Capítulo 12
LAR
- Doente? – perguntou Sirius tentando esconder a incredulidade da voz.
- Ele teve um espasmo ontem à noite quando chegou – falou Lily franzindo a testa – e passou a noite inteira agitado, falando dormindo... ele não está bem, Sirius, eu sei que Harry não está bem.
- Ele realmente fugiu da escola? – indagou Sirius tentando parecer sério – quer dizer, é um feito e tanto!
- Sirius! – ralhou Lily – não faça com que ele pense que foi uma grande coisa. Estou esperando que ele melhore para termos uma conversinha sobre isso.
- Não seja tão má com o garoto, Lily – falou Sirius tomando um grande gole de café.
- Eu sei que não é só doença – Lily falou mais para si mesma do que para Sirius – tem algo mais. Conheço meu filho. Ele não fugiria sem Frank Burnett... é Frank quem faz o trabalho sujo, não é? Sirius, você é a figura paterna na vida do Harry... poderia conversar com ele e tentar descobrir o que realmente aconteceu. Com certeza para você ele contaria...
- Quer que eu extraia informações, é isso? – Sirius abriu aquele sorriso que tinha uma ponta de deboche – e logicamente, quer que eu as entregue a você... E se eu não te disser o que ele me contar?
Lily encarou o desafio de Sirius e respondeu com um sorriso fino que igualava o ar de deboche dele:
- Ah Sirius, você sabe que eu descubro de qualquer maneira.
Harry acordou e descobriu que sabia onde as meias eram guardadas.
"Guarda-roupa. Lado esquerdo. Terceira gaveta. Junto das cuecas" – seu cérebro recitava maquinalmente.
Agora conseguia se lembrar de várias coisas daquele mundo novo. Novas lembranças iam se avolumando em seu cérebro, deixando aquela vida de antes, aquela vida onde ele era um garoto órfão, começar a ficar esvaecida, como a lembrança de um dia ruim...
"Preciso resolver isso logo – pensou Harry desesperado – antes que eu me esqueça completamente de tudo e não consiga mais voltar".
Estava pensando na desculpa que usaria por ter escapado de Hogwarts quando a porta se abriu e Sirius Black entrou por ela.
A reação de Harry foi mais do que imediata:
- Sirius – berrou chegando para abraçar o padrinho – Sirius!
"Por que você está empolgado desse jeito? – o outro lado de sua mente dizia.
"Porque Sirius estava morto".
"Mas é claro que não estava!".
"É... eu não tenho certeza...".
- Pois é, meu palpite está certo e você enganou a sua mãe – falou Sirius – você definitivamente não está doente.
Harry deu um riso nervoso, sem saber exatamente o que dizer.
- Vamos lá, diga o que aconteceu de verdade.
Sirius olhava firmemente para Harry, visivelmente esperando uma resposta.
- Para mim você pode dizer a verdade. Acho que uma história emocionante sobre fuga em Hogwarts compensaria minha vinda a esta hora da manhã na sua casa...
- Eu encontrei o Mapa do Maroto – falou Harry sem pensar muito – as histórias que você contava eram verdade. Você e meu pai tinha mesmo o mapa...
- Você encontrou o nosso mapa? – Sirius arregalou os olhos, num misto de surpresa e excitação – como? Pensei que tivessem mandado queimar...
- Não mandaram – disse Harry com o mesmo brilho no olhar que o padrinho – estava no armário do Filch, você sabe, o zelador... É um mapa incrível!
- Mas é claro que é! – exclamou Sirius com aquela risada que parecia um latido – a idéia foi minha! Onde ele está?
- No bolso da minha calça – Harry apontou a calça suja e amarrotada do uniforme de Hogwarts que estava pendurada na cadeira da escrivaninha.
Sirius imediatamente vasculhou os bolsos da calça de Harry e pegou o mapa. Ao tocar o pergaminho, seus olhos devanearam de nostalgia e ele o alisou, como se fosse um filho querido.
- Sirius... – começou Harry lentamente.
- Hã – fez Sirius ainda acariciando o mapa.
- Você ainda tem o espelho, não tem?
Imediatamente o olhar de Sirius saiu do mapa e foi parar em Harry.
- O quê?
- O espelho de duplo-sentido – falou Harry – meu pai tinha um igual. Você ainda tem o seu?
- Por que está me perguntando isso? – Sirius parecia desconfiado.
- Porque eu quero que você me empreste ele – Harry sentiu o olhar de Sirius cair mais pesado do que nunca – é que... é que o outro está com Frank e pensei em me comunicar com ele. É só um empréstimo, e por pouco tempo.
- Você não falou com ele! – exclamou Lily, nervosa, assim que Sirius retornou à cozinha.
- Lily, todo garoto foge aos dezessete anos – falou Sirius levianamente – é absolutamente normal!
- Meu filho não tem motivos para fugir! – refutou Lily, aborrecida.
- Como você sabe? Já perguntou a ele?
- Está insinuando que não conheço o filho que tenho? O meu próprio filho? – perguntou a ruiva estreitando os olhos.
- Você está dizendo – disse Sirius comendo uma torrada – não eu.
- Sabe, eu deveria realmente...
- Vocês estão bem?
Sirius e Lily se viraram para olhar Harry, que acabara de entrar na cozinha.
- Estamos ótimos, querido – falou Lily colocando um sorriso no rosto – e você? Está melhor?
A cena causava uma certa dose de pânico em Harry. Ver seu padrinho e sua mãe na cozinha, aguardando ansiosamente para que ele se sentasse com eles e tomasse café...
Sentiu-se como se nada mais importasse, como se o simples fato de poder acordar de manhã e ver uma família compensasse a tragédia que havia se tornado a vida de Neville e o mundo bruxo.
- Eu disse a Lily que você estava sentindo um pouco de dor de cabeça – disse Sirius piscando ligeiramente para Harry com o olho esquerdo – mas que estava melhor.
- Querido, por que não foi até a enfermaria de Hogwarts? Ou em outro caso, por que não mandou me chamar? Você sabe bem que os dias andam perigosos demais para fazer até coisas menores que isso!
- Lily, você não entende nada do espírito masculino, não é mesmo? Acho que à medida que foi ficando velha, você foi perdendo o jeito... – brincou Sirius.
- Eu sei que Harry puxou o temperamento de James – refutou a ruiva – ele é impulsivo, imprudente... arruma confusão na escola mas... Harry sempre foi consciente dos perigos das coisas. O que aconteceu?
Os olhares de Sirius e Lily caíram sobre Harry, esperando que ele desse uma resposta fantástica sobre sua fuga de Hogwarts, mas ele respondeu simplesmente:
- Acho que estou confuso.
Não era mentira.
A reação dos outros dois não poderia ter sido mais diferente. Enquanto Sirius o encarava incrédulo, com queixo quase caindo no chão; Lily se debulhou em lágrimas exclamando:
- Eu sabia, essa maldita guerra está acabando com as nossas vidas de novo. Meu filho, meu querido filho, está passando por uma crise existencial... ah, eu devo ser uma péssima mãe!
O foco de atenção mudou rapidamente de Harry para Lily. Os dois homens tentando em vão consolá-la de qualquer maneira, dizendo coisas agradáveis sobre como ela era realmente, muito mesmo, uma excelente mãe.
- Você sabe como ele é! – exclamou Sirius.
- Eu tenho o temperamento do papai!
O dia foi passando sem maiores transtornos. Sirius foi embora antes do almoço, alegando que não podia chegar mais atrasado no trabalho. Harry então, ficara somente com a companhia de sua mãe.
Os dois passaram o dia juntos, fazendo os preparativas para o jantar de Halloween do dia seguinte. Harry nunca imaginou que preparar um simples jantar pudesse ser tão divertido.
Sua mãe era engraçada, espirituosa e dedicada às coisas que fazia. Harry acabou descobrindo que ela trabalhara no Ministério da Magia durante muitos anos, mas que largara o emprego para abrir um escritório de auxílio legal da magia, em protesto aos abusos que o Ministro vinha impondo à comunidade mágica em meio a todo o caos da guerra.
- Torta de chocolate ou de limão? – ela perguntou para Harry.
- De chocolate.
- Sabe, ainda me parece estranho que você não tenha ficado para o banquete das bruxas da escola... – falou Lily enquanto, com um aceno de varinha, fazia com que os ingredientes se misturassem sozinhos - Halloween sempre foi sua data favorita do ano e você sempre pareceu gostar tanto das festas no castelo, mas... – ela fez um movimento brusco com as mãos que quase fez o conteúdo da vasilha dar um vôo rasante na cozinha – não vamos discutir esse assunto agora, vamos? Não, não vamos. Depois nós conversaremos longe da influência do seu padrinho...
- Quem virá para o jantar? – perguntou Harry.
- Remo, Sirius... se não me engano aquela garota do cabelo rosa, Tonks, e Wanda, claro. Nada de mais.
"Wanda Burnett. Ela é a mãe de Frank e Francesca, amiga de infância de minha mãe" – a informação invadiu sua mente com tal velocidade que ele se sentiu tonto.
- Fernand não vem, claro, está na França com a mãe dele... – falou Lily com voz entediada – Fernand está com aquelas idéias de mudar de país de novo, acredita? Wanda me contou... Fugir da guerra... Como se isso fosse adiantar alguma coisa...
Os dois conversaram durante toda a tarde e Harry achou que aquela poderia ser a melhor tarde de sua vida. Sem preocupações, sem ter que pensar em nada... Apenas uma tarde ao lado de sua mãe, conversando e rindo, sentindo como era bom ser filho de alguém.
- Eu sei que os tempos estão difíceis, querido – falou Lily assim que Harry começou a adormecer deitado ao colo dela no sofá – e que você possa se sentir perdido. Mas terá sempre a sua mãe aqui...
Ela lhe deu um beijo na testa, afagou seus cabelos e Harry teve a certeza de que não queria mais voltar. Queria fazer daquela a sua vida.
Obrigada a todos que vêem comentando nessa minha nova filhota! Vocês é que são fantásticos mesmo!
Beijos.
