Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos do conjunto da obra Saint Seiya e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal
Este texto é integrante do Projeto Revisional Moira Coil
TAURUS—SOBRE O TEMPO, A VIDA E AS ESTAÇÕES
de Seiko Yoroi
III.
Acreditar
-ooo-
—Comandante, quanto ainda falta?
—Para o quadrante nove, menos de dois quilômetros. Daí vai ser achar a tropa da Suni...ou o que sobrou dela...
O rapaz coçou a cabeça, sem reduzir passo. Por alguma razão, o trajeto lhe incomodava. Era o mais curto, o menos bloqueado, o mais próximo do ponto de destino. E ainda assim algo ia errado. O silêncio, desfeito apenas pela passada dura dos soldados e pela voz de Jacira tocando a marcha da tropa era estranho demais. Únicas testemunhas, mudas e inertes, os grandes prédios de alvenaria sem pintura, justapostos, ornados de grandes antenas, deixavam passo em um corredor meio estreito. Nada mais que gigantescos túmulos num cemitério com suas cruzes de alumínio.
Não fazia sentido. Se a cidade inteira estava aos pedaços, por que logo lá as coisas tinham que estar tão quietas? O moço olhou ao redor, confuso, temeroso. Silêncio de criaturas: gente, cachorro, ave ou rato não se via. Engoliu em seco: dar-se ia por feliz de ver uma barata no chão ou mosca no ar. Nem isso.
E o líder da tropa combinada sem se deter, reluzente no metal vermelho, avançando os passos largos pela rua, mais ansioso para achar o destino do que com a terra sem vida que o cercava. Não percebia nada?! Quis gritar, deter passo ali mesmo, os pés ralentaram por um minuto. A soldadesca quase o atropelou. Jacira o chamou à ordem aos berros:
—Aperte o passo, Kimball! É para hoje!!
Seguiu os outros, descontente. Na tropa, os colegas marchavam sem abalo, velozes, indiferentes ao lugar. Então talvez fosse exagero seu. Queria estar errado. Mas como argumentar contra toda a ciência da guerra, contra tudo o que havia aprendido para ser um militar? A memória das aulas de tática e levantamento de terreno lhe vieram à mente:
"Se não há sinal de vida...a morte deve estar lá. Então afaste-se"
Angustiado, pensou em deixar a formação, fugir, desertar do grupo para salvar a própria pele. Só mesmo a honra pelo título e pela armadura santa de Constelar, já nublada pelo medo de morrer, poderia fazê-lo mudar de idéia
—Kimball, onde pensa que vai?! É por aqui!!!
Ou o temor de alguma punição pior do que a morte. Não queria ir em frente, mas sabia que irritar Jacira, sua geniosa superior imediata, era péssima idéia. Tratou de pensar em algo, acelerou o passo, alcançou os oficiais que iam na frente. Receoso, preferiu não ir direto à moça; antes, achou mais prudente falar com o gigante vermelho, líder da marcha. Talvez fosse mais razoável.
—Comandante desculpe incomodar, mas este caminho não é bom! Estive reparando que não tem nada vivo ao redor de nós! Tenho a impressão...não tenho certeza que algo muito ruim aconteceu aqui!
O gigante manteve os olhos firmes no trajeto, como se não houvesse ouvido nada. Mas respondeu, com voz calma:
—É. Isso mesmo.
O Constelar ficou surpreso: o oficial concordava? Então nada mais justo que saíssem dali de uma vez por todas.
—Vamos voltar, comandante! É possível achar outra rota e...
—Nem pense nisso.
E seguiu marchando. Kimball travou no lugar: não conseguia entender. Afinal, se o oficial tinha consciência do perigo de onde seguiam, por que insistia nisso? Inconformado, e antes que Jacira gritasse com ele de novo, correu até o gigante, agarrou-se em sua armadura tentando fazer valer a razão.
—Comandante, desculpe o atrevimento, mas isso é loucura! Eu disse que NÃO TEM NADA VIVO AQUI, e o senhor concordou, não foi?
—Sim—o oficial respondia com voz calma, sem desviar os olhos.
—E concordou comigo que algo horrível aconteceu com as coisas vivas daqui, não foi?
—Isso—e pela primeira vez olhou lá do alto para o subalterno— Eu suponho que você imagine o que aconteceu com as coisas daqui, não?
Kimball embatucou, perplexo.
—Eu...eu...Bom, não exatamente, mas...
—Elas foram devoradas, provavelmente engolidas inteiras.
O Constelar ficou pálido. O chefe explicou:
—Não há sangue ou restos de nada no chão, então não é uma fera com garras ou presas de dilacerar. Se fosse algo que desintegra o que se mexe, já teria me matado: eu fui o primeiro a entrar, e já andamos bastante nessa área vazia. Também não teleporta ou anula, já que continuamos todos aqui. Não deixa veneno no ambiente ou teríamos visto cadáveres. E também não é humano: por mais poderoso que seja, um humano não consegue espantar todas as aves e insetos de um lugar sem deixar marcas.
Parou de explicar por um instante, os olhos fixos no alto
—Apesar...que esse deixou marcas. Mas não são humanas.
Apontou para cima. Ali, pendendo sobre as cabeças, balançavam cabos de telefone e eletricidade rompidos e uns galhos altos de árvores quebrados, o cheiro de seiva nova ainda infestando o ar. Kimball engoliu em seco.
—Comandante...Essa coisa...Ela está aqui perto...
—Sim. É uma questão de tempo para nos achar. Pouco tempo.
Foi a conta. O Constelar se desesperou. Agarrou o braço do chefe, gritou tentando por toda a força se fazer ouvir:
—Mas então se é isso, se o senhor sabia de tudo, por que nos trouxe para cá?!? Qual o sentido de nos enfiarmos numa armadilha???
Um chiado rouco, som de lixa sobre pedra quebrou o silêncio. Kimball tremia, sentindo o inimigo à espreita. O gigante vermelho apenas prestava atenção no som, tranquilo, sem olhar no subordinado agarrado ao seu braço.
—Constelar Kimball...Se sabemos como é o inimigo, como ele age e até onde ele está...me diga, qual o exato sentido de fugir dele? Nesse caso, compensa mais enfrentar, não é verdade?
—Mas e se ele for muito forte...e...
—É, ele é forte sim. Mas nós somos muitos.
E sorriu tranqüilamente para o subordinado. Ao mesmo tempo, foi concentrando energia no punho, mirando com o canto dos olhos alguma coisa que se mexia no vão dos prédios:
—Confie na sua força, na nossa força
Um segundo só. Dito isso, virou e disparou, chamando a tropa à ação
—Esquadrão Gama, à direita! ATACAR!!!
-o00o-
Confiança
—Deus sabe o que faz. É o jeito.
No areião, caminho final para Jandaia, a comitiva de Mestre Januário seguia de cabeça baixa. Tudo bem que ia de rebanho completo, nenhuma rês mais perdida desde a tarde anterior. Mas onde arrumar desculpa para o único sumiço, a única baixa num caminho tão breve.
—Com sua desculpa, Mestre...mas a gente devia ter descido o barranco.
Januário apertou o passo da mula, pegando distância dos outros ponteiros. Não queria ouvir falar em barranco, se pudesse nem na malhada milionária que perdeu na noite de temporal: a vaca holandesa tinha sumido de vez. Não tinha como saber se estava viva ou morta, apanhada por onça marruá, atolada em algum brejo ou se algum infeliz, arrendado de fazendas na vicinidade havia simplesmente lhe passado na mão e levado embora. Mansa, boba que era. Evaporou-se na chuva igual assombração, último rastro deixado na beira do barranco dos angicos, lugar onde quase perdeu as outras junto.
—Ao menos as ôtra estão bonita. Pode ser até que perdoem.
Que bobagem. Perdão, na língua dessa gente rica, se escrevia com notas de cem, muitas delas. Não iam querer saber de exemplo do Cristo ou do que diziam, de que gente que é gente mesmo, erra de quando em quando. Pagar a vaca. Vaca comprada em leilão nas Gerais, paga em moeda estrangeira, nem sabia o nome. Pagar a vaca: e mal tinha dinheiro pra sustentar a si e às montarias, iam já sem ferros nas mulas, casco rachado, quase no sangue. Pedir tempo: esperança, não queriam nem o atraso! Estava realmente com problemas: não tinha dinheiro para cobrir o prejuízo, nem que entregasse a casa, a mulher e os filhos todos.
Rosnou, amargo por dentro. Entregar os filhos não ia ser idéia ruim não. Ao menos aquela cria do diabo, bugrinho arrenegado que só lhe fazia vergonha. Ontem de novo, mais uma vez, inventando desculpa pra escapar da coça, bilhete deixado na surdina com a dona da casa enquanto os mais velhos da comitiva iam ocupados, tangendo a vacalhada pra dentro da cerca do pasto, ajeitando tudo certo. Só pra lhe dar mais vexame:
"Pai
Sei que o senhor não aprendeu ler, então pede pra dona Da Luz ou Moacir ler pro senhor. Foi ruim o que eu fiz, devia ter deixado ou Terenço ou Melquias na fiança esquerda, mas bom que deu pra consertar. Então, consertado, acabado: tudo certo, fora o caso da holandesa, que eu vi onde foi. Levei sua mula que é mais ligeira, assim chego logo de volta no barranco. Vai ficar tudo bem, mas pode ser que eu demore: levei corda boa pra descer, lanterna e um gancho de roda que pedi pra Zé Luís (que se eu pedisse pra Tião, não me dava). Descer agora vai ser fácil, mas tenho que depois achar jeito de subir com a vaca.
Levei também o lanche que dona Da Luz fez, mais um cacho de banana doce. Sossegue que não tirei o dos outros, só o meu. E levei também a viola, que nunca se sabe se vai fazer lua boa.
Me espere não: toque a comitiva pra Jandaia, pra fazenda dos paulistas. Se chegar antes de mim, diz que a vaca parou pra beber no rio, mas que já está no caminho.
Até mais tarde (amanhã, acho).
Ah, e voltando pra casa, pede pra mãe lhe ensinar leitura. Ajuda bastante."
Peste, daninho. Fugiu, só podia! E quem ia pagar alguma coisa naquele traste-à-toa, que mais sabia era carvotear com a viola pra cima e pra baixo, escutar disco do mascate ou roubar as leituras de verso da irmã, com qual fim não se sabia? Lembrou de toda a raiva que sentiu ao achar o bilhete com dona Da Luz, da cara de espanto da peãozada, de tentar ir atrás do coisa ruim quando a noite já caía, impossível de seguir rastro no breu. As caras e vozes dos homens, lhe pedindo tento, o menino Zé Luiz apanhando da cinta de Tião, pra aprender direito a "não bulir com as coisas do pai". Tião estava certo: no seu faltou bater mais, era isso.
Coisa que parecia castigo: e tanto fez pra que tivesse um filho homem, veio-lhe logo aquele molanqueiro, só tamanho, não servia pra nada. Verdade que era gostado e lhe tinham respeito, na comitiva e na vila de São José, poucas léguas de casa. Bom de gênio, cheio dos amigos, sorria fácil, conversava com toda a gente. Nem parecia filho de bugre. Tocava viola e cantava, sabia ler, sabia fazer conta: isso tudo a mãe índia ensinou, ela mesma que só aprendeu escrita de grande, depois que largou a vida sem pouso, o resto das aldeias dos Panará não lhe querendo mais. Danação. Podia o diacho da bugra ter-lhe ensinado alguma coisa de mais útil, ao menos a não ser de embaraço? Ah, era pedir demais!
—Mestre Januário, tou vendo porteira ali. É a fazenda. A gente tem que soar berrante.
O comissário respirou fundo, pediu força para encarar a paulistada lá dentro, ruminando no que dava para fazer pra melhorar as coisas. Oferecer serviço em troca: mas até quando? Entregar as mulas, os baixeiros. Aceitar a desculpa do menino, e enquanto esperassem a vaca, escapar-se com quantas pernas tivesse, nariz virado para o poente, sem olhar para trás...Isso não! Era homem! Homem que é homem não foge de nada, só de enxurrada brava e de incêndio na mata, o resto se enfrenta. Estufou o peito, chamou os ponteiros pra junto de si.
—Vamos, olhando nos olhos. Nós é peão, nós tem orgulho.
Ergueu o berrante, tocou a nota rouca, alongada, o som se perdendo na distância. Foram marchando solenes, tangendo as vacas em passo de procissão, cabeça erguida e mão tiritando na rédea, nervosismo guardado no fundo do estômago. A hora da verdade. Na porteira, se aproximando montado num cavalo baio, pelo lustroso igual cetim, o moço que tratou o serviço: decerto pra conferir que tudo houvesse chegado como a combinação.
—Senhor Januário, que prazer! Entre, vamos entrando, a casa é sua. Pode conduzir o gado direto para o fundo da alameda de jabuticabeiras, lá tem os funcionários do curral, eles vão ajeitar tudo como se deve. Trouxe elas direitinho, estão de parabéns.
Mundo louco: e não é que o homem era a cara da felicidade? Trocou um olhar perplexo com os outros companheiros de ponta: mas que era aquilo?
—Muito agradecido, senhor. Perdemos um dia por causa da chuva e...
—É verdade, andou chovendo muito. Mas não tem problema. Levem as vacas para o fundo, que pedi para meus cozinheiros fazerem um almoço especial pra vocês. Tem carneiro no buraco, churrasco de picanha, galinha de cabidela, pato com mandioca, feijão tropeiro...e doce, doce de ovos, brevidade. Tem um monte assim grande de brevidade na cozinha. Também faço questão que provem da nossa cachaça, é receita de Minas, envelhecida: dizem que não tem melhor. Vamos, vamos!
Não dava para entender. Matutou um pouco, na certa o homem não havia dado pela ausência da holandesa, talvez contasse com ela misturada no meio das outras. Uma vaca malhada de vermelho e branco, enorme, no meio das outras castanhas, mais baixas, mais magras. Impossível. E pensar que o homem havia feito tanto caso por ela, tanta questão de que chegasse perfeita, tanto cuidado. Agora a vaca sumia...e ao invés da cobrança vinha-lhe uma festança de boas-vindas, pouso do melhor e banquete armado assim que entregassem as cabeças. O homem atinava bem?
Enquanto levavam as reses pela alameda de jabuticaba ia ouvindo os sons na distância, parecia que a celebração já havia começado. Um toque de viola não estranho lhe chegava aos ouvidos, bem como uma voz familiar:
"Há tanto canto na terra
Que uma vida inteira encerra!...
E que vida!... Um céu de amor!
Seremos dois passarinhos,
Faremos os nossos ninhos
Lá onde ninguém mais for."
Música não de desconhecimento. Sim. Já ouviu, era a do raio do disco do mascate, aquele velho, feio, com uma coroa no envelope, que deram junto com as panelas e o baixeiro mais novo só para inteirar troco. O tal disco que lhe enchia as orelhas de sempre em sempre: nessa hora maldizia de terem puxado luz de poste para dentro do arraial, e de ter aceitado a vitrola velha, troca do vendeiro Josafá pelo conserto na porta, anos que já iam disso. A mulher tinha dedo na arte de novo: "Aceita, Januário. Deraci está ficando moça, vai gostar de ouvir música."
Pois que: Deraci nem ligava. Agora o filho, o moleque, o fujão duma pinóia, esse gostava. E já não bastasse o disco, tirava as músicas, todas na viola. O dia inteiro, tocava e cantava:
"De manhã, inda bem cedo,
Hás de acordar, anjo ledo,
Junto do meu coração...
Ao canto alegre das aves
As nossas canções suaves,
Quais preces se ajuntarão."
...Cantava!
Arregalou os olhos, largou a comitiva a se encarregar das vacas, disparou no sentido da música. Um empregado veio, pediu que não fosse de mula até o jardim: apeou e correu com as pernas mesmo. Ali, sentado numa fonte bonita, das com cisne nadando e um esguicho em forma de anjo que cuspia água sem parar, rodeado de um monte de moça e até de alguns rapazes, mais velhos que a idade dele, o alvo da sua suspeita estava muito bem, obrigado, dando os últimos acordes na viola de dez cordas, arrancando suspiros e palmas:
"Vamos, meu anjo, fugindo,
A todos sempre sorrindo
Bem longe nos ocultar.
Como boêmios errantes
Que repetem delirantes:
'P'ra ser feliz basta amar'!"
—Filho!!!
A roda se abriu, os rostos simpáticos daquela gente mais clara e arrumada sorrindo, agora olhando para ele. O garoto baixou a viola.
—Ah, esse é o meu pai, Mestre Januário. Me ensinou muita coisa do que eu sei. Foi ele que trouxe a comitiva até aqui: é um boiadeiro à moda antiga, tem muita história pra contar. Menos história que sêo Davino, mas que tem, tem.
A deixa. Antes que pudesse protestar ou dar um cascudo no moleque, o povo branquelo o rodeou, fuzilando de perguntas, cheio de interesse:
—O senhor que ensinou ele? Nossa, o senhor sabe muita coisa! Eu não aprendi a tocar violão assim!
—Boiadeiro, que profissão emocionante! O senhor cuida de coisa de muita responsabilidade. Imagino o que foi desta vez: sabe que o meu primo nem terminou de pagar a Antoniette, tem mais duas parcelas e é dólar. É um serviço muito sério.
—E é perigoso, com tanta onça e bicho que tem no caminho, pra não falar em bandido. O senhor não tem medo de nada, não é?
—Eu sou estudante de sociologia, estou fazendo terceiro ano de universidade em São Paulo. Me conta, senhor: como é viver assim? E as lendas que o povo conta, o que o senhor conhece?
Não sabia nem o que fazer, enquanto era arrastado gentilmente pelos paulistinhas falantes, posto sentado no mesmo canto que o garoto estava. Claro, o malandro ia se escafedendo de novo.
—Espera um pouco, mas que história é essa? Antoni...o que?
—Antoniette, pai, o nome da vaca holandesa que o senhor me mandou trazer na frente. Nome igual o de rainha da França. Bom, vou tomar uma água, que a cantoria me deu sede.
Tudo estranho, muito estranho. Foi para a mesa, tão abestalhado quanto os outros peões, comeu do bom, bebeu de melhor ainda, ouviu elogio o dia inteiro pela boa cuida da vaca—que tinha nome e sobrenome, era Antoniette de Sei-lá-das-Quantas, coisa de importância até nisso, se fossem ver tinha mais conhecimento dos avós e bisavós que até ele próprio. Discretamente, após o banquete, perguntou pra ver se a rês de ouro havia chegado direito, e onde estava. Foi levado até um estábulo de luxo, até com cheiro de flor: ela estava lá, mastigando tranqüila e pachorrentamente, as manchinhas cor de tijolo em cima dos olhos fazendo de conta que eram sobrancelhas de gente que sorri.
—Perfeita, seu Januário. Foi uma idéia ousada mandar seu filho, um rapaz tão jovem trazer ela na frente...mas não tem nem um arranhado que se veja, o serviço foi perfeito. E olhem só como a nossa Antoniette chegou feliz, ela está tão linda, tão alegre. Uma vaca radiante, parece até moça quando arruma namorado!
Não entendia mais nada. O homem gargalhava do próprio gracejo, de um canto o filho aparecia, sorriso maroto no rosto de bugre.
—E é um rapaz de habilidades, seu Januário. Conduz o gado como adulto, tem educação, é fino, bondoso. Chegou aqui e fez questão de ele mesmo por a Antoniette na baia, disse que era hora de vaca dormir, que também merecia. Um coração de ouro. E tocando o violão: ele pediu um canto pra tocar um pouco, eu disse que podia tocar no jardim, até fiquei com receio que fosse daquelas modas de caipira: nada contra, mas sabe, aquela cantoria gritada, aquele "chéng-chéng"...a gente não tem costume. Mas que nada, tocou feito um anjo, cada coisa bonita. Um dia tem que ir lá pra São Paulo, tocar nas festas da minha irmã: ela é casada com um pianista alemão, e conhece a música do tempo antigo. Olhe, seu Januário: esse garoto tem muito futuro, vai ser alguém grande na vida.
Nem quis discutir o assunto: e pra completar a doidura do dia, o carvoteiro-mor que não prestava pra nada agora diziam que "tem futuro, que ia ser grande"...grande além do tamanho, grande na vida. Saía como herói, tendo achado a vaca holandesa como prometido: e se foi como teimou, no fundo de um barranco enorme, onde devia estar mais quebrada que cabaça jogada em trilho de trem. As palavras se acabaram, e fora as respostas para o perguntê que a moça da tal Universidade insistia em lhe apregoar, não disse mais nada, apenas seguiu o dia findando, mais uma roda de viola que o filho tocou, mais mesa com bebida, mais doce e salgado de rico. Foi dormir numa cama melhor que a de casa, lençol com cheiro de pêssego, ainda imaginando se aquilo não era sonho.
Três horas da manhã, o bugrinho lhe acorda. Diacho, tava tão bom.
—Pai, hora de ir. Já ajuntei a comitiva.
—É cedo, Debarã. Vai dormir.
—Cedo não: o moço já está de pé, com a paga acertada. Dinheiro. Pega tudo e redivide no almoço, lá em sítio dos Da Luz. Não deixa ele esperar, que gente da cidade gosta de dormir até mais tarde, o homem quer voltar pra cama.
Saiu do leito macio resmungando, se vestiu, ajeitou as botas. No pátio esperavam a comitiva, sua mula selada e o moço rico, pagando em dinheiro bom por todo o serviço, e ainda dando algum à mais, coisa gorda: "uma boa caixinha para o violonista, que não teria tudo ido tão bem sem ele". Saíram no escuro mesmo, se guiando pelo branco do areião comprido, pegando o rumo do sítio de Tião da Luz.
Após uns bons minutos na marcha, silenciosa que ia, por fim o homem arriscou palavra:
—Como que você achou a vaca?
O menino apreciou:
—No fundo da barranqueira, como eu falei.
—Mas como isso? Não mente que é ruim!
—Ela foi pra lá.
—Pulou do barranco?
O garoto sorria, o branco dos dentes refletindo o pouco de lua, resto ainda encoberto pelo breu da noite.
—Isso não, ela deu a volta. Volta bem grande, até achar um caminho: e foi dali que eu tirei ela do fundo. Aquele chão era ruim, não pegava rastro.
Agora que Januário não entendia nada mesmo:
—Se não pegava, e o rastro dela que você achou na beira, o que era aquilo??
O garoto se espreguiçou, ainda espantando o sono.
—Ela ficou parada lá um tempo grande, logo depois da chuva. Por isso que marcou. Tinha jeito dela ter querido descer lá, mas vaca é vaca, aí não tem como. Ficou pateando, querendo ir no fundo...mas só foi quando ela mesma achou cheiro do que queria, aí seguiu a pista, deu a volta. Foi fácil de achar.
E emendou:
—Ela só estava lá porque queria muito alguma coisa que tinha no fundo, por isso ficou teimando, casqueando num lugar só. Vaca é bicho teimoso. Se não estava lá quando achamos o rastro, é porque encontrou jeito de descer.
O comissário embatucou, coçou a sobrancelhona, embasbacado: e não é que o moleque encostão era bem finório? Não só pra evitar o rabo-de-tatu: como diziam os peões, havia herdado seu olho bom pra mateiro, ou quem sabe tirado um ainda melhor. Deixou a surpresa carregar o resto da mágoa embora e riu divertido:
—Esse só podia ser meu filho mesmo! Mas conta pro pai, mas que querência tão urgente a vaca foi fazer lá embaixo, pra dar a volta no espinho do angico e tudo? E como você conseguiu levar ela de lá inteirinha? Afinal, ela pulou o farpado...
—Bom, aí é por partes. O "inteirinha" eu dei um jeito com graxa de bota, que depois de tudo que a vaca buliu, não tinha como de estar perfeita.
—Ah...—e Januário deu uma engolida em seco, já entendendo o porque de saírem tão cedo. Uma lavada na bicha e adeus perfeitice. Mas, dos males o menor.
—Agora, o motivo dela ter descido...bom...
—Fala? Tinha marmelada-preta nascendo ali?
—Mas que nada. Tinha um baguá ruço, bem maior que ela, cada chifre grande assim. Sorte a minha que o bicho dormiu, acho que cansou de tanto fuxico com a dona Rainha da França. Daí levei ela embora com o cacho de banana, a coitadinha estava morrendo de fome. Pai, essa era vaca de cruza, não era?
O caboclão gelou, arregalando os olhos, travado.
—Ai, não!
O garoto apenas picou a mula.
—Bom, se a gente for ligeiro, chega em Tião da Luz ainda antes de meio-dia...Vai ser um bezerro muito do bonito, vai ficar tudo bem. Tenha fé, pai.
Tenha fé. Ah, sim...
-o00o-
Fé. Acreditar. Persistência.
O mundo estava borrado, os olhos não funcionavam direito. Não tinha mais dor, em troca a fraqueza dominava totalmente seu corpo. Mas não podia desistir.
Encostou-se em um muro, mal se agüentando sobre as pernas. Pelas galáxias, como sentia frio! Se pudesse se render à própria vontade se deixaria cair ali mesmo, desistindo de tudo: do caminho, da missão confiada, da própria vida.
Isso não era uma opção. Tinha um último trabalho antes de descansar. Depois era depois. Mas agora...
Não teve tempo de pensar: foi derrubado no chão com fúria, garras e presas se cravando em seus ombros. Maldito o cheiro de sangue, fez uma trilha fácil para o inimigo! Sem força para se defender, não tinha mais reação. No delírio gelado da hemorragia cogitou mesmo se deixar retalhar: com alguma sorte um dos companheiros acharia seus restos, pegaria a entrega. Seu dever estaria cumprido.
Mas quanto isso iria demorar? Tinha que dar conta de seu trabalho com urgência antes que algo pior acontecesse. Olhou o inimigo nos olhos, sentiu perto o bafo imundo, o visco da boca prestes a lhe rasgar a garganta. Sorriu.
—Boa idéia!
No ataque da criatura, desviou o rosto, protegendo a jugular. E antes que a besta se desse conta do erro, afundou os dentes no pescoço da fera arrancando carne e sangue. O animal o soltou, uivando. Livre, tomou impulso e rolou sobre o inimigo. Agarrou-se à sua mandíbula, implorando forças para as estrelas distantes: suas mãos se rasgaram nos dentes afiados, mas não parou.
—Morre, desgraçado!!!
Um estalido surdo de ossos se quebrando, e a criatura veio ao chão, se contorcendo num espasmo final. Daquela havia escapado. Mas a que preço. Os joelhos cederam ante o peso do corpo, as mãos dilaceradas se apoiaram no chão. Ao seu redor, uma poça imensa de seu próprio sangue mostrava que vencer esse inimigo não quis dizer sair com vida. Era o fim.
Ergueu o braço com dificuldade, tocou a mão sangrante na bolsa de lona que carregava sobre o peito. Não agüentava mais: chorou lágrimas amargas de frustração, havia falhado em seu dever. Tudo o que queria, naquele momento, era um milagre.
—Não me deixem assim...Eu preciso cumprir o que prometi...Cosmo, universo, olha para mim...Athena...Deuses...Por favor...
E quando ergueu a vista para o céu, pronto a se deixar levar, viu na distância uma forma verde se agitando furiosa, com olhos de labareda em meio a nuvens de pó. A visão deu um urro e se lançou para baixo, sumindo no meio dos prédios como se tentasse lutar contra algo.
Seus olhos se encheram de esperança.
—Um combate...Os pelotões...Eu...ainda tenho chance...
Num esforço quase sobrenatural, obrigou a si mesmo a levantar, escorando-se como podia num muro ao seu lado. Arrastou as pernas, fez-se mover, precisava ir em frente. Queria deixar a morte para mais tarde, agora tinha chance de cumprir sua missão. Custasse o que custasse.
(continua)
Nota: Trechos de "Canção da Boêmia" (também conhecida por "Sonho da Boêmia" ou "Dama Negra"), de Castro Alves, são citados neste capítulo. Existem alguns registros de versões musicais desse poema—embora sejam bastante raros e apresentem algumas inconsitências quanto ao texto final .
