Capítulo 15
VERDADES NO FIM DA LINHA II

James Potter olhava para o reflexo do filho no espelho com uma crescente excitação. Tinha feito tudo certo. Sirius era ainda era o Fiel Segredo, colocara Snape em ponto de observação com Dumbledore e Pedro tinha sido descoberto como traidor da Ordem da Fênix. A vida estava certa. Era noite das bruxas e ele estava vivo. Mais vivo do que nunca.

- Não esperava ver você mais! – falou James numa voz embargada de emoção – mas de qualquer forma, está feito. Acabado.

Harry sentiu os olhos marejarem um pouco. Por que tinha de fazer aquilo?

Continuou apenas encarando James por mais algum tempo até que conseguiu falar lentamente:

- Não, não está.

- Como? – estupefou James, a alegria em seu rosto desaparecendo numa fração de segundo.

- As coisas mudaram – falou Harry em voz grave – mas de certa forma continuam as mesmas.

- O que aconteceu? – perguntou o outro.

- Voldemort não matou você e minha mãe. Matou os Longbottom.

James estacou. Sabia o que aquilo significava. Neville era o outro garoto a quem a profecia podia ser aplicada, o que significava que a vida condenada de Harry não terminara, apenas fora transferida a outra pessoa.

- O Ministro da Magia acabou de ser assassinado – prosseguiu Harry – e o Ministério agora está sob controle de Voldemort. Neville não vai conseguir...

A expressão de profunda tristeza estampada no rosto de James não surpreendeu Harry nem um pouco.

- Eu não sei porque ainda me lembro da minha vida anterior, mas eu quase fiquei maluco. Minha vida não é boa. Não é quem eu deveria ser... Eu preciso...

- Mas você tem a mim e a sua mãe! – James não deixou que o filho concluísse.

- Você morreu num atentado de Comensais da Morte – disse Harry, duramente – do mesmo jeito que a família do Rony, o meu melhor amigo... Se bem que ele sequer dirige a palavra a mim nesse mundo...

- Mas Harry...

- Neville vai morrer, se não for pelas mãos de Voldemort, vai ser por outro meio – Harry achava que nunca tinha falado com tanto desespero e realidade antes – não adianta mudar o passado, pai, isso não vai mudar quem eu preciso ser...

- Não Harry... – murmurou James debilmente – tem que haver outra maneira!

James sabia exatamente o que o filho estava tentando dizer. Estava nas entrelinhas. Harry estava dizendo que ele deveria morrer e assim deixá-lo se tornar o garoto a quem a profecia se referia. Era um pedido cruel. E Harry sabia disso.

- A vida inteira quis ser apenas um cara normal, com pai, mãe e irmãos... e agora vejo que não é possível.

Agora as lágrimas caíam livremente no rosto de Harry, gotejando na superfície do espelho.

- Agora mesmo aqui nessa casa – falou Harry limpando o rosto – Dumbledore está escalando gente para ir à luta... e eles vão perder... mais pessoas irão morrer... em vão.

- Você está pedindo que eu mate a minha esposa também... a sua mãe...

As palavras tiveram o efeito de uma lâmina afiada passando pelo coração de Harry.

- As pessoas que eu amo vão morrer – ele falou para James – e sempre que um deles morre um pedaço de mim vai junto... Mas é preciso, por mais que isso seja cruel.

- Você tem uma nobreza que eu jamais tive – disse James com os olhos ficando vermelhos – e que jamais vou ter. Eu não sei se consigo, Harry... eu sei que é o certo, mas não sei se consigo...

- Consegue – afirmou Harry agora não segurando mais as lágrimas que encharcavam seu rosto – você morreu lutando contra Voldemort. Morreu tentando me salvar e a minha mãe. Você morreu como um herói.

James soluçou alto, as lágrimas batendo no superfície do espelho como chuva.

- É por isso que todos que me conhecem dizem que eu sou parecido com você – falou Harry tentando manter a voz firme – porque eu sou nobre e corajoso. Como meu pai foi...

- O que você vai fazer? – perguntou James enxugando a superfície do espelho com a manga da camisa.

- Eu vou quebrar o elo, então tudo vai voltar a ser o que era antes – disse Harry com convicção – eu vou interromper a alta freqüência...

James não entendeu bem o que o filho estava tentando dizer, mas não teve tempo de perguntar...

- Harry, o que você está fazendo?

Harry virou de costas e viu sua mãe na porta da sala.

- Mãe... – murmurou Harry.

- Lily? – perguntou o reflexo de James no espelho.

- O que você está fazendo, filho? – perguntou Lily, a expressão em seu rosto indicava intensa preocupação.

- Pai – falou Harry rapidamente para o espelho – eu tenho a sua permissão?

- Com quem você está falando? – Lily agora vinha se aproximando a passos largos dele.

- Tem – concordou James fazendo um sinal afirmativo com a cabeça enquanto fechava os olhos com força.

- Eu amo você, pai – disse Harry engasgando de choro – nós nos encontraremos novamente. É o que Luna sempre diz... E agora eu acredito nisso.

- Harry – exclamou Lily, confusa – o que você está fazendo?

Ela agarrou o pulso do filho e mirou o espelho, vendo o reflexo do marido morto há anos atrás...

- James? – gritou Lily, começando a tremer – James... mas, Harry... não pode ser...

- Mãe – começou Harry colocando um sorriso no rosto – eu amo você. Obrigado por tudo.

E antes que Lily pudesse fazer qualquer coisa, viu o filho bater aquele pequeno espelho velho na mesinha ao lado do sofá, fazendo dele mil cacos pequenos...