Corações Transformados
-oOo-
Capítulo anterior - No capítulo anterior, Hyoga observa o comportamento do cavaleiro de Andrômeda para consigo e fica mais confuso com o que está sentido. Porém, ao contrário do que o russo imagina, os pensamentos de Shun estão voltados para o encontro que terá com uma outra pessoa na tarde seguinte.
... ainda precisava observar melhor o amigo, mas era visível o quanto à presença do outro lhe fazia bem. Sorriu ao perceber isso.
Infelizmente o russo não podia ler os pensamentos do Virginiano, ou teria sido bem mais cauteloso ao se entregar a esses devaneios.
-oOo-
Corações Transformados - Capítulo III - A Certeza
Tema: Coração Envenenado
(Envenenado (cf. Aurélio) – aquele ou aquilo que está sob efeito de substância danosa que altera ou destrói as funções vitais)
Aquela manhã de domingo parecia perfeita. O astro rei derramava seus raios dourados sobre as janelas da Fundação enquanto pássaros madrugadores brindavam os dorminhocos com belos cantos.
O garoto acordou e olhou sonolento no relógio ao seu lado. Ainda era muito cedo. Fechou novamente os olhos e seus pensamentos se perderam por campos floridos, com borboletas e pássaros cantando. Uma garota loira estava de costas. Virou-se. Estava novamente sem máscara... e era linda !
O relógio despertou às oito horas em ponto. Era incrível como o tempo passava depressa quando pensava nela. Desde a hora em que olhara no relógio se passara quase uma hora e meia. Pareceram apenas segundos...
O jovem de belos olhos verdes desligou o despertador e espreguiçou gostosamente. Levantou-se e foi até a suíte lavar seu rosto.
- É hoje meu amigo. - disse para a imagem refletida no espelho - É hoje o grande dia.
Andrômeda estava muito bem humorado naquela manhã de domingo. Desceu, muito sorridente, para tomar café com os amigos.
- Hoje o dia parece estar perfeito, hein Shun ? - Seiya perguntou ao vê-lo tão alegre.
- Completamente.
- A gente vai jogar vôlei na praia hoje à tarde, você vem ? - Hyoga perguntou.
- Vamos Shun. Eu estou com o Hyoga e está faltando alguém para fazer dupla com o Seiya.
- Desculpe Shiryu. Tenho outras coisas para fazer, quem sabe na próxima.
- Bem, podemos jogar novamente na quarta, no final da tarde. O que você acha ? - o Dragão questionou.
- Ou podemos marcar para o próximo final de semana também, assim... - o russo começou a falar, mas foi interrompido por Shun.
- Tudo bem. Quarta está legal, Shiryu.
O cavaleiro de Cisne olhou para o garoto de cabelos esverdeados e baixou o olhar tristemente. Percebeu que o Virginiano não lhe respondera por duas vezes. Era óbvio que o amigo o estava evitando. Talvez fosse pela forma com que o loiro o tratara em seu quarto ou ainda por ter tocado seu rosto na noite passada.
O russo teve receio de lhe dirigir a palavra novamente. Não queria descobrir que a atenção que o amigo lhe dedicava era apenas uma miragem imaginada por sua mente.
"Talvez eu esteja me martirizando a toa e na verdade o Shun está apenas distraído." pensou.
De qualquer forma Hyoga preferiu ficar calado.
- Bom dia. - Ikki entrou na cozinha cumprimentando a todos.
- Bom dia. - responderam.
- Ikki, o que você vai fazer hoje à tarde ? - Seiya perguntou.
- Por quê ?
- Você está a fim de jogar...
O russo não ouvia mais o que o garoto falava. Olhou para os outros que conversavam. Não lhe interessava a conversa. Fitou novamente o cavaleiro de Andrômeda que comia despreocupadamente.
- Shun ?
- Oi Hyoga. - respondeu rapidamente e voltou a se concentrar em passar geléia no pão.
- Você que ir ao cinema hoje à noite ?
- De novo ? - respondeu e depois olhou para o amigo - A gente já não foi ontem ?
- É... foi. - replicou um pouco sem graça.
Andrômeda foi chamado por Seiya e os dois começaram a contar animadamente para Ikki o filme assistido na noite anterior.
Realmente parecia que o garoto não estava nem um pouco interessado em conversar com o russo. O Aquariano novamente baixou o olhar.
- Está tudo bem , Hyoga ? - Shiryu perguntou.
- Claro.
- Você me parece meio chateado.
- Não é nada Shiryu. Apenas não dormi muito bem. Estou preocupado com a prova de terça-feira.
Claro que não era verdade, mas o amigo pareceu se convencer. Hyoga podia até fingir para eles, mas não podia fingir para si. Sabia muito bem qual era o seu problema.
Seus sentimentos estavam confusos. Não tinha certeza sobre o que sentia. Será que era mais uma alteração da adolescência ? Talvez... Talvez fosse apenas isso e em breve isso se resolveria, como as mudanças que ocorriam em seu corpo conforme se tornava um homem.
Um homem. Tornava-se um homem, não ? Olhou novamente para o garoto. Eram dois homens. Se insistisse nesta situação, o russo estaria entrando em um terreno muito perigoso. Desviou o olhar para Ikki. Ele provavelmente o mataria se fosse verdade.
"O que é a verdade, senão a forma pela qual você encara a vida ?" ouvira certa vez. Talvez fosse isso. O que era verdade para uns, poderia não ser para outros. Poderia ser apenas uma questão de ponto de vista.
Será que era isso ? Não estava "verdadeiramente" apaixonado, mas apenas "achava que estava ?" Suspirou aliviado. Apesar do bem-estar que o outro lhe causava, não sabia se estava preparado para viver esta situação.
Isso mesmo. Provavelmente era um devaneio de seu coração e este constante apego ao amigo era uma forma de ter o carinho e a atenção que há tanto suplicava. Simples assim. Provavelmente não gostava do cavaleiro de Andrômeda. Provavelmente o sentimento era uma manifestação de agradecimento pelo tempo que o outro dedicava a si.
Claro. Só podia ser isso. Não estava apaixonado pelo amigo. Isso era uma mentira. A única verdade é que sua emoção estava em desacordo com sua razão, fazendo-o acreditar em algo que apesar de lhe fazer bem, não era verdadeiro. Como uma miragem no deserto.
O loiro sorriu. Sim. Agora que compreendia isso tudo, estava livre. Por que não tinha pensado nisto antes ? Era APENAS uma miragem. Não estava apaixonado. Era tudo uma armação do seu coração. Não gostava do Shun e como observara pelo comportamento do outro há pouco, Shun também não gostava dele.
- É só uma miragem. - seus pensamentos se externaram e acabou falando um pouco alto, chamando a atenção.
Todos ficaram olhando para o Aquariano.
- O que você disse ? - Ikki perguntou.
- Nada. É... eu já acabei... com licença.
Saiu da mesa apressado.
- O que deu nele, hein ? - Seiya questionou aos outros.
- Acho que o Hyoga está precisando de mulher. - o cavaleiro de Fênix comentou encostando-se completamente na cadeira. - Já está ficando louco. Está até falando coisas desconexas sozinho. - e riu.
- Ikki ! - Shun repreendeu-o.
- É verdade. Se bem que eu nunca o vi beijando uma menina. Será que ele é viado ? - e riu novamente.
Hyoga subia a escada, mas ouviu perfeitamente o comentário do jovem.
"Isso mesmo. Isso é loucura. Pura insanidade dos meus pensamentos. Eu não gosto dele e nem ele de mim." o russo repetia como um mantra, para que se tornasse realidade.
Entrou no quarto, pegou seu caderno e sentou-se na cama. Tinha alguns exercícios para resolver. Tirou completamente o amigo da cabeça por uma hora. Foi o máximo de tempo que seu coração deixou sua razão dominar.
Na hora do almoço, Hyoga não desceu. Estava em um grande conflito interno e não queria encontrar com nenhum dos irmãos.
Shun estava atrasado em sua lição, então logo depois do almoço, retornou ao seu quarto para terminá-la.
Passava das duas horas quando o russo desceu. Não fez nenhum barulho e entrou despercebido na cozinha. Mal comeu e retornou ao seu quarto.
O que estava acontecendo ? Por que se sentia deste jeito ? Será que era realmente errado ter um sentimento tão bom crescendo dentro de si ?
A última vez que se sentira tão bem ao lado de outra pessoa fora ao lado da mãe. Será que era isso que um homem procurava em uma mulher ? Uma substituta para a mãe ? Se fosse assim, como explicar que estava substituindo a mãe por um homem ?
"CHEGA !" gritou mentalmente. "Esqueça tudo isso antes que você enlouqueça. Ele NÃO gosta de você. ELE NÃO GOSTA DE VOCÊ. NÃO GOSTA".
Voltou a se concentrar nos exercícios.
Shun olhou no relógio. Precisava se arrumar. Vestiu-se, perfumou-se e saiu antes dos meninos irem à praia. Enquanto se dirigia à área das amazonas, ficou imaginando e ensaiando várias frases para falar à garota.
Além disso tudo, várias dúvidas povoavam a cabeça do garoto. Será que June realmente gostava dele ? Será que isso que sentia pela menina era paixão ? Será que saindo juntos não estragariam a amizade ?
Estava perdido em seus pensamentos e quando deu por si, já estava próximo à área reservada às amazonas. Procurou por algum tempo a menina com os olhos, mas não a encontrou. Olhou no relógio. Já passava da hora que haviam combinado. Será que a garota esquecera ?
Quando estava quase achando que a menina não apareceria, Ela surgiu. Quando o viu veio correndo. Shun sorriu, mas logo seu sorriso se desfez ao perceber que ainda vestia roupa de treino.
"Provavelmente esqueceu nosso encontro. Não devia ser TÃO importante assim" refletiu tristemente.
A garota abraçou o amigo assim que chegou.
- Oi June, tudo bem ?
- Não. - sua voz demonstrava tristeza.
- O que houve ?
- Duas amazonas foram flagradas ontem à noite saindo escondidas e sem máscaras. Fomos todas punidas em sessenta dias de reclusão.
- SESSENTA DIAS ?
- E se me pegarem falando com você, é capaz de darem mais trinta. Não poderemos ir ao cinema hoje.
- Então você não esqueceu ? - perguntou com um leve sorriso.
- Jamais esqueceria. – falou e pegou na mão do menino - Se não fosse esta proibição ridícula de sessenta dias...
Andrômeda pensou na quantidade de dias e suspirou desanimado.
- Apesar de querer, não posso ficar muito tempo conversando com você, Shun.
- Entendo.
- Mas eu queria tanto ir. Por favor me diga que depois que passar os sessenta dias você vai me convidar novamente ? - perguntou temerosa.
- Estarei aqui no sexagésimo primeiro dia.
- Que bom Shun. Vou contar as horas.
O menino levou a mão da garota até seus lábios e deu um beijo suave.
- E eu os minutos.
Os dois ouviram um barulho próximo a eles.
- Tchau. Preciso ir. Até daqui a sessenta dias. - e saiu correndo para a área restrita.
- Até. - o menino respondeu baixinho.
Shun voltou para casa com um misto de esperança e desilusão. Depois de sua conversa com a menina, sentia-se renovado. Pena que seriam tantos dias a esperar
"Vou contar as horas". Sua mente repetia infinitas vezes o que a garota dissera. Sim, ela tinha interesse. Riu sozinho ao se lembrar que tinha dito "E eu os minutos". Pelo jeito estava mesmo apaixonado.
- Ah, o amor ! Como é bom ! - falou para si mesmo.
Apesar desta alegria de observar a receptividade da menina, o tempo de espera o matava aos poucos. Achou melhor não ir até a praia jogar com os amigos. Não estava com clima para conversar com ninguém.
Quando os garotos chegaram à noite, Andrômeda estava na sala assistindo TV.
- Oi. Como foi o jogo ?
- Foi maravilhoso, Shun, o Ikki jogou comigo e eu peguei uma bola...
A simples visão do garoto de olhos verdes atrapalhou a concentração do loiro e ele nem ouvia mais o que Seiya falava. Percebeu que o amigo estava um pouco chateado. Ainda achava que era por sua culpa. Talvez até por este motivo o Virginiano não teria ido à praia jogar vôlei com eles.
Resolveu fazer alguma coisa para acabar com este mal entendido.
Já era um pouco tarde quando Andrômeda ouviu duas batidas na porta do seu quarto. Estava apenas deitado na cama. Já havia terminando a lição e apenas ouvia música.
- PODE ENTRAR ! - gritou para o visitante.
O russo abriu a porta.
- Oi Hyoga. Algum problema ? - perguntou se sentando e abaixando o volume.
- É... bem...
"Que droga Hyoga ! Se porte como um homem ! Pare de gaguejar" - se recriminou mentalmente.
- Podemos conversar ?
- Claro. Feche a porta e sente-se aqui. - falou indicando a cama.
O loiro fechou a porta, aproximou-se do amigo e sentou-se. Shun ouvia atentamente, mas o outro não falava nada.
- Está tudo bem com você, Hyoga ?
- É... Na verdade eu... queria saber se está tudo bem com você.
- Comigo ? - perguntou um tanto assustado.
Ainda não estava preparado para falar da amazona.
- É. Com relação a mim. - falou diretamente.
Shun ficou aliviado pelo complemento da pergunta.
- Hyoga, explica melhor que não estou entendendo nada. - e sorriu encantadoramente.
Cisne desviou o olhar da boca do amigo. "Pelos céus, isso não é normal. Eu deveria ter este tipo de reação por uma menina".
- Hyoga ? - perguntou tocando sua mão.
As sensações que se passaram pelo corpo do loiro foram extremas. Um onda de calor tomou seu corpo e ao mesmo tempo sentia arrepios. Olhou novamente para o amigo. Os belos olhos verdes o fitavam e um leve sorriso nos lábios parecia chamar o loiro para um beijo.
O Aquariano fechou os olhos e respirou profundamente, tentando se controlar.
- Hyoga ? Está tudo bem com você ? - Shun perguntou preocupado.
"Você está fazendo papel de idiota" recriminou-se novamente.
- Está. É... - olhou para o outro, que o escutava atento - Você está bravo comigo ? - perguntou afinal.
- Bravo ? Por que estaria bravo ?
- Não sei. Você não respondeu nenhuma das minhas perguntas o café inteiro.
Shun sorriu.
- Hyoga, eu não estou bravo com você. Desculpe se não respondi às suas perguntas. Acho que estou meio no mundo da lua ultimamente. Não foi proposital.
O russo sorriu. Era a resposta que queria ouvir.
Andrômeda ficou um pouco preocupado. Seus sentimentos para com a menina já estavam atrapalhando o relacionamento com os amigos. Não podia deixar que isso acontecesse. Não queria que o loiro ou qualquer um dos outros achasse que quando começasse a namorar a garota, esqueceria os amigos.
- Tenho uma proposta para você Hyoga.
- O que é ? - perguntou lançando-lhe um belo olhar.
Os olhos azuis do amigo pareciam maiores. Shun sentiu um cheiro gostoso de perfume. O amigo tinha passado perfume. Pela manhã o outro falara de cinema. Será que ia sair ? Talvez fosse tolice o que ia dizer. Sentiu-se infantil, mas sabia que o amigo gostava do que ia propor. Costumavam passar horas juntos fazendo isso. Se o outro fosse sair fariam outro dia.
Hyoga estava em um momento de tensão. Não sabia o que o outro ia falar. Estava com mais medo de sua própria resposta que da proposta do amigo.
- Quer jogar videogame comigo ?
Não era bem o que o russo esperava ouvir, mas era uma boa oportunidade para ficarem juntos.
"Ficarmos juntos ? O que eu estou pensando ?"
Shun viu a cara séria que o outro menino fez e tratou de se corrigir.
- Se você for sair, tudo bem, fica para outro dia.
- NÃO. - o loiro respondeu rapidamente - Eu quero. - e sorriu recebendo outro sorriso como resposta.
Os dois desceram, foram até a sala de TV e prepararam tudo. Hyoga observava atentamente os movimentos do outro. Shun arrumou duas almofadas encostando-as na parede para se apoiarem. Uma para si e outra para o Aquariano. Realmente a atenção que o amigo dedicava ao russo era especial.
- Vou pegar um suco para nós dois, que tal ?
- Ótima idéia.
Outra prova acabava de ser dada. Andrômeda poderia simplesmente ir até a cozinha e beber seu suco lá mesmo. Mas claro que isso também não se pareceria em nada com o Shun que conhecia.
O menino voltou e lhe ofereceu o copo com o líquido. O garoto de olhos azuis pegou o copo da mão do outro e bebeu. Sorriram um para o outro. O belo jovem de cabelos verdes dava ao amigo o que ele mais queria no momento: atenção.
Durante a semana Hyoga percebeu que os amigos não eram tão atenciosos quanto o Virginiano. Era incrível como Shun se preocupava com ele, perguntando como havia sido o dia, como estava se sentindo, o que achava deste ou daquele assunto. Com este tratamento especial, o russo passou a se esforçar mais para corresponder às delicadezas do amigo e os dois começaram a ser vistos com mais freqüência juntos.
O mês seguinte chegou e pela primeira vez desde o falecimento de sua mãe, o Aquariano se sentia feliz naquele início de mês.
Como ele e Shun combinaram de almoçarem juntos, Hyoga foi logo cedo à praia, para fazer orações para sua mãe. Mal o relógio marcara dez horas e o loiro já não agüentava mais a ansiedade para encontrar o amigo.
Andrômeda chegou pouco depois do meio-dia. Cumprimentaram-se e foram comprar o almoço. Um carrinho de cachorro quente foi o restaurante. Enquanto almoçavam conversavam sobre vários assuntos.
Depois de terminarem a refeição, Shun sugeriu um passeio pelo calçadão da praia. Andaram um pouco, mas como o sol estava muito forte, acharam melhor ficar embaixo de alguma árvore até o calor ceder um pouco. Encontraram um banco com sombra e foi ali que acabaram passando a tarde quase toda, conversando e rindo muito. O Aquariano estava adorando a companhia.
- Você precisa sorrir mais, Hyoga, você é muito sério.
- Mas eu sorrio bastante quando estou com você.
- Sinal que só te faço bem. Você devia ficar mais tempo ao meu lado.
O loiro quase parou de respirar.
- Com licença, jovens, - uma senhora interrompeu - onde é o ponto de ônibus ?
- É ali perto daquela árvore torta. - Shun respondeu.
Cisne ainda estava chocado. Como assim "devia ficar mais tempo ao seu lado ?" Que tipo de frase era essa ?
O coração do Aquariano estava tão acelerado que parecia que pularia por sua boca. Hyoga sentiu-se exatamente como há um mês na praia, quando o amigo falou que gostava dele.
- Vamos andar um pouco ? Agora o sol já está mais fraco.
- Claro Shun.
Conversavam sobre tudo e riam muito. O russo ainda remoia em sua mente a frase dita pelo amigo antes de serem interrompidos pela senhora. Apesar disso, nenhum comentário foi feito sobre o assunto.
O tempo passou rapidamente e quando os dois chegaram na Fundação, já havia anoitecido.
- Valeu Shun. Obrigado pela companhia. Precisamos fazer isso mais vezes.
- Podemos fazer sempre que você quiser Hyoga, principalmente nos dias em que você homenageia a sua mãe, para que você não se sinta tão só.
- Isso significa que posso te convidar para o mês que vêm ? – perguntou sorrindo.
- Convite aceito. Vou adorar a companhia.
- SHUN ! - Seiya chamava o garoto.
- Vou subir. - Hyoga explicou ao amigo.
- Tudo bem.
O russo entrou no quarto. Quando colocou a mão no bolso viu que havia ficado com o troco do outro. Foi até o quarto do amigo para devolver, mas Andrômeda não estava lá. Provavelmente estava conversando com Seiya.
Na cozinha, o Virginiano e Pégasus conversavam.
-...mas você sabe que agora com essa proibição só a verei no início do mês.
- Ora Shun, pelo menos ainda há esperança.
- Ai Seiya, como o tempo demora a passar !
Hyoga desceu para entregar o dinheiro do outro. Estava para entrar na cozinha quando começou ouviu a conversa dos dois. Parou onde estava. O local onde ficou não era visível nem para o menino de olhos castanhos nem para Andrômeda.
- ...mas está fechado mesmo não é ? Vocês vão mesmo se encontrar novamente no início do mês que vêm ?
- Sim Seiya. Já está combinado. E estou contando OS SEGUNDO para o próximo encontro.
- Meu amigo está apaixonado !
- Fala baixo. Ninguém pode saber. Já pensou o escândalo que seria ?
- É Shun, é um amor meio perigoso, mas saiba que tem meu apoio.
- Obri...
Ouviram um barulho na porta da frente. Alguém estava chegando.
- Chegou alguém Seiya. Depois conversamos.
O Aquariano saiu rapidamente de onde estava, subiu as escadas e voltou, como se estivesse descendo naquela hora. Ikki abriu a porta da frente.
- Oi Shun, você esqueceu o seu troco comigo.
- Obrigado Hyoga. Oi Ikki.
- Oi galera.
Hyoga respirou fundo quando se viu sozinho. O amigo estava APAIXONADO. Ouviu a conversa. Shun tinha marcado um encontro para o começo do mês que vem. O loiro tinha marcado um encontro com o garoto de olhos verdes para o início do mês que vem. Shun dissera a Seiya que se alguém descobrisse seria um escândalo. Realmente se Hyoga ficasse com o amigo e alguém descobrisse seria um escândalo. Seiya havia dito que era um amor perigoso. De fato era um romance fora do padrão normal e se Ikki soubesse de alguma coisa, mataria os dois. Pégasus apoiava...
Sorriu. Andrômeda estava apaixonado. Apaixonado. APAIXONADO. As evidências não mentiam. Estava claro. Só podia estar estava apaixonado por... SI ! O loiro não se agüentava de felicidade. Mal podia esperar para se encontrarem no início do mês. Agora podia parar de atormentar seu coração e se entregar à paixão. Shun TAMBÉM estava apaixonado. Shun TAMBÉM gostava dele. Não precisava mais ter medo de não ser correspondido.
Durante o mês Cisne continuou a observar o comportamento do Virginiano. O menino era cada vez mais gentil e convidava o russo constantemente para jogarem videogame, ocasião em que ficavam a sós e conversavam bastante, se conhecendo melhor. Como os dois eram tímidos, Hyoga achou melhor não forçar a barra e esperar para o encontro do próximo mês. Especialmente porque estariam fora da Fundação e seria menos perigoso.
Aquela noite, como de costume Shun convidou-o para jogar e os dois estavam sozinhos na sala. Encostavam-se na parede, apoiados por uma almofada e sentavam-se lado a lado. Lá fora, parecia que o mundo ia acabar. Trovões e raios cortavam o céu e uma grande tempestade se formava. O vento assobiava pela janela.
Com uma possibilidade de instabilidade de energia, acharam melhor desligar o videogame. Ficaram no mesmo lugar apenas conversando.
- Engraçado - Hyoga começou - com estes trovões, acabei me lembrando da primeira vez que passei por uma tempestade como interno da Fundação. Eu dormia no mesmo quarto que o Jabu. Eu tinha TANTO medo de trovões que pedi para o Jabu deixar eu dormir com ele. Ele não deixou, mas disse que eu podia segurar sua mão. Eu passei a noite dormindo sentado no chão, ao lado da cama, segurando a mão dele. Na verdade - explicou ao amigo - eu só queria alguém para dividir o medo.
Shun sorriu concordando. O Aquariano deu uma pausa antes de continuar.
- Na manhã seguinte o Jabu estava com dor no braço porque dormiu de mal jeito já que eu não soltei a mão dele. O Tatsumi interrogou-o e ele contou o motivo da dor.
Hyoga ficou sério e visivelmente triste.
- Na próxima tempestade que teve – continuou - o Tatsumi me amarrou lá fora, embaixo de uma árvore. Ele falou que eu precisava perder o medo. Eu tinha quase seis anos na época. Talvez ainda fosse muito pequeno. Acabei fazendo xixi na roupa de tanto medo. É claro que o Tatsumi percebeu e me bateu. E ele ainda fez comigo o que algumas pessoas fazem quando o cachorro faz caquinha no lugar errado. Ele enfiou a minha cara na roupa suja e disse que eu era uma vergonha. Só parou de me bater quando eu parei de chorar. Aí ele passou a mão no meu cabelo e disse que eu estava virando homem.
Andrômeda estava horrorizado. O loiro sorriu tristemente, com os olhos marejados pelas más lembranças de sua infância.
- Acho que o Tatsumi tinha um modo muito estranho de fazer você virar homem. – virou-se para o amigo – Ainda bem que você tinha o Ikki, não é ?
Shun se entristeceu. O loiro sofrera muito quando pequeno. A mão do cavaleiro de Andrômeda escorregou pelo tapete e segurou a mão do russo.
- Eu sinto muito.
- Tudo bem. Acho que todos passamos alguns momentos ruins quando crianças.
- Você ainda tem medo de trovão ?
- Foi em uma tempestade que a minha mãe morreu - apertou a mão do outro com mais força - não tenho mais medo, mas ainda me afeta bastante.
- Sua mãe te amava muito, não é ?
Concordou com a cabeça. A vida de mãe solteira não tinha sido fácil, mas a jovem sempre animou o filho a ter esperança e não se deixar abater pela rejeição do mundo.
- Eu sinto tanta saudade. - falou e uma lágrima correu por sua face.
Shun colocou uma almofada sobre a perna e puxou o amigo para deitar em seu colo. Secou a lágrima do garoto e começou a passar os dedos pelos cabelos do amigo para consolá-lo.
- Não fica assim. Eu não gosto de te ver triste.
O Aquariano sentiu o coração esquentar. Primeiramente Shun pegara mão, agora acariciava seus cabelos e enxugava suas lágrimas. Além disso ainda dizia que não o queria triste. Sim. Era exatamente isso que queria. Era com Andrômeda que gostaria de dividir seus problemas. Era com Andrômeda que queria dividir suas felicidades. Que viessem os espinhos do mundo. Que fosse um amor perigoso. Que Ikki não gostasse. Nada importava. Tinha certeza que o sentimento que sentiam um pelo outro lhes daria força.
A princípio Hyoga sentia a mão do amigo na sua face, mas os suaves movimentos aos poucos foram levando-o para os braços de Morfeu. Mal o loiro adormeceu, Shun acompanhou o amigo ao reino dos sonhos.
- Hyoga ? - Miho chamou.
- Ah ?
- Acorda, vá dormir na sua cama. Já é quase meia-noite.
- Tá.
- Shun ? - a menina chamou o outro.
Os dois foram conduzidos pela menina até seus quartos.
Naquela noite, Hyoga sonhou que passeava com Shun de mãos dadas. Agora não havia mais sentimento de culpa. O loiro aceitara a flecha que o deus do amor atirara em seu coração. Estava perdidamente apaixonado e não tinha volta.
Sua razão não tinha mais controle sobre si. Ela até poderia até tentar assumir o controle, mas seria uma luta perdida. Sua mente já era consumida aos poucos com doses do mortal veneno da paixão.
Agora não adiantava mais procurar antídoto. O coração do jovem Aquariano já estava completamente envenenado.
-oOo-
Próximo capítulo - No próximo capítulo, pouco antes do encontro dos dois, Shun revela uma expectativa que tira o sono de Hyoga. Uma ajuda externa auxilia o Aquariano para que o esperado momento seja mais tranqüilo.
-oOo-
Nota da Autora – explicação
Pessoal, desculpem pela demora do capítulo. Ele só não saiu antes pois eu mudei a história completamente por quatro vezes além de mudar o final mais duas. Mas prometo que o próximo capítulo sai ainda este mês.
Nota da autora – Agradecimentos.
Obrigada a todos que estão acompanhando a fic. Em especial, às meninas que escreveram para comentar do casal.
Cardosinha – Sugere uma temporada de férias no mar de gelo do Inferno de Hades para qualquer um que atrapalhe o relacionamento do casal Loirinho e Lindinho.
(B. Patty – Bem, como eu te disse, ainda terão muitos percalços pela frente. Sobre a June nem vou falar. Mas vc viu que eu não deixei ela ficar com o Shun desta vez ? Pelo menos não sou TÃO má assim. rsrsrs)
Ilia-Chan – Gostou de ver que os meninos de bronze são intensos em seus pensamentos, mas como os pensamentos podem ser deturpados, podem gerar muito sofrimento. Também não gosta de um melodrama exagerado.
(B. Patty – Espero não estar exagerando muito no melodrama. Acho que já deu para perceber para onde as coisas estão caminhando, não ? Exato. Sofrimento à vista. T.T)
Anna Chan – Defendeu o relacionamento dos dois lindinhos com unhas e dentes. Defendeu principalmente o Shun, seja dos pensamentos pela June ou de qualquer comentário de alguém sobre sua personalidade.
(B. Patty – Puxa Ana ! Isso é que é defensora ! Espero que vc tenha gostado desta pequena mudança de 60 dias nos planos da June. Também espero não ter desvirtuado muito as características do Shun, mas que eu acho que este gatinho deve virar um leão se ficar muito irritado (o que raramente acontece) isso deve. Haja visto o que aconteceu com o Afrodite na batalha das 12 casas ! Que medo ! .)
Anjo Setsuna – Continua acompanhando a fic e apesar do ciúme pelo Hyoga, já estava ansiosa pela continuação. Até ameaçou mandar o Scorpio me fazer uma visita caso este capítulo não saísse este mês.
(B. Patty – Aqui está. Pode falar que ele não precisa me visitar não. E se vc estava com ciúme... xi !... se prepare para os próximos capítulos... rsrsrs)
Teffy – Perguntou sobre o novo capítulo.
(B. Patty – Finalmente saiu do forno. Espero que goste. Bjux)
Jenny – Aguarda a continuação e espera que a aguada da June não estrague tudo.
(B. Patty – Oi Jenny. Obrigada por deixar uma review. Bem, a continuação está aqui e espero que vc desculpe a demora. Sobre a June, essa loira ainda vai aprontar muitas... aguarde...)
Kitsune Lina – Que não vê a hora dos dois ficarem juntos e estranhou isso não ter acontecido ainda pois até perguntou se era uma fic Hyoga & Shun.
(B. Patty – Oi Kitsune. Sim. É uma fic Hyoga & Shun (por mais louca, separatista e insana que pareça - rsrsrsrs), mas como eu te disse é a minha primeira e ainda estou aquecendo. Como eu prometi, neste cap eles se aproximaram mais.)
Nota da autora – Contato
Façam uma iniciante feliz e me deixem uma review neste site ou me contatem no erika(ponto)patty(arroba)gmail(ponto)com. Aguardo sugestões, críticas e comentários. Brigadinha e beijão.
- Junho / 2005 –
i--o
