Disclaimer: Este é um fan work, feito totalmente sem fins lucrativos. Os direitos do conjunto da obra Saint Seiya e de todos os seus personagens pertencem à Toei Animation e Masami Kurumada. A exploração comercial do presente texto por qualquer pessoa não autorizada pelos detentores dos direitos é considerada violação legal

Este texto é integrante do Projeto Revisional Moira Coil


TAURUS—SOBRE O TEMPO, A VIDA E AS ESTAÇÕES

de Seiko Yoroi


IV.

Mau Agouro

-ooo-

—O ...O que é essa coisa??

—Serpente gigante alada, a mesma coisa que chamam de wyvern em livros de contos-de-fada...Com a diferença que esse não estava num livro.

O monstro verde, caído frente aos soldados exalava um cheiro forte de ácido. Com a cabeça esmagada, mesmo morto ainda representava perigo: o sangue cáustico se espalhava pelo chão. No meio do esquadrão Gama, soldados jogavam fora luvas e botas derretidas, à frente da tropa o gigante retirava a manopla da armadura, que borbulhava.

—Isso é o que eu chamo de veneno!—observou Jacira, pasma—Essa coisa ferveu o metal...Nunca vi nada parecido antes!

—Não passa na hora pelo metal, mas vai deformando...—o gigante olhava o dorso da manopla se enrugar, preocupado—Se o que tiver no quadrante 9 for parecido com isso, não gosto nem de pensar no estado em que vamos achar as vítimas. A gente tem que ir logo. Temos baixas?

—Nenhuma por enquanto, no máximo ferimentos superficiais...Foi muita sorte a nossa termos atacado antes que esse bicho nos pegasse...

—Ótimo. Então vamos andar antes que algum outro bicho maior nos pegue.

Reorganizou a tropa e saiu dali com seus soldados, em passo ligeiro. Jacira se preocupou: conhecia o amigo de longa data, e por mais que ele aparentasse tranqüilidade, não conseguia esconder dela o nervosismo que o consumia por dentro. Estava escrito em seu olhar que algo ia muito mal. Foi até ele e perguntou discretamente:

—Pode me contar o que está havendo?

O oficial suspirou:

—Acho que você já percebeu...Esse wyvern não estava sozinho por acaso. Fez um território, como se fosse uma jararaca ou uma aranha, por isso não achamos mais monstros aqui: ele espantou ou comeu os outros.

—E isso não é bom?

—Não, nem um pouco. Do mesmo jeito quer esse wyvern estava aqui, estamos achando outros monstros cuidando de suas vidas de monstro, caçando gente para comer, brigando uns contra os outros, quebrando casas porque estão no caminho...e numa quantidade enorme. Você lembra onde a gente via coisas assim, não lembra?

—Na...mata, você diz? Os bichos caçando uns aos outros?

—Exatamente. Só que no lugar das jararacas, temos wyverns, e no lugar das onças e cachorros do mato, temos manticoras, dragões e por aí vai.

A moça olhou em volta. Ao longe já divisava no céu o vulto de aves monstruosas, atraídas pelo cheiro do wyvern morto. Lembrou dos ataques que dispersaram sua tropa, estranhas criaturas famintas, que atacavam de modo feroz e caótico, mais interessadas em garantir para si os pedaços de corpos mutilados do que em furar defesas e combater o suposto inimigo.

—Isso não é um ataque organizado. É simplesmente...sobrevivência.

O gigante concordou

—Pois é. Só que não consigo imaginar como isso aconteceu. Toda essa crise começou de uma vez só, a cidade inteira amanheceu cheia de monstros, foi muito rápido. Essas coisas não existem no mundo normal, para terem vindo para cá teríam que ter atravessado todas juntas um portal para outra dimensão ou algo parecido.

—E então?

—Esses bichos matam uns aos outros. Como não se mataram entre si na travessia?

Jacira pensou em silêncio. O som das asas rodeando sobre sua cabeça, e os gritos enfurecidos de aves que já disputavam pedaços do monstro esmagado só punham mais mistério na questão. O gigante vermelho apertou o passo mais ainda, tentando levar a tropa para uma alameda bem coberta. Nas últimas fileiras, soldados olhavam para trás, muito apreensivos.

—Não vai ter wyvern para todo mundo...É já que essas coisas vão vir atrás de nós!

—Se vierem, que não venham de cima! Todo mundo para a alameda, rápido!!!

Enquanto os soldados corriam para baixo das árvores, Jacira e o gigante de armadura vermelha observavam a dança sinistra das aves no céu. Um farfalhar de penas negras, acompanhado do cheiro pestilento de algo que já rasgou muita carniça. A moça não escondeu um arrepio.

—Que coisa horrível...Essas aves negras tem cheiro de morte. Minha avó dizia que revoadas como essas são um mau presságio, e até hoje eu não sei se acredito nisso ou não.

E virou-se para o amigo:

—Você nunca acreditou nessas coisas, não é?

Ele não respondeu. Apenas desviou os olhos das aves no céu, pensativo. Sempre disse que não acreditava, mas talvez porque preferisse não acreditar. Fosse como fosse, sentia-se muito intranqüilo: por mais que quisesse, não podia ignorar certos sinais. Ainda que sem lógica eles estavam lá. E certas coincidências acontecem.

-o00o-

—Olha o que está fazendo, hôme! Vai por a água no meu pé!

—Desculpa...É esse canto esquisito de coruja que não para...Criatura do demo, veio pra nos por agouro.

Maria Tonacá largou o pito por um instante, escrutinando a madrugada. Normalmente estaria calma, sem dar atenção no que os homens balbuciavam do lado de fora. Sabia que gente como eles era dada a ter medo de tudo mesmo, e viam a mão do capeta até no que nem conheciam. Mas desta vez...

—Que foi, mãe? Algo na capoeira?

A índia nem olhou para a filha moça. Alisou as cicatrizes alinhadas no braço, encostou-se no batente da porta e tornou a pitar.

—Algo sim.

O pio continuava. De fora se ouvia também a mão tremida de Moacir, o cozinheiro da comitiva, tentando muito sem jeito por água na chiculateira, as latas das canecas batendo. A moça, ao lado da mãe enrolou-se no xale.

—Isso está estranho mesmo...Esse frio todo não faz em março...E essa coruja diferente...

Januário saiu de dentro da casa, de chapéu e berrante em punho, bem-disposto como não se costuma ver gente naquelas horas.

—Então, mulher, já veio todos? Terminou o mate a gente já pega a estrada, que é de dar tempo de pegar os bois de Nhô Zuza antes de o sol raiar. Pra fazer a travessia do Das Emas é bom ir de cedo.

Maria respondeu.

—Os da comitiva já chegô, mas o mate tá pronto ainda não. Melhor esperar, deixa Moacir cuidar da água sosegado...

—E perder tempo? Fala besteira não!

E mandou à moça:

—Deraci, vai buscar seu irmão que deve estar carvoteando naquele seu livro de novo. A gente tem que ir logo!

—Ah, safado! Se pego arranco os dedos um por um! Não empresto: o livro é meu, que ele tem de mexer??

Januário aborreceu-se, ainda sobrou bronca para a filha:

—É ruim pra ele e pra você, Deraci! Fosse livro de assunto que interessa, mas tudo uns verso besta, sem nem música, nem nada?

—É poesia pai! Que tem de mais?

O homem nem mudou a cara, virou-se para a esposa, que pitava sem se abalar.

—Sei disso, e já lhe disse Maria, que essa coisa não serve de bom. Dinheiro do charque jogado fora, isso que é. Ela já sabe ler e escrever, isso basta. Esse palavreado, coisa de romance nem pega bem pra moça direita: e pra piorar quem mais bole nisso é o menino, fica pondo idéia torta na cabeça dele. Eu falo: a tal da "poesia" não serve de nada na hora de tanger o gado.

O garoto saiu da casa com o livro na mão, tranqüilo, sem fazer caso dos nervos do pai.
Fechou o tomo surrado, entregou para a irmã mais velha, deu-lhe um beijo, mais outro na mãe. O pai já ensaiava sermão:

—E você nem pense em pedir um traste desses, que sei que você dá de levar é coisa assim é só para ocupar espaço: olha essa viola que você não larga, parece até que tá caborjado! Tem que carregar só o que seja de uso, nem me venha de inventar mais coisa! Parece...

—Arre, diacho! Olha o que você fez!!!!

O grito do peão interrompeu Januário, que correu, mais Maria e os filhos para fora da casa. Ali, jaziam no chão Moacir e a chiculateira emborcada, a água do mate espalhada toda no chão de terra, marcando uma cruz enorme de fora a fora da capoeira. Os peões olhavam em silêncio. Deraci benzeu-se:

—Valha-me Cristo!

Maria fuzilou-a com os olhos: detestava quando a filha se portava como uma tontinha medrosa qualquer, não havia criado ela nem nenhum dos outro cinco para agir assim. Mas o piado insistente da ave a tirou da zanga. Engoliu em seco.

—Isso é mau.

A caboclada parecia ainda mais nervosa. Alguns já murmuravam sobre adiar a viagem, outros se benziam sem parar, Moacir de joelhos parecia não ter força nem ânimo para se por em pé. Januário esmagou o chapéu na mão, totalmente aborrecido. O menino observou pensativo, foi até a chiculateira virada, levantou-a e olhou para ver se havia sobrado algo da água quente. Nem um pingo. Deu de ombros.

—Para mim carece água quente não, me viro com um tereré.

E foi embora para trás da roda de peões. Todos o olhavam, bestificados. Januário agora sorria.

—Taí, esse não nega que é meu filho. Então, bando de galinha medrosa, vão ficar aí parados só por causa de uma chiculateira virada?? Isso é coisa de mulherzinha, andem! Temos uma boiada pra levar! Pras mulas todo mundo!!!

Saiu, tocando os homens como quem toca boi. Deraci ainda tremia, não sabendo mais se do frio ou do medo de tanto agouro ruim. Murmurou:

—Mãe...eles não podem...A coruja e agora a chiculateira...é ruim...

Maria pigarreou.

—Vai para dentro, Deraci. Pegue calma, é coruja não.

—Não?

—Não, é não. Agora vai para dentro.

Deraci sacudiu a cabeça, sem entender. Ouviu o canto mais uma vez, arrepiou-se. Enrolou bem o xale nos ombros e voltou para a casa. Maria Tonacá apertou os olhos, fitou duro uma sombra no escuro das árvores.

—Se fazendo de coruja mas é você...Inhambú, voz dos mortos. Veio de muito longe para carregar serviço aqui, nem se importou da hora. Se cheirou a morte na comitiva, ande, que ela já saiu. Ronde minha casa não, que aqui ninguém lhe fez agravo.

A sombra se agitou nas folhagens, mergulhou no escuro, desaparecendo. Maria apertou o cachimbo contra o peito, o rosto sempre calmo agora mexido de angústia. Em silêncio pediu pelo marido e pelo filho, que não fossem eles a seguir a voz da ave para o outro mundo. De um mato em frente um galheiro branco se ergueu, os olhos de fogo encarando a índia na distância. Ela pareceu entender.

—Veio para o que for o justo. Então que assim seja. É essa a regra...

Deu as costas para o galheiro, que já saia em passo lento, na direção pela qual Januário levou seus homens. Murmurou, pensativa.

—O que for o justo...Januário, filho, eu confio em vocês dois...O que for o justo...


(continua)