ÀS SUAS ORDENS
Capítulo 33: Um Dia Após o Outro
PV: EMA
Depois de testemunhar a orgia que ocorreu nas águas termais, minha bisbilhotice foi descoberta pela Motoko. Eu estava apavorada, pois eu temia pela minha expulsão justamente no momento em que eu me sentia integrada a um grupo de pessoas, as quais me davam suporte para estudar e elevar minha auto-estima.
Motoko me guiou até o pátio dos fundos, onde há um pequeno playground. A samurai se sentou em um balanço e ela apontou para o balanço que estava vazio. Eu entendi a mensagem e sentei-me no balanço que ela indicou, sem conseguir encará-la. Eu estava tão intimidada com a situação que eu nem conseguia articular uma palavra que fosse. Além disso, eu notei que algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto.
Motoko me tocou no ombro e perguntou: "Ema, você está bem? Você está pálida!".
"Por favor, não me expulse!", eu implorei a plenos pulmões e entre o choro; "Não era a minha intenção meter o meu bedelho nos assuntos de vocês... Droga...".
Motoko colocou a mão sob o meu queixo e delicadamente o moveu até que meus olhos encontraram os dela. Ela sorriu e disse: "Calma! Você é muito estabanada! Eu não te chamei para te julgar; eu só quero conversar contigo!".
Eu parei de chorar, mas eu ainda me sentia triste e inibida para falar. Motoko se inclinou para o meu lado e deu um leve beijo nos meus lábios. Não durou mais que alguns segundos, mas foi algo de impacto! Eu fiquei sem ação e senti que meu rosto estava mais quente que o normal. Eu só consegui evocar o nome da samurai, demonstrando minha surpresa.
"E então, você está mais tranqüila agora?", perguntou-me Motoko, finalizando a frase com um belo sorriso. Aquilo conseguiu me acalmar e eu devolvi o sorriso. Então, Motoko continuou: "Em primeiro lugar, eu não tenho o poder para expulsar quem quer que seja. Só ela pode fazê-lo!".
Eu olhei na direção que Motoko apontou; a Kanako estava a alguns metros de nós, de pé e com um semblante de neutralidade. Eu voltei a sentir um frio passando pela minha espinha; eu me levantei em um salto e corri até onde estava a atual gerente. Então, eu me ajoelhei aos pés dela, implorando: "Por favor, não me expulse da pensão, eu não consegui controlar minha curiosidade e...".
Kanako interrompeu minha ladainha, tapando a minha boca com a mão. Em seguida, ela segurou em meu braço esquerdo e pôs-me de pé; ela o fez com firmeza mas sem agressividade. Então, ela declarou: "Tenha calma! Em primeiro lugar, eu detesto pessoas rastejantes; em segundo lugar, eu estou aqui para entender por que você nos espionou. Dependendo do que você disser, eu te deixo ficar ou não!".
Ai, ai! Ela estava brava comigo! Ela fez um gesto para que eu e a Motoko nos sentássemos com ela na armação de concreto que limitava a caixa de areia do playground.
Depois que as três se acomodaram, Motoko me perguntou: "Ema-chan, eu creio que a minha pergunta é a mesma dúvida que Kanako tem: por que você nos espionou?".
Eu respondi timidamente: "Foi por mera curiosidade. As termas estavam reservadas, então eu achei peculiar o fato de mulheres enroladas em toalhas entrando em um local usado para um homem.".
"E por que você não viajou hoje? Nós colocamos avisos de que haveria dedetização da pensão para receber o antigo gerente. Você não leu nenhum deles?", inquiriu-me Kanako.
Eu vacilei por uns segundos, mas eu consegui responder: "Bem... Eu estudei até tarde no cursinho e fui direto para o quarto quando eu cheguei à pensão... Espera aí, esse negócio de dedetização era só uma fachada!".
Motoko fechou os olhos e falou: "Sim. As antigas moradoras não queriam ninguém por aqui, ou nosso plano não daria certo. O que você achou de tudo o que viu?".
Eu corei e respondi: "É algo estranho. Eu fiquei aturdida com a facilidade com que vocês se entregaram a um único homem... Mas aquilo foi capaz de despertar um prazer que eu jamais senti antes...".
"Por um acaso, você sentiu tesão?", Kanako me perguntou sem titubear. Fui eu que fiquei alarmada e sem resposta.
Depois de alguns instantes, eu disse: "Eu acho que sim. É um tipo de excitação que não se pode controlar quando ela surge. Eu me toquei de um jeito que eu nunca tinha feito antes...".
Motoko deu um sorriso discreto e então falou: "Sabe, Ema-chan, eu também passei por isso. Quando você ainda é inexperiente e não conhece o significado do sexo, tudo pode parecer sujo. Só que a coisa não é bem assim; envolver-se com alguém é algo lindo e prazeroso. Preconceitos e dúvidas só servem para prejudicar nossa visão sobre as coisas.".
"Mas, por que nove mulheres se entregaram a um mesmo homem, no mesmo local? Sexo não é algo reservado?", eu perguntei alarmada.
Kanako me tocou no ombro e então afirmou: "Usualmente, sexo é algo intimista, mas aquilo foi a decisão de todas as pretendentes. Nós quisemos fazer algo contundente e aberto para forçar o Keitaro a decidir quem ele quer. Ao menos, que ele escolha uma de nós como esposa. Quanto ao modo como ele irá conduzir a vida extra-conjugal, daí será um problema dele e da futura esposa.".
"Nossa, vocês aceitariam que o Keitaro ainda mantenha um caso com quaisquer das pretendentes preteridas?", eu perguntei boquiaberta. Nenhuma delas me disse uma palavra; apenas me encaravam placidamente. O que elas estavam escondendo de mim, se era para ter uma conversa franca?
"Você acha que um homem que cativa nove mulheres tão profundamente realmente conseguirá se livrar de todas elas? Até é possível, mas será difícil... Ainda mais se a mulheres que o cercam são teimosas e decididas!", explicou-me Motoko.
Aquela explicação me confundiu, e o meu questionamento foi inevitável: "Se ninguém desistirá dele, por que obriga-lo a casar com uma de vocês? Vocês não estão fazendo tanto trabalho para nada? Toda essa história é muito confusa para mim!".
"É uma questão pedagógica, se é que eu posso chamá-la assim. Keitaro tem que aprender a decidir-se, mesmo na adversidade. Ele está fugindo de nós o tempo todo. Sexo é bom, mas sem saber o que ele realmente sente, transforma-se em uma situação delicada. Mesmo que ele seja um homem e que manter diversos casos seja um tanto fácil, no fundo ele deve decidir qual de nós ele ama mais. Esse negócio de amar igualmente a todas em relacionamentos conjugais não rola...", Kanako me contou.
Eu me corei e ponderei: "Então, no fundo, forçar a escolha dele é só uma questão de vaidade, não é?".
As duas desviaram o olhar de mim, ambas coradas. A questão era mais simples do que parecia... Motoko me encarou e balbuciou: "Ema-chan, você não é tão burra quanto você acha que é. Você presta atenção nas coisas e é muito observadora, embora você saia do ar às vezes. O que falta é acreditar mais em si mesma. Se o Keitaro conseguiu, você também consegue!".
Nossa, aquilo me deixou muito feliz! Foi muito bom escutar aquelas palavras, pois elas indicavam que os outros reconheciam qualidades em mim. Então, as duas moças se levantaram e Kanako declarou: "Bem, Ema-chan, eu creio que nossa conversa foi esclarecedora. Você descobriu um pouco de nós, assim como nós descobrimos algo sobre você. Algumas coisas que você sente, percebe e entende devem ficar dentro do coração, se é que você me compreende...".
Eu acenei positivamente com a cabeça; Kanako usou uma forma discreta de alertar sobre tomar atitudes desnecessárias e que não trariam vantagens para ninguém, apenas dor e lamentos. Às vezes, o silêncio era a melhor escolha...
Antes de partirem, Kanako disse: "Bem, eu estou disposta a considerar tua presença na pensão se você fizer um trabalho especial para nós amanhã. Não se preocupe, você vai gostar...".
Ela se virou e foi embora, deixando-me com dúvidas. Eu só desejei que elas não fossem implacáveis comigo...
PV: KEITARO
Eu olhava para a parede do quarto, tentando assimilar todos os fatos ocorridos pela manhã. Eu deveria estar contente, mas eu não estava.
Por que elas fizeram aquilo? Como se tudo aquilo fosse me ajudar na minha decisão. Eu estava angustiado; o antigo quarto que eu usei nos anexos da Casa de Chá não eram suficientes para conter minha inquietação.
Eu saí para tomar um pouco de ar puro, pois eu enlouqueceria se não saísse de casa. Eu precisava contemplar algo que aliviasse os meus pensamentos. Caminhando a esmo, eu parei quando avistei a caixa de areia do playground que existia nos fundos da pensão. Eu me sentei na beirada e comecei a mexer na areia, fazendo um flashback de como tudo começou.
Eu lembrei que Mizuho era uma freqüentadora do playground; eu a encontrava quase sempre quando eu visitava o Hinata-sou na minha tenra infância. Outra freqüente visitante era Mutsumi, sempre carregando o Liddo-kun para onde ela ia. Naru já era uma visita incomum; ela aparecia uma vez que outra e sempre calada.
Nós brincávamos muito, principalmente na caixa de areia. Naquele local, todas as fantasias que nós tínhamos quando nós éramos pequenas crianças se tornavam realidade. Eu achei engraçado como memórias que tive tanta dificuldade para evocar começaram a pipocar do nada.
Um barulho de passos interrompeu o meu fluxo do pensamento. Uma menininha, usando um vestido lilás e um lindo rabo-de-cavalo, apareceu correndo. Quando ela me viu no playground, ela parou de correr e aproximou-se vagarosamente de mim, claramente intimidada. Eu não sabia como, mas ela possuía uma fisionomia que me era familiar.
De repente, um pressentimento forte transpassou minha mente, e eu perguntei: "Por um acaso, o teu nome não é Aiko?".
A menina se arregalou e disse assombrada: "Eu nunca vi o senhor antes! Como o senhor sabe meu nome?".
"Porque você é muito parecida com a tua mamãe. Eu já fui gerente daquela grande casa, quando Motoko morou lá!", eu a expliquei, tentando ser amigável.
"Você conhece a mamãe! Mas... Esse lugar só tem meninas! Por que o senhor morou aqui?", Aiko me questionou cheia de curiosidade e espanto.
"Porque eu sou neto da dona desse lugar, e já fui irmão da Kanako, a atual gerente...", eu respondi.
Ela coçou a cabeça e replicou: "Como assim, senhor? Como o senhor foi irmão de alguém e agora não é mais?". Nossa, ela era bem esperta para uma menina de quatro anos.
Tentando ser gentil, eu expliquei: "Olha, isso é algo muito difícil de explicar. Quando você for maior, eu prometo que eu lhe explico, ok?".
Ela me olhou com estranheza e questionou-me: "Ué, nós vamos nos encontrar de novo, senhor?".
"Se a tua mamãe deixar, eu creio que sim...", eu disse, tentando pôr minha mão sobre a cabeça dela. Ela se afastou assustada e correu para longe. Uma mulher ao longe apareceu, fazendo Aiko parar com a correria. Quando o vulto se aproximou, eu constatei que era a Motoko.
Aiko ficou paralisada, então Motoko se abaixou e acariciou os cabelos da filha, dizendo: "Aiko, quantas vezes eu já disse para não conversar com estranhos?".
Aiko ficou cabisbaixa e balbuciou: "Desculpa, mamãe! É que aquele senhor sabia meu nome e que eu sou filha da senhora!". Eu também fiquei triste quando Motoko me chamou de 'estranho'.
De repente, Naru também apareceu e foi ao encontro de Motoko, com Reiji de mãos dadas. A ruiva se aproximou e exclamou: "Motoko, eu vejo que você conseguiu achar a Aiko!".
Motoko apontou na minha direção e disse com sarcasmo: "Adivinha quem ela encontrou?". Naru olhou para onde Motoko apontava e então me viu, sentado na beirada da caixa de areia. Naru piscou os olhos e aproximou-se, trazendo o Reiji pela mão. Motoko veio logo atrás, de mãos dadas com a Aiko.
As duas mães se olharam e sorriram, como se ela conversassem entre si através de telepatia ou por algum código secreto. Motoko se ajoelhou e falou no ouvido de Aiko: "Bem, já que a mamãe falou para não conversar com estranhos, deixa eu te apresentar este moço para que você se sinta mais segura. Aiko, esse moço é o teu papai!".
Aiko se arregalou e virou-se para a Motoko, exclamando: "Papai? Você está falando sério, mamãe?".
Motoko deu o mais belo sorriso e disse: "E você realmente acha que a mamãe mentiria sobre algo tão importante, meu amor?".
Aiko se voltou para mim e olhou-me ressabiada; ela me tocou timidamente no rosto e então me perguntou: "Você é o meu papai? De verdade?".
Eu sorri para ela e respondi: "Mas é claro, meu bem! Eu sempre sonhei por este momento!".
"E por que você não me procurou antes? Eu nem sabia que eu tinha uma papai de verdade!", Aiko confessou cabisbaixa.
"Papai estava muito longe. Bem longe daqui, pois eu precisava estudar para saber cada vez mais. Eu mandei muitas cartas, mas eu não sei se elas chegaram. Desculpa, eu não queria ficar longe de você!", eu expliquei da melhor forma que eu consegui.
Reiji olhou para Aiko e consolou-a: "E então, você não está contente de saber quem é o teu papai? Poxa, eu nem sei quem é o meu papai e estou feliz por você!".
Então, Naru se abaixou e falou para o próprio filho: "Reiji, quer ficar mais contente ainda?".
"É claro, mamãe!", disse Reiji com entusiasmo. Eu notei que ele possuía o mesmo vigor, a mesma vontade de viver da Naru.
Naru sorriu e falou: "Então está certo. Reiji, esse moço também é o teu papai!".
O filho da Naru se virou para mim, com os olhos tão arregalados que pareciam prestes a saltarem das órbitas a qualquer momento. Ele me tocou no rosto e indagou: "Papai? Você é o meu papai?".
Eu sorri para ele e então comentei: "Pois é, Reiji. Eu sou o teu papai também!".
Reiji me olhava com curiosidade e então perguntou: "Qual o teu nome, papai?".
Eu tirei os óculos, para que ele me visse como eu era sem eles, e então eu respondi: "O meu nome é Keitaro, meu filho!".
A reação de Reiji foi bem mais amistosa que a de Aiko; ele pulou no meu colo e deu-me um abraço apertado. Aiko se agarrou no pescoço de Motoko e choramingou com a cara enfiada no ombro da mãe dela. Depois de algum tempo, Reiji desfez o abraço e observou a choradeira de Aiko. Naru pegou o filho no colo e disse: "Muitas surpresas para um dia só, não é, Keitaro?".
Eu apenas meneei positivamente, pois a tristeza de Aiko me emudeceu. Eu não entendi por que ela recebeu a notícia daquele jeito, contrastando com a alegria de Reiji. Eu observei as jovens mães se afastarem de mim, rumando para os anexos; eu tentava imaginar como eu poderia recuperar todo o tempo que eu fiquei longe dos meus filhos.
PV: NARU
Finalmente, o meu filho conheceu o pai. Depois de tantos percalços, eu consegui dar uma grande alegria ao meu pequeno Reiji. Eu o carregava no colo, então eu podia sentir a alegria daquele pequeno ser. Para mim, aquilo era um fato que me dava a esperança de ser a escolhida do Keitaro.
Eu pensei no que todas nós fizemos mais cedo; como um homem conseguiu levar tantas mulheres à polvorosa? Eu não sabia a resposta, mas eu sabia que todas nós éramos loucas por ele. E o meu Reiji ficou fascinado pelo recém descoberto pai.
Quando nós chegamos aos anexos, eu toquei no ombro de Motoko e consolei-a: "Eu sinto muito!".
Motoko se voltou para mim, e eu constatei que Aiko adormeceu no colo da samurai. Outro fato que me chamou atenção foi o ombro encharcado de Motoko, o que sugeria que Aiko chorou bastante, mesmo em silêncio. Motoko me encarou com seriedade e questionou-me: "Por que a desculpa?".
Eu fiquei encabulada e balbuciei: "Bem... Eu me surpreendi com a reação da Aiko... Eu quero dizer...".
Motoko ergueu a mão que estava livre, fazendo um sinal de interrupção. Então, ela falou: "Você quer dizer que a Aiko reagiu de uma forma mais negativa que a reação do Reiji, não é? Bem, contra fatos não há argumentos. Mesmo conhecendo o pai, ela ainda se sente abandonada por ele. Ela... Ela é como eu, Naru. Eu demoro a confiar nas pessoas, mas eu sou confidente até o fim caso eu confie na amizade de alguém. Keitaro terá que ser mais incisivo para conquistar a confiança de Aiko. Bem, toda essa história foi muito estafante para a minha filhinha, eu vou coloca-la para dormir. Boa noite, minha cara adversária! E até a festa de amanhã!".
Eu sorri após as palavras finais de Motoko, dizendo: "Sempre será um prazer em tê-la como amiga e contendora. Eu desejo que nossa amizade não acabe após toda essa jornada!".
Motoko sorriu com entusiasmo e cumprimentou-me estendendo a mão. Ato contínuo, cada uma entrou no próprio quarto que a Haruka emprestou para pernoitar. Afinal, nós éramos mães zelosas, com filhos para colocar na cama.
PV: KEITARO
Os primeiros raios de sol que conseguiram vencer as arestas da janela me acordaram. Um dia do domingo sempre caiu bem com um céu ensolarado. Eu tomei o café-da-manhã com a Haruka, algo que eu não fazia há alguns anos. Eu aproveitei cada minuto que eu tive com a minha mãe adotiva, pois eu não sabia qual seria a próxima oportunidade de estar com ela novamente.
Depois do café, nós saímos juntos pelas redondezas do Hinata-sou. Aquele dia ensolarado era um convite para um belo passeio ao ar livre. As garotas esperavam por uma resposta, então eu aproveitei o passeio para arejar a minha cabeça e pensar melhor sobre o assunto. Todas elas tinham qualidades fenomenais, assim como temperamentos marcantes e corpos esculturais. Todas elas se sentiam muito à vontade comigo, como eu pude constatar na manhã anterior. Então eu percebi que a escolha seria complicada, e eu tinha até o início da noite para dar uma resposta... Eu tinha mais esse problema: pedido de casamento com prazo final de entrega!
Durante a caminhada, a Haruka dava espiadas constantes no relógio de pulso. Eu tentei imaginar que tipo de compromisso ela teria agendado para uma manhã de domingo. Como aquilo me deixava cada vez mais intrigado, houve um momento em que eu não resisti e perguntei: "Haruka, você tem algum compromisso para hoje?".
"Sim, eu tenho. Mas é uma surpresa, logo você vai descobrir o que é...", Haruka me contou serenamente. Outra surpresa para mim? Eu não sabia se eu devia ficar feliz ou preocupado. Enfim, eu decidi não criar muitas expectativas sobre qual seria a nova surpresa que elas preparavam para mim.
Depois de algum tempo caminhando a esmo pelas redondezas do Hinata-sou, Haruka me cutucou e sugeriu: "Vamos dar uma passada no ginásio da cidade?".
Eu a encarei e comentei: "Então a surpresa está guardada no ginásio? Eu estou curioso para descobrir o que me espera lá.".
Haruka me deu um sorriso sereno e reiniciou a caminhada, acompanhando-me na jornada em direção ao ginásio. Ao chegarmos lá, eu vi Naru e Motoko, cada qual com a própria filha, esperando-nos na entrada do ginásio. Eu e a Haruka nos aproximamos das garotas e cumprimentamo-nas. Naru me disse: "Kei-kun, fique com os teus filhos aqui fora. Quando nós estivermos prontas, você poderá entrar!".
Todo aquele mistério me intrigava, mas eu me controlei; eu me lembrei que as garotas costumavam aprontar surpresas retumbantes – algumas agradáveis, outras nem tanto. Os meus filhos se aproximaram de mim, mas cada um deles com reações antagônicas à aproximação. Reiji prontamente correu até mim e agarrou a minha mão direita; ele estava muito sorridente e não parava de pular. Aiko demonstrou desconfiança na postura, aproximando-se lentamente de mim; ele titubeou quando eu estendi a mão esquerda para ela.
Haruka ficou de prontidão na porta do ginásio. Depois de alguns instantes na espera, Haruka sinalizou para que entrasse no ginásio. Ao entrar, eu constatei que o local estava lotado com pessoas que eu conheci em diversas fases da minha vida. Nossa, eu percebi que somente o Seta-san não estava lá.
Uma bonita faixa no centro do ginásio dizia 'Bem-vindo ao Japão!'. Na quadra, uma rede de vôlei estava armada. Todos me cumprimentavam e diziam que estavam felizes com a minha volta. Eu não sabia que eu cativei tantas pessoas na minha passagem pelo Hinata-sou e na Toudai. No meio da balburdia, o sistema de som anunciou que a partida iria começar, convidando a todos para que sentassem nas cadeiras de público. Eu me intriguei com aquilo e olhei em volta para entender o que estava acontecendo.
Eu notei que Shirai se aproximou de mim e eu sorri em gentileza. Ele se inclinou um pouco e disse: "Fala sortudo! Tem uma cadeira especial para você assistir à partida! Venha, você é o homenageado!". Eu o acompanhei até o referido assento, e os meus filhos sentaram nos assentos vizinhos ao meu. Depois que todos no recinto se sentaram, as portas do vestiário se abriram. Mas que coisa, saíram do vestiário a Haruka, a Tsuruko e a Natsumi vestidas de árbitros. Todos aplaudiram com entusiasmo, enquanto eu estava perplexo.
Haruka pegou um microfone e fez o seguinte discurso: "Bem-vindo a todos. Todos os que estão aqui, de alguma forma, estão ligados ao Keitaro ou ao Hinata-sou, Há cinco anos, nós iniciamos um empreendimento que mudou a história do Hinata-sou. Uma bar temático que se desdobrou em diversas outras atividades que salvaram a situação financeira da Hinata-sou, além de trazer fama e status. Para celebrar o retorno de uma pessoa tão importante para todas as garotas que iniciaram essa fabulosa empreitada, um jogo entre times compostos com as mulheres que iniciaram toda essa história mais alguns garotas que foram importantes na vida do nosso homenageado. Gente, é hora de celebração!". Ao terminar a frase, ela solenemente ergueu o microfone, provocando os gritos de celebração dos espectadores. Toda essa festividade era típica das garotas; elas não iriam perder a oportunidade de criar um evento social e colocar toda a alegria que sentiam para fora.
As luzes do ginásio se apagaram e um holofote iluminava a quadra. A Haruka anunciava os times; cada jogadora que entrava na quadra arrancava os aplausos da multidão. O primeiro time foi composto pela Naru, Motoko, Mutsumi, Kitsune, Kaolla e Shinobu; elas usavam calções vermelhos e camisas brancas como uma listra azuis-marinhas na parte externa das mangas. O segundo time tinha Kanako, Sarah, Nyamo, Mizuho, Ema e Amalla; elas usavam calções azul-claros com camisas azul-marinhos com uma listra vermelha na parte externa das mangas.
Quando a Naru entrou em quadra, Reiji imediatamente ficou de pé sobre o assento da cadeira e agitou a mão para a mãe com alegria. A Naru percebeu e agitou a mão de volta, apontando para o filho e jogando beijos no ar. Já quando a Motoko entrou, a Aiko se encolheu na poltrona; eu disse a ela: "Você não vai saudar a mamãe? Ela vai gostar, vai fundo! Vamos comemorar juntos!".
Eu dei um sorriso como um gesto de afirmação, e isso teve uma resposta positiva; ela se levantou na poltrona – como o Reiji fizera – e acenou para a mãe. Quando a Motoko percebeu, ela deu uma piscadela e jogou um beijo no ar. Depois do beijo, Motoko desenhou um grande coração no ar com os indicadores e apontou para a filha. Finalmente, eu vi um sorriso da Aiko; ela me olhou com um sorriso tão terno, tão contagiante, que eu voltei a sorrir. Quando em me dei por conta, a minha filha tinha colocado a mão dela sobre a minha. Aquilo me deixou tão feliz!
Depois da entrada das jogadoras, as luzes se acenderam e a partida iniciou. A maioria das substitutas eu não conhecia, provavelmente eram algumas das moradoras que o Hinata-sou teve nos últimos cinco anos. Obviamente, o público masculino se preocupava em admirar a beleza das jogadoras; já o público feminino torcia conforme a afinidade. Algumas gostavam da Naru e da Motoko, outras gostavam da Kanako e da Mizuho. Muitas mulheres que estavam no público também foram ou eram moradoras da pensão.
No final, o time da Naru e da Motoko ganhou no tie-break. Com o final da partida, a Naru pegou o microfone e proclamou: "Obrigada a todos que participaram da torcida! E a festa continua!".
Diversas mulheres apareceram do nada, todas elas prováveis moradoras da pensão, trazendo mesas, quitutes e bebidas para o centro da quadra. Depois da partida, um belo coquetel esperava a todos nós. Diversas moradoras do Hinata-sou trabalhavam como garçonetes.
Depois de algum tempo perambulando na festa com o Reiji e a Aiko à tiracolo, as garotas que tinham jogado e as mulheres que atuaram como árbitras voltaram ao ginásio, devidamente limpas e arrumadas. Todas estavam deslumbrantes; elas se aproximaram e fizeram um círculo em torno de mim. Reiji pulou na Naru e a Aiko se aproximou da Motoko pedindo colo. Kitsune quebrou o gelo e alfinetou: "Então, Keitaro, você já tem uma decisão?".
Eu evitei olha-la, mas eu respondi: "Não é tão fácil assim... Você tem certeza que deseja falar sobre isso na frente dos meus filhos?". Kitsune fez cara de desgosto, talvez porque ela percebera que eles estavam ali.
Depois daquilo, todos nós conversamos sobre banalidades; sobre a minha viagem pela Europa, os meus estudos, sobre como elas viveram durante minha ausência... Eu aproveitei para conhecer melhor a Ema-chan, pois ela entrou na pensão durante minha estadia no Velho Mundo. No jogo de vôlei, ela entrou no time principal... Por que ela era uma pessoa tão importante para a pensão? Ela provavelmente conquistou a amizade das antigas moradoras, mas eu não sei como.
Quando a festa acabou, toda a turma retornou para a pensão. Enquanto nós subíamos a estrada da colina, nós conversávamos jovialmente. Havia algum tempo que eu não tinha um papo tão amigável com elas. Quando eu cheguei aos anexos, eu senti uma mão impedindo minha ida; era a Naru que me segurou. Todas as outras garotas estavam atrás da ruiva fatal. Aliás, a ruiva não falou nada, mas eu percebi o que todas elas transmitiam nos olhares; elas queriam uma resposta. Bom, se era uma resposta que elas queriam...
Eu pigarreei e afirmei: "Bom, amanhã após o café eu aliviarei o peso que vocês carregam. Eu darei uma resposta. Sem pressa, sem atropelos.".
Todas sorriram e cada uma delas se despediu de mim com um beijo no meu rosto, inclusive as que não eram pretendentes. Eu rumei para o meu apartamento, pensando na resposta que eu daria no dia seguinte. Todas eram espetaculares; eu não sabia qual escolher. Mas eu precisava acabar com toda aquela indecisão; eu devia escolher a melhor opção.
Capítulo escrito entre 20/10/2006 e 15/11/2006. Um capítulo para auxiliar a fechar o ciclo final; eu tentei fazer idas e vindas, no mesmo estilo em que o Akamatsu fez no manga original. Agora é com vocês: com quem Keitaro deve ficar? Ajudem-me nesta difícil decisão. Depois de dois anos de saga, eu finalmente estou próximo do desfecho. Eu conto com vocês para tomar um rumo definitivo para esta coleção de contos.
Min'na-san, arigato gosai masu!
