ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 23: Ajuste de Contas

PV: HARUKA

Finalmente o confronto final. A minha cunhada chegaria na manhã seguinte para tomar satisfações sobre a dupla paternidade de Keitaro. Quando dizem que todo homem precisa de uma mulher que saiba o defender, Keitaro é o protótipo. Ele sempre arranja alguma confusão com uma mulher, e uma outra mulher precisa tira-lo do sufoco. Parece que o Keitaro tem esse poder de mobilizar as mulheres que o cercam. Trapalhão sortudo.

No caso da mãe de Keitaro, existia algo pessoal que me motivou a enfrentá-la. E Keitaro descobriria tudo sobre o passado de nós duas no dia seguinte.

Para me preparar apropriadamente para a batalha, Motoko me ajudou a fazer um rápido treinamento; fiquei com o corpo e o espírito prontos para o que seria o desafio mais importante da minha vida. Não é toda hora que se enfrenta os fantasmas do passado de uma forma tão direta. Enfrentar a mãe de Keitaro seria um desabafo para a minha alma. Fui dormir cedo, para tentar me acordar bem disposta.

Os primeiros raios de sol penetraram de forma insistente pelas frestas da janela. Depois de uma boa noite de sono, fui preparar o café da pensão. Keitaro e Mutsumi me ajudaram na árdua tarefa de alimentar uma pensão lotada. Imaginei como a Shinobu conseguia estudar e cozinhar sem que uma atividade prejudicasse a outra. Por falar nela, precisava fazer uma visita a ela um outra dia qualquer... Necessitava saber se ela estava bem.

Depois de tomar o café, eu decidi limpar as escadarias; era um serviço que eu sempre fazia para aliviar algum momento de ansiedade. Dado um momento, vi a silhueta de duas pessoas subindo as escadarias em passos lentos. Aquelas silhuetas eram familiares, e não demorou para eu reconhece-las.

"Há quanto tempo, Haruka...", disse-me a mãe de Keitaro, com um sorriso sardônico.

"Ainda bem que você não é uma visita constante... Yuriko!", disse-lhe com desgosto. Falar o nome daquela mulher me deu náuseas.

O esposo dela, que é meu irmão mais velho e pai de Keitaro, tentou contemporizar: "Haruka, não costumamos vir com freqüência aqui, mas pelo menos...".

Eu nem o deixei terminar, já exclamando: "Desculpa, Tetsuya-san, mas não sou obrigada a atura-la. Ela sempre me tratou como lixo; não vai ser agora que vou fingir que sou uma velha amiga dela!".

Keitaro escutou a discussão e foi até as escadarias. Foi um daqueles momentos em que o tempo pára. Mãe e filho trocaram olhares durante algum tempo. Yuriko se aproximou de Keitaro e exclamou: "Você está cada vez mais lindo, meu filho! Não é à-toa que você conquistou alguns corações... Pelo menos, você gosta de mulher! Eu já estava preocupada...".

Keitaro ficou claramente desgostoso com a observação da mãe sobre a masculinidade dele. Aquele fato o forçou a desabafar: "Mas não parece que EU estou no seu coração, mãe.". Ele ficou cabisbaixo e choramingando. Eu imaginei que dizer tais palavras foi um suplício para o Keitaro, mas ele teria que botar todo o sofrimento para fora.

"Filho, você continua um fraco. E ainda decidiu me dar netos assim, do nada? Como vai sustenta-los? Fazendo buracos? Você vai assumir os negócios de uma vez por todas!", ralhou Yuriko. A mãe do Keitaro pode ter escravizado meu irmão, mas não dominava mais o meu sobrinho.

"Eu não vou.", respondeu Keitaro, ainda cabisbaixo.

"Seu tolo! Eu não estou pedindo, eu estou mandando! Se aqui não te colocaram nos eixos, eu farei direito o serviço!", gritou Yuriko, como se fosse um general.

Aquilo foi o fim da picada para mim. Ela me privou do meu próprio irmão, e agora quer dominar o próprio filho a força! Eu decidi tomar uma atitude, e posicionei-me na frente dela. Yuriko gritou: "Saia da minha frente, sua vagabunda! Estou falando com meu filho!".

Eu protestei à altura: "Seu filho? Engraçado, ele já confessou que gostaria que eu fosse a mãe dele, não você. Não é uma pena que a mãe biológica não conseguiu cativar o fruto do próprio útero?".

Yuriko respondeu: "Mãe, você? Você já era uma aventureira petulante na adolescência, o que mudou agora? Você deve ter consolado o meu filho na cama, isso sim!".

Não consegui me segurar. Aquilo me doeu tanto por dentro que eu joguei a minha sensatez de lado e esbofeteei Yuriko com toda a raiva acumulada ao longo dos anos. Ela me privou do meu irmão e transformou-o em uma marionete. Como eu nunca me submeti a costumes antiquados, tratou de difamar-me perante os anciãos. Ela colocou o meu próprio irmão contra mim.

Com a campanha difamatória de Yuriko, e usando Tetsuya como massa de manobra, fui expulsa do dojo Urashima. Segundo o conselho da família, não tinha mais o direito de representar a família e nem de participar dos negócios. Foi naquela época que saí mundo afora com o Seta, desbravando lugares que eu nunca tinha ouvido falar. No fundo, eu só queria ficar longe daquelas pessoas com uma visão de mundo muito pequena.

Depois de algum tempo, decidi voltar ao Japão. Queria me aquietar, cansei-me de colocar a minha vida em risco diariamente. Eu sabia que a aventura que empreendi com o Seta só acabaria quando eu decidisse parar. Por sorte, a vovó Hina sempre gostou da minha autenticidade e deu-me guarida. A vovó Hina nunca deu muita bola para convenções e disponibilizou-se em continuar o meu treinamento.

Essa amarga recapitulação mental ocorreu no momento em que desferi o tapa em Yuriko. O tapa foi tão violento que ela caiu no chão. Tetsuya foi ao encontro de Yuriko, para verificar se ela estava bem. Ele chegou a ralhar comigo: "Haruka, o que foi isso? Você está louca?".

Eu respondi: "Não, eu estou muito bem. Há muito tempo que eu desejava descontar minha raiva contra essa mulher ardilosa.".

Tetsuya exclamou: "Não admito que fale assim da minha mulher!".

Aquilo me obrigou a desabafar: "Mas você deixou a sua mulher me difamar perante o conselho do nosso clã, não foi? Deixou que essa víbora me denegrisse, logo eu que sou sangue do teu sangue? É duro admitir, mas você não tem mais nenhum significado em minha vida!".

Tetsuya ficou cabisbaixo. De fato, nada que ele dissesse mudaria o passado, nem melhoraria a nossa relação como irmãos. Kanako observou tudo em silêncio e com terror no olhar. Keitaro continuava cabisbaixo e chorando, provavelmente decepcionado. Como é difícil descobrir que passamos a vida cercados por patifes.

Yuriko se levantou e agarrou o braço esquerdo de Keitaro, dizendo: "Vamos embora. Está na hora de você ser um homem de verdade!".

Keitaro puxou o braço para si, desvencilhando-se de Yuriko. Daí ele ergueu cabeça e falou: "Não irei com você a lugar nenhum. Saia da minha vida. Se você não consegue ser minha mãe nos momentos que mais preciso do seu carinho, então não me chame de filho. Nunca mais!".

Kanako se posicionou atrás de Keitaro e colocou as mãos dela sobre os ombros dele. Então, Kanako balbuciou: "Não sei mais se conheço a mulher que me adotou. Ela gosta tanto de mim, mas tem ódio pelo fruto da própria carne. Não sei o que fazer, irmãozão...".

Keitaro disse: "Kanako, Yuriko sempre gostou de você. O problema é comigo. Não brigue com alguém sem necessidade. Eu só... Eu só não reconheço mais a Yuriko como minha mãe. Não assuma para você a minha decepção.".

Tetsuya ainda tentou dar voz de comando ao filho: "Filho, obedeça a sua mãe!".

Keitaro se aproximou de mim e disse, encarando Tetsuya: "Sim, eu devo obedecer a minha mãe...". Ele se voltou para mim e falou: "Mãe, o que você quer que eu faça?".

Aquilo surpreendeu a todos, eu inclusive. Chamar-me de mãe em público, negando a própria mãe biológica, é algo muito sério. Eu mesma fiquei sem reação. Yuriko veio até mim e disse: "E essa agora? Querendo roubar o meu filho? Além de ordinária, também é ladra?".

Eu a fitei firme e respondi: "Não roubei nada; você é que deixou o próprio rebento escorrer entre os dedos. Aceite o fato que o Keitaro não vê mais autoridade materna em você, Yuriko.".

Yuriko pulou de raiva e protestou: "Sim, agora meu próprio filho acha que pode me jogar no lixo? Isso não ficará assim!".

Eu respondi de cara: "E não vai ficar mesmo. Quero que você me passe o pátrio poder do Keitaro para mim. Eu o adotarei como meu filho, já que você não fez o serviço direito.".

Yuriko retrucou: "De jeito nenhum! Não vou perder nada para você!".

Eu falei: "Nem se for em uma batalha? Aqui e agora, vamos resolver nossas diferenças em um duelo. Quem ganhar, fica com o pátrio poder. Você topa, ou você tem medo de perder para mim?".

Yuriko me fitou com raiva e respondeu: "Medo de você? Haruka, você é uma tola se acha que pode me ganhar! Claro que aceito o duelo. Vamos para o pátio de entrada do Hinata-sou e lá brigaremos.".

As garotas, que se aproximaram após a discussão pegar fogo, exclamaram em surpresa. Todos que ali estavam se dirigiram até o referido pátio. As moradoras da pensão nos cercaram pela laterais do pátio. Eu e Yuriko nos posicionamos nos extremos opostos. Motoko daria o sinal para iniciar o duelo.

"Prontas?", perguntou Motoko. Eu e Yuriko meneamos em afirmativo.

"Atenção... Comecem!", ordenou Motoko, saindo do campo de luta. Naquele momento, começou a minha chance de dar o troco.


PV: MIZUHO

Que mundo estranho é esse? Parece que existe um grande abismo entre certas pessoas... Foi o que senti ao ver Haruka e Yuriko. Tanta decepção, tanto ressentimento, tanto ódio. E o Kei-kun acabou no meio do fogo cruzado que existia entre elas.

Quando Motoko deu o sinal para o combate, tive a sensação de que éramos testemunhas de um acerto final entre duas mulheres que jamais aceitariam um armistício sem antes lutar até o fim.

Não sou acostumada com lutas, mas os comentários das outras meninas me indicavam que as duas lutadoras eram experientes. Deveria ser um desafio tão intenso quando foi o de Motoko contra Megumi. A diferença era que Haruka e Yuriko lutavam de mãos limpas.

Motoko estava ao meu lado, eu então comentei com ela: "Não sei muito sobre artes marciais, mas os estilos são diferentes, não é?".

Motoko esclareceu: "Haruka usa o estilo de karate da família Urashima; Yuriko usa uma variação de boxe chinês que também deve ser da família dela. Não se esqueça que o pai do Keitaro é da família Urashima, não Yuriko.".

A luta ficou quente. Para escapar dos sucessivos golpes de Yuriko, Haruka deu diversos pulos nas estruturas do Hinata-sou até alcançar o telhado. Yuriko a perseguiu e foi até onde a Haruka estava. Concluí que seria difícil acompanhar a luta das duas.

Muitas meninas correram para dentro do Hinata-sou. Quando todas estavam lá dentro, alguém gritou que elas estavam nas termas. Como a área das termas é pequena em relação ao pátio, nem todas conseguiram entrar. Percebendo a confusão, Haruka decidiu voltar ao telhado. Yuriko gritou com raiva: "Qual é a sua? Lute direito, sua medrosa! Não fuja de mim!".

E lá Yuriko atrás dela. As garotas que tinham habilidades de luta conseguiram acompanhar os movimentos das duelistas; as outras tinham que subir escadarias ou subir com dificuldade as armações da pensão. Na correria para chegar ao terraço, alguém que conseguia acompanhar a luta adequadamente gritou: "Elas foram para o pátio dos fundos!". Ai, Kami-sama! Eu sou um profissional de História, não de lutas!

Aquela confusão toda me lembrou aqueles filmes chineses com lutas, onde a platéia acompanha a movimentação dos lutadores. Eu ri quando a comparação me veio à mente. Mas minha preocupação era outra: eu estava de olho em Motoko. A bela espadachim estava grávida, e não queria que ela perdesse o filho por se meter em confusão. Eu percebi que Kitsune cuidava da Naru, mas isso não deixou minha tarefa mais fácil... Motoko era ágil demais para que eu pudesse acompanha-la todo o momento.

Quando a luta voltou para o chão, consegui alcançar Motoko. Eu a peguei pela mão e olhei para ela com preocupação. Ela sorriu para mim e disse: "Obrigada por se preocupar comigo... Ou melhor, como meu filho...". Eu sorri como resposta.

Eu notei que Haruka tinha dificuldade em lutar com Yuriko, e eu comentei: "Motoko, a Yuriko parece ser mais rápida que a Haruka...".

Motoko respondeu: "O estilo de luta da Yuriko tem na rapidez dos golpes uma característica marcante. Haruka tem que se defender até encaixar um bom golpe... Eu já sei o que Haruka quer fazer... Preste atenção!".

O que eu via era uma mulher que tinha dificuldade de lutar contra uma adversária que tem uma técnica mais rápida. De repente, Haruka deu uma acrobacia para trás, distanciando-se de Yuriko. Após aterrisar, ela disse: "Você é rápida, mas é tão fraca... Não sabe dar um soco de verdade? Bate bem aqui, se você puder...".

A Haruka abriu a guarda e expôs o lado esquerdo da caixa torácica. As meninas ficaram atônitas, exceto Motoko. A garota kendo tinha um sorriso que transmitia confiança. Yuriko também se surpreendeu e falou: "Você é louca? Não irá resistir a um golpe direto no peito!".

Haruka falou sem hesitar: "Com esse soco fraquinho? Duvido muito... Terás que provar que você está certa, não eu!".

Yuriko sorriu e partiu com tudo contra a Haruka, culminando em um golpe certeiro no peito de Haruka. Aquilo doeu até em mim! As meninas ficaram alarmadas, mas Haruka comentou: "Você chama isso de soco? Você terá que caprichar mais se quiser me derrubar. Por enquanto, o que você chama de soco não passa de uma boa carícia...".

Yuriko ficou enraivecida e fez um novo ataque. O golpe foi mais forte que o anterior, fazendo que Haruka caísse em genuflexão. A expressão de dor era evidente, mas Haruka se levantou e exclamou: "Agora sim, agora está ficando bom. Mas, como só a prática traz a perfeição, tente de novo. Ou será que você não consegue fazer melhor?".

Yuriko estava arfando, além de manter desconfiança no olhar. De qualquer forma, a mãe do Keitaro ergueu o punho e preparou um novo golpe. Quando Yuriko atingiu Haruka, percebeu-se que o golpe não foi tão forte quanto os primeiros. E Haruka nos proporciou uma reviravolta sensacional! Logo após o golpe de Yuriko, Haruka atingiu a adversária com um direto de esquerda descomunal na face, seguido por um golpe de direita com a mão espalmada – que veio de baixo para cima. Yuriko caiu no chão, sangrando muito no nariz.

Yuriko se levantou com dificuldade e tentou reagir, desferindo um novo golpe contra Haruka. Haruka apenas se desviou e deu uma seqüência de golpes de perna contra diversos pontos do corpo de Yuriko, finalizando a seqüência com uma voadora que derrubou Yuriko. A mãe de Keitaro chegou a girar no ar antes de desfalecer no chão. Haruka se sentou sobre o abdome de Yuriko e agarrou-a pela gola, dizendo: "Renda-se agora!".

Yuriko, com todo o esforço que ainda tinha, disse: "Deixe-me em paz... Se você tanto quer, seja mãe daquele frouxo. Apenas... Não vou lutar mais por ele... Ele não me merece.". Mas que coisa! Nem na derrota aquela mulher perde a soberba. É uma pena que tudo acabou daquele jeito.

Haruka saiu de cima de Yuriko e disse para o irmão: "Tetsuya, leve-a daqui. A luta acabou. Amanhã vamos no registro para oficializar a passagem do pátrio poder para mim!".

Tetsuya ficou cabisbaixo e falou: "Lamento que as coisas ficaram desse jeito, irmã...".

Haruka, protegendo o lado esquerdo do tórax, encarou Tetsuya e disse: "Não se lamente. Ela escolheu viver desse jeito... E você aceitou viver como um escravo das atitudes de Yuriko por opção própria. Vocês ainda têm Kanako; não a percam como perderam o Keitaro.".

Eu e Kitsune levamos Haruka para o hospital. Ela fraturou apenas uma costela. Ainda bem, pois pensávamos que o estrago tinha sido pior. O traumatologista verificou que não havia risco de perfuração pulmonar, esplênica ou cardíaca e que não havia instabilidade funcional, então optou por imobilizar o ombro esquerdo e o tórax. Aquilo nos deixou mais aliviadas, pois temíamos pela vida de Haruka.

Kitsune decidiu cuidar de Haruka naquela noite. Ao voltar para a pensão, rumei para o quarto de Motoko. Eu tinha uma dúvida a resolver. Ao entrar no quarto da futura mamãe, percebi que ela estava arrumando as malas. Então, eu inquiri: "Você vai a Kyoto, não é?".

"Sim, amanhã bem cedo. Eu vou dizer sobre minha situação e esperar a decisão sobre meu futuro no clã. Qualquer que seja a decisão, eu pretendo voltar para o Hinata-sou depois de amanhã.", Motoko explicou.

Eu me sentei em uma das almofadas e comentei: "Clã dos Urashimas, Clã dos Aoyamas... Como ainda é possível existir estruturas feudais em pleno século XXI? Isso é muito antiquado! Ainda bem que família não veio de clã nenhum. Todos os meus familiares são de origem humilde. Você não se sente enclausurada por existirem pessoas que decidem o que você pode ou não fazer?".

Motoko se sentou ao meu lado e explicou: "De uma certa forma, nossa sociedade não é plenamente justa. Os clãs sobrevivem como entidades familiares que mantêm velhas tradições feudais, recriando um clima que bate de frente com o mundo moderno. Eu apenas decidi sair dessa espiral de hipocrisia. Ou eles me aceitam como eu sou, ou eu mesmo me declaro fora do dojo. Eu só mudei minha mentalidade graças ao Kei-kun... E a você!".

Fiquei surpresa com a observação de Motoko. Eu não sabia que eu tinha sido tão decisiva na vida de alguém. Eu sorri e agradeci a gentileza. Eu desejei boa sorte, pois eu sei o quanto as artes marciais são importantes para Motoko. Antes de sair, eu perguntei: "Ah, você disse durante a luta que já sabia a estratégia da Haruka. Como você sabia?".

Motoko explicou: "A tática que Haruka usou não é nova. Ela sabia que o orgulho de Yuriko era exagerado, então decidiu apostar em uma estratégia arriscada, mas que seria bem sucedida se Yuriko fosse uma pessoa mais emocional que racional.".

Eu rebati: "Mas a Haruka pode ter morrido ao abrir a guarda! O que ela queria com aquilo?".

Motoko afirmou: "É como você armar uma arapuca bem camuflada. Você faz a presa achar que tem o controle da situação, mas esconde o trunfo para o momento certo. Yuriko era mais rápida nos golpes, então Haruka não teve outra opção senão cansa-la. Haruka teve que apanhar para que Yuriko caísse na armadilha. Haruka só esperou o momento em que o oponente apresentasse fadiga para desferir um golpe com toda a força possível e atacar sem chance de reação. Se um lutador tem um corpo que resiste à violência dos golpes do adversário, é um tática possível.".

"Mas foi por um triz, Motoko!", eu protestei.

"Todos precisam correr riscos para alcançar uma meta plausível.", disse Motoko, pondo a mão sobre a barriga. Voltando-se para mim, Motoko disse: "Bem, agora eu preciso dormir, está bem?".

Eu me despedi e saí do quarto dela. As palavras de Motoko ecoaram na minha mente. Já que todos estavam encaminhando as próprias vidas, eu decidi fazer algo pela minha. Eu bati na porta do apartamento de Kei-kun e ele atendeu.

"Mizuho, algum problema?", perguntou Motoko. Ele perguntou aquilo provavelmente pela hora; já era tarde da noite. Eu entrei no apartamento e fiquei de pé, fitando-o.

"Bem, eu preciso conversar sobre algo muito sério... E precisa ser agora!", eu afirmei.

"Tudo bem, eu sou todo ouvidos.", disse Keitaro.

"Você se lembra quem realmente é a menininha da promessa? Apenas diga sim ou não!", eu pedi. Ele me encarou confuso, como se aquela conversa não tivesse sentido. Eu reafirmei: "Isto é serio! Você se lembra ou não?".

Keitaro respondeu sem emoção: "Bem, eu realmente não me lembro. Isso faz alguma diferença agora?".

Eu exclamei: "Claro que faz! Pois a promessa foi feita para mim! Não se lembra de mim? Eu sou a menininha da promessa!".

Keitaro ficou atônito. Parecia que ele viu um filme de terror. Ele tomou fôlego e questionou-me: "Mas, por que me dizer isso só agora? Logo no momento em que já havia perdido as esperanças naquela promessa?".

Eu respondi: "Eu precisei de um tempo para ter certeza. Desde quando vim para cá, eu suspeitei que você era o menininho da minha promessa. Só agora as lembranças ficaram claras... Eu sei que a promessa não faz tanto sentido hoje, mas eu sei que, bem no fundo, você ainda espera encontrar a tal garotinha. Eu estou aqui, o que você pensa a respeito?".

Keitaro afirmou: "O que faz você pensar que uma promessa feita quando eu era um pirralho vai me fazer amá-la? Não nego que você é linda, mas não sei se a amo...".

Eu me aproximei dele e beijei-o no rosto. Então, eu falei: "Pense bem o que você sente. Manter relações sexuais ou engravidar uma mulher também não são garantias infalíveis de amor. Existem várias candidatas, mas só uma deverá ser a sortuda que irá se casar com você. Escolha com prudência. Eu só confessei que sou a garotinha para que você tenha algo que analisar quando pensar em mim. Você se formou e irá deixar o Hinata-sou em breve, é uma boa oportunidade para iniciar um relacionamento sério com uma de nós. Ficaremos honradas em passar o resto das nossas vidas ao seu lado. Basta escolher... Uma boa noite, Kei-kun!".

Ele permaneceu sem reação. Eu fiz a reverência de corpo e saí do quarto dele.

Naquele momento, acreditei que fiz a coisa certa. Ou ele confessava qual mulher ele realmente amava a ponto de casar-se, ou ele confessaria que não estava apaixonado por nenhuma de nós. Aquela indecisão não poderia continuar. As garotas não mereciam sofrer com a dúvida de Keitaro.

Nem eu.


Capítulo feito entre 04/02/2006 e 06/02/2006. Como não há menção aos nomes dos pais de Keitaro na obra original, decidi chama-los Yuriko (mãe) e Tetsuya (pai). Neste capítulo, finalmente Mizuho revelou a Keitaro sobre um fato importante do passado. Mais um fator que Keitaro deverá por na balança. Quem será a sortuda que será escolhida para se casar. De uma certa forma, Keitaro sabe que todas disputam o título de escolhida, então ele deve decidir qual delas seria o melhor par. Sugestões, é só postarem, ok?