Depois de mais um dia estafante de aulas, Severus Snape, estava se preparando para encerrar suas atividades. Cansado, recostou-se à cadeira e admirou a pilha de pergaminhos corrigidos. "Um grande monte de besteiras!" – ele jogou a pena por sobre os pergaminhos e observou a sala sentindo uma pontada de nostalgia invadir-lhe.
Por mais que odiasse admitir, ele sentia falta de ver um pouco de entusiasmo e dedicação em seus alunos. Tinha plena consciência que não estimulava nenhum acesso de interesse. Pelo contrario... Muitas vezes, repelia e insultava os alunos em suas débeis tentativas... Mas ainda assim alguns tomavam seu comportamento agressivo como estimulo e desafio para prosseguir e se destacavam. "Como ela!"
Ele fechou os olhos... A irritação subindo a sua mente... Forçando o maxilar a se contrair em desaprovação ao pensamento que escapou ao controle. Estava ficando velho... Já não tinha assim tanto controle sobre si, e para completar sua mente continuava a divagar.
Apesar de não confessar a ninguém, muito menos a si mesmo, ele sentia falta de um pouco de "trabalho" para variar. Já se passaram vários anos desde a queda do Lorde das Trevas e ele admitia que as coisas ficaram um tanto... Monótonas depois disso. Tudo se resumia em aulas, pesquisas, caldeirões derretidos, redações inconsistentes, alunos irritantes e cabeças ocas...
Não haviam mais chamados no meio da noite... Reuniões em locais sombrios e imundos... Adrenalina correndo em suas veias... Festins regados a sangue, tortura e morte...
"Por Salazar o que eu estou pensando? Aqueles dias foram infernais e estou com saudades daquilo tudo? Só posso estar louco!"
O certo era, que lecionar a mesma matéria sem sentir quase nenhum interesse de seus alunos, e pior, ter a certeza de que a maioria não buscaria nada além do ensinado em sala, era, até certo ponto, frustrante. Para não dizer completamente tedioso.
Em seus mais de vinte anos em Hogwarts ele não vira muitos talentos, isso era certo, mas ainda assim alguns destaques surgiam dentre as quatro casas. Já se passaram alguns anos e nenhum pretenso talento aparecera. E este ano não seria diferente. "Decepcionante, frustrante e chato!"
Mas ainda assim ele encontrou algo com o que se divertir... Ele não inibiu o meio sorriso em seus lábios. Atualmente irritar a Srta. Sabe-Tudo se tornara seu passa-tempo preferido. "Pra não dizer o único".
Era interessante vê-la segurar a raiva, conter a explosão que certamente viria todas as vezes que ele lhe dirigia um comentário ácido, e até insolente, sobre suas pesquisas. – Ele não pode deixar de sorrir ao lembrar do quão aborrecida ela ficou quando ele se ofereceu para ajudá-la.
O olhar de puro ódio e fúria que ela lhe desprendeu após o comentário foi tão penetrante, que a última duvida que ele poderia ter sobre ela ser uma Corvinal se dissipou. "Uma leoa de Grifindor... Certamente é uma leoa!"
Ele se divertia vendo-a se esquivar. Ouvir seus pensamentos estava se tornando um hábito, tão constante e automático, quanto respirar, e isso o fez perceber o quão inteligente ela era. Até mais do que ele imaginava. Ele nunca reconheceria isso, claro que não. Nem agora, e principalmente quando aluna. Seu jeito e a necessidade constante de se provar, ser a melhor em tudo... Isso o irritava mais que o fato dela ser amiga do "menino que sobreviveu", ou de ser uma irritante grifinória encrenqueira. Ela queria ser a primeira em tudo, ter sempre as melhores notas, receber toda atenção e elogios dos professores. Definitivamente possuía um ego do tamanho do próprio castelo de Hogwarts.
"Se bem que nos últimos anos ela tem merecido alguns elogios..." – o pensamento surgiu em sua mente tão rápido que ele não conseguiu bloqueá-lo. Franziu a testa e curiosamente, surpreendeu-se concordando com a idéia. Hermione Granger mudara muito nos últimos 10 anos.
A irritante Sabe-Tudo cresceu, isso era óbvio, aprendeu a "controlar" melhor seu gênio e principalmente o ego, que ainda se inflava muito facilmente. "Certos hábitos são difíceis de se perder". Ele mesmo reconhecia o amadurecimento dela. "Uma guerra muda muito as pessoas".
Ele a viu chorar pela perda dos pais... Pela perda de amigos... Presenciou o olhar de puro ódio quando ela matou o homem que assassinou e torturou seus pais, Lúcio Malfoy. Naquele dia ele pôde ver que a menina que conhecera jamais habitaria aquele corpo. Ele viu a última gota de inocência, que existia dentro da jovem de vinte e poucos anos, escorrer junto com o sangue de Lúcio, que espirrara no rosto dela. Junto também com as lágrimas que ela impedia derramar. Mas ele não permitiu que toda aquela inocência fosse perdida... Não poderia permitir algo assim.
Ele a seguiu. Aproximou-se e por um instante, temeu o olhar frio e determinado que ela despejou sobre ele. E talvez, tomado por uma coragem, ou seria carinho, ele a surpreendeu com um compreensivo e afetuoso abraço. Mas ela não o surpreendeu quando caiu em prantos... Que curiosamente lavaram não só a alma dela, mas a sua também. Da dor. Do ódio. Trazendo consigo um pouco da redenção e paz que ele nunca esperou ter.
Pois ali, ela chorou pelos dois... Ali, ela ganhou seu respeito, mesmo que inconsciente. "Droga, o que eu estou pensando? Porque estou desenterrando essa lembrança?" E mesmo sentindo-se mais irritado, ele não evitou lembrar a sensação morta em seu peito. Que exigia crescer, mas ele sempre era forte o suficiente para comprimi-la de volta.
Aborrecido, sacudiu a cabeça e se dirigiu aos seus aposentos. Tudo o que ele precisava era de um bom banho e descanso...
Continua...
