Disclaimer (inútil): todo mundo já sabe que Furuba nao é meu e que meus advogados tao trabalhando pra mudar isso.

AVISO: ESSE CAP TEM SPOILERS SOBRE AKITO A PARTIR DO CAP90 DO MANGÁ! SÓ LEIAM SE CONHECEREM A HISTÓRIA. (depois não digam que eu não avisei XD)

So It Is

And so it is

É isso aí

Just like you said it would be

Como você disse que seria

Life goes easy on me

A vida pega leva comigo

Most of the time

Na maioria das vezes

And so it is

E é isso aí

The shorter story

A história mais curta

No love, no glory

Sem amor, sem glória

No hero in her sky

Sem herói no céu dela

I can't take my eyes out of you

Eu não posso tirar os olhos de você

"The blower's daughter" – Damien Rice

Os olhos castanhos percorriam o salão de ponta a ponta, observando o movimento. A música, os sons de risos e conversas invadiam lentamente seus ouvidos. Era de certa forma agradável ver um pouco de cor e animação naquela casa, mas Kureno não conseguia se sentir envolvido a ponto de gostar.

Em verdade, há muito já não era mais parte daquilo.

Sequer sabia o que era agora. Não era mais um juunishi, da mesma forma que jamais deixaria de ser um Sohma para se tornar uma pessoa comum. Escolhera permanecer naquele meio termo.

Era lógico que muitas pessoas jamais entendessem o porquê dele ter se decidido por aquele caminho. Às vezes, ele mesmo se sentia incerto quanto à razão.

Até que encarasse outra vez aqueles grandes olhos negros e suas convicções retornassem. Não entendia como tantos podiam temer o olhar de Akito ou enxergar frieza ali, quando só o que ele via era uma garotinha em dúvida.

Por ela, decidira ficar.

Não que a amasse, longe disso. Ou talvez não tão longe. Talvez pena que tivesse crescido em afeição, com o passar do tempo. Mas nada que chegasse perto do lascivo.

Sem amor, sem glória, sem desejo. Só conformação. Não era como ele ou ela queriam, mas era assim. A vida fazia seus próprios rumos.

Arriscou um olhar para o lado, encontrando a figura enfastiada e exausta de Akito. Por que ela continuava a realizar aquelas festas todo ano, quando se sentia tão incomodada por elas, Kureno nunca ia entender.

Mas sabia que estava longe de poder questionar os motivos de outros quando ninguém compreendia os seus.

Não podia dizer que estava totalmente convencido de ter tomado a decisão certa quando se sentia tão solitário e distante. Quando tudo lhe parecia tão inalcançável. Se antes fora um pássaro de gaiola, agora tinha as asas cortadas.

Sem saber por que, lembrou-se de Arisa. Uma lembrança solta de um dia trivial. Um momento breve de liberdade. Desejava tantas coisas, em sua maioria, comuns. Ir e vir quando quisesse; não ser obrigado a se manter distante das outras pessoas; poder amar, ter uma vida.

Olhou outra vez para Akito.

Ela não o queria. E mesmo assim agia como se precisasse tão desesperadamente dele ao seu lado... Para ela devia ser importante que todos os seus juunishi se mantivessem por perto.

E ele devia ser o único a se importar com isso. A sentir culpa por ter se libertado. Sabia que qualquer outro amaldiçoado que se visse livre sairia pela porta da Mansão Sohma sem pensar duas vezes.

Ele, fosse por gentileza ou culpa, se recusava a abandoná-la enquanto ela lhe pedisse para ficar.

Akito agia como uma criança mimada e insegura. Demoraria a perceber a quem, de fato, desejava. Mas, para o Galo e qualquer um que não tivesse medo de encarar os olhos negros e observar onde estavam fixos, era óbvio.

A figura esguia e indecifrável do Cão.

A alguns metros dali, Shigure sorria, conversava, brincava, naquele jeito jovial de ser. E Akito não perdia um movimento.

Alguém como a Patriarca do Clã Sohma... Seria capaz de entender o que se passava por trás da máscara de Shigure? Kureno não saberia dizer, mas tinha certeza de que ela estava tentando ao máximo.

Observando Shigure e Akito de perto, era um pouco mais fácil entender porque o amor entre os juunishi parecia errado e difícil. Ela o desejava e ele a ela. O que mais havia no caminho?

Muita coisa, na verdade.

O próprio Galo havia, sem querer, se tornado parte daquele jogo vicioso dos dois.

Por tentar jogar com um sentimento como aquele ambos acabavam por perder de vista o mais importante.

Por que colocar obstáculos em algo que devia ser simples?

"Kureno, eu quero ficar sozinha agora." A voz veio fraca; inexpressiva como os olhos negros.

"Quer mesmo que eu vá?" perguntou, sendo ele próprio o incerto.

"Quero." uma expressão carregada era ostentada pelos olhos escuros, enquanto confirmava; soberana.

Mesmo que não tivesse mais a obrigação de obedecer, Kureno cumpria como ordem qualquer vontade de Akito. Como se ele ainda fosse o Pássaro e ela, Deus. Porque sabia que aquele mundinho à parte era tudo para ela.

Levantou-se devagar dirigindo à patriarca uma última mesura, acompanhada de um sorriso, antes de sair.

Do canto recluso, onde estivera com Akito, pudera observar a movimentação barulhenta da festa. Mas daí a ver-se de repente no meio daquilo, havia uma diferença gritante. E o Galo sem nunca poder tomar parte: desde o dia em que se vira livre, Akito lhe proibira de falar com os outros amaldiçoados, temendo que também 'lhe deixassem'.

Não podia negar que, no entanto, era um alívio ver-se livre também da pressão de interagir ali, da obrigação de ter que tomar atitudes ensaiadas. Acostumara-se a apenas assistir sua própria vida. E era isso que lhe permitia apreciar, pelo menos um pouco, sua posição de mero observador.

Apreciar... Parcialmente. Outra parte dele sempre desejaria agir.

"... Sempre..." pensou, enquanto andava.

Encostou o corpo contra a parede, ao lado de uma imensa janela. O vento, que vinha dos jardins, era frio, mas Kureno gostava. Permaneceu parado enquanto os olhos corriam de um lado a outro, até que se detiveram sobre a conhecida figura esguia, no centro do salão.

Se a maioria dos juunishi via em Akito uma pessoa fria e inexplicável, Kureno tinha essa mesma imagem de Shigure.

Percebendo-se observado, o juunishi do Cão lhe devolvia um olhar irônico cheio de um indisfarçável rancor. Não que o Cachorro algum dia tivesse tentado dissimular o que sentia em relação ao primo.

Kureno não tinha como dizer que não se sentia desconfortável diante da hostilidade do outro. Quando criança, admirara demais Shigure e parte daquele sentimento perdurara até então. Jamais se acostumaria a encarar todo aquele ódio motivado por uma escolha que o Galo nem sequer tivera.

Akito. Tudo sempre seria sobre ela.

O que saíra errado? Ele pensou, desviando os orbes castanhos para longe dos incômodos olhos do primo. Mirou a janela e seu olhar perdeu-se na neve.

Ao longe, um último pássaro remanescente no inverno alçava vôo, provavelmente fugindo para um lugar mais quente; algum lugar melhor...

Por que era ele quem ficava quando só o que desejava era ir também? Cada vez mais alto, cada vez mais longe...

Por que Shigure se mantinha distante quando queria ficar?

A vida era branda, as pessoas a faziam difícil. Apenas as pessoas e sua capacidade natural de manter tudo de ponta cabeça.

Perguntou-se se as coisas voltariam ao seu lugar certo um dia; enquanto seus olhos continuavam fixos acompanhando o vôo do pássaro, como se ele próprio estivesse indo junto, sentindo o vento sob suas asas...

... Cada vez mais alto, cada vez mais longe...

xXxXx

N/A: Eu percebi que ninguém gostou muito do cap passado, do Yuki... Mas pelo menos todo mundo reconheceu meu esforço em escrever com um personagem que eu nao gosto. lol valeu, gente!

Esse capítulo agora, aliás, é bem parecido com o anterior, uma vez que não tem uma história como os outros; é mais focado em reflexões... Mas, na minha opinião, as reflexões do Kureno foram mais bem feitas que as do Yuki, por focar em alguma coisa além dele mesmo (no Shigure, na Akito etc) por ter a metáfora do pássaro, por várias coisas eu acabo gostando muito mais desse cap que do anterior, apesar de eles terem o mesmo estilo.

Não sei se alguém vai concordar comigo, mas eu quis registrar a minha opinião, anyway. O próximo cap eu posto semana que vem e é... Kyo/Tohru! (um dos meus preferidos lol)

Lyra