ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 5: Perdas e Ganhos

PV: NARU

É, o Keitaro definitivamente mudou. E não sei se gosto de tal mudança. Agora, vejo-o saindo com a Mutsumi e a Kanako. Eles parecem muito felizes, mas não é o que impera dentro da pensão; quase nenhum barulho surge no interior do prédio. As meninas parecem muito cansadas, depois de tanto celeuma. E o pior, agora Keitaro decidiu não ficar mais entre nós; proclamou um autoexílio na Casa de Chá Hinata. Deixar a Kanako como embaixadora é o fim da picada; ela até não é uma má pessoa, mas faz as coisas mais esdrúxulas quando se trata de agradar o irmão.

Mas o que mais me aborrece é que o Keitaro parece, cada vez mais, ficar distante de mim. Eu só queria que ele tivesse um pouco mais de amor próprio, de determinação. Não esperava que o Keitaro agisse tão radicalmente. Agora sinto que o perdi; Keitaro demonstra estar decepcionado com a vida em que se meteu outrora. A sensação que me deu é que ele precisa abdicar de tudo o que vivenciou para recuperar o tempo perdido. Desconstruir uma vida inteira para tentar construir uma nova personalidade. Não creio que tal empreendimento seja possível, ninguém se livra tão fácil de hábitos, cacoetes e psiquismos. A essência de qualquer pessoa sempre será a mesma, talvez a maneira como interagimos com os outros, a nossa "interface" possa ser modificada.

Mas já sei algo que ele superou: o amor por mim. Droga, ele poderia perder qualquer coisa, menos este sentimento que me é tão caro. Aquele bobalhão, eu o amo. Sim, eu o amo! Agora tenho certeza disso, apesar de sempre tentar afogar o que meu coração sentia nas profundezas da alma. Agora, terei que lutar para reconquistá-lo. Não posso deixar a garota tartaruga ou qualquer outra ficar com ele. Mas, como? Ele deve estar muito decepcionado comigo. Enquanto todas deram demonstrações emocionadas do desejo que ele permanecesse entre nós, eu o tratei com um certo desprezo. Novamente, o meu medo de amar e não ser correspondida.

Merda, nenhuma boa idéia aparece agora! Eu também estou muito cansada, que sábado mais deprimente! Acho melhor ir dormir, não há nada que eu possa fazer agora. Antes de ir dormir, desci à cozinha para tomar uma água. Abri a geladeira, percebi que esqueceram de colocar a jarra d'água para gelar. Droga, tive que tomar água quente mesmo. Hoje está dando tudo errado. O carma do Keitaro passou para mim, com certeza...

Enquanto bebia, percebi alguém se aproximar. É a velha raposa. Ela ficou sorrindo para mim, encostada na porta. Eu parei de beber e a contemplei, um tanto desconfiada.

"Então, você veio fazer uma boquinha?", perguntei sorrindo, tentando o máximo parecer natural. Ela nada respondeu, apenas se aproximou e abraçou-se a mim.

"Então, você está feliz que ele voltou?", perguntou Kitsune docemente. Droga, como ela consegue perceber os problemas dos outros tão facilmente? Eu não agüentei e comecei a chorar.

"Eu o perdi, Kitsune... Eu o perdi, tenho certeza...", desabafei entre choro. Enquanto tentava controlar o choro, falava: "Nunca pensei admitir tal fato, mas definitivamente eu amo aquele trapalhão... E agora eu o perdi...". Kitsune começou a afagar meus cabelos.

"Eu sabia que havia algo de mórbido no clima do Hinata-sou... Naru, você é tão previsível quanto o Keitaro...", consolou-me Kitsune. Parece que ela sabia que os fatos ocorridos hoje iriam me abalar. Kitsune é minha amiga desde o início do Ensino Médio, e desde então ela demonstrou conhecer-me melhor do que eu mesma.

"Por favor, não me deixe sozinha esta noite...", implorei, enquanto afastava-me dela um pouco. Já tinha chorado bastante, precisava me recompor um pouco.

"Tudo bem, minha amiga. Eu vou pegar o meu futon e dormirei contigo. Importa-se?", perguntou-me Kitusne, de uma forma muito doce. Adoro quando alguém se importa comigo.

"Claro, só não quero ficar sozinha esta noite...", respondi sorrindo. Apesar de ainda caírem algumas lágrimas, a presença de Kitsune não me deixava mais solitária. Preciso de toda a ajuda para me recuperar e enfrentar os dias que virão. Não me sinto tão perdida desde a separação de meus pais. Senti saudade de um colo confortável, aquele que somente as mães dão aos filhos, quando estes precisam de consolo. Minha mamãe estava tão longe, precisava contar com os meus amigos agora. Agradeci a Kami-sama por Kitsune não ter saído hoje à noite.


PV: KEITARO

O que houve comigo? Sinto que algo foi consumado, houve algo que cessou de existir, e é um fator interno. Uma coisa muito íntima deixou de existir, mas ainda não consegui identificar o que seja. Depois de tudo o que aconteceu hoje, ficou difícil de identificar claramente esta sensação de perda. Mas não queria discutir sobre isto naquele momento, precisava relaxar um pouco após tanto estresse emocional. Topei o convite da Mutsumi para dar um volta, e decidi convidar a Kanako – achei melhor não sair sozinho, não queria mais problemas entre as meninas. Se eu saísse somente com uma, iam logo dizer que eu tinha segundas intenções, que continuo o velho taradão de sempre. Chega, pelo menos hoje.

Olhei para o relógio, eram 21h40min e estou dentro do trem, junto a duas garotas extraordinárias, indo curtir a noite de Tóquio. Apesar de estudar na Toudai, nunca tinha me motivado a sair na noite, achava desnecessário – eu era tão ingênuo, achava que ter Naru próximo a mim era o suficiente. Eu acreditava que, não saindo na noite, eu passaria a imagem de um rapaz sério. É claro que foi mais uma furada minha; o conjunto da obra já tinha me condenado há muito tempo. Talvez essa seja uma das perdas de hoje: deixei de ser tão estúpido, ficar devotando esforços a provar meu caráter, sendo que meus atos sempre provavam o contrário. Já que estou no mar, creio que navegar seja a melhor saída. Se vou continuar a ser trapalhão e maltratado, então pelo menos me reservo o direito de curtir a vida longe do Hinata-sou.

Mas ainda não conheci muitas pessoas fora da pousada, só o Shirai e o Haitani – e, sinceramente, creio que manter distância deles seja uma providência que me irá prover um futuro mais saudável. Eu já sou atrapalhado, e eles ainda conseguem afundar-me ainda mais na lama. Preciso ter outros amigos, deixar um pouco as meninas de lado. Sinto que, como elas são a única fonte de amizade que tenho, elas se aproveitam para me explorar. Talvez arranjar amizades externas as façam ver que elas não são marcos fundamentais da minha existência. Como ainda tudo isso é muito recente, tive que escolher as duas pessoas que me parecem menos ameaçadoras na pensão para sair. Achei que fiz uma boa escolha. E já descobri uma outra perda que ocorreu hoje: a perda da inibição; eu agora quero o mundo. Já entrei na Toudai, o que mais devo provar? Descobri tardiamente que não estou obrigado a provar mais nada para ninguém. Se meus pais, se as meninas não estão satisfeitas, danem-se. Não preciso tanto deles assim.

Logo chegamos em Tóquio. Deixei Kanako e Mutsumi irem à minha frente, para uma maior segurança. Afinal, na noite é mais difícil ficar cuidando o ambiente, e precisamos de cautela atualmente. Deixei a encargo delas o local para irem, creio que elas já conhecem muito melhor que eu os locais bons para se divertir na capital. Kanako sugeriu um bar mais "cabeça", ela descreveu o lugar como um ambiente meio retrô, no melhor estilo beatnik – um local mais intimista. Eu e Mutsumi gostamos da idéia, e Kanako tratou de nos levar até lá.

"Mano, você está mudado...", disse Kanako, tentando puxar assunto durante o caminho.

"É verdade, Kei-kun. Parece que os últimos acontecimentos te transformaram bastante. O que você acha?", disse Mutsumi, sempre sorridente. Aliás, o sorriso da garota tartaturga é bem contagiante, e agora percebo como ela é linda. Nunca tinha visto Mutsumi sobre tal ponto de vista, e perguntei-me por quê nunca tentei aproximar-me dela... Ah, claro, aquela bobagem de garotinha da promessa. Perdi minha vida até agora tentando achar uma mulher que talvez nunca encontre, ou que não me irá corresponder.

"Bem, não tenho certeza... Vocês pensam que minha mudança foi para melhor ou não?", perguntei, tentando desviar da pergunta da Mutsumi.

"Eu não sei ainda, mas parece que foi algo produtivo", comentou Kanako, dando-me um belo sorriso. Fiquei perguntando-me por que carga d'água Kanako não é sociável com os outros como é comigo. Ela é bonita, mas talvez não tenha consciência disso. Talvez seja algum trauma inconsciente devido à morte dos pais biológicos.

"Eu gostei muito! Sempre pensei que você, algum dia, iria ficar mais solto...", comentou Mutsumi, com a voz cheia de ânimo. O comentário da garota de Okinawa me deixou feliz, e não pude evitar sorrir, agradecendo a presença de ambas. E ambas ficaram coradas... Ué, eu disse alguma coisa errada? Eu, hein, e eu que pensei que eu era o sujeito mais arisco do Hinata-sou... Por que eu tive a sensação de que elas me esconderam algo, mas que eu não consegui perceber exatamente o que era?

Bem, decidi não ficar gastando meus fosfatos à-toa, e fiquei no meio das duas, conversando sobre banalidades. Divertiamo-nos como adolescentes que somos, papeando sobre assuntos dos mais aleatórios – desde a problemática da existência humana, até qual a melhor combinação de cores a ser feita para ir a uma formatura. Conseguimos deixar o clima pesado de horas atrás no esquecimento, seguindo em tal compasso até chegarmos no referido bar.

Devo concordar, o bar era muito inusitado. Era cheio de pôsteres de antigos intérpretes de blues e jazz; a luz do ambiente não era muito forte. As mesas pareciam com as de lanchonetes americanas, com aquelas poltronas acolchoadas que ficavam próximas a uma grande janela e cercando quase toda a mesa – como se fosse um "U". Eu me sentei contra a janela, deixando cada lado para uma delas. Os cardápios ficavam fixados na mesa, por baixo de um vidro, e a arte gráfica era muito estilizada. Todo o ambiente tendia para as cores mais escuras. O lugar estava um pouco lotado, mas ainda eu conseguia abstrair-me e sentir-me bastante tranqüilo.

Depois de o garçom anotar nossos pedidos e sair, ficamos conversando mais um pouco. Mantivemos o papo bem casual, bem diversificado. Só que a Kanako nunca teve muita paciência com demora, e não se encabulou para comentar conosco: "Já tinha vindo aqui antes, mas hoje está impossível! Desculpa gente, nunca demorou assim... Mas que incompetência!".

"Calma, Kanako, viemos aqui para diversão, não deixe um detalhe estragar a noite...", tentei contemporizar. Não queria mais um vexame para arruinar aquele dia.

"Escuta o Kei-kun, ele tem razão... O papo está tão legal, vamos continuar assim... Quando menos se espera, o pedido chega!", falou Mutsumi, com o tradicional otimismo na entonação.

"Pois é, mas nunca havia acontecido isso antes... Faz mais de meia hora que fizemos o pedido, pessoal! Até aquelas debilóides da pensão atenderiam melhor...", desabafou Kanako, demonstrando toda a insatisfação com o fato. Enquanto tentava acalmá-la, notei que a Mutsumi ficou bastante reflexiva, com o tradicional gesto do indicador apoiando o lábio inferior junto com o olhar longe e inexpressivo.

"Algum problema, Mutsumi-san?", perguntei preocupado.

"Nada, Kei-kun... Estava apenas pensando algo... Kanako, você ficou encarregada das finanças de pensão, não é?", falou Mutsumi.

"Claro, o meu irmão deu a mim tal responsabilidade, a qual executarei sem nenhum titubeio. Devo honrar a ordem de meu irmão e o nome da família Urashima", respondeu Kanako, com uma pose muito solene.

"Menos, Kanako-san... Foi apenas um encargo, nada mais...", comentei, agitando a mão direita como quem quer dizer para não exagerar.

"Então, Kanako-chan, creio devemos conversar assim que retornamos ao Hinata-sou. Eu, você e a Haruka-san. Pode ser?", inquiriu Mutsumi, com uma expressão serena.

"Bem... Pode, mas qual seria o assunto?", perguntou Kanako, obviamente muito curiosa sobre o tema a ser discutido.

"É verdade, e o que a Haruka-san teria a ver com isso?", completei a pergunta.

"Amanhã será tudo desvelado. Vamos agora curtir a noite e não ficar preocupado com conversas de negócio e garçons atrasados", respondeu Mutsumi, muito enigmática e sempre carismática. Ela tem esse dom de responder as coisas de uma forma bem evasiva. Pude notar que Kanako tinha um olhar de dúvida, mas bati minha perna contra a dela e sorri. Como era de se esperar, minha mana devolveu o sorriso. Bem, já que sorri só comigo, achei melhor provocar o sorriso de Ka-chan e esquecer assuntos tão importantes. Preferi continuar a bater um papo bem descontraído.

Finalmente chegam os pedidos, e Kanako reclamou um pouco ao garçom sobre a demora. É lógico, o serviçal pediu mil desculpas e, após reclamar sobre a demora com a gerente, ganhou uma porção de batata-fritas por cortesia da casa. Ficamos ali mais um pouco, e Mutsumi nos convidou para caminharmos um pouco entre as ruas mais movimentadas da noite. Eu e Kanako concordamos e partimos para caminhar mais um pouco, e verificamos quantos bares existem na volta da Toudai. Os mesmo bares em que as garotas iriam fazer a festa hoje. Pelo jeito, só Mutsumi e Kanako tinham ânimo para agüentar a parada, pois não achei qualquer sinal das outras pelos bares que íamos passando.

A vida noturna, para mim, ainda é um mistério. Todo mundo bebendo, jogando conversa fora, dando uma paquerada. No máximo, eu tinha visitado os festivais tradicionais. Era um outro ritmo, algo que não consigo me acostumar direito. Não gosto muito do barulho dos carros modificados e dos sistemas de som a todo volume, nem das luzes intermitentes. Mas procurei não estragar a noite das duas garotas, acompanhando-as o tempo todo. Elas acabam puxando-me para dentro de um bar com karaokê, e Mutsumi deu a idéia de fazermos um trio – acabamos cantando uma música chamada "Sakura Saku". Até que fomos muitíssimo bem, tiramos 94 em trio. E Kanako aproveitou para nos fazer beber mais um pouco de cerveja...

Foi uma legítima turnê pela noite de Tóquio, de bar em bar. Quando percebi, olhei para o relógio e vi que eram quase 4h da manhã. Achei melhor ir embora, mas pensei que um trem para Hinata só pelas 6h. Teríamos que matar o tempo um pouco mais, mas já estávamos um tanto embriagados. Mutsumi disse que tinha algum crédito e que nos pagaria um "hotelzinho" para ficar a noite e que, depois que acordássemos, poderíamos ainda curtir um pouco do domingo ainda em Tóquio. Ela insistiu muito, até eu e a Kanako concordarmos. Cara, o tal do "hotelzinho" que a Mutsumi falou era o Sheraton Grande Tokyo Bay Hotel! E ela pareceu ser bem conhecida dali. Kami, senti-me uma titica de galinha...

"Mutsumi-sama, há quanto tempo! Como está a vossa família?", cumprimentou o gerente do hotel, em um estilo bem pomposo.

"Estão todos bem, Hideyuki-san. É possível conseguir um quarto para três pessoas? Estamos cansados, e não temos hora para acordar", explicou Mutsumi, bem naturalmente.

"Para um membro da família Otohime, sempre será possível qualquer quarto em nosso estabelecimento, além de dar uma alongada no prazo da diária... Estes são vossos acompanhantes, Mutsumi-sama?", perguntou o gerente.

"Sim, são meus grandes amigos. Gostaria de que eles fiquem bem acomodados. E eles sabem do assunto, afinal são gerentes de uma pousada, e podem achar qualquer defeito na hospedagem", explicou Mutsumi. Caramba, eu me senti dono de uma espelunca. E Kanako me olhou de um jeito muito constrangedor, como se também estivesse assustada com a pompa do local.

"Se aqui tem defeito na hospedagem, então o Hinata-sou não passa de um hotel de quinta categoria, mano...", sussurrou-me Kanako. Apenas pude concordar com a cabeça.

"Sem problemas, atender bem e com qualidade é sempre nosso desafio", respondeu com pompa o gerente do local. Cara, eu me senti realmente esculhambado. Como a Mutsumi conseguiu comparar um negócio familiar com uma das cadeias mais luxuosas de hotéis no mundo? E não tinha idéia de que a família dela era tão... Poderosa. Ela nunca deu sinal de ter tantas posses. Como eu sou tapado, a família dela é dona de toda uma praia em Okinawa; não deveria estar surpreso.

Mas o que mais me preocupava no momento não era o esbanjamento de Mutsumi, mas a saúde dela. Depois de beber um pouco acima do usual, ela parece muito cansada. Sabendo dos problemas de saúde que ela tem, fiquei com medo que ela tivesse um colapso a qualquer momento. Porém, ela agüentou bem até agora. Até faz tempo que ela não apresenta os colapsos, e agradeci a Kami por tal fato. Enquanto nos dirigíamos ao balcão, cutuquei Mutsumi e perguntei com a voz bem baixa: "Mutsumi-san, tem certeza que podes pagar este hotel? Não precisa gastar tanto com a gente...".

"Não te preocupes, meu doce Kei-kun... Não é a primeira vez que venho aqui. Minha família gosta de hospedar-se bem quando está viajando, seja a negócios ou a passeio. Não posso negar um regalo aos meus bons amigos de vez em quando!", disse Mutsumi, com o entusiasmo de sempre.

Caramba, ela pagou o hotel um cartão de crédito daqueles só para clientes VIP! Merda, é difícil ser pobre. Jamais consegui imaginar que ficaria hospedado em um hotel daquele nível. E tentava adivinhar por quê uma menina como a Mutsumi, cheia de mordomias, resignava-se em ficar numa simples pousada e ainda fazer um bico na Casa de Chá da Haruka-san. Só pode ser a mais franca amizade, não tem outra explicação para Mutsumi-san abdicar de todo o luxo que pode usufruir e ficar entre nós, numa pequena pensão longe de Tóquio.

Após chegarmos ao quarto – o qual também era extremamente luxuoso, no terceiro andar –, pegamos as roupas de cama e cada um arrumou o próprio futon. O gerente conseguiu um quarto no melhor estilo tradicional japonês, e tinha afirmado que o quarto tradicional seria o único que daria um bom conforto a três pessoas, sem muita pompa (conforme o pedido de Mutsumi). Eu fiquei com o futon do meio, e logo estava ferrado no sono.

Não demorou muito a acordar, pois algo estava me cutucando, como se não pudesse mexer-me. Quando acordei, percebi que as meninas empurraram os futons e juntaram com o meu, um de cada lado. E ambas dormiam agarradas aos meus braços, uma em cada um deles, ambas com os rostos demonstrando felicidade. Olhei para o teto e fiquei encabulado, mas logo me senti normal, como se nada tivesse ocorrido.

Foi naquele momento que percebi uma outra perda: o amor que nutria por Naru. Estranho, é possível o amor que sentimos por uma mulher acabar assim, de repente? Não pode ser, o amor não acaba tão rapidamente, será que eu só senti paixão por aquela mulher? Enganei-me todo o tempo em que acreditei num amor intenso? Só pode ser devido àquela estúpida promessa.

Fui interrompido quando senti que ambas se aproximaram um pouco mais do meu peito, deslizando pelos braços. Cada uma pôs uma mão em meu peito, como se estivessem abrançando-me. São mulheres maravilhosas, e estavam ali do meu lado; não posso colocar tudo a perder com perversões e trapalhadas. Tratei de voltar a dormir.

Pelo jeito, perdi o amor que sentia por Naru, era a conclusão óbvia. Foi assim, bem súbito, nem consigo acreditar muito em tamanha ponderação. Perdi o amor, mas senti que tive um grande ganho: a liberdade. Nunca me senti tão livre na minha vida, posso escolher o melhor para meu coração.

Agora finalmente acredito que nossas vidas transitam em uma gangorra: perdemos muito mais do que ganhamos, mas os poucos ganhos são muito confortantes. Findou o amor, começou a liberdade.


Capítulo escrito entre 20/11/2004 e 23/11/2004. Pelo jeito, esta saga vai longe; espero que os leitores não se cansem, he he! Agradeço muito aos reviews dados aqui e aos elogios feitos na comunidade orkutiana "Procura-se: Fics de Love Hina". Tudo está servindo como estímulo para continuar a saga; parece que este minha linha psicodramática está agradando. Mesmo com as provas da faculdade, tentarei atualizar na medida do possível. Talvez seja mais fácil nas férias, espero eu.

Ah, apesar de Keitaro mudar em diversos aspectos, deixei-o com um lado ainda inocente, só para manter algo do velho Keitaro ainda presente. Espero todos no próximo capítulo! É muito bom tê-los como leitores, e deixem mais reviews para mim – cada review serve como motivação para seguir adiante! Min'na arigato gosai masu!

P.S.: para quem ainda não conhece, "Sakura Saku" faz parte da trilha sonora do anime de Love Hina – embora use a maioria dos elementos do mangá, gosto de misturar alguns elementos do anime para incrementar os contos.