ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 9: Plumas e Paetês

PV: MOTOKO

Eu fico me perguntando por quê eu não fui contra essa idéia estúpida de bar temático? Eu sou uma guerreira, uma mulher decidida, eu não entendo por quê recuei... Bom, só falta passar no vestibular, mas estou quase lá. Ainda sou uma ronin, mas sinto que o próximo ano pode me reservar a tão sonhada vaga na Toudai. Daí, ficarei mais perto do Urashima-senpai... Que droga, agora tenho três dilemas: como particiar do bar temático sem perder a honra, como conquistar o arisco Urashima-senpai e suportar mais um ano como ronin.

Após tomar o café-da-manhã, as meninas decidiram tomar um pouco de banho de sol, e eu decidi treinar. Como o dia está ensolarado, achei que usar o bogu(1) seria um tanto desconfortável, então escolhi usar uma roupa mais casual. Vesti uma bermuda jeans e uma camiseta babylook, e subi até o tradicional local de treino. Passei toda a manhã treinando, tentando clarear um pouco a mente sobre os problemas que devo resolver. Concluí que é melhor resolver um de cada vez, e parece que a escolha do uniforme para o bar temático é mais imperiosa, pois foi marcado para hoje à tarde. Estou vendo que este domingo vai ser mais um dia daqueles...

A tarefa de conquistar o Urashima-senpai é o problema mais díficil, e precisa de uma maior elaboração. Enquanto treinava, um pequeno filme dos últimos acontecimentos passou perante meus olhos. A fuga do Urashima, o tão comentado "julgamento final", a escolha de Kanako como gerente adjunta, a insistência do senpai em afastar-se das meninas... E agora, este temível bar temático. Levando em conta que já faz algum tempo que finalmente livrei-me do fantasma da minha irmã e decidi abraçar amor, kendo e estudos ao mesmo tempo, posso até gabar-me de ter progredido bastante. Mas ainda tenho negócios inabacados a resolver, e ainda conservo a minha honra como sucessora do Shinmeiryuu. Vou lutar por tudo, até o último suspiro, sem me deixar corromper. Mas também aprendi que nem tudo na vida vale a pena que se tenha uma posição radical.

E, sobre o Urashima-senpai, sei muito bem o que quero. Agora que eu sei que ele não tem uma atração especial pela Naru-senpai, eu vou lutar por ele. É difícil admitir, mas eu estou apaixonada por aquele trapalhão há muito tempo. Afinal, ele é o trapalhão mais caridoso e determinado que conheci, mesmo quando eu o mandava pelos ares. E agora que ele está mais ágil – após as aulas de Jet Kune Do com o Seta – e que adquiriu um pouco de autoestima, ele me parece mais charmoso, mesmo sendo atrapalhado e distraído algumas vezes. Sinto que, de alguma maneira, posso aproveitar o tal bar temático para conquistar o Urashima-senpai.

Depois do treino, fui almoçar. Que inveja da Shinobu! Os meus pratos são coisa de cozinheiro amador perto do que ela faz; tudo estava delicioso. Só que isso não é desculpa para exagero; apenas comi o que julguei necessário para manter minhas funções vitais e fornecer-me energia o suficiente para os treinos e os estudos. Depois do almoço, as meninas foram até a Casa de Chá para descansar um pouco. Logo, seriam propostas as idéias de traje para o bar temático. Ficamos conversando sobre coisas casuais até que a Kanako se levantou e disse: "Meninas, acho que podemos organizar a elaboração dos nossos trajes agora, o que acham?".

"Sim! Vamos fazer nossos trajes! Vai ser legal, vamos lá Shinomu!", exclamou Kaolla. Nunca vi uma menina tão cheia de energia.

"Sim, vamos!", disse Shinobu, sorridente.

Haruka pediu licença e foi até o interior da Casa de Chá, onde ficam os anexos, e logo voltou cheia de enormes papéis e algumas caixas de pequena dimensão. Ao aproximar-se da mesa onde as meninas estavam, explicou: "Shinobu, eu costumava planejar meus cosplays nestes papéis, e usava estes lápis-de-cera e instrumentos para fazer os desenhos. Achei que gostaria de usá-los".

"É uma honra, Haruka-sama.", disse Shinobu, fazendo reverência. A Shinobu é uma menina muito prendada, de fato. Será uma mulher extraordinária, tenho certeza. Aliás, ela já está começando a ter um corpo com feições mais femininas, ela está crescendo...

"Não precisa tanto, meu doce, apenas Haruka-san...", retrucou Haruka, um pouco encabulada.

A Shinobu pegou todos os materiais e os colocou de forma organizada sobre a mesa. Colocou os papéis bem na frente dela e cercou o local com as caixas de lápis-de-cera e os outros instrumentos de desenho. Após se sentar e estalar os dedos, perguntou: "Bom, alguém já pensou em como gostaria que fosse o próprio traje?".

Obviamente, houve um certo silêncio. Acho que nenhuma das meninas ainda tinha uma idéia definida do que gostaria de usar. Após algum tempo, a Kitsune se expressou: "Gente, vocês não tem nenhuma idéia do que gostariam de usar? Bom, começo eu. Eu não vou trabalhar como garçonete, vou atuar como bartender. Por isso, meu traje não precisa muitos adereços, pode fazer parecido com o da Haruka-san.".

Então, Shinobu começou a desenhar o modelito. À medida que desenhava, ia sempre perguntando para a Kitsune-san se estava correto. A Kitsune ia descrevendo o que manter e o que retocar, até que um esboço final ficou pronto. Era muito semelhante com o uniforme que a Haruka-san costuma usar, apenas as cores eram diferentes: uma bermuda e o avental amarelos, com uma regata preta. Foi quando a Haruka alertou: "Kitsune, você esqueceu da meia-calça".

"Como assim? Por que ela é tão importante?", indagou Kitsune.

"Trabalhando como bartender, você irá ficar muito tempo de pé, e a circulação irá sentir. Por isso, não te esqueças de por a meia-calça no modelito. Na descrição do tecido, coloque que será um tecido que faça pressão média nas pernas. Entendeste agora?", explicou Haruka.

"Agora sim! Obrigado, Haruka-san!", agradeceu Kitsune. A garota raposa imediatamente pediu à Shinobu que colocasse uma meia-calça cor-de-pele, além da descrição do tecido dada pela Haruka. Para quem conhece o temperamento da Kitsune-san, estava até bem sóbrio.

Logo após, foi a vez da Kanako. Ela disse à Shinobu que o modelito dela era simples, e não ia tomar muito tempo. Realmente, não demorou muito para o traje da Kanako ficar pronto. Era um cheongsam(2) longo, todo em vermelho – inclusive os escarpins(3) e os laços no cabelo eram vermelhos, com saltos ligeiramente altos; apenas os adornos de cabelo eram rosas. Kanako alegou que não precisava de muito para ficar esplendorosa, provocando a vaia das meninas. Obviamente, ela fechou a cara e saiu contrariada, mas avisando: "O meu traje é esse e ponto final."

Enquanto todos riam do constrangimento da Kanako, a Sarah achou o cheongsam da Kanako tão bonito que se aproximou da Shinobu e afirmou que queria um modelito igual, só que todo rosa – inclusive todos os acessórios. A Shinobu desenhou o modelo e mostrou para Sarah, que devolveu um sinal positivo com o polegar, piscando o olho direito.

Aproximei-me de Kanako e falei: "Então, Kanako, parece que você fez uma discípula da moda, hein?". Cutuquei o braço dela com o meu cotovelo e esperei uma resposta.

"A Sarah é uma garota de bom gosto, assim como eu...", respondeu Kanako, empinando o nariz. De vez em quando, eu conseguia tirar aquela face sem expressão que a Kanako tem. Parece que, desde a festa surpresa que fizemos para a Kanako, ela está integrando-se cada vez mais conosco, mesmo que ainda mantendo aquele rosto sem expressão e usando aquelas roupas macabras.

Seguindo a festa, a Mutsumi pediu um vestido simples, bem comportado. A Shinobu, conforme a descrição da Mutsumi, desenhou um vestido amarelo, com a região da gola e do babador em branco (com uma cruz amarela no centro). O vestido era levemente colado ao tronco e bem pregueado nas pernas. Como acessórios, as fitas de cabelo e os escarpins são alaranjados. Após os retoques, a Mutsumi aprova o desenho e comenta, muito feliz: "Ara, ara! Acho que vou ficar muito bonita para o Kei-kun!".

Vejam só, a garota tartaruga botando as mangas de fora... Está na hora de provar que também sei me produzir. Só que queria algo mais tradicional, então disse à Shinobu que o meu traje seria inspirado na indumentária do kendo. Pedi que o Keiko-Gi(4) tivesse um quadriculado em lilás e branco, com uma Hakama(4) bem púrpura. Além disso, a Shinobu desenhou um grande laço púrpura no cabelo e colocou a sandália tradicional com meias nos pés. Em vez da tradicional napa, toda o traje foi projetado em seda. A Shinobu desenhou a cintura da Hakama mais alta, amarrada com um belo laço.

"Shinobu, está lindo! Muitíssimo obrigada!", exclamei, muito emocionada.

"Ah, Motoko-san, não fale assim, senão fico sem jeito... Agradeço os elogios. Acredito que parte da tua indumentária vem do teu bom gosto, Motoko-san", disse Shinobu, muito feliz. Aquelas palavras deixaram-me muito contente.

"Agora é a minha vez, é a minha vez, Shinomu...", exclamou Kaolla, pulando ao lado da Shinobu.

"Calma, eu vou fazer o teu traje agora, amiga...", disse Shinobu, tentando acalmar a impaciência da Kaolla. O traje da Kaolla é bem a cara dela: um colete branco, fitas laranja no cabelo e na gola do colete, uma saia laranja bem pregueada, meias soquetes brancas e sapatilhas laranjas. Shinobu mostrou a arte final e Kaolla ficou pulando de felicidade, orgulhosa do traje.

Bom, era a vez da Naru-senpai. Ela se aproximou de Shinobu e disse suavemente: "Bem Shinobu-chan, agora é a minha vez... Afinal, os últimos serão os primeiros..."

"Claro, Naru-senpai", concordou Shinobu.

Naru sussurrava no ouvido de Shinobu as idéias do que queria vestir, e Shinobu ia executando o esboço. À medida que tentávamos nos aproximar, Naru-senpai se vira para nós e pedia um pouco de privacidade, que só iria mostrar o desenho depois de pronto. Não entendi por quê tanto pudor, já que irá mostrar o resultado final para todas nós. Bom, nós ficamos no lado oposto da sala, esperando a arte final ficar pronta. Depois de vários minutos, Naru se virou e avisou: "Podem se aproximar, está pronto!".

Obviamente, aproximano-nos para matar a curiosidade. Por Kami, que traje é aquele? O uniforme da Naru era muito... Provocante, para não dizer pior... Era uma saia azul bem pregueada (e bem curta também...) e com um pequeno bolso contendo uma cruz vermelha desenhada, e logo acima do bolso tinha um coração bordado na linha da cintura, com os dizeres "NARU"; o resto do traje era um bustiê branco com duas minúsculas meia-taças, um patim de rodas cuja bota era azul, um laço vermelho no pescoço e outro azul no cabelo, além de adereços brancos nos braços. Tinha até o detalhe da calcinha em azul. Por Kami, que indecência! Não pude deixar de protestar: "O que é isso, Naru-senpai? Isto... isto... isto é indecente! Não acredito que irás usar esse tipo de uniforme!".

Naru me encarou e respondeu: "Hummm... Acho que a nossa querida Motoko-chan está com inveja...".

"É sim... Está com inveja, inveja, inveja!", repetia Kaolla, alegre como sempre. Acho que a Kaolla captou algo que ainda não captei... Kaolla ficou repetindo a palavra "inveja" até pular nas minhas costas, não é a primeira vez que faz isso com alguém.

"Kaolla-san, você gosta de mim, não é?", perguntei à Kaolla, com um sorriso contido.

"É claro, Motoko, eu lhe adoro muito!", respondeu Kaolla, apertando-me o pescoço. Tive que afrouxar o abraço antes de falar; a Kaolla diversas vezes demonstrou que não tem noção de quão forte ela é.

"Então, diga-me: por que eu teria inveja do traje da Naru-senpai?", indaguei.

"Porque o traje dela é muito sensual e demonstra os dotes físicos dela para o Keitaro!", respondeu Kaolla, com um sorriso bem aberto. Agora caiu a ficha, aquela Naru... Ela estava usando de golpe baixo para reconquistar o Keitaro. Nunca pensei que a Naru-senpai iria se rebaixar tanto.

"Poxa, Naru-san, assim eu nunca vou ter chance...", lamentou Mutsumi. Parece que a disputa pelo coração do Keitaro está bem explícita, sem maquilagens.

"Não se preocupe, Mutsumi-san, não é só um corpinho bonito em um traje exibicionista que irá conquistar o Keitaro.", consolei. Não acredito, eu estou fazendo um bom juízo do Keitaro... Nossa, como o amor consegue transformar conceitos já solidificados.

"Você acha, Motoko-chan? Que bom...", suspirou aliviada Mutsumi.

"Mas eu acredito que já consegui um ponto extra na disputa, minhas caras...", provocou Naru.

Enquanto discutíamos, Shinobu aproveitou para fazer o próprio traje. Depois que ela terminou, ela entrou na conversa e disse: "Eu já fiz o meu, o que acham?".

Paramos a discussão e fomos verificar a vestimenta de Shinobu. Nossa, é muito linda. Ela baseou o traje na antiga vestimenta ocidental para serviçais, só que mais colada ao corpo e as pregas da saia mais curtas. O chapéu tinha o formato de coroa e usava meias brancas longas com cinta-liga. No cabelo, dois laços amarelos. O traje também era insinuante, mas estava bem mais comportado se comparado com o da Naru.

"Nossa, Shinomu, está lindo! Você também está disputando o Keitaro?", inquiriu Kaolla, deixando a pobre Shinobu consternada. Parecia que a Shinobu queria sumir no primeiro buraco que aparecesse.

"Tudo bem, a sessão de desenho acabou. Agora, irei providenciar a costura dos trajes. É bom que todas vocês ajudem Shinobu a projetar a decoração do bar temático. Aliás, vamos aproveitar para escolher o nome do bar", afirmou Kanako.

"Bom, como sou a responsável pela Casa de Chá, creio que eu devo ser a responsável pelo batismo. Que tal... Lady Haruka & Her Wonderful Girls? Eu acho bem moderno", sugeriu Haruka. Depois que a Haruka traduziu o nome proposto, todas as meninas ergueram os polegares, confirmando o nome. Parece que até o nome tem sex appeal...

"Bom, Haruka-san, é melhor sabermos do Keitaro como ele vai participar. Tenho certeza que não vai perder a oportunidade de bulinar-nos.", disse Naru.

"Agora não será possível... O Keitaro saiu com alguns colegas de classe...", esclareceu Haruka. Aquilo deixou as meninas preocupadas, principalmente o trio de beldades que está na disputa pelo amor do distraído mais gracioso do mundo; eu, Naru e a Mutsumi nos olhamos, como se as três estivessem sentindo que há mais alguém na parada... Se tal possibilidade ocorrer, a disputa ficará mais difícil.

"Bem, não sei quanto a vocês, mas eu vou voltar a treinar... Preciso manter a forma", avisei. Logo, as outras meninas também tomaram rumos diferentes. Sinto que este bar temático será mais problemático do que parece...

Mas, se servir para conquistar o amor do Keitaro, tudo valerá a pena...


Capítulo escrito entre 30/12/2004 e 31/12/2004. Alguns verbetes a esclarecer:

1. Bogu: o equipamento completo para a prática do kendo, consiste do Men (protetor da cabeça), o Kote (protege a mão e o antebraço), o Tare (protege virilha e coxas) e o Do (protege o tronco).

2. Escarpin: (pronuncia-se "escarpam") é o sapato feminino com salto alto e fechado nos dedos e nas laterais (informação útil para alguns homens desavisados, como eu...).

3. Cheongsam: é o tradicional vestido chinês, que se caracteriza por uma gola alta e justa ao pescoço, as mangas variam conforme a estação em que se deseja usar o vestido (desde mangas bem curtas até longas com punho), abotoado no lado direito e comprimento variado (desde o meio da coxa até o tornozelo).

4. Keiko-Gi e Hakama: respectivamente, é o casaco e a calça da vestimenta de kendo.

Quem quiser conhecer as vestimentas que basearam toda esta saga, visitem o portal do Anime Wallpapers, visitem a seção Love Hina – página 9 – papel 49. Aliás, este episódio deu-me um baita trabalho. Tive que consultar diversos portais de tradições japonesas e chinesas para descobrir algumas peculiaridades das referidas culturas, além de alguns portais de moda. Novos agradecimentos ao Shadowslicer Lucas pelos reviews, tem servido como termômetro para verificar como estão meus contos. Espero que vocês deixem algum review, é só escolher a opção "Submit Review" no rodapé da página e pronto!

Para quem sentiu falta da Motoko, este episódio só teve o ponto de vista da lutadora de kendo mais elegante dos mangás/animes. Espero que os fãs da Motoko tenham gostado, e reforço meus desejos de um feliz 2005 a todos! Min'na arigato gosai masu!