Capítulo 9
À NOITE, NA TORRE

Harry conseguiu sair da enfermaria de manhã bem cedo, depois de brigar muito com Madame Pomfrey.

Desceu para tomar café e encontrou Frank sentado à mesa.

- Eu estou bem – falou.

Frank encarou-o alguns segundos, completamente atordoado, até que conseguiu dizer alguma coisa:

- Você assustou.

- Madame Pomfrey disse que era só um surto, ou coisa assim.

- Então é melhor que você não surte mais – disse Frank rindo um pouco.

"Você não sabe o que é um surto de verdade" – pensou Harry.

- Esqueça isso.

- Com certeza – a sinceridade na voz de Frank deixou Harry sem graça – escute, viu a Fran por aí?

- Fran? – a mente de Harry se confundiu – ah, Francesca. Não, não vi.

- Eu fiz o dever de herbologia dela, a folgada...

Harry não prestou muita atenção no que Frank dizia. Estava olhando outra coisa. Carregando um descomunal peso de livros, uma garota entrou no salão. E Harry não precisou de dois segundos para reconhecer Hermione.

Ela parecia incrivelmente infeliz. Os cabelos estavam completamente desgrenhados, tinha olheiras em volta dos olhos e ar abatido. Sentara-se sozinha para tomar café e, Harry reparara, os outros estudantes claramente evitavam se aproximar dela.

- Espere um instante, Frank – falou Harry apressado – eu já volto.

Harry correu para a outra ponta da mesa, onde Hermione estava. Pegou uma torrada e um copo de suco qualquer e sentou-se ao lado dela.

- Bom dia, Hermione – disse, animado.

- Bom dia – murmurou Hermione sem sequer levantar os olhos.

- Escute – começou Harry cautelosamente – estou com dificuldade na nova matéria de transfiguração e pensei se você não poderia me ajudar e...

Harry parou. Hermione agora o encarava e reagia como se Harry tivesse falado em outra língua.

- Quer dizer – ele retomou tentando não olhar diretamente para ela – você é a melhor aluna da escola e eu preciso de ajuda então...

- Por que você não me deixa em paz? – perguntou Hermione. Os olhos ficando vermelhos – por que todos vocês não me deixam em paz?

A voz dela estava aguda, melancólica e as pessoas em volta se viravam para ver.

- Já não é o bastante tudo que você fez? Por que continua zombando de mim? Já não foi o suficiente?

- Eu não estou zombando de você – Harry começou a falar.

- Não está? – ela agora ria de um jeito azedo – não se contentou com o Halloween? Colar coisas no cabelo das pessoas e nas vestes delas já perdeu a graça? Ou quem sabe azará-las pelas costas? Tornar a vida delas um tormento? Eu deveria enfeitiçar todos vocês... mandar todos vocês pro inferno!

Ela pegou os livros em cima da mesa, tremendo, e saiu correndo do salão sob olhar dos presentes.

Harry baixou a cabeça na mesa.

A situação era mais grave do que pensava.

- No que você estava pensando quando foi falar com a Granger? – perguntou Frank à Harry no meio da aula de feitiços.

- Eu não sei – respondeu o outro, o olhar vagando longe enquanto o professor Flitwick fazia canários amarelos voarem pela sala. Harry não se espantou ao observar Hermione executar tudo com perfeição.

- Ela odeia a gente, cara!

- Nós também não colaboramos – falou Harry sem se virar para Frank.

- O quê?

- Quer dizer, ela nunca nos fez nada e...

- Peraí, peraí – Frank forçou Harry a olhar para ele – a Granger é a maior piada da Grifinória! Ela é uma cdf maluca!

- E daí?

- Como assim e daí? – ele arregalou os olhos.

- E qual é o nosso problema com o Rony? – perguntou Harry não escondendo a irritação.

- Você não fala com Weasley. Lembra que você foi quem começou essa história toda? – exclamou Frank ficando agora visivelmente irritado – você roubou a namorada dele!

Harry engasgou:

- Estou saindo com Lilá Brown?

- Está? – perguntou Frank curioso – pensei que tivesse cansado dela depois de algumas semanas e terminado...

- Mas que droga! – gemeu Harry, enfiando a cabeça entre as mãos.

Você-sabe-quem manda recado

Mais uma família é morta à mando daquele-que-não-deve-ser-nomeado

Harry sentiu o estômago afundar ao ler a reportagem. Aparentemente, uma família de Londres fora assassinada pelos Comensais da Morte como aviso ao Ministério da Magia e à Neville.

Frank fez menção de dizer alguma coisa a Harry depois de ler a notícia, mas não falou nada, como que se lembrando de que ainda estava com raiva do amigo.

- Eu encontro você na masmorra – disse Harry, deixando um Frank sozinho e pensativo na mesa do almoço.

"Não era para ser assim! – Harry falava consigo mesmo enquanto andava pelos corredores das masmorras carregando uma mochila novinha em folha – definitivamente não era".

Tentava imaginar soluções para o problema, mas não conseguia pensar em nada. Não era mais o escolhido, não tinha mais o poder nas mãos. Não contava mais com o apoio de Rony e Hermione e não tinha acesso a informações da Ordem da Fênix...

"Sua mãe? Ela é membro da Ordem da Fênix, não é?".

As palavras voltaram à mente de Harry de repente. Claro, seus pais! Ele tinha pais agora, não tinha? Poderia pedir ajuda a eles mas... não adiantaria de nada. Achava que dificilmente o Harry daquele mundo travaria luta contra os Comensais da Morte. Não por medo ou por falta de coragem, mas porque aquele Harry tinha uma família a zelar por ele, amigos e... "ele não faz o tipo de quem sai correndo para salvar as pessoas" – completou o pensamento.

Mas precisava fazer alguma coisa. "Por que ainda me lembro da outra vida? Por que esse mundo não me absorveu? Por que não sou o outro Harry?".

Foi então que percebeu que jamais conseguiria seguir com aquela vida. Não poderia ver o mundo cair sem fazer nada, sem perder a sanidade. E a única alternativa para solucionar aquele problema era: precisava falar com James. Precisava olhar naquele espelho de novo. Mas funcionaria?

"Você está ficando louco!" – aquela voz estranha falou dentro dele.

Harry parou de respirar por uns tempos, assustado, pronto para encarar uma espécie de duelo mental quando seu olhar foi atraído para o final do corredor.

Neville.

Ele estava sentado no chão, os olhos vazios mirando o nada.

- Neville? – chamou Harry aproximando-se dele – Neville?

Neville não respondeu.

- Neville, o que aconteceu? Você está bem?

Harry achou que a pergunta fora bem estúpida porque saltava aos olhos que Neville não estava nada bem.

- A vida é uma droga – murmurou o garoto numa voz pastosa e levemente delirante – e é tudo minha culpa.

- Neville, por favor – começou Harry mas sua voz sumiu quando olhou para as mãos do outro – o que é isso, Neville?

- Nem isso eu consigo fazer – falou ele fechando os olhos.

Harry pegou as mãos de Neville e olhou mais atentamente os pulsos do garoto. Eram cheios de cicatrizes horrendas. Cicatrizes que Harry sabia muito bem o que significavam.

"Eu pensei que ele ia se matar... não que ele já não tenha tentado...".

A voz de Frank mais uma vez penetrou os pensamentos de Harry.

- Não, Neville... não é uma droga – disse Harry rapidamente – você precisa lutar por ela.

- Eu não tenho força para lutar por nada – murmurou Neville debilmente.

- Mas é claro que você tem! – exclamou Harry – você lutou até aqui não lutou?

Neville não respondia mais.

- Você é corajoso! – continuou Harry mais alto – lembra de todos os Comensais da Morte que você enfrentou no nosso quinto ano? Toda aquela bagunça no Ministério? Ainda é você, em algum lugar é você! Tem que ser...

- Cansei de ser corajoso...

- Mas as pessoas estão do seu lado, Neville – falou Harry tentando passar animação na voz – eu estou do seu lado...

- Ninguém está do meu lado – disse Neville numa voz arrastada – ninguém se importa. Estão mais preocupados em salvar a própria pele...

- Por que você não vai falar com Dumbledore e...

- E continuar lutando, vendo as pessoas de quem eu gosto morrer? Não obrigado.

- Neville...

Harry não conseguia mais argumentar, as palavras simplesmente lhe fugiam. Chegou à conclusão de que nenhum consolo serviria a Neville, nenhuma palavra de conforto ou ânimo. Neville não tinha amigos, estava sozinho... Num lapso de segundo, Harry viu a si mesmo, sentado naquele chão de pedra, moribundo, sozinho e sem ter por quê lutar... A cena apareceu para Harry completamente sem sentido, ele jamais se deixaria assim mas então compreendeu porquê: Harry tinha amigos. Neville não.

- Eu vou consertar isso pra você, está bem? – prometeu Harry olhando o garoto nos olhos – eu vou consertar tudo isso.

E correu de volta para a Torre da Grifinória antes que as masmorras ficassem cheias de estudantes.

Por mais um dia Hogwarts se privou da presença de Harry Potter. Porque ele estava na Torre da Grifinória, esquadrinhando o próprio malão à procura de algo útil à sua fuga. Sim, fuga, porque Harry iria fugir da escola naquela noite.

Não importava que tivesse pais vivos, ou que sua vida não fosse mais destinada a caçar um assassino maligno... A única coisa que parecia importar era que nada estava no lugar certo e uma certeza absoluta de que o fim também não seria certo o invadiu.

Harry não encontrou nada de útil dentro do malão daquele que ele chamava de "outro". Havia muitas bombas de bosta, muitos produtos da Zonko's e outras coisas que explodiam e pirotecnicavam, mas nada de realmente útil para uma fuga do castelo de Hogwarts.

Acabou descobrindo desesperado que não possuía o Mapa do Maroto. Rony não era seu melhor amigo, portanto, não conhecia os gêmeos e em conseqüência, eles jamais teriam lhe dado o mapa.

Harry deitou-se na cama de dossel e esperou a noite chegar, achando que com ela provavelmente as soluções viriam. Quando o quarto foi tomado pela escuridão e Frank apareceu, Harry fingiu dormir para não ter de falar com ele. E enquanto sua mente tentava se desligar e relaxar, à espera de algo que ele mal sabia como fazer, seus pensamentos oscilavam entre a vida que tivera antes e a vida que tinha agora... Lembrou-se vagamente de um presente de Natal muito esperado quando era criança e de sua mãe dando-lhe um beijo. Lembrou-se de uma ou outra risada com Frank e jogadas de quadribol inteiramente novas. Eram apenas lapsos de memória, resquícios daquela nova vida e Harry descobriu desesperado que estava começando a esquecer da sua vida como menino-que-sobreviveu.

Devia ser meia-noite quando Harry desceu para o salão comunal sentindo mais do que nunca a falta da capa da invisibilidade. Dumbledore nunca a havia lhe dado de presente.

Não sabia direito o que fazer. Talvez ir até a velha estátua da bruxa de um olho só, rezando para que ninguém aparecesse no caminho, e fosse até a loja Dedosdemel em Hogsmead e de lá quem sabe fugir ou pegar um trem e... "Como a vida é fácil quando se tem uma capa que te deixa invisível, um mapa que mostra a localização de qualquer pessoa no castelo e um saco cheio de galeões só pra você" – pensou Harry depois de perceber que além da falta de mapa e capa, também não tinha dinheiro. Claro, seus pais é quem deviam lhe dar o dinheiro de que precisava.

Era difícil enxergar qualquer coisa na sala comunal com aquela lareira extinta, mas Harry sabia exatamente a localização de cada móvel. Não demorou muito para chegar no buraco do retrato. Estava ponderando se a Mulher Gorda faria ou não escândalo vendo-o fugir da Torre altas horas da noite quando levou um susto.

- Eu sabia que você não era o Harry.

Harry jamais soube descrever exatamente qual foi sua sensação ao virar as costas e encarar Francesca Burnett.

- Harry jamais fugiria – ela prosseguiu, impassível – jamais se afastaria da escola – os olhos dela pareciam cintilar naquele escuro – eu conheço Harry bem demais. Ele não falaria com Hermione Granger, a não ser que fosse para armar qualquer brincadeira. Não sairia por aí falando do Weasley e muito menos ficaria um dia sequer fora dos holofotes da escola fingindo dormir. Acha que Frank não percebeu? Ele é meio maluco e irresponsável, mas meu irmão não é idiota. Harry sempre soube disso.

- Fran... – murmurou Harry tentando encontrar uma justificativa.

- Harry nunca me chamaria de Fran. Para ele eu sempre fui Francesca.

Ele encarou Francesca por alguns segundos e percebeu que havia algo por trás das palavras dela. Algo que talvez ela jamais deixasse transparecer perto daquele outro Harry. Não precisava ser Hermione ou um perito em assuntos sentimentais para perceber uma coisa óbvia daquelas: Francesca Burnett amava Harry Potter.

- Não, eu não sou o Harry.

E foi um alívio imenso poder dizer aquilo.

- É por isso que está fugindo? – ela perguntou com a voz embargada.

- Estou fugindo para consertar as coisas – respondeu Harry, sério – para fazer tudo voltar ao normal.

- Para trazer o Harry de volta?

- Eu acho que sim – falou ele sem ter muita certeza.

- E como pretende sair do castelo?

Harry encarou a garota incrivelmente surpreso:

- Você não está desconfiada? Não acha que eu possa ser um bruxo das trevas que seqüestrou o Harry? Que eu posso matar você aqui mesmo?

- Você não tem cara de seguidor das trevas, seja quem for – comentou Francesca – e não tem cara de assassino ou seqüestrador. Você é gentil e preocupado com as pessoas... Acho que você é uma boa pessoa, e me atrevo a arriscar.

Harry ficou olhando estupefado para Francesca, com aqueles cabelos loiros amarrados atrás da cabeça, os olhos castanhos mirando-o com curiosidade. Ela não tinha medo das coisas. Não tinha mesmo e Harry descobriu que aquilo o assustava um pouco.

- Então, você me ajuda?

- Sim – respondeu ela – se isso for fazer as coisas ficarem certas...

- Eu espero que sim – disse Harry respirando fundo – mas tenho que tentar.

- Você não pode sair de Hogwarts assim. Com certeza Filch vai pegar você.

- Escute, tem um jeito de sair de Hogwarts sem que ninguém me veja – começou Harry com uma voz ansiosa – tem um mapa. Ele mostra a localização de qualquer pessoa nas propriedades do castelo... é o Mapa do Maroto.

- O Mapa do Maroto? – perguntou Francesca com um tom de desconfiança – como é que você...?

- Ele era meu – falou Harry com olhar firme – no lugar... no lugar de onde eu vim ele era meu.

- E como é que você sabe que ele está aqui em Hogwarts?

- Porque se ele não é... não é do Harry agora, é porque ele é de outra pessoa – explicou Harry tentando não soar maluco demais.

- De quem? – perguntou Francesca ansiosa.

- Fred e Jorge Weasley.

Harry pensou que Francesca daria um tapa na testa, fizesse um sinal de reconhecimento ou quem sabe diria que agora as coisas estavam mais fáceis, mas não. Ela colocou uma expressão intrigada no rosto ao perguntar simplesmente:

- Quem?

- Ora vamos – exclamou Harry sem muita paciência – os gêmeos Weasley, os irmãos mais velhos de Rony... eles já terminaram a escola, não é?

- Eu não sei – falou Francesca um tanto perdida – gêmeos... que eu saiba além de eu e Frank, só existem Parvati e Padma Patil de gêmeos em Hogwarts...

- Eles são irmãos mais velhos de Rony! – explicou Harry em voz acelerada – foram daqui da Grifinória a alguns anos... não se lembra?

- Irmãos mais velhos do Weasley? Ah... oh, por Merlin – murmurou Francesca mordendo o lábio inferior – você os conhecia de onde você veio?

- Conhecia – confirmou Harry um tanto apreensivo com aquele olhar dela.

- Escute – começou a garota pacientemente – Weasley mora com a mãe e tem um irmão mais velho na Romênia. O resto da família dele morreu num atentado ao Beco Diagonal há mais de dez anos...

- O quê? – perguntou Harry, incrédulo.

- Eu não sei da história direito mas se não me engano foi o mesmo grupo de Comensais da Morte que matou o pai de Harry. Os Lestrange e Crouch Jr.

- Matou o pai de quem? – Harry engasgou.

- O seu pai... digo, o pai do Harry – disse Francesca lentamente – ele morreu quando ele era bem criança num ataque dos seguidores de Você-sabe-quem que ficaram soltos...

- Meu pai e a família Weasley estão mortos? – gemeu Harry, sentindo um grande volume de lágrimas nos olhos – mas que droga!

Francesca se assustou quando percebeu que ele estava chorando. Aproximou-se um pouco mais e disse suavemente:

- Mas isso foi a tanto tempo...

- Eu preciso consertar isso – falou Harry tentando em vão esconder as lágrimas da garota – agora mais do que nunca. Me diga... Gina, a irmã mais nova do Rony, ela... ela também morreu?

- Creio que sim – respondeu Francesca lentamente – quer dizer, só sobraram Weasley, a mãe e um irmão...

Harry achou que não conseguiria suportar. A família Weasley, a família que ele mais amava no mundo estava morta, e a culpa era dele. Se não tivesse sido tão estúpido... O Sr. Weasley, Gui, os gêmeos... estavam todos mortos. Gina estava morta. Morta.

- Eu preciso sair daqui, Francesca – disse Harry – eu preciso sair daqui.

- E o tal mapa que você disse?

- Você não entende? Fred e Jorge tinham o mapa, mas agora Fred e Jorge estão mortos! Eles nunca pegaram o mapa na sala do Filch e nunca me der... espere um momento – os olhos de Harry se arregalaram – eles nunca pegaram o mapa na sala do Filch! É isso!

- É isso o quê? – perguntou a garota sem entender a excitação.

- O mapa está no arquivo do Filch! – explicou Harry ainda espantado por não ter pensado naquilo antes – temos que entrar lá e pegar. Mas... vai ser complicado e...

- Deixa isso comigo – falou Francesca, um sorriso maroto brincando nos lábios dela – afinal de contas, não foram Harry e Frank que penduraram Malfoy de cabeça pra baixo no salão principal. Fui eu.


NOTA DA AUTORA: obrigada às meninas que comentaram a fic!!!!!!!!!!!!! Continuem enviando!