Chame de perseverança.

Capítulo IV
Descoberta e revelação.

A fênix piou interrogativa e insistente enquanto o bruxo trocava as vestes por outras mais apresentáveis.

- Faremos uma viagem, minha querida. Sairemos do país. - disse o homem, abotoando a vestimenta azul-pastel - Eu preciso de uma varinha; só conseguirei uma, sem correr o risco de ser reconhecido, na França. Sei de alguém com quem negociar sem responder a muitas perguntas. Quando voltarmos, eu procurarei Minerva. Dessa vez sem a capa de invisibilidade. Falarei com ela, é isso que preciso fazer, Fawkes.

E, sentindo-se satisfeito e confiante com os novos planos traçados, sorriu.

- Já devia tê-lo feito há muito tempo...

Tempo. Dumbledore sempre julgou o tempo o fator mais significativo e interessante de todos os fatores existentes. Quando tinha seus 14 anos, e ainda era um jovem e inexperiente aluno de Hogwarts, não tinha completa noção do que significava o tempo, mas já se sentia fascinado por ele. Foi quando decidiu se tornar um animago fênix. "A Fênix é o animal mais fantástico e maravilhoso que pode haver" pensava Albus "pois tem o poder de se manter através dos tempos, além da morte, além da duração do corpo.". Jamais pôde se esquecer da tarde em que tentou pela primeira vez se transportar a outro lugar em sua forma animal. As cortinas de sua cama incendiaram com as labaredas que o levaram aos jardins de Hogwarts, e quando voltou ao dormitório, os panos do acortinado já se desfaziam em cinzas. Seja como for, aquela primeira tentativa realmente o levou e o trouxe de volta, sem que ele caminhasse, usasse da aparatação ou de uma chave de portal. Ele se transportou como faz uma fênix. Ele era também uma fênix, então. Animago fênix.

Animago fênix que venceu a morte, e que pôde se manter através dos tempos, para viver o que não tinha vivido e acertar o que ainda não tinha acertado. Ele, de fato, não tinha ficado para ver o rumo que a guerra tomaria, ou para garantir a vitória de Harry, a prosperidade do mundo bruxo, ou a reabertura de Hogwarts. Sabia que depois dessa guerra viria outra, sabia que depois de Voldemort viria outro, e depois de todas essas trevas, viriam outras trevas. E depois dele, Harry. E depois de Harry, outro. E o mundo seguiria em diante, e gerações sucederiam gerações. Ele tinha ficado, renascido, para viver o que não viveu da outra vez. Ele desejava uma família, ele desejava dias de alegria e paz. Desejava acordar em uma grande cama de casal, em meio a lençóis brancos, e despertar, com um beijo, sua esposa. Esposa com a qual jamais se casou. Esposa a qual sequer beijou alguma vez. Esposa que ele só olhou de longe, e depois viu nos sonhos, ou nas fantasias mostradas pelo Espelho de Ojesed. O Espelho! Ah, ele sempre sorria quando olhava o Espelho e se via rodeado de netos, netos dele e de Minerva. Sempre sorria e sempre mantinha em segredo a visão. E por quê? Ele sinceramente não queria pensar no porquê, não obstante desejava corrigir isso, tornar real. Sabia agora que era o que lhe faltava. Sabia o porquê de ter ficado, porquê de ter vencido a morte.

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Em Londres os membros da Ordem da Fênix empunhavam as varinhas e marchavam em direção ao grande grupo de Comensais da Morte. O sol já havia se posto, estava escuro. O que se via era uma rua destruída, o cenário de uma guerra, um ar de ruína e de morte. Assim que o primeiro dos duelos se iniciou, todos partiram para o confronto sem mais demora, e só o que pode se ver foram feitiços de todas as cores voando em todas as direções. Minerva atingiu com destreza um dos comensais, chamando a atenção de outros dois para si. Pôde os conter por considerável tempo, mas não por toda uma noite. A bruxa já estava exausta quando a atingiram, lançando-a contra uma parede de pedras. Não houve como se defender das maldições torturantes que seguiram. Cada momento foi pior que o outro. Já fraca e machucada, via-se encurralada em um beco escuro. Sua varinha longe das mãos. Temia por sua própria vida, desejando que alguma ajuda viesse. Não pode fazer muito mais que sofrer junto de sua desesperança e mágoa, junto da dor e ameaça trazida pelos homens de Voldemort.

Ela não o viu chegando. No entanto viu quando os dois comensais caíram estuporados. Viu a mão que se estendeu para ela. Pôde ainda agradecer pelo socorro, antes de desfalecer. Certamente não o reconheceu. Certamente não imaginou de quem tinha vindo o amparo naquela hora de tamanha necessidade.

Os dias se passaram, e a Ordem a teve como morta. Infortúnio, muitos sentiram por ela. Minerva passou muito tempo desacordada, sob os cuidados zelosos de Dumbledore, no mesmo velho castelo no qual viveram por tantos anos. Ele cuidou de seus ferimentos. Fez companhia a ela. Passou dias e noites ao seu lado. E ainda que ela não o estivesse ouvindo, repetiu e repetiu o quanto a amava. Albus preocupou-se no começo, mas depois soube que ela ficaria bem. Ele dedicou-se a ela o quanto pôde. Sentiu-se imensamente contente por ter chegado na hora certa, por ter podido socorrê-la de tão séria ameaça. Esperou que ela se recuperasse e despertasse daquele sono de tantos dias.

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O ar estava úmido naquele dia, havia chovido muito na noite anterior. Uma brisa fresca entrava pela janela, junto com os primeiros raios de luz da manhã. Quando Minerva abriu os olhos, viu-se em seu quarto na torre da Grifinória, o qual ocupava há tantos anos. Lentamente se sentou na cama, olhando em volta. Sentia seu corpo cansado, e não sabia dizer o porquê. Por um momento simplesmente pensou que algo estava errado, em seguida lembrou-se de vários terríveis acontecimentos. Sem se alarmar, ainda que um tanto receosa, levantou-se. Vestia uma de suas camisolas, e isso parecia estar certo. Teria sido um longo e estranho pesadelo? Ela se sentia perdida no tempo, sem saber em qual dia estava. Logo, não encontrando seus pertences no quarto, constatou que não poderia ter sido um sonho. Fechou os olhos e suspirou profundamente. Lembrou-se da guerra. Lembrou-se do fechamento de Hogwarts e da morte de Albus.

A mulher olhou através da janela, sentindo o leve sopro do vento em seu rosto. Perguntava-se como havia chegado a Hogwarts, enquanto seus olhos descansavam sobre a magnífica paisagem. Podia ver o campo de Quadribol, e o Salgueiro Lutador. Apesar de todas as dúvidas e preocupações que povoavam seus pensamentos, uma sensação de tranqüilidade e paz tomou seu coração. Apesar de tudo, era bom estar em casa.

- Bom dia. - uma voz assustadoramente familiar veio do outro lado da sala. Uma voz que sabia não poder estar ouvindo. Ela virou-se rapidamente, assustada.

Quando os seus olhos encontraram os olhos azul-celestes do bruxo, ela, sem demora, o reconheceu. Era seu professor, o diretor de sua casa, exatamente igual à primeira vez que o viu. Boquiaberta e assombrada ela constatou que era Albus aquele à sua frente. E os olhos dele brilhavam encantados. Ele sorria sereno quando perguntou:

- Como você se sente, Minerva?

Continua.

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n/a: obrigada, Lilian, pelo incentivo; você me deixou confiante :D