ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 25: Em Busca de um Abrigo
PV: KEITARO
Solidão. A necessidade de sentir-se sozinho, de isolar-se do velho mundo de lágrimas e procurar algo que renove as forças. Eu consegui finalmente entender o sentimento que forçou o Seta-san a fazer o auto-exílio dele.
Enquanto esperava o meu vôo, eu pensava nos meus filhos. Eu estava muito feliz por ser pai, mas aquela felicidade era acompanhada por um sentimento paradoxal de insegurança. De alguma forma, eu tinha a impressão que Naru e Motoko me pressionavam por uma resposta que eu ainda não tinha condições. A situação era muito delicada: se eu escolhesse uma daquelas mulheres, a outra deveria viver como mãe solteira; caso eu não me casasse com nenhuma delas, as duas seriam mães solteiras em um país que ainda maltrata mulheres que têm filhos fora do casamento.
Outro ponto foi a reação de Shinobu; ela nunca mais falou comigo. Ela estava sempre na Toudai, envolvidas em grupos de estudo ou em trabalhos voluntários; caso ela estivesse livre, estava visitando o pai ou a mãe. Eu podia sentir que ela me evitava de uma forma sistemática. Eu me lamentava pela perda da confiança, mas eu não esperava que isso fosse tão longe assim.
Como se pode notar, eu estava vivendo em um mundo de radicalização. Logo, eu necessitava de uma atitude radical, de um tempo só para mim - e isso seria difícil ficando no Japão, eu já tinha larga experiência em tentativas infrutíferas de ficar sozinho. Eu odiava agir como um fugitivo, mas eu sabia que as garotas seriam um empecilho para minha viagem.
A última chamada para o meu vôo. Eu rumava para a Europa, um ambiente novo para mim. Eu estava empolgado com a chance de conhecer o berço da civilização ocidental. Seta-san escolheu os Estados Unidos como refúgio, eu decidi me asilar no velho continente. Para mim, é sempre gratificante a oportunidade de conhecer novas culturas, de poder vivenciá-las; é um velho chavão, mas nada explica melhor o que eu sentia.
Quando me dirigia ao portão de embarque, escutei uma voz familiar me chamar. Ao olhar para trás, constatei dois vultos familiares: eram Naru e Motoko, cada qual com o próprio filho à tira-colo. Naquele momento, eu realmente senti meu sangue gelar.
Elas se aproximaram de mim, sem muito alarde. Elas demonstravam serenidade, o que me deixou mais intrigado ainda. Ao ficarem bem na minha frente, Naru suspirou e disse: "Tal mestre, tal discípulo... Fugindo, como o Seta-san fez?".
Eu apenas respondi: "Às vezes, distanciar-se do problema ajuda. E eu imagino que Mutsumi-san lhes contou sobre minha viagem, estou certo?".
Motoko replicou: "Ela apenas teve piedade de duas mães de primeira viagem e decidiu nos contar sobre a tua fuga. O que você tem em mente? Você iria embora sem se despedir dos próprios filhos? Você participou de tudo isso, não lembra?".
Chantagem emocional, eu ainda odeio tal expediente. Às vezes, o amor conseguia ser mais complicado do que deveria ser. Eu encarei Motoko e disse: "Eu lamento muito, mas minha vida eu mesmo programo. E eu não me esqueci que sou pai, mas não será isso que me impedirá de tomar decisões. Eu dirigi minha vida devido a uma promessa, eu acho que está na hora de eu fazer um caminho por mim mesmo. Quando eu me sentir pronto, eu voltarei. E nunca, mas nunca mesmo me esquecerei de jóias tão raras.".
Motoko fechou os olhos, como se estivesse de acordo com minha decisão. Naru ainda estava claramente surpresa, mas não falou nada. Eu sorri, e beijei cada um dos meus filhos. Eu me dirigi ao portão de embarque e, antes de passá-lo, eu me virei e agitei a mão direita como despedida.
Naru ainda correu até mim e exclamou: "Não esqueça de mim! Ou melhor, de todos nós!".
Eu novamente sorri e afirmei: "E você acha que é fácil esquecer de vocês? Apenas seja feliz e até a volta, ok?". Ao terminar a frase, dei um terno beijo na bochecha esquerda de Naru, e ela apenas conseguiu me devolver o sorriso. A garota temperamental também sabia como ser serena...
Então eu continuei meu caminho, sem olhar para trás. Prossegui na minha decisão medíocre de dar um tempo em toda aquela balbúrdia. Dessa vez, eu torci para que as garotas não percorressem o mundo; de alguma forma, eu senti que elas não lutariam mais por mim. Nós estávamos mutuamente um tanto cansados de encontros e desencontros.
À medida que o avião decolava, via o Aeroporto de Narita ficar cada vez mais longe. No momento em que o avião alcançou a altitude e a velocidade de cruzeiro, eu senti algo que não sentia há muito tempo: paz. Eu estava ali, flutuando no azul do céu a bordo de uma maravilha humana capaz de voar, longe do Hinata-sou e de pessoas conhecidas. Com o Seta nos EUA, e com toda aquela pendenga familiar, eu decidi que também deveria seguir um novo rumo; a Toudai não era mais suficiente para me segurar em solo japonês.
Eu consegui dormir como há muito não era capaz de fazer. Um momentâneo lapso da minha atribulada vida cotidiana.
PV: MOTOKO
Eu e Naru ficamos nas redondezas do aeroporto, esperando a decolagem do vôo de Keitaro. Eu não concordei com a decisão dele, mas aquela forma tão decidida de dizer o que pretendia fazer... Não consigo deixar de admirar quando ele se decidia sem pestanejar.
De repente, Naru se ajoelhou e ficou estática, cabisbaixa. Gradualmente, ela começou a chorar; aquilo não me impressionou tanto assim, pois eu já estava acostumada com os repentinos arroubos de Naru. Ela abraçou firmemente o pequeno Reiji, como se fosse a maior herança que jamais teve na vida, o que seria natural para uma mãe que está desolada.
Eu olhei para a minha Aiko, e eu então me sintonizei ao sentimento de Naru. Eu abracei minha filha como se fosse meu maior tesouro - e realmente Aiko era a coisa mais importante que tive até então. Olhar para Aiko, de certa maneira, era como contemplar um pequeno legado do Keitaro.
Subitamente, Mutsumi apareceu ofegante. A garota tartaruga apoiou as mãos sobre os joelhos e falou arfando: "Então... O Keitaro... Já foi embora?".
"Sim, ele já está a caminho do estrangeiro. É uma pena que tudo acabe assim...", eu desabafei.
Mutsumi percebeu que Naru estava aos prantos, então ela se aproximou cuidadosamente da ruiva fatal. Mutsumi colou o rosto direito ao rosto esquerdo de Naru e disse meigamente: "Meu amor, isto tudo não é um adeus, é só um até breve, eu tenho certeza disso!".
Naru respondeu entre soluços: "Eu gostaria tanto que ele falasse o que você acabou de dizer, Mutsumi...".
Mutsumi colocou a mão sob o queixo de Naru e, suavemente, girou o rosto da garota ruiva até que as duas estivessem face a face. Mutsumi se inclinou adiante e beijou Naru na boca, de uma forma claramente passional. A outra mulher não fez nenhuma resistência. Mutsumi desfez o beijo e disse: "Naru, eu vou cuidar de você e do Reiji como se fossem parte de mim mesma. É uma obrigação de quem ama...".
Naru perguntou em um tom sereno de voz: "Então, por que o Keitaro não fez isso?".
Mutsumi respondeu: "Eu creio que eu não tenho como lhe responder isso, mas ele deve ter os motivos dele para se afastar, assim como eu tenho os meus para se aproximar. Vamos para minha casa, está bem?".
Naru estava sem reação e cedeu ao pedido da garota tartaruga. Mutsumi me encarou, esperando por alguma atitude minha. Eu afirmei: "Podem ir. Eu vou para a casa de Tsuruko, lá eu poderei afogar minhas mágoas. Até mais!".
Nós nos despedimos e cada qual seguiu o próprio caminho. Keitaro fez a própria escolha; cada uma de nós também deveria seguir o próprio destino, independente da existência do Keitaro.
Mas como aquilo era difícil! Nós realmente amávamos aquele trapalhão!
PV: KEITARO
A Europa... Um continente que transpira História. Eu me matriculei em Cambridge, e minha estada prévia nos EUA me possibilitou uma vida na Inglaterra sem muitos apuros lingüísticos. As facilidades de transporte me proporcionavam viagens relativamente rápidas aos diversos recantos europeus.
Visitei cidades históricas, museus, casas de ópera, castelos, restaurantes... Nem parecia que estava a trabalho, eu vivia aproveitando minhas viagens para conhecer lugares que mal conseguia imaginar.
Eu palestrei em diversas universidades, falando sobre cultura japonesa e de outros países do Extremo Oriente. Eu acreditava que aqueles eventos eram uma possibilidade de integrar Ocidente e Oriente.
Em alguns momentos, uma estranha melancolia tomava conta de mim. Lembro-me quando eu estive na Holanda; eu saí a esmo pelas ruas de Rotterdam até me deparar com um grande campo de tulipas. Era primavera, então o campo estava bem florido. Tantas flores juntas me lembraram de mulheres inesquecíveis que eu deixei em terras nipônicas. Eu sempre mandava postais para Naru, Motoko e Haruka, mas somente Haruka me respondia.
Aquele campo de flores, uma cena tão bucólica que se misturava com as minhas memórias mais remotas de meus relacionamentos... Ou melhor, os fiascos que eu vivi com as garotas do Hinata-sou. Meus estudos na Europa estavam se aproximando do fim, e eu ainda não tinha uma decisão sobre meu futuro amoroso.
Quatro anos passam rápido, e logo eu retornaria ao Japão para reassumir minha cátedra na Toudai. Eu não estava tão abatido quanto no momento que eu deixei o Japão, mas ainda existia uma grande dúvida: eu ainda amava alguma das garotas? A promessa não tinha mais nenhum significado para mim; eu precisava escolher com qual mulher eu dividiria a minha felicidade.
Eu não sabia se as garotas se apaixonaram por outros homens, mesmo a Haruka não mencionou algo a respeito. Talvez se cada uma delas estivesse feliz com um outro homem qualquer facilitasse minha vida.
A cada momento em que eu percebia que o momento do retorno, eu sentia que a única coisa que me restou foi uma calma e solitária espera pelo desfecho de uma história de amor mal contada.
Eu não podia titubear; meu retorno deveria ser definitivo e resolver minha vida amorosa de uma vez e por todas.
Capítulo escrito entre 25/08/2006 e 29/08/2006. Eu agradeço demais a todos os reviews enviados; eles permitem que o autor se inspire a escrever. Aliás, já são quase dois anos escrevendo este conto... Eu preciso dar um desfecho para esta saga, pois minha fonte de idéias está se secando.
Este capítulo não teve grande criatividade, foi apenas uma maneira de dar um desfecho à viagem inesperada de Keitaro e preparar o terreno para o final. Não sei quantos episódios eu escreverei, mas espero que eu encerre a saga ao alcançar o capítulo 30. Obviamente, se a receptividade for boa, a chance de um epílogo não está descartada. Até a próxima!
Se os estágios curriculares permitirem...
