Chapter 4 - Friends
Syaoran não precisou andar muito e nem apressar o passo. Andou dois quarteirões e alcançou Sakura, andando devagar e cabisbaixa. Observou-a de longe, percebendo que ela segurava um choro. Sentiu-se cada vez mais confuso com a explosão de Sakura, mas precisaria entender sozinho, era claro que Sakura estava sensível ao assunto.
Sakura seguiu em frente, sem coragem de levantar o queixo e empinar o nariz, com receio de que tudo que tentara manter estável nos últimos 4 anos se abalaria por um estúpido descontrole. Sentia vergonha de si mesma, e tentava arrumar desculpas para a falta de comunicação entre ela e Syaoran durante os últimos anos. Talvez ele não tivesse mais seu endereço. Não lembrasse mais seu número. Tivesse vergonha de lhe escrever, ligar. Fora proibido de se comunicar com Sakura, talvez? Pareciam desculpas viáveis, mas apenas existiam em sua mente.
Syaoran andava ainda atrás de Sakura, mas agora apenas pensava, olhando para o chão, como explicaria o fato de não ter ligado nem mandado cartas. Não podia dizer que era medo. Medo do sentimento deixar de existir em algum momento, e as cartas tornarem-se ilusões, enquanto as ligações tornariam-se um meio de ligar essas ilusões à realidade, mas sem a certeza. Mas descobria agora que o sentimento o perseguiria por um bom tempo. A anulação voluntária (por parte de Meiling e dele) do casamento arranjado fora a melhor notícia que recebera em muito tempo. Meiling já havia esquecido sua "paixonite" de criança por Syaoran e na verdade estava namorando escondida quando foi anunciado que o casamento dos dois já estava arranjado. Japão era a única escapatória. Sua mãe enlouqueceria, mas Syaoran não podia casar com Meiling de jeito nenhum, pelo menos não até saber se seus sentimentos por Sakura haviam desaparecido.
Meiling e Tomoyo foram fofocando, em direção ao antigo apartamento de Syaoran, sobre tudo que acontecera nos tempos em que não se viram ou se falaram. O namorado de Meiling, Minoru, vinha logo atrás, carregando as malas e não parecia muito irritado em ficar com a tarefa de carregador... bom, só um pouco. Ao perceber isso, um pensamento passou pela mente de Tomoyo, "Talvez essa quase-arrogância... ok, arrogância da Meiling é o que esse rapaz acha tão atraente. Até que é fofo, ele se deixando ser mula. Coitadinho, hihihi.."
Quando Sakura chegou à sua casa, já tendo controlado a ânsia de chorar, ela subiu direto ao quarto e se trancou lá. Ver Syaoran a fez pensar em quão estúpida ela fora em sonhar, mesmo por um minuto, que ele viera, como um príncipe encantado, pegá-la em seus braços e beijá-la, fazendo com que tudo, os quase cinco anos de sumiço e sem notícias dele, os quase cinco anos que Sakura tomou para si mesma para pensar no que faria da vida e recusara os garotos mais bonitos do colégio que a queriam, a breve ausência de Tomoyo, a falta que sua mãe faz cada dia maior, tudo mesmo, parecesse coisa de criança, o tipo de coisa que você ri e finge que não significou quase nada pra você.
Aí Sakura percebeu quanta raiva tinha dentro de si, e também percebeu que a maioria daquela raiva estava concentrada nela mesma. De repente tudo veio de frente, ao encontro dela, e bateu-lhe com tamanha força, que, digamos assim... a ficha caiu. Ela fora tão estúpida em esperar. Tão estúpida! Nunca deveria ter esperado. Dado tanta bola. Deveria ter aproveitado a vida. Arranjado mais amigos, namorados. Deveria, sim. Com Touya enchendo o saco dos seus namorados ou não, deveria! E pensou em Syaoran. Teria ele feito o mesmo? Será que fez? Passou esses quase 5 anos pensando nela? Ou namorou, aproveitou a paixonite de Meiling, fez milhares amizades?
Sakura sentiu um peso na consciência. De repente, nada do que pensava parecia-lhe importante. Queria mais é esquecer que Syaoran existiu na vida dela. Queria seguir em frente, arranjar amigos, ser normal, uma vez na vida. Como Tomoyo fez. Pensou em ir pra fora do país. Poderia ir pra Londres. Sempre quisera ver Londres. Os castelos, os campos, a neve... deveria ir pra Londres. Um ano, talvez? Poderia até fazer faculdade lá. Viver lá. Voltar para o Japão por seu pai e seu irmão, somente. E Tomoyo, claro, mas Tomoyo poderia visitá-la quando bem entendesse, afinal, é podre de rica.
Syaoran ficou do lado de fora da casa de Sakura, olhando para sua janela. Não conseguia pensar direito. Não podia imaginar o que Sakura quis dizer com suas palavras ofensivas. Mas pelo menos, depois de vê-la, descobriu que ainda a amava. O que ficou martelando na sua cabeça foi a frase "tudo que passei nesse tempo". O que ela passou? O que ele havia feito, além de não mandar notícias, que foi tão ruim assim? Lembrou-se que Meiling não tinha chave do apartamento e faria um escândalo se ficasse trancada do lado de fora. Virou-se e começou a andar, mas parou. Deveria chamar Sakura, acalmá-la, entendê-la. Tocou a campainha. Uma vez. Duas. Três. A cada "blééém" sua paciência se esgotava mais um pouco e ele ficava mais irritado. Quase como quando era criança. No meio da sexta vez, na qual ele alongou o "blééééééém", para parecer convincente de que não iria embora até que ela saísse e falasse com ele, Sakura abriu a porta, calmamente e com um olhar de mais pura indiferença.
- Caramba, por quê demorou tanto! É aleijada por acaso!
O olhar de indiferença fez Syaoran ficar extremamente irritado. Tornou-se novamente aquele pirralho irritante que era quando conheceu Sakura pela primeira vez.
- A casa é minha, eu atendo a campainha quando eu bem entender e SE eu bem entender. Atendi você porque espero que não vá demorar muito nossa.. conversa, espero?
- Ahn.. sim, desculpe-me, bom.. quero... quero que me explique melhor o que quis dizer com "tud..." err.. me explique porque sou ignorante e alienado primeiro. - e pausou, como quem se vê obrigado a ser educado - Por favor?
- Explicar o quê? Imaginei que você se conhecesse bem o bastante. Bom, me deixou aqui sem notícias suas e aparece, achando que eu ia fazer o quê? Te abraçar e dizer que você é minha vida? - "Ops", pensou. Não era pra ela ter dito isso... - Er.. você sabe, devido aquela "coisa" que tivemos quando éramos apenas crianças?
Falou "coisas" como se cada letra fosse pronunciada como se fossem palavras. Queria dar ênfase ao fato de menosprezar qualquer sentimento que um teve pelo outro no passado. Mesmo que esses sentimentos ainda existissem. Tinha feito seu plano: de Syaoran, seria só amiga, e isso se pudesse contrlar sua raiva perto dele. Partiria para Londres quando tivesse dinheiro suficiente. Iria e esquceria da existência de Syaoran. Pra sempre.
- Bom.. tanto faz. Explica, então, o "tudo que passei nesse tempo."
- Er... não quero explicar. Saco, me deixa em paz... eu falei algumas coisas que não devia, oras, acontece. Esquece o que eu falei, tá bom? - Nisso, Sakura forçou um sorriso. - É muito bom ver você de novo. Senti saudades de ter um amigo como você por perto.
"Amigo?", os dois pensaram. Syaoran, tomado por uma vontade de gritar, apertou os dentes e formou punhos. Amigo, claro. Claro! Foi tão estúpido em pensar que Sakura passaria 4 anos da vida dela pensando numa coisinha besta de criança, sendo que está tão bonita e deve ter tantos aos pés dela. Sakura sentiu aquela indiferença ser substituída por uma leve dor. E essa leve dor passou para nada. Ela sentia-se anestesiada do mundo. Era tudo que queria.
- T...também. Senti sua falta. Tenho que ir.. Minoru.. malas.. Meiling.. sem chave.. escândalo.. tchau.
Syaoran sentia uma raiva crescendo dentro de si e não fazia muito sentido ao abrir a boca, por isso apenas disse palavras disconexas. Sakura afundou-se no pensamento "Como se eu me importasse..." e fechou a porta assim que Syaoran se virou.
Continua..
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A/N: Aeee, depois de um ano (olha a demora tá diminuindo XP) taí, o quarto capítulo! Espero ter melhorado a escrita, toda vez que releio minhas fics acho algo esquisito escrito. Espero que gostem! Review pleaaaaaaaaaaaase XDDDDDDDDDDDDD
