ÀS
SUAS ORDENS
Capítulo 30: Uma Lição Além
do Tempo
PV: KEITARO
A luta começou. Kikyo e Naraku se transformaram em fontes quase infinitas de luz, sendo azul-celeste e violeta respectivamente. Se um oponente atacava com um feixe de luz, o outro duelista se defendia com um outro feixe em direção oposta, e assim por diante.
Kikyo correu contra Naraku e, à medida que se aproximava do oponente, começou a levitar, literalmente caminhando no ar. Naraku fez o mesmo, até que os dois se encontraram no ar, formando um grande clarão. Esse clarão virou um gigantesco feixe de luz branca, o qual atravessou o teto do castelo e veio acompanhado de um estrondo ensurdecedor.
Foi quando eu tive uma sensação estranha; eu senti que não seria mais um mero espectador. Eu analisava como eu poderia ajudar Kikyo quando, do nada, folhas de árvores voaram contra mim em alta velocidade. A agilidade de Seishou me ajudou na defesa contra tais projéteis.
Eu vislumbrei uma jovem de orelhas pontudas e íris vermelha flutuando no ar, pousando à minha frente. Ela usava um quimono branco com adereços em vermelho e diversas tipos de folhas como estampas, além de portar um vistoso leque. Ela fez pose de batalha e disse: "Muito bem, Seishou. Não vou deixa-lo no ócio! Se você não pode ser meu, não será de mais ninguém!".
Ela me encarou com raiva até que fez uma cara de espanto, e então gritou com fúria: "Mas você não é o Seishou! Maldito espírito possuidor de corpos! Saia do meu amado agora!".
Ela ergueu um pequeno tornado contra mim, atacando-me com o leque em seguida. Pelo jeito, ela também devia ser uma youkai. Ela me atacava com um ímpeto fora do comum; eu concluí que ela devia ser uma youkai do vento, devido aos golpes e magias que ela usava.
Em um determinado momento da árdua batalha que tive contra a youkai, ela conseguiu me desestabilizar e derrubou-me. Ela me atacou com o leque e eu segurei o golpe com minha katana. Eu sentia a respiração do nariz dela contra o meu rosto. Naquele momento de tamanha tensão, ela balbuciou: "Espírito, eu vou mandá-lo de volta ao mundo etéreo, nem que eu tenha que destruir o corpo de Seishou!".
Sentindo que eu estava em uma posição desvantajosa, eu apelei para o ataque psicológico; então, eu falei: "Se você ama o dono original deste corpo, por que destruí-lo?".
Eu percebi que a raiva dela estava fora de controle; era algo imensurável. Ela ergueu o leque para um ataque fulminante, direto contra o meu rosto. Eu aproveitei os segundos que separavam minhas fuças do golpe que a youkai me emitiu para fazer um contragolpe.
Eu consegui usar as pernas para arremessá-la contra a parede. Rapidamente, eu fiquei de pé e corri na direção dela. Eu não sabia que Seishou era tão ágil! Usando as habilidades corporais dele, eu me movi em tempo hábil para que eu chegasse à minha oponente antes que ela caísse no chão, após ter batido contra a parede. No momento do ataque, eu tive a sensação de que eu não desejava a morte da youkai; por isso, eu girei a katana e golpeei-a no queixo com a bainha. Isso foi o suficiente para nocauteá-la.
Bem, um inimigo estava neutralizado; agora era a vez de Naraku. Ele estava dando muito trabalho para Kikyo, pressionando-a contra uma parede com um poderoso raio violeta. Eu decidi atacá-lo, mas ele percebeu minha aproximação e disparou-me uma labareda violeta. Eu me defendi com a katana, mas o poder da magia foi o suficiente para me atordoar.
Estendido no chão e estando um pouco confuso, eu presenciei a reviravolta de Kikyo. Eu percebi que o ataque contra mim ergueu os brios da feiticeira. Kikyo começou a aumentar o poder mágico da aura azul-celeste que a revestia, criando um raio azul-celeste em oposição ao ataque da magia violeta de Naraku. Enquanto eu me levantava lentamente, eu testemunhei uma luta feroz entre dois poderosos seres mágicos.
Em um determinado momento, Kikyo conseguiu finalizar aquela disputa mágica, lançando Naraku no ar devido ao poder contido no raio mágico. Naquele exato momento em que Naraku estava literalmente voando sem rumo, eu decidi ser o carrasco do youkai. Eu corri na direção de Naraku, invocando um golpe especial com a força do ki (1) de Seishou. Eu me lancei no ar e golpeei-o no pescoço, decapitando-o. O corpo de Naraku se desfaleceu ao chão, com a cabeça caindo alguns metros adiante.
Kikyo notou a derrota de Naraku e emitiu uma projeção etérea em forma de serpente, a qual destruiu a cabeça de Naraku. Ato contínuo, eu escutei uma voz feminina gritando. Eu olhei na direção do grito e descobri que o berro veio da youkai do vento. Ela se agachou no local onde havia uma pequena poça de sangue e chorou copiosamente.
Eu me aproximei da youkai e questionei-a: "Por que você chora por ele?".
Ela me encarou nervosa e respondeu-me rispidamente: "Você destruiu a única oportunidade de ter um coração. Naraku me prometeu um coração caso eu o ajudasse a alcançar o objetivo dele. Com um coração, eu finalmente seria uma humana, e então Seishou iria amar a mim e não essa feiticeira esquálida!".
Eu me agachei e limpei as lágrimas do rosto da youkai; então eu disse: "Eu creio que você não precisa de um coração. Você já o tem; é só prestar atenção no turbilhão de sentimentos que estão rodopiando no teu peito.".
Kikyo juntou as mãos em concha e colocou-as abaixo do queixo da rival amorosa, usando-se para fazer a youkai ficar de pé. Então, a feiticeira disse: "Não permaneça em posição tão humilhante, Kagura. Você é e sempre foi livre; você é a única culpada da submissão que Naraku lhe impôs!".
Bem, ali eu descobri que a youkai que eu combati se chamava Kagura. A youkai ficou mais chorosa que antes e berrou: "Mas eu quero ser uma humana! Como eu posso ser aceita se sou uma criatura abominada pela humanidade!".
Eu me aproximei e beijei Kagura na bochecha esquerda dela, e então eu lhe disse: "Confiança é a chave. Quando você se relaciona de igual para igual, não há servidão. Amar não é se submeter. Você pode amar de diversas maneiras a diferentes pessoas, desde que você confie na veracidade do que o outro sente. Quanto mais sincera você for com os próprios sentimentos, mais confiança os outros terão de você. E se você tem a confiança alheia, conquistada a partir da autoconfiança, você poderá manter diversos tipos de amores sem precisar se vigiar, sem temer uma atitude hostil dos outros. E, caso alguém seja hostil, siga adiante. Para uma amizade que se vai, outra amizade virá. Eu acho que isso é a chave para ser uma pessoa por completo, eu acho...".
Kagura sorriu e abraçou-me suavemente; foi um agradável gesto de agradecimento. Quando nós desfizemos o abraço, eu me senti estranho. Eu tinha a percepção de que meu corpo estava fraquejando. Eu olhei para Kikyo e disse claramente assustado: "Há algo de errado comigo! Eu não me sinto bem!".
Kikyo me tocou no rosto e disse: "Eu acredito que é hora das coisas voltarem ao rumo natural. Urashima-san, eu creio que a lição foi aprendida. É difícil aplicá-la nas nossas próprias vidas de forma tão imediata, mas você já iniciou o caminho. Boa viagem, Urashima-san!".
Eu nem consegui me despedir. Quando eu percebi, eu estava na escuridão da não-existência.
Eu me acordei pulando. Eu estava suado e taquicárdico. A passageira à minha direita me perguntou se eu estava bem. Eu verifiquei o meu corpo e vi que usava roupas ocidentais e óculos. Eu estava de volta ao século XXI, dentro do avião onde eu estava! Eu respondi que eu me sentia melhor do que nunca.
Bem, depois de defender minha sobrevivência em uma realidade alternativa, surgiu-me a necessidade de resolver minhas questões amorosas. Não era mais possível fugir; quando eu chegasse ao Japão, eu deveria encarar a hora da verdade!
Capítulo escrito em 09/10/2006. Vamos ver se eu consigo ter logo essa saga, a não ser que os leitores querem que eu estenda algum assunto (para informar o que deve ser mais enfocado, deixem sugestões nos reviews). Quero agradecer a todos que leram minha saga até aqui. São praticamente 2 anos de publicação e fico feliz em alcançar o capítulo 30. Os últimos capítulos têm sido curtos, mas eu procuro faze-los com consistência. Min'na arigato!
Kagura é uma personagem do mangá e anime InuYasha, cuja obra pertence à autora Rumiko Takahashi e à editora Shogakukan. Notas:
(1) Ki: É a energia que todo ser humano carrega; a energia vital. É uma das bases das religiões do Extremo Oriente. Segundo as crenças da referida região, o guerreiro pode canalizar o próprio ki para amplificar o poder de um golpe.
