Capítulo 1
Smallville, nove anos antes
Lois estava digitando alguma coisa no computador no apartamento do Talon com denotado entusiasmo quando Clark surgiu à porta entreaberta, bateu e entrou. Ela apenas levantou os olhos para vê-lo por cima do notebook, como que para verificar quem era, e ao ver que se tratava dele, continuou digitando incessantemente, indiferente à sua presença.
"Hum. Momento raro" comentou, ao vê-la compenetrada.
Lois levantou novamente os olhos para encará-lo, e arqueou uma das sobrancelhas quando um pequeno sorriso de desprezo finalmente surgiu no canto dos seus lábios.
"Não tinha que tirar o leite de algumas vacas, Smallville?" perguntou ela, mordaz, enquanto continuava a digitar.
Clark retribuiu o sorriso de desdém e olhou ao redor. Havia algumas caixas num canto, e duas malas feitas ao lado. Mas a mobília estava toda lá. Havia louça sobre a pia, alguns pôsteres nas paredes e a cama, como sempre, desarrumada. Foi então que ele suspirou, e disse: "Fiquei sabendo que você está de mudança... de novo!"
Lois apenas inclinou a cabeça para o lado para relaxar o músculo do pescoço, enquanto continuava a digitar, e quando parecia ter terminado o que estava fazendo, salvou o arquivo, e fechou o computador. Ao se levantar com a caneca de café vazia que estava sobre a mesa e caminhar em direção a pia, finalmente o encarou com firmeza e sorriu, dando-lhe um soquinho no ombro:
"Que tal, Smallville? Vai se livrar de mim... de uma vez por todas! Devia estar festejando agora"
Clark sorriu, cínico. "Na verdade, minha mãe comentou que você só vai se mudar no final de semana... então, até lá ainda tem tempo para comemorar"
Lois lançou um olhar repleto de faísca para ele, enquanto se servia de um pouco mais de café, e depois sorriu em resposta. "Obrigada pela parte que me toca, Clarkie. Mas fique você sabendo que mesmo eu estando em Metropolis não vai se livrar assim tão fácil de mim"
E ele suspirou. "Imaginei que diria isso"
Ela sorriu, debochada, e decidida a mudar de assunto, perguntou: "E então? Como andam as coisas na fazenda? Fico imaginando se a Sra Kent ainda vai voltar atrás" comentou, com as sobrancelhas arqueadas, enquanto tomava um gole do café.
Duas semanas atrás, Martha havia renunciado ao cargo de senadora, surpreendendo a muitos, dentre os quais, Lois, que por poucas semanas foi sua assessora, e mesmo assim, sequer teve conhecimento prévio da decisão. Clark, entretanto, não demonstrou perplexidade com a atitude inesperada de sua mãe, e a julgar que devia se tratar de motivo familiar, ou meramente o fato de que Martha talvez sentisse que não o conseguiria sem Jonathan, em respeito à sua decisão, Lois jamais indagou a respeito, embora, às vezes, ainda tentasse descobrir alguma coisa por intermédio de Clark, o qual, entretanto, sempre desconversava:
"Está tudo bem. Minha mãe está bem. Aquela loucura toda não era mesmo para ela..."
"Hum. Esse é o Clark Kent falando, ou o filho ciumento?" indagou Lois, fitando-o por cima da caneca.
Clark sorriu, cínico. "E então? Não vai me contar no que está trabalhando?" perguntou, desviando o assunto, enquanto se aproximava da mesa onde estava o computador. Antes que pudesse imaginar que ele viria a tentar espiar, Lois se atravessou à sua frente, embora soubesse que ele jamais o faria, pois, ao contrário dela, não era do feitio do farmboy bisbilhotar.
"Só depois que eu terminar" advertiu.
Ele então arqueou uma sobrancelha, desconfiado. "O quê está aprontando?"
Lois sorriu, e o encarou. Estavam agora bem próximos. "Aprontando?" repetiu ela. "Que mau julgamento você faz de mim, Smallville!" sorriu, e ao perceber que podia sentir o calor do corpo dele, como das outras vezes em que estiveram tão próximos como naquele momento, disfarçou e se afastou em direção à janela para abrir a cortina, quando completou: "Além do mais, não é da sua conta"
Clark balançou a cabeça afirmativamente. A Lois de sempre, pensou. Ele então olhou novamente ao redor, e suspirou: "Vejo que vai precisar de ajuda com a mudança" comentou.
"Muito oportuno" disse ela, sorrindo e balançando a cabeça. "Você sempre aparece para me ajudar com as minhas mudanças. Prova cabal de que me quer o mais longe possível..."
"Bom, Lois, isso não é nenhum segredo... certo?" indagou ele, arqueando as sobrancelhas, e com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
Lois sorriu, concordando. E enquanto Clark se afastava para ir embora, ela disse, impulsivamente, e sequer antes de pensar no que estava fazendo: "Sábado"
Ele então se virou, com a testa enrugada, sem entender, e ela explicou: "Chloe vai vir na sexta-feira para ajudar com a mudança pesada, mas uma mãozinha extra para dar conta dessa encrenca toda é sempre bem-vinda"
Clark sorriu, enquanto Lois olhava ao redor, como se estivesse pensando na bagunça do lugar. Na verdade, ela fingia indiferença quando de fato surpreendia-se com o que acabara de fazer, e que era justamente aceitar a ajuda dele, quando poderia ficar mais um dia sem vê-lo.
"Claro que se você achar que não vai dar conta do recado, afinal tem mais algumas malas a serem arrumadas, e toda a minha coleção de Whitesnake, vou entender perfeitamente..." sorriu, desafiando-o, com os braços cruzados.
"Tudo o que for preciso para fazer com que essa mudança aconteça o mais depressa possível" disse ele, sorrindo com escárnio, enquanto ia embora, sob o olhar de Lois que também sorria em resposta.
Mais tarde, no Rancho Kent, Clark subia as escadas do loft, ainda com um sorriso nos lábios, lembrando as últimas palavras que teve com Lois. Era incrível como ela podia fazer aquilo. Iluminar seus dias mais nebulosos. E ele balançou a cabeça em reprovação àquele pensamento cada vez mais persistente, quando viu um vulto que olhava pela janela do celeiro, próximo ao seu telescópio.
Clark se aproximou, confuso, e embora tivesse feito se notar pelo estranho que vestia um capote bege e um chapéu, permaneceu em silêncio, observando-o, quando finalmente o sujeito se virou para vê-lo. Sem poder visualizar seu rosto pela escuridão, Clark perguntou:
"Quem é você?"
O sujeito, tão alto e encorpado como Clark, aproximou-se, onde a luz podia agora iluminar seu rosto cansado e abatido. E Clark teve a estranha sensação de que o conhecia. O sujeito então tirou os óculos, e revelou os olhos tão azuis como os do jovem Kent que, em choque ao reconhecer aquele como sendo o seu próprio rosto, deu um passo para trás.
"Eu vim do futuro... e preciso que me ajude a salvar o nosso destino e o da humanidade" revelou o homem, com os olhos cheios de brilho e esperança.
Continua...
