ÀS
SUAS ORDENS
Capítulo 27: Revolta e Ajustamento
PV: KEITARO
Kikyo me perguntou: "Então, Seishou-san, você sabe o porquê da minha chamada?".
Eu respondi: "Não, e eu gostaria muito de saber!".
Eu fiquei esperando pela resposta da feiticeira. Ela manteve o sorriso e não falou nada. Com a delicadeza de uma gueixa, ela cuidava do chá que ela estava preparando naquele momento. Nenhum gesto era abrupto; tudo o que Kikyo fazia era sereno.
Quando o chá ficou pronto, Kikyo apagou a vela e serviu o chá em duas xícaras. Depois de servir o chá, ela retornou o bule ao centro da bandeja e alcançou-me uma das xícaras. Para adoçar, ela me ofereceu mel silvestre, o qual aceitei de bom grado. Como eu não sabia o quão doce era o mel, eu coloquei apenas uma gota.
Kikyo me observava de soslaio, provavelmente curiosa com as atitudes daquele estranho que ali estava. Eu claramente tinha um gestual não compatível com a época em que eu estava, e ela reparou. Afinal, ela parecia ser erudita – em pleno Japão feudal, uma mulher feiticeira, alfabetizada e solitária tinha que ser um pessoa diferente, e pessoas diferentes do padrão socialmente aceito reconhecem e aproximam-se de quem também não segue a cartilha dos padrões sociais.
Após eu terminar o chá, eu esperei que ela também estivesse satisfeita. Quando Kikyo dispensou a xícara já vazia, perguntou-me: "Mais chá, Seishou-san?".
Eu tentei argumentar: "Senhorita, o que você...".
A feiticeira tapou minha boca com a mão direita e interrompeu-me, emendando: "Cada coisa no próprio lugar. A prioridade agora é alimentar-se. Negócios depois.".
Ela não mandou, mas obedecer era irresistível. Eu agi como se fosse uma ordem. Kikyo, em nenhum momento, perdeu a serenidade. Eu disse: "Eu estou satisfeito, muito obrigado.".
Ela deu um lindo sorriso, e disse-me: "Então, está certo. Se não há mais necessidade de alimentar o corpo, vamos alimentar as negociações.".
Cara, que coisa incrível! Mesmo com a fala tão rebuscada, eu não tinha nenhum problema em entendê-la. Eu não sei se o fato é que eu tenho um nível intelectual capaz de entender um palavreado mais culto, ou se isso é um dom de Kikyo, mas tudo o que ela pronunciava era plenamente inteligível. A voz de Kikyo era como uma doce melodia, algo muito acalentador.
A bruxa pegou as xícaras e colocou-as na bandeja, levando o conjunto para a cozinha. Logo após, ela retornou à sala com uma vassoura de palha e varreu todo o local. Outra coisa que reparei é que Kikyo tinha determinação e disciplina. Enquanto algo não estivesse terminado de fato, ela não mudava o foco da atenção.
Depois de arrumar a sala, Kikyo me pegou pela mão, de uma forma bem suave, e ajudou-me a ficar de pé. Ato contínuo, ela me guiou até o local que seria o provável quarto principal da casa. Ao chegarmos ao local, ela se postou à minha frente e removeu o topo do Keiko-Gi, deixando o busto à mostra.
Eu estava perplexo, num misto de confusão e admiração. Se Seishou era alguém não familiar à Kikyo, por quê ela se mostrou tão íntima? E ela era bela! Ela não tinha seios volumosos, mas eles eram bem firmes, e eu jamais tinha visto uma nipônica com a pele tão alva quanto ela.
Ela se aproximou de mim e beijou-me suavemente, mas eu conseguia sentir toda a paixão do gesto. Ela rebaixou o topo do meu Keiko-Gi e tocou o corpo dela contra o meu. Eu não pude resistir ao aroma da paixão que o corpo de Kikyo exalava e entreguei-me àquele beijo.
De uma forma repentina, ela parou o beijo e afastou-se, recobrindo o busto com o Keiko-Gi. Do nada, surgiu uma projeção etérea vindo de Kikyo, de cor azul-celeste e em forma de uma serpente monstruosa, que se enrolou rapidamente em meu tronco e ergueu-me contra a parede. Pela primeira vez, o semblante de Kikyo era de raiva. Mais do que raiva, ela transpirava ódio.
Aquela estrutura mágica me estrangulava, dificultando minha respiração e provocando uma dor lancinante. A feiticeira se aproximou e, com uma voz paradoxalmente serena ao semblante de ódio que ela manifestava, ralhou: "Quem é você? Como alguém esqueceu um grande amor? A aura que lhe cerca... Não é a aura de Seishou! Onde está o meu amado?".
Apesar da suavidade da voz, aquilo era um grito de desespero. Uma outra projeção saiu de Kikyo e ficou bem na frente da minha face, como uma ameaça à minha integridade física. Ela se ajoelhou e, encarando o chão com lágrimas a molhar o tablado, novamente inquiriu: "Afinal, quem é você? Por que andar por aí com o corpo do meu amado? Eu levei vinte anos para conseguir encontra-lo. Eu passei por guerras, por pilhagens e por tentativas de violação do meu corpo, só com a esperança de unir-me ao meu amado! E, de repente, aparece o corpo de Seishou possuído! Eu exijo uma ótima explicação para este disparate!".
Eu só consegui implorar: "Se a senhorita quer saber a verdade, livra-me de magia. Eu estou sufocando, por favor...".
Ela me encarou com raiva na mímica facial, mas ela cedeu ao meu pedido e liberou-me ao chão. As projeções mágicas sumiram, do mesmo jeito que apareceram, em pleno ar. Ainda com um pouco de dificuldade, eu expliquei: "Se a senhorita é uma feiticeira, como demonstrou há pouco, vai acreditar na minha história.".
Eu relatei tudo o que achei apropriado dizer, descrevendo a era histórica a qual eu pertencia e da forma súbita pela qual eu apareci na era Sengoku. Ela me encarou com atenção, ouvindo cada palavra dita por mim com muito interesse. Depois de todo o relato, eu concluí: "Bem, com os dons que a senhorita possuí, eu creio que você pôde perceber que tudo o que lhe relatei é realidade e tornou-se possível. Eu não sei como, mas foi possível.".
Kikyo cerrou as lágrimas, fechou os olhos e deu um grande suspiro. Então, ela falou: "Pois bem, viajante do tempo e do espaço, eu acredito. A força vital que eu sinto agora é diferente a de Seishou, eu só lamento não ter descoberto antes. Eu senti que o Seishou estava diferente, pois por quê ele me perguntaria se eu era uma contratante? Viajante, se você assumiu o corpo de Seishou através de uma viagem astral onírica, é porque kami-sama lhe reservou uma grande missão.".
Eu repliquei: "Mas eu não nem imagino qual seria tal tarefa! Eu só quero voltar para o meu tempo! Eu não consigo ter a mínima idéia de qual seria essa missão!".
Kikyo me explicou, com um semblante sem emoção: "E talvez você só saberá o objetivo quando o alcançar de fato. Eu sugiro que você preste atenção na jornada que você empreenderá neste tempo. O real objetivo pode se esconder em qualquer aspecto da caminhada. E eu recomendo que você sobreviva, pois eu acredito que a morte do corpo que lhe serve de veículo neste momento histórico provocará a morte do seu corpo no futuro. Eu quero meu Seishou de volta, assim como você deseja retornar ao futuro.".
Após terminar de falar, Kikyo me pegou suavemente pela mão e guiou-me até o pátio. Ali, ela me pediu: "Por favor, durma aqui fora hoje. Eu fiquei abalada com o episódio ocorrido previamente. Amanhã, nossa jornada iniciará. Eu lhe darei mais informações no caminho. Apenas fique longe de mim hoje, está bem? Até mais, viajante...".
Eu olhei para o céu, e percebi que a noite demoraria a chegar. Eu decidi tomar banho em uma fonte próxima da casa de Kikyo e que, no futuro, será a base para o surgimento da águas termais do Hinata-sou. Eu perambulei pelas redondezas, pois eu senti que precisava aproveitar o fato de estar no passado para conhecer as peculiaridades da época em que eu estava como prisioneiro. Eu desejei que a sorte virasse a meu favor nos próximos dias, pois parecia que nem no passado eu conseguia ter sorte com as mulheres...
Capítulo escrito entre 19/09/2006 e 20/09/2006. Eu tive que arrumar algumas efemérides históricas do capítulo anterior, mas isso não impediu a progressão do trabalho. Eu estou satisfeito com o retorno dos leitores, e eu creio que toda a energia do escritor seja para colocar o esforço criativo na narrativa. O escritor não é mais do que um "reciclador" de idéias.
Vocês querem saber qual o objetivo? Sigam acompanhando a minha saga e divertindo-se tanto quanto eu. O processo criativo, no final das contas, também é um processo de diversão (embora, às vezes, uma diversão um pouco perversa).
