ÀS
SUAS ORDENS
Capítulo 28: Rumo ao Desconhecido
PV: KEITARO
Eu me acordei com os primeiros raios de sol da manhã. Eu dormi abaixo de uma das frondosas árvores que cercavam a casa de Kikyo. Enquanto eu me despertava, eu senti que havia algo diferente sobre o meu corpo. Eu demorei a perceber, mas o objeto em questão era um cobertor. Eu não pude evitar o sorriso, já que aquilo era uma evidência de que Kikyo manifestou algum tipo de compaixão por mim.
Depois de catar e comer algumas frutas como café da manhã, eu me sentei na frente da porta de entrada casa de Kikyo. Eu permaneci na posição de flor de lótus, meditando profundamente. Eu estava tão relaxado que eu nem notei a aproximação da feiticeira. Ela me despertou do transe com um leve balançar, e então disse: "Bom dia, viajante. Está na hora do desjejum.".
Eu respondi: "Muito obrigado, mas eu já comi algumas frutas. Aliás, o cobertor está ao lado da porta dos fundos, devidamente dobrado. Agora, eu devo treinar artes marciais um pouco, para não perder a habilidade. Quando você estiver pronta, nós poderemos iniciar a jornada para o desconhecido. Até mais, senhorita.".
Eu fiz a reverência e ela devolveu o gesto, sempre sorrindo. Kikyo era tão enigmática... Eu não sabia o quanto ela me desprezava ou gostava de mim. Como eu não tinha qualquer previsão dos perigos dessa misteriosa jornada que ela pretendia empreender, eu decidi praticar um pouco de luta. Nessas situações, todo o preparo pode não ser o suficiente para vencer os obstáculos.
Eu retornei para a casa de Kikyo, após algumas horas de prática. Eu permaneci na frente da porta de entrada, esperando por algum sinal de Kikyo. Não sei como, mas eu senti uma aproximação traiçoeira pelas minhas costas. Eu claramente senti a aproximação de uma mão ao meu ombro. Eu me virei bruscamente, com a espada em riste e pronto para me defender.
Naquele momento, eu reparei que Kikyo era a visitante silenciosa. Ela se assustou com a minha atitude. Quase que instantâneo, diversas projeções etéreas – iguais às que apareceram no dia anterior – emanaram da bruxa e cercaram-na, formando uma barreira protetora. Eu me admirei com a situação e comentei: "Incrível! Você consegue ser tão gentil... E tão sorrasteira!".
Kikyo se acalmou e dissipou as projeções, para depois afirmar: "Desculpa, mas eu não tinha a intenção de atacá-lo. Eu vi que você estava aí, então...".
Eu a interrompi, dizendo: "Tudo bem. Eu sei o que você pretendia fazer. Apenas vamos evitar mais atritos desnecessários, está bem? Se eu tenho que cumprir uma tarefa que eu nem sei exatamente qual é, eu preciso estar atento em tudo o que ocorre na minha volta, e eu precisarei da tua ajuda.".
Kikyo afirmou: "Não se preocupe, viajante! Você saberá qual será a missão quando algo lhe tocar o coração. Eu sinto que você não terá dificuldade para descobrir o motivo de tua presença aqui. Pronto para partir?".
Eu ergui a minha bolsa e minha espada, declarando: "Sim, eu estou pronto para a viagem. Para onde vamos?".
Kikyo ficou ao meu lado e então disse: "Siga-me, viajante. Eu te guiarei na jornada.".
Apesar de nada saber sobre qual o destino daquela viagem, eu obedeci Kikyo. Aquele jeito de pedir sem parecer uma ordem era inexplicável. Kikyo transmitia uma confiança praticamente inabalável, capaz de superar quaisquer atritos. Aquilo era algo muito difícil de encontrar em pleno século XXI.
Nós dois viajamos o dia inteiro, movendo-se para uma linda mata. É tão difícil acreditar que toda a floresta que eu visualizava será devastada para o surgimento da megalópole japonesa. O contato com a natureza era algo tão confortante... Eu não tinha a noção de que poderia ter uma sensação desse tipo nos arredores de Tóquio.
Depois desse dia de viagem, nós avistamos um grande castelo no topo de uma colina, cercado por uma espécie de redoma violeta. Kikyo se colocou à minha frente e apontou para a referida construção, explicando: "É lá que está o meu objetivo, viajante. E talvez lá esteja o teu objetivo também...".
Eu me aproximei da rocha que Kikyo galgara previamente e perguntei: "E quem vive lá, Kikyo?".
Kikyo me encarou e respondeu: "Lá é a morada do mais poderoso youkai de toda a região. Nem o exército do xogum foi capaz de exterminá-lo. Ele transformou o castelo em uma fortaleza praticamente impenetrável. O xogum me prometeu que, se eu eliminasse a região de ameaça de tal criatura, eu não seria perturbada novamente. Eu não sei como é a vida no tempo de onde você procede, mas aqui a mulher é quase uma escrava do homem, e uma mulher independente não é vista com simpatia.".
Eu meneei afirmativamente e falei: "Eu entendo... Mas você é tão poderosa! Por que a ajuda de um simples mortal?".
Kikyo respondeu: "Porque o youkai que lá vive tem um poder mágico equivalente ao meu. Além disso, diversos youkais malévolos se uniram a ele. Eu não posso enfrentá-lo sozinha. Como eu precisava de ajuda, eu decidi chamar Seishou. Desse modo, eu resolveria dois problemas de uma só vez: eu receberia a ajuda de um grande lutador e também eu finalmente reencontraria meu grande amor. Como o meu sonho amoroso está adiado, eu só espero que você seja um grande espadachim.".
Eu me assustei. Eu tinha um certo domínio de luta de espadas, graças aos esforços de Motoko e de Seta, mas eu não acreditava que seria o suficiente para sobreviver no período feudal. Kikyo sorriu para mim e declarou: "Se você fizer o melhor que puder, com toda a tenacidade que tua alma possuir, eu creio que será o suficiente!".
As palavras de Kikyo me tranqüilizaram. Eu não queria decepcioná-la novamente.
Eu e Kikyo desbravamos a floresta que cercava o castelo. Enquanto nós caminhávamos, Kikyo pegou na minha mão direita, com a suavidade de sempre. Eu perguntei, sem mirá-la diretamente: "Kikyo, você está bem?".
Ela me respondeu, mantendo o olhar para frente: "Claro, viajante. É que você está no corpo de Seishou, e eu não consigo resistir. Você não tem idéia de quanto eu amo o homem com quem você trocou a alma...".
Eu fiquei curioso: "Onde está a essência de Seishou, já que eu estou aqui, no corpo dele?".
Kikyo suspirou e disse: "Apesar dos meus poderes e conhecimentos místicos, há certas questões para as quais eu não tenho resposta. Eu creio que a essência de Seishou esteja em algum plano alternativo, observando o que ocorre no plano material.".
Eu me apavorei e então gaguejei: "Então... Ele observou... Quando nós nos tocamos... Eu quero dizer...".
Kikyo pressionou minha mão mais forte que antes e disse: "Não fique preocupado, viajante. O que aconteceu entre nós foi um grande mal entendido. Ele deve saber disso...".
Subitamente, ela parou de caminhar. Nós estávamos à beira de um pequeno riacho. Kikyo comentou: "Viajante, eu creio que você está cansado de ser chamado assim... Qual é o teu nome?".
Eu evitei encara-la e apenas respondi: "O meu nome é Keitaro. Eu me chamo Keitaro Urashima.".
Eu olhei para o reflexo do rosto de Seishou na água, mas o que eu conseguia ver era o meu próprio rosto. Kikyo se aproximou de mim e perguntou-me: "Então, você quer saber como é a aparência de Seishou? Ele não é lindo?".
Eu afirmei: "Eu não sei, pois a imagem que eu vejo é a minha própria!".
Kikyo ficou pensativa, esfregando o queixo com o indicador direito, até que ela ergueu o olhar e disse: "Eu já sei. Eu farei uma mágica para descobrir como você se parece. Keitaro-san, olhe para a água.".
Eu obedeci Kikyo. No fundo, eu sabia que eu podia confiar nela. Eu tinha um feeling de que ela era uma feiticeira de um poder imensurável. Kikyo fechou os olhos e, depois de alguns instantes, uma aura azul-celeste envolveu todo o corpo dela. Uma tênue projeção daquela aura me atingiu subitamente, como se fosse um tiro. A mesma aura que envolvia Kikyo também me circundou, fazendo-me flutuar sobre o riacho. Eu podia me ver refletido de corpo inteiro na água daquele córrego.
Eu me apavorei, e comecei a gritar sons aleatórios. Kikyo disse: "Não te assuste, Keitaro! Isso faz parte do feitiço!".
Quando Kikyo terminou de me consolar, algo muito estranho aconteceu. Era como se o tempo fosse pausado. O riacho parou de correr, a brisa estacionou, os seres vivos estavam congelados. Foi quando eu percebi que havia duas imagens no riacho. Uma imagem usava um bogu azul-cobalto, uma bolsa preta e uma katana; a outra usava roupas ocidentais e óculos. O mais impressionante era a fisionomia: ambos os reflexos eram iguais, eram o meu próprio relfexo.
Kikyo abriu os olhos, fazendo surgir um circulo etéreo azul-celeste na frente dela. Kikyo subiu nesse círculo e flutuou sobre o riacho até alcançar onde eu estava flutuando. Quando ela viu os reflexos, ela disse: "Eu sabia. Não foi difícil a tua translocação no tempo e no espaço, pois você é a reencarnação de Seishou. A essência de Seishou está adormecida dentro da alma que vocês compartilham.".
Kikyo me pegou pela mão e flutuou comigo até alcançarmos o outro lado do riacho. Após pousarmos na margem oposta a que estávamos antes do feitiço, o fluxo do tempo voltou ao normal. Eu fiquei estupefato com o poder de Kikyo. No fundo, ela não precisa de minha ajuda; ela precisa do amor de Seishou. E isso é algo que eu não tinha como colaborar naquele momento.
Como estava quase anoitecendo, nós fizemos acampamento ali mesmo. Kikyo foi coletar frutas e outros vegetais, enquanto eu providenciava alguns peixes para a janta. Apesar de que aquele riacho não era profundo, eu consegui obter uma boa pesca.
O quebra-cabeça estava se resolvendo aos poucos, e eu esperava que não faltasse muito para que eu pudesse descobrir qual o meu objetivo ali. Pela primeira vez, eu senti falta dos meus filhos, e eu comecei a preocupar-me com a possibilidade de nunca mais vê-los.
Eu necessitava sobreviver. Meus filhos necessitavam de mim, e eu necessitava demais de meus filhos.
Capítulo escrito em 20/09/2006. Nada como um bom feriado para manter atualizada a saga. Eu agradeço ao Slicer Lucas e ao Edu pelos reviews regulares. Eu creio que essa nova aventura manterá a saga viva por mais algum tempo.
