ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 19: O Primeiro Dia do Resto das Nossas Vidas

ATENÇÃO: Um capítulo especial, onde algumas meninas relembram as experiências obtidas ao trabalhar no bar temático. Aproveitem o capítulo para curtirem mais detalhes dessa saga!

PV: KITSUNE

É não é que deu certo? O bar temático foi um sucesso! Um ambiente jovial, garçonetes atraentes, tudo o que gente endinheirada e festeira gosta. Enfim, pessoas que sabem curtir o melhor da vida, e que podem pagar tais mimos.

Não demorou a aparecermos nos principais guias japoneses de diversões noturnas; o nosso bar foi até matéria de capa da Cosmopolitan (1) japonesa! Foi um luxo, fomos capas da referida revista, além de diversas fotos de todas nós ilustrando a matéria – inclusive a capa. Nosso pequeno empreendimento ganhou o país. Aproveitei o meu momento de popstar, já que ser famosa no Japão é tão efêmero quanto a vida de uma borboleta, e entrei de cara no mundo do negócios.

Com o tempo, novas meninas entraram na pensão – afinal, que menina não quer estar associada a lugar da moda, com fama de abrigar garotas bonitas? Ótimos clientes, novas pensionistas; o bar temático foi uma idéia genial. Foi uma experiência interessante, já que não vou fazer faculdade: os meus interesses são business, meu caro...

Obviamente, nossos uniformes foram motivos de momentos hilários... Teve um engraçadinho que tentou bolinar a Motoko, mas só tentou – a nossa espadachim deu um trato no cliente inconveniente, fazendo o cara voar com um Zanganken... Pensei que aquele episódio nos arruinaria, mas pelo contrário! A galera foi ao delírio, teve até um produtor de cinema que quis fazer um tokuhatsu (2) com a Motoko! Imagina a nossa Motoko, heroína de televisão! Ela ficou tão envergonhada, nem voltou para o atendimento.

Foi naquele momento que aconteceu algo que deixou as demais com inveja. Motoko foi chorar na cozinha, pois achava que tinha passado dos limites, e o nosso Keitaro tentou acalma-la. Disse-lhe que trabalhar na TV era uma grande oportunidade, mas que só a própria Motoko tinha o direito de decidir se investir em uma carreira artística era um bom negócio ou não. O Keitaro tinha esses momentos de ternura, e talvez essa faceta de nosso amado bobalhão seja o que mais nos atrai. Enfim, coisas que só o Keitaro consegue fazer por todas nós.

Nosso bar também passou por vários estilos, para evitar a mesmice. Teve um final de semana em que todas atenderam vestidas de empregada, parecidas com o uniforme de cosplay que a Haruka emprestou para a Motoko quando a Tsuruko a desobrigou dos deveres da família.

Um outro final de semana foi contemplado com as meninas fazendo cosplay dos personagens do King Of Fighters, algo que foi muito engraçado... Até a Haruka entrou no clima, travestida de Vanessa. As que fizeram mais sucesso foram a Naru vestida de Mai Shiranui e a Mutsumi como Yuri Sakazaki; dois mulherões com trajes insinuantes acabam atraindo a atenção dos homens.

Falando em mulherão, o final de semana mais comentado foi quando decidimos fazer um traje diferente após a reportagem da Cosmopolitan. Aproveitamos o sucesso da reportagem e que o nosso bar era um point do verão para usarmos trajes um tanto ousados.

Naru deu a idéia de usarmos trajes de praia para o atendimento. Mas não deveria ser qualquer conjunto, deveriam ser maiôs de alta costura, coisa chique... Cada uma escolheria um estilo e uma cor para o próprio maiô. A Shinobu ficou um tanto encabulada, e a Motoko relutou – tinha medo de novamente entrar em atrito com o clã.

Convencer a Shinobu não foi difícil; bastou colocar o Kei-kun na jogada. Já a Motoko precisou ser convencida com um pouco mais de lábia. Haruka disse a ela que o clã não pode interferir na escolhas que fazem as pessoas felizes; que nem sempre os grupos em que vivemos decidem o que satisfaz a nossa alma. Com tal argumento, Motoko retorquiu que a nossa escolha também poderia ser não conveniente para ela.

Então eu tive que dar minha contribuição. Eu abordei a Motoko por trás e apalpei os seios dela, murmurando: "Mas, imagina se você escolher o traje de praia correto? Imagina o Keitaro se deliciando com as tuas curvas, hein?"

Motoko tirou minhas mãos do corpo dela, mas eu continuei apalpando-a, e então falei: "Todas nós mostraremos nossos lindos corpos para o Kei-kun. Que pena, a Motoko-chan não quer que o Kei-kun se deslumbre com este corpo moldado por anos de kendo..."

A Motoko se afastou de mim e, depois de olhar para o chão por alguns minutos, ficou ereta. Algo mudou nela, o olhar estava altivo e confiante. Os trejeitos dela demonstravam uma atitude mais expansiva que de costume. De alguma forma, ela mudou naquele dia, ficou mais ousada que de costume. Lembro-me da Motoko encarando o infinito e proclamando: "Sim, vou mostrar do que sou capaz. Todos contemplarão minha beleza!"

As palavras da espadachim proporcionou alegria a todos nós. Houve um momento de vibração, então abraçamos a nossa garota-kendo. Apesar de competir pelo mesmo homem, não tinha graça que uma das competidoras não estivesse no páreo. Mulheres curtem competir, pois a escolha de um homem não deixa de ser um concurso de beleza. E não tem nada mais importante para uma mulher do que se sentir desejada, ou melhor, ser capaz de provocar o desejo de um homem em detrimento de outras que querem conquistar o mesmo objetivo. Se uma fica de fora, a conquista fica um tanto sem graça.

Aquele final de semana foi muito tórrido. Cada menina escolheu o próprio maiô, usando uma canga para dar um toque de sobriedade – como se um simples pano fosse impedir olhares obscenos para todas nós. Quem se sentia em casa era a Naru; ela não andava, ela desfilava entre as mesas. Devo admitir que a Naru é uma força da natureza, e que lugares onde a beleza é apreciada são os ecossistemas ideais para nossa ruiva fatal. Não faltaram propostas de trabalho, inclusive em revistas masculinas de alto gabarito como a Playboy.

O bar temático nos permitiu, indubitavelmente, abrirmos outras frentes de trabalho. Naru começou a ganhar dinheiro extra como modelo e cantora; a Motoko assumiu a carreira televisiva (precisava de um dinheiro extra para pagar os estudos e a pensão) e tornou-se um grande ídolo participando de um programa de luta; choveram convites de encontros para a Shinobu e a Kaolla – todos obviamente recusados, já que um dos objetivos do bar era chamar a atenção de um homem em especial. Eu comecei a conhecer melhor o mundo do entretenimento noturno – conforme disse, não era meu objetivo fazer faculdade, então tive que aprender na prática como gerenciar empreendimentos comerciais. Além disso, ganhei um dinheiro extra posando nua para algumas revistas masculinas (graças aos meus dotes físicos e minha habilidade para fazer bons negócios).

A Kanako aproveitou os bons fluídos para colocar as novas moradoras em outros empreendimentos. Como não podia fazer tudo sozinha, pediu a ajuda de Mizuho – que estava fora do bar por motivos que prefiro esquecer – para tomar conta desses negócios paralelos. A Kanako não tinha outras ambições senão tocar o empreendimento familiar e conquistar o Kei-kun.

Falando na Mizuho, notei que ela começou a ficar de fora da disputa pelo Keitaro. Logo a garota que chegou na pensão causando uma grande celeuma desistiu de lutar – e eu não consigo entender o porquê. Essa garota é estranha; ela esconde as coisas de forma a não deixar margem para uma real especulação do que ela realmente pretende. Ela consegue desconversar uma pessoa como poucos, melhor até que eu faço.

Só que o tempo passou, e algumas das pessoas envolvidas iriam nos deixar. Afinal, Naru, Mutsumi e Keitaro vão se formar na Toudai, e terão que deixar o empreendimento. Uma pena, pois foi uma grande aventura que todas nós fizemos juntas, além de ter sido uma chance de ficar próxima de meu amor.


PV: NARU

O último dia dos Toudaiseis no bar temático. Uma festa para relembrar bons momentos com muita saudade. Foi uma festa fechada, somente para convidados VIP e as moradoras da pensão. Nem todos os Toudaiseis deixarão o empreendimento: a Motoko-chan finalmente conseguiu entrar em Direito e ela permanecerá no negócio.

Olhando para tudo o que passei, eu considero que lucrei com tudo isso. Pude demonstar diversas facetas minhas para o Kei-kun. No final, o bar serviu para ganhar um dinheiro extra e para se mostrar como a escolha ideal para ele. Aquele homem tem muita sorte, pois quando um bobalhão teria tantas mulheres bonitas loucas para formar um par? E, sem nenhuma ingenuidade, ir para a cama com ele; o desejo sexual faz parte do amar entre homem e mulher.

Lembrei-me quando usamos trajes de praia como adereços do bar. Foi uma legítima festa de verão. Decidi apostar com tudo: escolhi um maiô branco com uma canga quase transparente, no tom da minha pele quando bronzeada. Além da roupa, fiz diversas sessões de bronzeamento artifical com trajes mínimos – não queria marcas de bronzeamento muito evidentes e, vejam só, foi conselho da Mutsumi-san... Agora sei por que a garota-tartaruga tem uma pele tão bonita – ela confessou que aproveita a solidão da praia onde mora em Okinawa para se bronzear nua nos horários adequados. São detalhes que deixam claro que a garota-melancia não é tão desligada quanto parece: ela é muito vaidosa e sabe muito bem o que quer.

E, falando mais na Mutsumi, lembrei-me como ela estava naquele final de semana. Ela estava radiante, com um maiô bege bem claro, e uma canga xadrez em tons de preto-e-branco. Aquele traje demonstrava muito bem as curvas e saliências da Mutsumi. Ela estava linda com aquele traje, além de usar um rabo-de-cavalo todo encaracolado; simplesmente divina. De longe, era a minha principal rival no quesito beleza, além de ter uma simpatia cativante. Diversos homens, alguns com muito poder e dinheiro, ofecereceram mundos e fundos para ter o direito de uma noite de sexo com ela. Delicamente, ela recusava todas essas propostas indecentes, continuando a servir com um sorriso sempre cativante. No fundo, percebi que ela estava muito magoada com aquele tipo de homem – e eu dou total razão a ela.

Em um determinado momento daquele dia, estava tão corrido devido à grande quantidade de pedidos, que eu, a Mutsumi e a Motoko fomos descansar, indo até a cozinha para tomar algum refresco. Foi quando ela decidiu soltar os sentimentos. Notei algumas lágrimas correndo pelo rosto da Mutsumi-san, e tal imagem não combina com ela. Fiquei muito preocupada e decidi intervir, inquirindo-a: "Amiga, o que há de errado? Se algum cliente te maltratou, vai se ver comigo!"

Motoko também assegurou, dizendo: "Isso mesmo. Não vamos deixar um playboy ofender uma garota tão especial."

Mutsumi sorriu e encarou-nos ternamente, perguntando: "Mesmo que eu deseje o mesmo homem que vocês?"

Motoko amenizou as feições e respondeu: "Não confunda, minha flor... Somos amigas, e a competição pelo Kei-kun é franca desde que toda essa balburdia começou. Creio que ninguém pode ficar brava contigo. Pelo menos, eu não fico."

Eu completei: "Claro, Mutsumi-san! Somos garotas lindas, gostosas e inteligentes. Não precisamos desses babacas para dizer o quão especiais somos. Vamos voltar e mostrar que eles são apenas clientes, não semideuses! As deusas aqui somos nós!"

Após darmos uma boa risada, a Mutsumi se levantou timidamente e saiu da cozinha conosco. Ao aproximar-se de mim e da Motoko, falou com um sorriso um tanto enigmático: "Eu amo vocês duas. De verdade..."

Algumas vezes, a garota-melancia consegue tomar atitudes estranhas. Ela pegou e deu um beijo na Motoko-chan; até aí eu já estou acostumada, pois esse é um jeito que ela tem de cumprimentar os mais chegados. O problema foi quando ela se aproximou para me beijar. Ela me deu um beijo apaixonado, de língua! Eu e a Motoko ficamos paralisadas por um breve momento, bem estupefatas... E para completar, ela seguiu adiante e, antes de abrir a cortina que separa a cozinha do salão do bar, ela nos encarou e deu uma piscadela, seguida de um sorriso malicioso. Então disse: "Principalmente você, Naru-san..."

Depois que a Mutsumi saiu da cozinha, eu encarei a Motoko e consegui apenas comentar: "Você entendeu algo? Ela ficou chateada com as propostas indecentes dos nossos clientes, mas age dessa maneira com a gente? Eu... Eu simplesmente não entendo."

Depois que a nossa espadachim se tornou uma Toudaisei, ela começou a ter uma outra atitude sobre alguns fatos da vida. Ela demonstrou isso quando ela respondeu, após refletir um pouco sobre o que recém tinha acontecido: "Ela talvez não goste de ser tratada como um objeto que se possa comprar e vender, mas isso não significa que ela deva esconder o que sente de quem ela gosta. Ela é sincera, ela talvez encare o sexo de uma forma natural. Ela ficou triste, provavelmente, por existirem pessoas que tratam certos assuntos como se fossem simples mercadorias, não enxergam além da sacanagem. Creio que seja isso, além do óbvio..."

A última frase me deixou confusa. Antes de separar-me de Motoko, puxei-a pelo braço e questionei: "E o que é óbvio? Desculpa, mas não vejo o que pode ser tão óbvio além de que a Mutsumi-san ama o Kei-kun..."

A explicação de Motoko caiu como uma bomba: "Lutar pelo Urashima-senpai me ajudou a entender e observar algumas facetas dos sentimentos humanos que eu antes negava existir. Você não consegue perceber? Ela te ama tanto quanto ama o Kei-kun!"

A príncipio, respondi que a Mutsumi ama qualquer coisa que se mexa e emita algum tipo de som. Foi quando a Motoko me alertou: não era um amor genérico, era um tipo especial de demonstrar amor. Aquilo sim caiu como uma bomba atômica; não conseguia ver a Mutsumi como uma bissexual. Motoko completou: "Talvez aceitar algumas coisas como normais seja uma tarefa difícil, mas elas não deixam de acontecer. Ela é meiga, livre de rancor e um tanto avoada, mas ela sabe o que quer."

Eu repliquei: "Eu sei. Ela quer o Kei-kun, como todas nós queremos."

"Naru-san, isso é óbvio para todos, mas nem todos reparam que existem outras formas de amar. Podem não ser biologicamente proficientes, mas são formas de amar. Você tem preconceito em relação a relacionamentos alternativos, Naru-san?", disse Motoko. Fiquei ação por algum tempo, até que organizei as idéias e tentei falar algo.

"Talvez eu tenha. Não considero isso tão natural, embora concorde que pareça algo natural para a Mutsumi. Ela é tão cheia de meiguice, de calor humano. Parece natural que ela ame a diversas pessoas.", respondi. Motoko me deu um olhar sério.

"Mas entenda que, repito, existem diversas formas de amar. Ela tem um grande amor fraternal por todas as pessoas que ela conhece. Mas o que nós entendemos por paixão, por tesão, ela tem dois alvos. Um você já sabia. O outro alvo você está sabendo agora, Naru-san...", respondeu Motoko.

"Sou eu, não é?", retruquei.

"Você sente nojo?", perguntou Motoko, um tanto encabulada.

"Não nojo, mas tenho um certo receio. Você... Você ama uma outra mulher, Motoko?", questionei. Senti-me um lixo quando fiz a pergunta, mas precisava saber.

"Não, mas já tive essa mesma dúvida, e tive uma experiência que me esclareceu muito sobre as diferentes formas de amar.", falou Motoko, encarando-me calmamente enquanto abrigava minha mão entre ambas as mãos dela. Depois disso, ela me puxou e conduziu-me até as cadeiras onde as meninas descansavam durante o horário de trabalho.

"Foi na faculdade. Estou no primeiro ano, então tudo parece deslumbrante. Tudo é diferente, você vislumbra o local onde irá aprender a profissão que tanto quer, fora que a Toudai tem tantos locais para se entreter. Você já sabe disso, não é, Naru-san?", disse Motoko com um ar de nostalgia. Eu entendia o que ela queria dizer, é a mesma coisa que todo calouro sente ao entrar para a Toudai.

Aliás, foi uma festa quando a Motoko entrou para a Toudai, a nossa garota-kendo finalmente conseguiu uma das coisas que ela sempre quis. Bem, tem também a superstição de conseguir o verdadeiro amado ao passar pelos portões da Toudai, mas não vou entrar em tal mérito. Lembro-me da festança que fizemos no bar; bebemos até altas horas com vários convidados. Foi quando conhecemos outros membros do clã Aoyama, os quais não são tão amigáveis quanto Tsuruko é...

Meu pensamento foi quebrado pela Motoko, que continuou a explicar: "Quando a gente entra na rotina, pode-se notar algumas peculiaridades de certas pessoas. Geralmente, os estudantes universitários são muito festeiros, alguns vivendo de bar em bar... Bem, eu prefiro me dedicar aos estudos, pois já tenho o bar para ajudar a tocar nos finais de semana. Então formei um grupo de estudos só com garotas; não descobrimos algum garoto equilibrado entre nossos colegas. Prestando atenção, Naru-san?"

"Claro colega! Quero saber como foi essa experiência que mudou teus conceitos!", esclareci jovialmente. E realmente estava muito interessada.

"Pois havia uma menina... Vocês não a conheceram ainda, eu nunca a trouxe aqui – e ela mesma não gosta muito de badalação. Ela se chama Yuuko. Ela entrou para o Direito sonhando ser uma defensora pública. Nossa, ela é uma sonhadora... Ela desejo muito trabalhar em causas públicas, na defesa de minorias... Uma pessoa diferente em todos os sentidos.", relatou Motoko, rindo ao dizer as últimas palavras.

"Parece mesmo.", eu observei.

"Pois então, é uma menina atrapalhada, muito magra, usa um cabelo até quase as coxas, usa óculos tartaruga... Que mais... Não deve ter mais que 160cm, é a mais inteligente da sala, tem um olhar um pouco distante... Para não dizer oligofrênico... Enfim, tem cara de CDF, a típica estudiosa, inocente e besta... Não está na lista das garotas mais populares... A única coisa que fisicamente sobressai nela são os peitos, que não são tão pequenos – como ela é quase uma tábua, eles acabam se sobressaindo muito, apesar de não serem do estilo "melões". Os únicos momentos de popularidade dela são as épocas de prova, quando os riquinhos vão encher o saco dela.", contou Motoko.

"Tadinha dela... Só lembravam dela para ser explorada...", comentei, penalizada com o relato da Motoko. Lembrei-me das minhas colegas interesseiras.

"Foi no nosso grupo de estudo que ela descobriu pessoas que tentavam compreende-la. Cheguei a convida-la para conhecer o nosso bar, mas ela se encabulou e reclinou. Foi quando eu notei que ela estava se isolando. Poxa, recém estamos no primeiro ano de faculdade e ela estava reclusa... Se continuasse assim, não iria terminar a faculdade.", relatou Motoko. Percebi, pelo tom de voz, que a Motoko se preocupava com aquela menina.

Motoko suspirou profundamente, e continuou: "Um dia desses, vi-a sentada na praça central da Toudai, naqueles bancos mimosos que estão próximos ao jardim. Estava chorando... Perguntei o que estava acontencendo. Foi quando ela me explicou que estava cansada de ser apenas um amuleto para estudantes ociosos... Pessoas que nunca poderiam entender a profundidade de uma pessoa...".

Percebi que eu mesma estava chorando. Lembrei-me que era motivo de charcota por não conseguir falar. Eu era o "patinho feio" da minha turma no fundamental. Vinguei-me deles na adolescência, quando me tornei uma linda mulher. Pude esnobar todos aqueles rapazes abusados, até ser ignorada pelo Seta-san... Foi a primeira dica que achar o verdadeiro amor não iria ser fácil. Motoko limpou minhas lágrimas e inquiriu-me: "Tudo bem contigo? Posso continuar?".

Respondi-lhe: "Claro que sim, é que apenas me identifiquei com os problemas dessa garota... Também já fui um 'patinho feio'.".

Motoko sorriu e ironizou: "Quem diria, hein, Naru-san... Então você sabe o que a Yuuko sentia... Se bem que você hoje está muito mais para a Branca de Neve...".

"Está bem; continue a história, sua sabichona...", resmunguei, bastante encabulada.

Motoko então contou: "O mais estranho foi o que ela confessou depois. Ela sabia que não tinha dotes físicos favoráveis, mas o que a amendrontava era um comportamento não-ortodoxo... Pedi para que fosse mais clara, e somente me disse 'Eu te amo"... Assim, bem baixinho... Aquilo me deixou sem chão... Sabia que meu clã acharia isso imperdoável. Disse-lhe que me encontrasse um outro dia, num local mais reservado. Ali não era o local. Aceitei ir na casa dela... Afinal, eu e nosso grupinho de partizans éramos os únicos que íamos lá...".

"Yuuko sabia que a sociedade não iria perdoa-la por ser tão diferente...", concluí.

Motoko emendou: "Exato! Eu achei que devia animá-la. No dia marcado, fui na casa de Yuuko. Ela morava sozinha em um pequeno cubículo. Ela estava me esperando com uma pequena janta. Vestia um hobby lilás, bem velpudo. Foi quando eu tive uma idéia, pois eu mesma comecei a duvidar do que realmente sentia pela Yuuko...".

"E qual foi?", perguntei com muita curiosidade.

"Eu vi, há algum tempo, um filme um tanto escandaloso, em que o psicoterapeuta mantinha relações sexuais com as pacientes. Nenhum envolvimento amoroso; o terapeuta do filme simplesmente transava e, durante o clímax da paciente, ele aproveitava para liberar os traumas da mesma (3). Compadeci da Yuuko e, não sei por que cargas d'água, decidi fazer o mesmo.", confessou Motoko.

"Motoko-chan, taí algo que eu jamais imaginaria que você iria fazer...", falei boquiaberta.

"Nem eu, Naru-san... Como eu lhe disse há algum tempo, existem determinados momentos em que você encara o desafio ou simplesmente contorna a situação. Eu escolhi encarar o problema. Sou uma samurai, diabos! Devo fazer o que acho certo e que seja conveniente com a situação. Decidi encarnar aquele psicoterapeuta... Apesar de não tirar o Kei-kun da cabeça, considerei aquilo algo prioritário. Vamos dizer que eu precisava ter uma experiência daquele tipo...", desabafou Motoko.

"Entendo. E como foi?", inquiri muito curiosa. Era a primeira vez que ouvia falar de terapia sexual. Pelo menos, daquele jeito. E imaginar que a Motoko já quis se deitar com uma outra mulher é mais surpreendente ainda.

"Eu fiz a proposta para Yuuko. Disse-lhe que não era paixão, seria uma tentativa de saber o que tanto a atormentava, além de querer saber qual era a sensação de transar com uma mulher. Bom, como ela estava louca por mim, não foi difícil. Transamos a noite toda. Toda vez que ela entrava em orgasmo, eu dizia uma palavra-chave e Yuuko deveria dizer tudo que aquela palavra significava para ela, durante o momento do clímax. Devo confessar que tal procedimento é perigoso... Durante o orgasmo, a pessoa liberta todo o próprio ser na forma de prazer. Se isso for mal conduzido, a pessoa pode entrar em um surto psicótico incontrolável. Pude atestar isso na minha frente; o sexo é uma força poderosa. Literalmente, Yuuko estava nas minhas mãos.", descreveu Motoko. Aquele relato me impressionou muito.

"E deu certo?", eu quis saber.

"Para Yuuko, até demais. Yuuko se libertou naquele dia, e eu descobri que meu negócio realmente é homem. E um homem especial, não concorda?", respondeu Motoko, cutucando-me e dando uma piscadela.

Eu sorri em concordância. E descobri mais tarde quem era Yuuko, e ela arranjou um namorado; ela estava saindo com um pianista de câmara... No final, Yuuko tinha medo de se machucar em uma relação sexual... E Motoko conseguiu orientá-la adequadamente, pois é terrível uma pessoa tentar ser o que ela não é. Uma terapia arriscada, mas que foi eficiente.

Motoko concluiu: "Pense sobre isso, Naru-san. Eu aprendi tanta coisa... Com o Urashima-senpai, com todas vocês, com as loucuras de Tsuruko, com todos que conheci na Toudai. Aprendi, acima de tudo, tolerância. Vocês mesmas disseram que meu clã não irá me guiar em todos os momentos da minha vida. Por isso, aprendi a demonstrar o que sinto conforme a situação...".

Eu questionei: "Como assim?".

Motoko apenas se inclinou e deu-me um doce beijo em meus lábios. Foram segundos que foram tão esclarecedores quanto as explicações. Depois daquela demonstração de carinho, Motoko se levantou e dirigiu-se ao bar. Ela virou na minha direção antes de passar pela porta e falou, dando uma piscadela: "Entendeu agora? O que você acha que foi esse meu beijo?".

"Sim, agora está claro! Foi o beijo de uma grande amiga!", disse-lhe sorrindo. Devemos estar receptivos às manifestações de carinho. E saber quando devemos ter intimidade para determinadas demonstrações, pois não temos o direito de embaraçar os outros com nossas demonstrações de amizade. Para mim, aquela conversa foi o momento mais importante que vivenciei no bar. Carrego aquele momento no meu coração. Despedir-me daquele empreendimento é difícil, mas é necessário; no final do ano, eu me formarei e iniciarei uma nova jornada.

Só não sei o que fazer com o amor de Mutsumi por mim. Mas, em primeiro lugar, devo me preocupar em conquistar o Kei-kun. Talvez a festa de despedida me ilumine as idéias sobre tudo isso.


PV: SHINOBU

Passou-se um ano, e nosso empreendimento foi mais exitoso que eu poderia imaginar. A principal lição que tive no bar foi enfrentar a minha timidez em momentos de confronto; alguns problemas com clientes alcoolizados me serviram como campo de prova para o meu futuro profissional.

Pena que o bar temático perderá três pessoas especiais, já que elas irão se formar na Toudai daqui a poucos meses. O que me deixa um tanto triste é que meu Kei-kun é uma delas; também sentirei falta das outras meninas. Outra lição: tudo tem um fim, sejam tanto as coisas ruins quanto as boas. Por isso, sempre devemos ter outros objetivos para preencher a nossa felicidade. O ditado já afirmava: "Pedras que rolam não criam limo".

Um exemplo é a Motoko-san... Ela finalmente entrou na Toudai neste ano, satisfazendo uma das coisas que certamente trariam realização pessoal para a nossa espadachim. A entrada no curso de Direito deixou a Motoko tão... Tão expansiva! É como se uma nova Motoko surgisse das cinzas.

Essa nova Motoko me incentivou a perseguir novas metas. Aconselhou-me a participar da gerência, como um braço-direito da Kanako. A irmã do Keitaro estava sempre exausta no final no dia, preocupada com gastos e outras coisas mais, e a Motoko afirmou que eu tinha um talento em ajudar as outras pessoas a alcançarem objetivos.

Aquilo realmente me inspirou. Pedi para Kanako que eu e a Mizuho tomássemos conta do acolhimento das novas moradoras, inclusive incentivando que as moradoras seguissem os estatutos da pensão e participassem das tarefas. Kanako adorou a idéia, pois assim teria mais tempo para cuidar de negócios e do dinheiro.

Por que eu escolhi a Mizuho? Bem, notei que ela foi hostilizada na história do bar temático, sentindo-se como se fosse um peso morto na pensão. Ela tem um dom para relações públicas – creio que ela será uma ótima professora no futuro, pois sabe se comunicar de um forma criativa e eficiente –, e pedir para que ela ajudasse seria uma forma de dizer "bem-vinda ao time".

Sobre a Toudai, eu e a Kaolla não tivemos o mesmo êxito da Motoko, mas ainda estamos na luta. O sucesso da Motoko foi como um combustível para a nossa esperança. Nos momentos fora do expediente, nós duas estudávamos muito, e tentamos manter um ritmo bom para tentar arrebentar no final do ano. Aliás, todas as novas moradoras inflacionaram o grupo das "novas ronins", pois a fama de que as garotas que lá moram têm sorte da Toudai e que ser aceita no Hinata-sou seria quase um atestado de beleza foram os carros-chefes da grande procura. A fama de beleza veio do bar temático, com certeza...

Com a inflação de moradoras, eu e a Mizuho – com alguma ajuda da Kaolla –, aproveitamos a nova e crescente fama do Hinata-sou para criar negócios paralelos ao bar: uma equipe atlética das meninas (com times de diversos esportes e artes marciais), uma orquestra rock e uma equipe para organizar eventos sociais. Sempre metade dos lucros era destinada para projetos sociais, o que dava um ar de solidariedade para nossos empreendimentos. Todas foram formas de aproveitar a beleza das moradoras para ganhar dinheiro, sempre procurando não expô-las ao ridículo. Sem querer, éramos praticamente uma agência de modelos. Procurávamos, no entanto, integrar todas as meninas, mesmo as que não tinham perfil para ser modelo – a equipe de esportes abrigava as meninas que não participavam dos eventos sociais, junto com algumas beldades que tinham talento esportivo.

E por falar em beleza, obviamente a Naru-san foi a grande beneficiada com tudo isso. Apesar de não ir em todos os eventos (pois existiam compromissos relacionados à Toudai), sempre ela era o centro das atenções de todos. Provocava inveja das mulheres e despertava a cobiça dos homens. Nada mau para quem foi Miss Toudai representando o curso de Matemática logo no ano de calouro. Ela era uma pessoa diferenciada, pois ela tinha uma beleza e um estilo sempre se destacavam entre a multidão.

Ela recebeu muitas propostas, sejam indecentes ou não, mas rejeitou quase todas... Acabou fazendo alguns trabalhos, mas o amor que ela sentia pelo Kei-kun a impediu de voar mais longe. Naru não queria sair de perto do Urashima-senpai de jeito nenhum. Aquele homem é o grande objetivo da vida dela.

Quanto a mim? Estou em uma situação parecida com a da Naru. Recebi muitos convites, mas o show business não é para mim. Quero uma vida simples, com o homem que tanto quero. Só que percebi que não tenho competir com monstros sagrados como Naru, Motoko, Mutsumi ou Kitsune. As demais garotas serão sempre eternas menininhas para o nosso kanrinrin, e é duro conviver no mesmo local onde também vive alguém que você deseje tanto.

Enquanto preparo o salão para a festa de despedida, penso em tudo isso. Alguma hora, o Urashima-senpai escolherá alguém, e aí meu coração finalmente estará livre para procurar um outro alguém. Enquanto ele estiver só, sempre sobrará uma última esperança de conquistar o Kei-kun, e essa incerteza é o que mais me corrói. Se não estivesse ocupada com outras tarefas e objetivos, estaria perdida.

Só me resta procurar a felicidade por mim mesma, seja de que forma for.


PV: HARUKA

Bem, uma festa de despedida no bar temático. Apesar de participar daquele empreendimento, não tenho paciência para tanta badalação; não consigo viver o mundo do glamour, da alta sociedade. Eu até gosto de um certo requinte, mas desde que não seja algo muito complexo. Eu sou sincera e pobre demais para ser chique.

A única coisa que não posso me queixar é que as meninas amadureceram. Quando se entra de cabeça em um investimento desse tipo, deve-se fazer escolhas e assumir as conseqüências. Se você não era uma pessoa decidida antes de iniciar um negócio, você só sobrevive se aprender a ser firme quando necessário e flexível quando as alternativas pensadas não resolvem o problema enfrentado. As garotas, nesse ponto, cresceram bastante.

As garotas fizeram de tudo para me reaproximar do Seta, usando o bar como um meio, mas foi um dos poucos fracassos que elas colecionaram na jornada delas como empresárias. Aquele bobalhão não tem jeito mesmo... Por que ele não consegue dizer "eu te amo"? Ele não leva nada a sério, exceto a arqueologia. Acabamos tendo uma briga muito feia; foi uma das poucas vezes em que o Seta saiu da linha. O Keitaro teve que intervir, ou sangue iria correr.

Naquele momento, senti que tudo acabou. Cansei de esperar um sujeito tão egocêntrico e irresponsável. Fiquei abatida durante semanas, tendo o Keitaro como meu confidente. Foi quando percebi porque um sujeito tão desligado como o Keitaro é cobiçado... Meu sobrinho é tão doce, compreensivo... E bonito; nunca tinha reparado para as feições do rosto dele... E a prática diária de exercícios mais os treinos de luta moldaram o corpo dele. Keitaro sempre se manteve muito discreto quando ajuda alguém com problemas, e isso também é algo que conquista a confiança dos outros. Enfim, meu sobrinho é um partidaço que se esconde atrás de um homem desastrado e desligado.

Com o meu rompimento com o Seta, precisei discutir com o Keitaro como ficaria a situação da Sarah na pensão e no bar temático. O Keitaro me garantiu que iria conversar com o Seta e a Sarah para saber o que se poderia fazer. No final, ficou acertado que a Sarah poderia ficar entre nós. Notei que a Sarah se afeiçoou ao Keitaro... Ela está crescendo, entrando na adolescência... Acho que a pequena estadunidense está, apesar das aparências, tendo uma queda pelo Keitaro...

Vejam o que a convivência é capaz de fazer... Além da Sarah, algumas das novas residentes também começaram a lançar olhares de cobiça sobre o kanrinrin. Não sei o Keitaro-kun notou ou não, mas não o percebi dando esperança de qualquer tipo de relacionamento mais profundo que a amizade. O Keitaro se demonstrou mais preocupado com o que vai fazer depois da formatura do que com relacionamentos amorosos; ele tem noção de que algumas das garotas fariam qualquer coisa para agarra-lo. No final, eu me transformei em um anteparo, um abrigo para o Keitaro não se meter em confusão; ele sabe que as garotas não fariam nada que me indispusesse contra elas. Eu o protejo do ataque das meninas e ele me consola da tristeza que sinto depois de ter rompido com o Seta.

É uma pena que algumas das meninas deverão sair dos diversos projetos que estão em andamento no Hinata-sou. De qualquer forma, elas são vencedoras. Souberam ultrapassar dificuldades, lidar com pessoas difíceis com ações conforme a situação exigia... Como tudo não é perfeito, só falta saber lidar com a paixão, mas isso o tempo ensina... Assim espero, pois nem eu ainda consegui lidar com a paixão!


Capítulo feito entre 28/12/2005 e 27/01/2006. Nossa, esse capítulo ficou bem longo, não é verdade? Talvez para compensar a demora em atualizar a saga. No próximo capítulo, haverá um conclusão para a festa de despedida de Naru, Mutsumi e Keitaro. De certa forma, Mizuho também se despede. Agora, a explicação para as notas feitas:

(1) Cosmopolitan é uma revista voltada para o público feminino, de origem americana, e cuja representante no Brasil é a revista Nova!.

(2) Tokuhatsu é nome que designa as séries live-action, ou seja, com atores reais, envolvendo artes marciais e os famosos efeitos especiais da televisão japonesa... Geralmente, aparecem heróis lutando contra monstros.

(3) Este filme se chama Bliss (no Brasil, chamou-se Terapia do Prazer), e o referido terapeuta é interpretado pelo ator inglês Terence Stamp.

King of Fighters é uma marca pertencente a SNK-Playmore, assim como os devidos personagens citados. Aliás, a idéia da garotas de Love Hina fazendo cosplay de KOF eu observei em uma galeria de imagens de LH, e eu achei interessante. Já notaram que muitas das minhas idéias vêm de imagens (tanto originais quanto os fanarts) que acho na Internet, não é?

Sobre a preferência sexual de Mutsumi, eu quis introduzir algum tipo de minoria na história, usando os personagens principais, para fazer uma discussão sobre isso. É um assunto polêmico – e eu adoro polêmica. Espero reviews de todos, ok?