Capítulo 14
ALTA FREQÜÊNCIA

Harry achou que fosse desmaiar. Metade dele achava aquela aparição completamente impossível, já que Dumbledore fora morto há alguns meses na sua frente; a outra metade achava aquilo tudo perfeitamente provável já que Dumbledore era um amigo pessoal de sua mãe e provavelmente viera buscá-lo de volta a Hogwarts. Ou para expulsá-lo.

Nenhuma das hipóteses era a verdadeira.

Com uma voz seca e desprovida da animação habitual, Dumbledore disse:

- Voldemort tomou o Ministério da Magia. O Ministro da Magia está morto e com ele foi mais da metade do esquadrão de aurores.

A descontração do jantar de Halloween de Lily Potter desapareceu instantaneamente dando lugar a uma onda de desespero e terror. Alguns falavam, outros gritavam, uns poucos faziam as duas coisas ao mesmo tempo.

Harry teve uma ânsia de vômito súbita.

- Estou voltando imediatamente para Hogwarts – falou o diretor com o cenho franzido – e precisarei de toda a ajuda que puderem me oferecer.

- Meus filhos! – berrou a Sra. Burnett, os olhos se enchendo de lágrimas.

- Os alunos estão bem, Wanda – falou Dumbledore – estão mais seguros no castelo do que entre nós.

Harry sentiu que o olhar que o diretor lhe dirigira estava queimando-o por dentro.

Os presentes começaram a oferecer ajuda enquanto Harry estava surdo para o que quer que fosse. Estava tonto, se sentia insípido, completamente alheio ao que estava acontecendo. A única coisa que lhe tomava a consciência era o fato de que precisava fazer uma escolha. E se a fizesse, então aquele duelo mental em sua mente acabaria, as vozes se silenciaram e o deixariam pensar no que deveria fazer.

Mas ele não queria escolher. Achava que não seria justo pesar a vida das pessoas daquela forma. E Frank e Francesca? Morreriam? E sua mãe? Dumbledore? Sirius?

- E o Neville Longbottom? – perguntou Lupin em voz alta – precisamos falar com ele e...

"Não era para ser assim... – pensou Harry, os pensamentos vindo em alta velocidade – não era...".

Sabia o que iria fazer. Iria pegar aquele embrulho que Sirius lhe mandara pela manhã. Iria falar com seu pai. Iria fazê-lo mudar alguma coisa no passado, tentar alertar os Longbottom... Mas Harry sabia que não adiantaria. Era noite de Halloween e provavelmente, a essa hora, os Longbottom já estavam mortos e Neville era o menino-que-sobreviveu.

Não podia reverter nada. Não podia sequer pedir ao pai que não fizesse nada. Ele tinha estragado tudo. Tinha mexido no tempo, tinha alterado a vida de todos. Tinha arruinado um mundo inteiro.

"Eu posso falar com meu pai que ele vai morrer num ataque de Comensais da Morte... posso evitar que os Weasley morram também... eu posso... eu posso falar...".

Ainda assim, aquilo não mudaria o fato de que ele não era mais o escolhido. A profecia ainda teria o nome de Neville...

Foi então que Harry entendeu que era ele quem devia ser o menino-que-sobreviveu... que era ele quem devia levar aquela vida difícil... que era ele quem tinha a chance de consertar as coisas, não mudando o tempo, não alterando o passado, mas lutando no presente para um futuro melhor.

As coisas eram o que tinham que ser. Se tudo acontecia daquela forma, se as pessoas morriam ou viviam, estava além da compreensão ou julgamento de uma só pessoa... de um pensamento imparcial...

"Eu arruinei tudo. Completamente... por ser egoísta, por ser terrivelmente egoísta...".

- Harry?

Ele levou um susto quando ouviu Dumbledore chamá-lo.

Harry entrou na cozinha como Dumbledore pediu e ficou a mirar o diretor observar calmamente o aposento, como se tivesse se esquecido que acabara de recrutar pessoas para proteger uma escola de um ataque iminente.

- Você fugiu da minha escola, Harry... – falou Dumbledore evitando olhar para o garoto.

Respirando fundo, Harry tentou dizer alguma coisa, mas o diretor o impediu com um gesto:

- Não irei questionar seus motivos, nem suas escolhas. Elas só dizem respeito a você, mas se me permite, gostaria lhe dar um conselho: quando nos sentimos encurralados, quando achamos que as paredes estão se fechando em volta de nós, a saída muitas vezes não é fugir e sim enfrentar o que lhe fecha. Tentar vencê-las. Quebrá-las.

Harry sustentava um olhar assustado, sentia como se Dumbledore, ao olhá-lo, soubesse exatamente o que estava se passando com ele. Era como se o diretor soubesse que houvera a outra vida de Harry... Mais, era como se ele se lembrasse dela também...

- Os acontecimentos de nossa vida são uma reação em cadeia – prosseguiu Dumbledore fazendo movimentos circulares com as mãos – como ondas em alta frequência. Eles vêm rápido, atropelando uns aos outros, interferindo no meio, alterando a si mesmas... Se você encontra o elo, aquilo que une o que é ao que foi e destruí-lo, então as ondas param, cessam e voltam ao que eram inicialmente. Na freqüência original...

- Senhor – balbuciou Harry ainda completamente pasmo.

- As pessoas se perguntam muitas vezes qual é o caminho certo – Dumbledore parecia falar mais consigo mesmo do que com Harry – e se atrapalham mesmo quando estão trilhando-o. O caminho certo, Harry, é aquele que você se sente bem ao trilhar.

"Às vezes, quando nossa vida entra em alta freqüência, conseguimos enxergar outras possibilidades, outros caminhos. E é exatamente nesse momento que quebramos o elo e percorremos a trilha certa com confiança.

- Quebrar o elo? – Harry perguntou, exasperado, o coração batendo com tanta força dentro do peito que chegava a doer – professor, o senhor está dizendo que se eu quebrar aquele espelho as coisas voltarão ao normal? Que tudo vai voltar a ser o que era antes? Porque se o espelho é o que liga o passado ao presente, então, se eu eliminá-lo, alguma magia pode acontecer e tudo simplesmente vai entrar nos eixos?

Houve uma pausa que a Harry pareceu interminável.

- Eu não faço idéia do que você está falando – disse finalmente Dumbledore em voz baixa, a testa ligeiramente franzida.

Mas no fundo, ele achava que Dumbledore sabia exatamente do que ele estava falando.

Harry correu até a sala de estar, onde jogara o embrulho que continha o espelho.

Encontrou o pacote mal feito caído perto do sofá e abriu-o, podendo observar aquele espelhinho sem graça e desbotado. Sabia o que tinha que fazer. Iria quebrá-lo. Quebrar o elo. Então as coisas voltariam ao que eram...

"Você não vai acreditar que quebrar isso vai fazer com que as coisas voltem, vai?".

Ele simplesmente ignorou aquela voz, tomando coragem e fôlego para fazer o que tinha que fazer.

Só não contava que fosse ver o rosto alegre e entusiasmado de James Potter refletido na superfície de prata.