Chame de perseverança.
Capítulo II
Solidão e luta.
O fim da tarde já estava próximo. A floresta proibida parecia desocupada. Apesar disto não ser uma possibilidade, era a sensação que transmitia. Não se ouviam muitos sons. E até mesmo o grande e intenso lago comunicava um desgraçado ar de abandono. Como estariam os sereianos que ali viviam? Provavelmente estivessem ocupados com seus próprios e particulares afazeres, alheios ao mundo dos humanos, como sempre. Vantagem para eles, mas não para Dumbledore, que se sentia tão alheio quanto os próprios sereianos. Para o bruxo o efeito do isolamento não era nada agradável. Sentia como se isso lhe consumisse por dentro. Era terrível. Lá fora, nem tão longe, se passava uma sombria e assustadora guerra. E ele estava ali, impotente, sem ter como ajudar. Sem, nem ao menos, ter como saber como estavam todos. Todos os seus. Todo o mundo bruxo.
Teria se saído bem também Snape? Albus, de uma das torres do castelo, ainda com os olhos perdidos nas terras de Hogwarts, sorriu. Um belo plano. Esperava que agora Severus fosse considerado por Voldemort como digno de muita confiança. Dumbledore jamais deixou de contar com a ajuda de Snape, e sabia que isso seria decisivo na missão de Harry. Albus lembrou-se de seu momento de morte. Lembrou-se de como Snape relutou. O velho senhor não ousou falar sobre a tentativa de renascimento nem mesmo ao próprio Snape, e era compreensivo que fosse difícil para Severus assassinar aquele que tanto lhe ajudou durante momentos difíceis. Snape não poderia imaginar que não seria definitivo. Certo que Albus não contaria assim, levianamente, sobre as hipóteses tão incertas. Tinha suas dúvidas quanto ao sucesso dessa parte do plano, e sabia que seria mais seguro se ninguém contasse com ele. Mesmo se Albus não conseguisse voltar, sabia que tinha deixado tudo em boas mãos. Snape e Harry eram capazes de vencer essa guerra sem ele.
Contudo, Dumbledore sentia que tinha mais para dar. Ainda poderia ajudar o mundo bruxo. Era como se sua missão ainda não tivesse chegado ao fim, apesar de tudo. Não, Albus jamais desejou a imortalidade, entretanto, também nunca desejou a morte. Se pudesse continuar mais um pouco, e ao menos ver o fim dessa guerra assombrosa, e talvez até mesmo ajudar Harry se fosse necessário, gostaria disso. Infelizmente, diante das possibilidades, não teve como driblar a morte. Se a missão de Draco não tivesse sucesso, seja pelas mãos do menino, seja pelas mãos de Severus, o professor de poções não poderia continuar, e Albus se considerava menos importante que o outro, no momento.
Um pio curioso chamou a atenção do ruivo.
- Olá, Fawkes. - disse, sorrindo de modo afável para a ave, que o olhava de perto.
Albus estendeu a mão, acariciando a fênix. De algum modo, Fawkes o compreendia. Vinha lhe chamando a atenção sempre que o via perdido em pensamentos. Ela podia ver solidão e angústia estampadas nos olhos do jovem bruxo. Por vezes Albus pensava que era como se a fênix tentasse lhe dizer algo. Dizer-lhe que cada vida é uma vida. Dizer-lhe que tinha de pensar no futuro ao invés de remoer o que já tinha ido.
- Seja paciente comigo, minha querida. É a primeira vez que renasço. - disse ele em tom baixo, mais como um pensamento alto.
Ela bicou carinhosamente a sua mão, e o rapaz só pode sorrir, sem saber ao certo o que pensar.
Aqueles dias não estavam sendo tão agradáveis. O ócio o fazia se sentir muito mal. Somado a isso vinham sensações que há muito não sentia. Seu coração parecia particularmente impulsivo, instintivo. Tinha vontade de correr, gritar, fazer qualquer coisa que fosse. Mas como aproveitar o tempo de modo discreto? Tinha receio de sair, ser descoberto não era uma possibilidade. Ficar lendo lhe parecia estranhamente maçante. Ele, de fato, não era mais o mesmo. Ele era um jovem, e no fundo, por mais que não deixasse de pensar no lado bom na situação, e estivesse feliz e satisfeito consigo, não conseguia se sentir completamente seguro.
Nos dias que passaram, Albus se esforçou para tirar algum proveito daquele tempo, tentou estudar, se concentrar em algo, desenvolver algo, mas cada tentativa lhe parecia mais complicada e mais tediosa. Tentou por fim lembrar-se de como passava o tempo em sua juventude e estranhamente concluiu que estudar, divertir-se e passar o tempo tinha sido absurdamente mais fácil da primeira vez. E, infelizmente, ele ainda teria alguns dias de adolescência pela frente, antes de poder tomar mais uma dose de poção para envelhecer. Achava que sem os hormônios borbulhando e os instintos indomáveis lhe sussurrando idéias arriscadas, sua situação seria bem mais tranqüila.
"Eu me lembro de ter sido tão mais controlado da outra vez..." pensava seguidas vezes. Sabia ser agora consideravelmente mais experiente e sábio, mas também não tinha como evitar a certeza de que da outra vez não estava só. E isso passou a lhe afetar mais e mais. Não podia deixar de pensar em si como o velho professor de barbas longas, mas a verdade é que já não era. Era apenas um menino agora, privado de companhia humana, trancafiado dentro de um castelo abandonado, sem nem ao menos sua magia. Em nenhum momento pensou que isso pudesse representar alguma dificuldade, mas, tão longe de tudo, e tão alheio à guerra e ao mundo, não conseguia deixar de se preocupar com sua curiosa situação. Muitos sentimentos inesperados lhe invadiram nestes dias de isolamento, e nada podia fazer além de esperar que o tempo passasse.
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Em Londres, depois de mais uma reunião exaustiva na sede da Ordem da Fênix, Minerva voltava para casa. Já era tarde e a bruxa sentia seu corpo fatigado. Fora um dia cansativo. Aliás, eram tempos cansativos. Ataques que sucediam ataques. Duelos, mortes, sofrimento de todo o mundo bruxo. A guerra agora tomava conta de sua mente. Depois do fechamento de Hogwarts - triste situação, porém inevitável - ela passou a se dedicar completamente à OdF, e isso a desgastava profundamente. Entretanto, o que era desgaste demais diante do objetivo maior? Aquela maldita guerra tinha de acabar, e ela, ao lado da Ordem, lutava com todas as forças para que cada um dos planos se concretizasse. Valeria a pena.
Depois de uma fase difícil e sofrida, Minerva acabou fechando os olhos para tudo que vinha lhe machucando e esquecendo-se da falta que fazia Dumbledore. Apesar disso, estava claro que nada era como antes. Mas os sentimentos tão angustiantes e o desespero ficaram guardados no fundo de uma gaveta, esquecidos. E a vida em meio àquela guerra tornou-se absurdamente sombria. A bruxa comprou uma pequena casa em um bairro bruxo londrino, e lá passava a maior parte do tempo que lhe sobrava, entre as reuniões, missões, e confrontos com os comensais. Já tinha adquirido uma ou outra cicatriz, mas nenhuma como a que crescia em sua alma. Era difícil viver aquela nova vida, sombria e dolorosa vida, mas, no fundo, era o único motivo que tinha lhe restado. Lutar por objetivo maior, um bem maior, do qual não estava certa se poderia aproveitar, mas certa de que muitos outros poderiam.
Da janela de sua nova casa, Minerva olhava o céu. Há muito que não parava para fazer algo assim, mas por algum motivo, as estrelas pareciam brilhar mais do que o comum naquela noite, e isso chamou a atenção da mulher. Ela não tinha sono, apesar do adiantado da hora, no entanto, sabia que assim que se deitasse, adormeceria. Seu corpo pedia por descanso. E ela tinha certo receio em ficar ali, perdida nas estrelas; não queria dar chances para que pensamentos ou emoções, quaisquer que fossem, viessem à tona. Fechou a janela, e depois de um banho rápido, deitou-se e adormeceu sem mais demora. Assim que o fez, uma capa de invisibilidade deslizou de umas mãos jovens e um par de olhos tão azuis e tão profundos a olharam com carinho. Ele não se aproximaria, apenas pensou que ver sem ser visto não faria mal.
Continua.
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n/a: alguém me faça feliz deixando um review, por favor.
