ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 14: Bandeira Vermelha

PV: MOTOKO

"Você quer saber o por quê?", insinou Naru.

"Sim, eu gostaria de saber o motivo de impedir minha entrada nisso...", inquiriu Mizuho.

"Em primeiro lugar, você sabe exatamente do que se trata este bar temático?", perguntou Naru, de uma forma muito incisiva.

"Bem, realmente eu não sei o tema central...", admitiu Mizuho.

"Pois bem... E por você não saber qual a temática do bar, também você não tem um uniforme adequado para usar nos dias de serviço, não é", comentou Naru, ironicamente.

"Isso eu posso providenciar...", explicou Mizuho, até ser bruscamente interrompida por Naru.

"E o mais importante de tudo: você não estava aqui quando elaboramos a idéia central do bar. Com isso, nós devemos atrasar tudo o que estávamos planejando para lhe explicar como irá funcionar", protestou Naru. Estava óbvio que Naru não estava nem um pouco contente com a intromissão de Mizuho. Eu também não estava, mas achei a reação da senpai bastante exagerada. Por isso, decidi intervir.

"Naru-senpai, vamos com calma. Não podemos agir precipitadamente com as pessoas...", declarei, tentando ser a voz da ração para Naru.

"Motoko-chan, não posso permitir que uma recém-chegada comece a esculhambar uma idéia nossa. Pense bem, será mais uma pessoa no rateio dos lucros... Bom, além que... Além que... Além que é uma intrometida. Não pode ir se intrometendo na rotina das moradoras sem saber como funcionam as coisas", argumentou Naru. Teve um momento que ia falar algo, mas mudou o rumo da conversa. Pelo menos, foi muito evidente para mim.

"Ara, ara! Não vejo porque privá-la de participar de nossas atividades. Afinal, toda ajuda a mais é sempre bem-vinda. E creio que lá ela poderá também mostrar a elegância dela para o...", falou Mutsumi, sendo interrompida quando a Naru colocou a mão na boca da garota tartaruga.

"Mutsumi-san, deixe de falar besteira...", ralhou Naru, obviamente constrangida.

"Então, o bar é apenas mais um campo de batalha para conquista o Kei-kun, não é?", perguntou Mizuho. Era impressionante como o Urashima-senpai sempre se transformava no assunto principal das nossas conversas.

Kanako se levantou e disse em um tom de voz bem moderado: "Exatamente, Mizuho-san. O bar temático foi uma proposta da Mutsumi-san para conseguirmos um dinheiro extra para manter o Hinata-sou como pensão feminina. Só que a admiração que as meninas têm pelo meu irmão fez que a escolha dos uniformes tivesse como objetivo seduzi-lo. Creio que entrada de mais uma menina daquela maldita promessa só serviu para acirrar os ânimos das moradoras. Creio que você deva ficar fora do bar por um momento...".

Mizuho a interrompeu: "Mas, isso é tão injusto! Eu também quero..."

Kanako interrompeu Mizuho de uma forma mais brusca: "Não quero saber o que você pensa. Em matéria financeira, quem decide sou eu. Por enquanto, você está fora. A sociedade do bar foi feita entre as meninas que já moravam aqui anteriormente à tua chegada, e vai permanecer assim. Não quero mais saber de confusões. Talvez você participe, se acharmos conveniente. E creio que o assunto está encerrado".

"Pensei que eu iria organizar as finanças do bar...", protestou Kitsune.

"E você acha que eu sou maluca de deixar dinheiro na tua mão? Você pode ser uma pessoa dinâmica e prestativa, Kitsune-san, mas creio que administração financeira não é o teu forte...", declarou Kanako, mantendo uma atitude firme. Eu não vou muito com a cara da Kanako, mas existem momentos em que o pulso firme que ela sempre demonstrou é útil para não deixar as coisas descambarem.

"Isso não vai ficar assim, Kanako. Eu vou me lembrar do que você disse hoje...", ameaçou Kitsune.

"Isto é uma ameaça, Kitsune-san? Porque se for, não vejo sentido em ter alguém que ameace a integridade física e emocional de outras moradoras...", devolveu Kanako. Naquele momento, fiquei com raiva daquela mesquinharia.

"CHEGA!", gritei bem forte. Todas ficaram me olhando apavoradas. Quando percebi que todas me encaravam em silêncio e com os olhos arregalados, eu continuei a falar: "Olhem para vocês, discutindo feito idiotas. Não creio que o Urashima-senpai realmente mereça o amor de mulheres tão mesquinhas. Se vamos disputar o amor dele, que seja honestamente, não tirando o tapete umas das outras. Já ouvi falar que fale tudo no amor e na guerra, mas o que eu vi hoje foi ridículo. Simplesmente ridículo. É lamentável que a conversa tenha tomado este rumo, logo no primeiro dia da Mizuho-san no Hinata-sou. Não sabem raciocinar, então não planejem nada. Eu só não saio do bar porque eu sei que é mais uma chance para conquistar o Urashima-senpai..."

Eu parei de discursar, porque percebi que todas estavam chorando, inclusive eu. Botei a mão no meu rosto e pude sentir a umidade das lágrimas que escorriam pelo minha face. Ao verificar o brilho da umidade na minha mão, concluí: "Se querem fazer algo produtivo, é melhor pensarem melhor nas atitudes de vocês. Mizuho-san, eu realmente aconselho a não se intrometer no nosso negócio agora, acho que não haverá um clima agradável nesta pousada se insistires com isso agora."

"Eu, eu entendo, Motoko-san... Acho melhor eu me retirar aos meus aposentos agora... Desculpem-me...", disse Mizuho, correndo escadaria acima com os olhos bem marejados.

"Kitsune-san e Kanako-san, peçam desculpas uma para a outra. Vamos encerrar este assunto aqui e agora", eu ordenei. Elas pareciam muito relutantes, até que Kanako teve a iniciativa.

"Desculpa, eu disse certas bobagens no calor da discussão... É que eu sei das tuas atividades paralelas, e fiquei preocupada, só isso...", sussurrou Kanako, demonstrando que não era do feitio dela pedir desculpas. Kitsune a encarou, mas sem o olhar de raposa.

"Eu entendo, mas você deveria saber que o que eu faço fora daqui é problema meu... E que meu sonho sempre foi administrar um negócio. Insinuar que eu não saberia gerenciar algo me magoou muito. E sabes muito bem como é difícil me magoar. Mas, tudo bem, vamos tentar recomeçar as atividades do bar amanhã, mas não irei aceitar outra ofensa como essa...", declarou Kitsune, abraçando Kanako.

"Muito bom, Motoko-san. Você poderia ser psicológa, sabias", disse-me timidamente Shinobu. Eu apenas a encarei com um leve sorriso.

"Essa gente não precisa de psicólogos, Shinobu-chan... O pessoal aqui precisa é de amigos de verdade, aqueles que sabem a palavra certa na hora certa. Não vou deixar pessoas que eu gosto tanto brigarem assim. Por mais que exista uma certa rivalidade, isso não justifica o que ocorreu hoje, Shinobu-chan.", expliquei.

"Espero um dia ser igual a você, Motoko-san...", confessou Shinobu.

"Seja apenas você mesma, Shinobu-chan. Se você for autêntica, serás feliz. Eu aprendi isso com um certo rapaz, por quem nós duas temos um sentimento em comum", declarei, já me retirando. Desejei, do fundo do meu coração, que nunca mais eu veja uma cena tão lamentável quanto essa.

Acho que, depois do que aconteceu hoje, sei exatamente como o Urashima-senpai deve estar se sentindo. Nós o tratamos muito mal, e nunca pedimos desculpas por isso. Talvez perceber o quanto ele é importante e dizer isso a ele o faça ficar próximo das garotas novamente. Mas, assim como controlar o ego das meninas daqui, convencer Keitaro de que nós realmente se importamos com ele vai ser uma tarefa difícil.


PV: KAOLLA

Eu gosto muito de viver aqui, mas às vezes não consigo entender as garotas. Ficam brigando pelo amor de Keitaro, que coisa feia! Se estivéssemos no meu país, isso não aconteceria. Eu poderia me casar com o Keitaro e convidá-las para morar no meu palácio e fazermos amor todas juntas. Nunca consegui entender essa coisa de posse, de que se deve amar apenas uma pessoa. Se podemos ter diversos amigos, por que não podemos ter diversos amantes? Seria devido às doenças sexualmente transmissíveis? Não, não poderia ser só isso a explicação. Já viajei muito com meu irmãozão e minha irmã, e notei que é assim em diversos lugares, não era só no Japão.

Para mim, conquistar o Keitaro sempre foi uma brincadeira. Ele é tão parecido fisicamente com meu irmãozão, só que com a vantagem de não ser meu irmão. Ao contrário da Kanako, eu sempre vi meu irmãozão como irmão. Não consigo me apaixonar pelo meu irmãozão, mas eu sei que minha irmãzona está. Eu sempre disse que gostava do Keitaro, e não sei o motivo pelo qual as garotas nunca se declararam para ele. É algo muito estranho para mim...

E essas brigas, nunca gostei de momentos rudes. Para mim, brigar é uma outra forma de dizer que me importo com alguém. Mesmo quando o assunto é sério, sempre preferi ver as coisas pelo lado divertido da vida. Para as meninas, verifiquei que não é bem assim... Hoje, por exemplo, elas conseguiram criar um clima que não foi gostoso. Quando atingi a maioridade no meu país, pensei que levar o Hinata-sou para Moru Moru seria uma solução interessante... Eu me casaria com o Keitaro, deixariaas garotas como conselheiras e todas seriam amantes do Keitaro. Seria algo perfeito, não haveria tempo para discussões tolas, para momentos de discórdia.

Falando em discórdia, decidi também ir para o quarto, pois toda a confusão recém ocorrida me deixou muito triste. Quando eu passei pela porta do quarto de Mizuho, eu pude escutar o choro da nova moradora. Ela me pareceu ser tão bacana, gostaria muito de brincar com ela em um momento mais propício. Hum, brincar... Já sei! Tive uma idéia...

Algumas horas depois...

Ufa! Finalmente ficou pronto! Talvez essa invenção anime um pouco a Mizuho. Peguei minha invenção e dirigi-me ao quarto de Mizuho. Bati na porta e perguntei: "Mizuho, estás acordada"

De repente, a porta se abriu e lá estava Mizuho, com os olhos vermelhos. Nossa, deve ter chorado muito, e isso não é legal. Para mim, chorar só em momentos felizes. Eu sorri e disse: "Posso entrar? Preciso conversar contigo"

"Claro, Kaolla-san, você pode entrar, fiquei sem sono mesmo...", afirmou Mizuho. O quarto da Mizuho é tão arrumado quanto o da Naru. Depois de entrar, Mizuho me questionou: "Kaolla-san, o que você precisa falar comigo? Acho que hoje não foi um dia agradável, e talvez eu não precise de mais sermão...".

"Eu, dar sermão? Que é isso, companheira? Eu sou da paz! Eu só queria lhe dizer que as meninas hoje se exaltaram, mas elas não são sempre assim... Sabe, eu já tive momentos muito legais com elas, sabia", argumentei, admirada com a beleza dela. Realmente, as meninas ganharam uma concorrente de peso.

"É, eu acredito em você, Kaolla-san... Mas, o que significa essa caixa?", perguntou Mizuho, com ares de curiosidade. Ah, finalmente ela notou o embrulho.

"Isto é um presente para você. Eu mesma que fiz. Como teu primeiro dia de Hinata-sou foi marcado por tristeza, decidi te fazer um presente de boas-vindas. Sabe, as meninas não são más como foram hoje...", expliquei ao dar-lhe o embrulho.

Ela abriu a caixa e ficou admirada. Ela tirou o conteúdo do embrulho e girou-o em todas as direções. Acho que ela não sabia o que era, mas não falei nada; decidi que ela mesma deveria descobrir o que aquele trambolho era. Quando Mizuho percebeu a presilha, ela a abriu e... Tan-tan-tan-tan! Uma caixa musical com o meu toque! A caixa era composta por diversos Mechas de tamanho reduzidos, desde a orquestra até o casal de dançarinos.

"Eu mesma que fiz, o que você achou", perguntei.

"Kaolla-san, eu não sabia que tu tinhas um talento tão excepcional! Eu... Eu nem sei como agradecer! Eu não mereço, eu não mereço", disse-me Mizuho, abraçando-me aos choros. Eu sempre gostei de alegria, não sei como me portar em momentos tristes.

"Ai, ai, Mizuho... É claro que você merece", afirmei, meio sem jeito.

"Kaolla-san, pelo menos posso contar contigo aqui dentro. Obrigada por animar esta noite tão sombria. Se houvessem mais pessoas iguais a você neste mundo, talvez a humanidade fosse mais alegre...", disse Mizuho, desfazendo-se do abraço e dando-me um beijo na minha bochecha.

"Não tem problema. Quando eu transformar o meu país em um pólo da alta tecnologia, você será convidada para ser minha conselheira. Precisarei de pessoas de confiança para dominar o mundo", disse-lhe. Quando eu terminei a frase, ela começou a gargalhar copiosamente. Ué, eu disse algo errado?

"Bem, é melhor você ir dormir, minha flor. Parece que vocês têm muita coisa a fazer.", declarou Mizuho, já se despedindo de mim com um abraço. Gostei dela, eu senti que ela vai se integrar bem a este lugar cheio de surpresas chamado Hinata-sou.

Fui dormir, pois a semana promete mais emoções. E espero que não faltem bananas...


Capítulo escrito em 10/02/2005. Pela primeira vez, uso o ponto de vista da Kaolla. A Kaolla é um personagem difícil de usar como condutor da história, pois é alguém com uma visão de vida muito extravagante. E a bandeira vermelha foi estendida; espero que a série de fatos envolvendo a chegada de Mizuho tenha sido interessante... O final ficou um pouco tolo, mas é só para deixar mais ameno o clima de mar agitado da cena anterior. Agradeço os reviews, até o próximo capítulo.