-san! Lá dentro estava chato!"
"Você me viu com a Kana não, viu?"
"Tori-san!"
Hatori fez questão de olhá-lo nos olhos. Desde crianças, Ayame nunca fora capaz de mentir para ele. Pelo menos, não por muito tempo ou por muito menos tempo que para as outras pessoas.
"Eu continuo com a minha opinião, Tori. Se você não quer tentar ter a Kana de volta, tinha que se convencer disso. Se você acha que acabou tinha que aceitar esse fato. No fundo, você ainda não aceitou. E acaba deixando de ser feliz. E o Tori san merece ser muito mais feliz que a Kana!"
A pessoa mais teimosa do mundo. Era Ayame.
Mas a Serpente acreditava em cada uma daquelas palavras. Hatori tinha certeza disso. E sorriu de um jeito muito mais efusivo do que normalmente teria sorrido; mas não culpava a bebida por isso.
"Você estava muito melhor sem falar nisso, Tori! Ou vai me dizer que estava o tempo todo pensando nisso?"
Era verdade que, por um tempo, de fato esquecera. Esquecera de se forçar a pensar nela o tempo todo. Esquecera de se prender às próprias lembranças frias... Ao seu inverno.
Sentou-se mais próximo a Ayame e o envolveu em seus braços. Afundou os dedos nos cabelos prateados e sussurrou um 'obrigado' em seu ouvido.
Podia continuar confuso... Talvez no fundo, não conseguisse esquecer por completo aquela tristeza, mas tinha aquele sentimento cálido de gratidão. Por descobrir que não estava sozinho.
Que a primavera não chegava apenas uma vez.
xXxXx
N/A: Se tem capítulos nesse fic que eu admito que não soube fazer direito, tem outros que são meus xodós e esse é o primeiro da lista. Não sei o que vocês vão achar, mas eu adoro pq adoro a idéia de Hatori e Ayame juntos, como casal ou não porque o Aaya é um dos poucos que consegue alegrar o Tori e o Dragão é o único que consegue controlar um pouco o Ayame.
O próximo cap é outro que eu também gosto, o do Momiji.
Ling e Freya valeu por comentarem!
Lyra
