ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 24: Um Futuro Incerto

PV: KEITARO

A revelação de Mizuho balançou as minhas certezas. Eu já não esperava mais encontrar a minha musa inspiradora; uma musa que eu nem me lembrava mais quem ela era. Na minha inocente esperança, eu acreditava que a Toudai me traria de volta aquela a quem prometi meu coração. No entanto, a minha busca pela mulher que tanto idealizei se demonstrou infrutífera – para não dizer dolorosa. É isso o que dá acreditar tanto em brincadeiras de infância...

De repente, Mizuho confessor ser a menina até então perdida nos meandros da minha fraca memória. Além de Mizuho, outras mulheres atormentavam a minha mente. Eu seria duplamente pai, o que me faria dispensar a minha atenção e minha dedicação para duas mulheres ao mesmo tempo. Kitsune me fazia "visitas" regulares – ali descobri como o homem é fraco ante a força da libido.

Shinobu se recuperou da internação na UTI, ficando internada em uma enfermaria psiquiátrica por alguns dias até demonstrar uma recuperação que a permitisse sair do hospital; desde então, ela passou a fazer acompanhamento ambulatorial com uma psiquiatra. Eu me sentia culpado, eu precisava compensar o baque que Shinobu sofreu. O primeiro passo foi enviar um buquê de girassóis com um cartão bem bonito – também aproveitei o presente de felicitações para pedir desculpa. Como ela não me enviou resposta, eu decidi dar um tempo à Shinobu. É triste, mas devemos admitir, às vezes, que existe a possibilidade de perder a confiança e o carinho que alguém depositou na gente.

Minha relação com a Haruka ficou cada vez mais intensa, mais confidente. A passagem do pátrio poder para Haruka foi um extenuante episódio jurídico. Nesse ínterim, as aulas do mestrado começaram. Como eu precisava cada vez mais me dedicar aos estudos na Toudai, eu tive que sair da pensão e deixar todos os encargos com a Kanako; eu necessitava morar perto da Toudai – o que otimizaria meu tempo para cumprir os compromissos na universidade. Mizuho e Mutsumi também iniciaram os mestrados, mas eu não as via constantemente – afinal, elas estudavam em outros setores da Toudai. Naru teve que adiar o sonho de fazer mestrado, devido à gravidez.

Junto com meu mestrado, veio o convite para trabalhar na Toudai. Muitos dos meus professores gostaram da minha dedicação durante o curso de Arqueologia, e a universidade necessitava de novos professores voltados para a pesquisa. O professor Kinomoto me avisou que haveria um concurso logo, para que eu me preparasse previamente e tivesse boas chances de passar com meus conhecimentos. Embora ainda não fosse pós-graduado, eu publiquei diversos artigos e resenhas durante a graduação – fruto do meu trabalho com o Seta-san.

Por falar no meu mestre (no mais amplo sentido que a palavra "mestre" possa ter), eu percebi que Seta-san estava muito distante. O meu tutor ainda sentia falta da Haruka. Naquele momento, vi-me em uma situação parecida com a dele. Ambos estávamos à deriva no amor. Ele perdeu a confiança da mulher amada, e eu não consigo me decidir a quem escolher como futura esposa – e ainda eu corria o risco de ficar sem nenhuma das garotas, devido à minha indecisão.

Um dia desses, quando eu estava fazendo levantamento bibliográfico para a minha dissertação na biblioteca, Seta me procurou e disse que tinha algo muito importante a dizer. Percebendo a ansiedade no tom de voz dele, eu acreditei que a melhor coisa a fazer era dar um tempo nos estudos e escutar o que ele tinha a me dizer. Eu o acompanhei até a cafeteria e, depois de fazermos os pedidos, ele me confessou algo muito surpreendente.

"Keitaro-kun, como o melhor amigo que fiz nos últimos anos, você será o primeiro a saber da novidade. Eu... Eu irei em definitivo para os Estados Unidos.", relatou-me Seta, com uma expressão muito serena.

Eu fique muito surpreso, e comentei quase de sopetão: "Mas, por que essa decisão tão abrupta? Você não continuará a me orientar?".

Seta me respondeu calmamente: "Eu repassarei a orientação para o professor Kinomoto, e eu ficarei como orientador adjunto. Eu farei visitas regulares para acompanhar o trabalho, mas minha decisão de ir para os Estados Unidos é definitiva.".

Eu o perguntei: "Você está fugindo da Haruka, não é?".

Ele permaneceu alguns minutos em silêncio, até que conseguiu formular um raciocínio e transforma-lo em palavras: "Se eu tivesse algum laço afetivo de intimidade com a Haruka, talvez essa decisão fosse mais difícil. Como não tenho mais esperança em relação a ela, minha ida para o Ocidente fica facilitada. Veja, a Universidade Stanford me fez uma proposta muito boa... Eu não tenho mais nada a perder, nada me impede de ir embora.".

"E como fica a Sarah?", eu lhe perguntei, preocupado.

Seta sorriu e declarou: "Se ela quiser ficar, não tem problema. Eu sei que ela gosta muito de viver no Hinata-sou, e eu sei que você cuidará bem dela. Pode não parecer, mas a Sarah lhe adora, Kei-kun... Bem, eu acho que eu lhe disse tudo o que deveria dizer. Amanhã eu deixarei o Japão para sempre. Foi bom lhe conhecer, Kei-kun... Ah, só conte para as garotas depois que meu avião já tenha partido, ok? Bem, até a vista!".

Seta se levantou e estendeu a mão direita. Eu me levantei e completei o gesto, apertando a mão dele. Seta foi o primeiro mestre que eu tive na arte da Arqueologia, e eu apertei a mão como uma forma de mostrar que eu não desejava que ele fosse embora. À medida que ele se distanciava de mim, uma melancolia tomou conta de mim. De fato, eu e as pessoas próximas a mim estávamos nos encaminhando muito bem na área profissional, mas éramos desastrados na esfera emocional. Eu podia sentir que tudo o que desejei me escapava entre os dedos.

Eu voltei para a biblioteca, sentindo uma solidão a martelar meu coração. Eu não tenho certeza de mais nada... Eu já não sabia mais se ainda teria alguma esperança de ser feliz com alguém ao meu lado. Eu ainda não estava no fundo do poço, mas já me sentia bastante encurralado. Eu decidi que não iria mais pensar no assunto até que os meus filhos nascessem; eu resolvi que era melhor eu cuidar de mim e deixar a vida me levar. Talvez o acaso fosse mais efetivo que a lógica ou a emoção para resolver meus problemas sentimentais.


PV: MUTSUMI

Ara, depois de me formar em Biologia, decidi me especializar – foi com esse intuito que entrei no mestrado. Quando eu soube que o Kei-kun também faria mestrado, eu fiquei muito feliz! Eu imaginei que eu veria meu amadinho com muita freqüência... Mas eu mal conseguia vê-lo na Toudai, e isso me deixou muito desapontada; eu ficava vários dias sem sentir o cheiro dele perto de mim.

Outro fato que me deixou um pouco triste foi quando o Kei-kun, em uma das raras vezes que as garotas o encontravam na Casa de Chá, contou que o Seta-san foi para os Estados Unidos. No fundo, todos nós achávamos que ainda existia uma chance de reunir o Seta-san e a Haruka-san. Essa possibilidade virou pó depois daquela notícia.

Bem, como nem tudo é só decepção, logo ocorreu um fato que elevaria bastante a moral de todas as garotas: os nascimentos dos dois filhos do Kei-kun. Naru e Motoko já tinham saído do Hinata-sou, já que a política de alugar quartos para moças solteiras não permitia a presença de mães... Haruka-san explicou que seria muito difícil acomodar crianças em um ambiente onde basicamente os moradores estudam e fazem festas. Então, as meninas decidiram que decorariam o Hinata-sou para uma grande festa de celebração pela chegada de dois novos membros da família Urashima. Shinobu veio até a pensão só para participar da decoração, e ela me pareceu estar muito bem emocionalmente. Ela só pediu para não ver o Kei-kun, pois ainda não estava preparada para vê-lo novamente. Como o Kei-kun estava em Tokyo se preparando para os nascimentos, certamente ela não o veria até a festa.

O filho da Naru nasceu primeiro. Nós fomos para o hospital assim que o Kei-kun avisou que as primeiras contrações iniciaram. Quando todas nós chegamos lá, constatamos que a família da Naru também estava lá aguardando notícias. Em pouco tempo, uma enfermeira nos avisou que a Naru tinha dado luz a um lindo menino, o que nós fomos constatar no berçário algumas horas depois. Um pingo de gente, o fruto de uma noite especial... Aquele momento era uma verdadeira celebração à vida. Depois que retornaram com o filho para o quarto, esperamos mais algumas horas para poder visitar a mãe e o filho juntos. Apesar de o médico tentar controlar nossa entrada no quarto, todas as meninas se acotovelaram para entrar onde a Naru estava. Lá dentro, estava a Naru abrigando o filho nos braços. Quando ela percebeu a balbúrdia que fizemos na entrada, ela nos deu um olhar mortal e fez o sinal de silêncio com o indicativo nos lábios.

Era a primeira vez que eu via a Naru depois da gravidez. Eu podia sentir a felicidade dela chegar até mim, eu nunca tinha visto a Naru com um semblante tão tranqüilo quanto aquele dia. Keitaro estava sentando na beirada da cama, admirando o próprio filho. Nós nos aproximamos lentamente da cama, procurando não incomodar o bebê – que estava amamentando naquele momento. Ai, que fofura aquela criança! Por mim, eu ficava ali horas e horas admirando aquela miniatura de gente... Naru pediu que nós ficássemos a uma certa distância do bebê, para que o ar circulasse em torno dele. Ninguém falou nada, apenas obedecíamos – estávamos hipnotizadas pela singeleza do momento.

Depois que o bebê parou de amamentar, Kei-kun o fitou nos olhos por um bom tempo, até que beijou a face direita de Naru e pediu que ela desse um nome para o filho. Naru pareceu bastante encabulada... Ela encarou o Kei-kun e perguntou se o filho deles poderia se chamar Reiji. Ele concordou e todas nós celebramos a escolha do nome; aquela barulheira toda fez que Naru nos fuzilasse com o olhar... Depois daquele tumulto, achamos melhor ir embora. Já tínhamos incomodado o bastante por uma noite.

E não demorou a uma nova comemoração ocorrer – uma semana depois do filho de Naru, nasceu o filho de Motoko. Aliás, Motoko teve uma linda menina. Também todas as veteranas do Hinata-sou estavam lá para celebrar mais uma vida entre nós. Da mesma forma que ocorreu com o Naru, Kei-kun pediu que Motoko nomeasse a recém-nascida. Motoko decidiu batiza-la de Aiko... Provavelmente, os fatos que geraram aquela criança determinaram a escolha do nome que Motoko fez (1).

Aliás, notei que não havia membros do clã Aoyama durante as visitas, exceto por Tsuruko e o esposo dela. Quando perguntei à irmã de Motoko-san o porquê de os outros parentes não a visitarem, ela me explicou que o clã ainda não engolira muito bem a gravidez da espadachim. Tsuruko-senpai afirmou que, com o tempo, a família aceitaria melhor a filha de Motoko-san, que aceitação de uma bastarda (2) por um grupo familiar tradicional levaria algum tempo e paciência, mas que os tempos modernos facilitariam a aceitação. Tsuruko creditava como burrice condenar alguém por algo que é inexorável.

Tsuruko-senpai me confessou que tinha um pouco de inveja da maternidade de Motoko, pois a primeira era casada há um bom tempo e ainda não tinha tido filhos. A Aoyama primogênita olhava para a Aoyama caçula com uma ternura que parecia infinita, admirando o carinho que esta dava à própria filha. Tsuruko, de uma certa forma, se espelhava na própria irmã, como se estivesse vendo o mesmo filme anos depois da primeira vez.

Na semana seguinte ao nascimento do filho de Motoko, todas as moradoras do Hinata-sou levaram Naru e Motoko para a festa que já estava pronta para ocorrer – só faltavam as homenageadas. Todos os que foram convidados foram, exceto por Seta-san e os pais de Motoko-san.

Foi uma grande celebração! Todos mimavam os recém chegados ao mundo, estavam todos alegres. Esses são momentos em que festejamos a maravilha da vida, a felicidade de estar perto de quem tanto gostamos, de receber novas vidas a um mundo tão insano. No meio da festa, notei que Kei-kun estava um pouco distante, como se não estivesse envolvido pelo clima de contentamento que a festa tinha.

Em um determinado momento, o meu sempre amadinho deixou o salão e subiu para os dormitórios. Eu o segui, pois me sentia preocupada sobre o que estava deixando o meu Kei-kun tão distante da alegria. Após subir as escadas, eu vi que o Kei-kun estava no telhado, contemplando a noite e a vista que o Hinata-sou tem daquele ponto. Com uma certa dificuldade, eu subi até o local onde meu amadinho estava. Ele percebeu a aproximação e olhou para verificar quem era, então deu um pequeno sorriso e perguntou: "Ah, Mutsumi-san, você também não está apreciando a festa?".

Eu respondi: "Eu estou gostando muito, então eu creio que é você que não está apreciando o festejo... Você não está feliz por ser papai?".

Ele voltou a mirar ao horizonte e disse: "Eu não sei exatamente como eu devo me sentir. Eu deveria estar feliz por ser pai, mas as circunstâncias me incomodam um pouco...".

"Ué, por que você se sente incomodado?", eu questionei, claramente preocupada com meu amadinho.

"Porque eu sou pai de dois filhos com duas mulheres diferentes. Eu sei que tudo aconteceu por um descuido meu e delas, mas o que parece é que eu devo escolher entre uma delas. Isso é injusto, pois a escolha de uma mulher significa que a outra não terá a chance de que o próprio filho conviva com o pai...", ele me respondeu, com um tom de tristeza na fala.

Eu não sabia o que dizer. Eu entendi a desolação de Kei-kun, mas eu não tinha um argumento bom o bastante para convecê-lo de que aquela situação tinha como ser contornada. Foi quando ele me confidenciou: "Mutsumi-san, posso lhe contar um segredo?".

Eu afirmei: "Mas é claro, meu querido!".

Ele frisou: "Você promete que não irá contar a ninguém, mas ninguém mesmo!".

Eu disse: "Claro que sim! Eu prometo que não direi nada para ninguém. O que você quer me confidenciar, Kei-kun?".

As palavras que ele proferiu a seguir me deixaram sem ação. Ele continuou a encarar o infinito e confessou: "Eu aceitei uma bolsa de estudos na Europa. Eu deixarei o Japão daqui a uma semana, só conte para elas no dia da viagem...".

Eu perdi o fôlego. De novo não! Eu o toquei no braço e perguntei: "Kei-kun, você vai fugir novamente? Você acha que esta é a conduta certa?".

Keitaro baixou a cabeça e disse: "Não sei mais o que é certo, Mutsumi-san, mas eu preciso de um tempo para pensar. Como eu fui convidado para continuar meus estudos na Europa, não vou desperdiçar essa chance. Eu escreverei regularmente para vocês... Não posso perder a chance de lecionar como professor convidado em diversas universidades européias. É uma chance única de conhecer cidades como Paris, Londres e Praga...".

"E sobre os teus filhos? Você vai deixá-los sem pai?", eu o interrompi, perguntando. Eu creio que nunca fui tão enfática em toda a minha vida. Eu fiquei muito agitada, pois eu estava falando sobre o que poderia acontecer com pequenas vidas inocentes.

"Não sei o que decidir agora. Por isso, eu preciso da tua discrição, Mutsumi-san. Ainda não estou pronto para resolver qualquer coisa sobre assuntos amorosos e de família. Eu assumi os dois filhos, mas somente um terá meus cuidados efetivos caso a minha escolha recaia entre a Naru ou a Motoko. Você acha isso justo? Vou aproveitar essa viagem de trabalho para pensar melhor no que fazer. Neste momento, é difícil pensar em uma alternativa viável...", Keitaro confessou, mantendo a cabeça baixa.

"Tudo bem, Kei-kun. Se é assim que você quer...", eu disse, acariando o cabelo do meu amadinho. Eu senti que era inútil forçar a barra dele no meio daquele turbilhão. A única coisa que fui capaz de fazer foi acariciá-lo, aproximando meu rosto com o dele.

Afinal de contas, ele não precisava de mais problemas do que os que ele já possuía. Eu fiquei apavorada com a possibilidade de que Kei-kun entrasse em uma melancolia profunda e acabasse perdendo os sonhos que tanto desejou. Conveci-o a voltar para a festa, pois seria a última oportunidade de ter todos os entes queridos por perto antes da viagem.

Naquele momento, eu entendi que fugir pode ser a única solução para se resolver um problema. A covardia, em alguns momentos, pode nos salvar de problemas maiores – ou mesmo da morte.


Capítulo escrito entre 16/04/2006 e 22/07/2006. Sim, o professor Kinomoto citado neste episódio é uma homenagem a Cardcaptor Sakura (outro anime que muito assisti no passado recente, e que também tenho a coleção completa de mangá). Explicação das notas feitas:

(1) Mutsumi chegou a tal conclusão porque "Aiko" significa "filho do amor" em japonês.

(2) Bastardo, originalmente, era o termo usado para indicar o filho que não fora aceito pelo pai ou concebido fora do casamento, ou seja, um filho de uma mãe solteira; era um termo comum para designar os filhos ilegítimos de nobres. Com o tempo é que virou uma ofensa, atacando a honra da mãe do ofendido. Os bastardos representavam um problema de sucessão da nobreza no mundo medieval, já que eles podiam reclamar os direitos de nobreza caso provassem o pedigree. Mutsumi, no caso, usa o termo no sentido original, não como ofensa.

Peço desculpas pela demora, mas que fiquei um bom tempo sem inspiração. Aquelas crises criativas, vocês já sabem... Agradeço a todos os reviews, espero que vocês não deixem de enviá-los.