If your love could be caged, honey.
Se o teu amor pudesse ser preso, querido.
I would hold the key
Eu guardaria a chave
And conceal it underneath that pile of lies
E esconderia debaixo dessa pilha de mentiras
You handed me
Que tu me deste
Faith Hill – Cry
Capítulo Nove
Passavam três meses desde que Fabián havia nascido. Ela queria ter chamado o filho de Artur, além de ser o nome do seu pai, ela sempre gostara da história de Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas Draco insistira em chamá-lo de Fabián. Ginny concordára, não queria discussões. Acabara descobrindo que o nome tinha origem numa lenda da República Checa. Fabián era o nome de um espírito que vivia em Brdy Hills, entre Praga e Pilsen. Fabián era antes um corajoso cavaleiro que havia sido transformado num espírito da floresta no dia do seu casamento pela sua antiga amante, uma feiticeira negra. Ela tentou transformá-lo num espírito maligno mas o amor que ele nutria pela sua noiva conseguira mantê-lo bondoso. A sua noiva fora transformada numa pequena flor branca, conhecida como Fel-da-terra ou ainda Centaurea Menor.
Ginny julgou que depois do nascimento de Fabián, Draco fosse passar mais tempo em casa, mas pelo contrário, se antes mal o via durante o dia em casa, agora eram raras as vezes que ele pisava a mansão. E quando o fazia nem parecia reparar nela nem no bebé.
Ela ficou surpresa por o encontrar em casa no domingo á tarde. A roupa dele estava espalhada em cima da cama deles e o duche estava ligado. Ginny não pôde de deixar de imaginar a água quente percorrer o corpo forte do marido. Ela abanou a cabeça. Não iria se render ao encanto dele. Apesar de ainda o amar, ela tinha conseguido erguer uma muralha em torno dela, uma muralha que a defendia da frieza dele mas também dos sentimentos dela. Ela tinha aprendido a por á parte as dezenas de diferentes sensações que ele conseguia despertar nela com apenas um olhar, mesmo que fosse o mais insensível.
Mas quando ela se sentia vulnerável e fraca era muito difícil defender-se. E era assim que ela estava naquele dia, na verdade estava assim há já alguns dias. Sentia-se fraca, sem vontade de comer, tinha tonturas mas era do cansaço, dizia ela. A gravidez não tinha sido fácil e, apesar de Fabián ser um bebé adorável, continuava sendo um bebé e continuava precisando dela a cem por cento. Ela mal tinha tempo para si, Fabián ocupava vinte e quatro horas do seu dia. Só nas noites em que ele dormia descansado, é que Ginny tinha tempo para que a sua mente deambulasse para outros lugares. Na maioria das vezes o seu pensamento fugia para o homem que dormia profundamente ao seu lado ou para o homem que deveria estar dormindo profundamente ao seu lado.
Mas naquele dia, ao contrário dos outros dias, ele não saíra de casa logo de manha. Ele saíra durante o almoço e pelos visto já tinha voltado. Ginny deitou-se na cama, completamente exausta. Fabián estava dormindo finalmente e ela não aguentava mais. A sua cabeça doia, estava enjoada e o seu corpo mal conseguia suportar o próprio peso. Ela tinha se visto reflectida no espelho do corredor e nunca estivera tão pálida, tinha as olheiras carregadas, os olhos estavam pesados. Ela estava tão cansada que por vezes sentia que morrer não era má ideia. Mas depois o seu filho dava-lhe força para aguentar. Só que ela sentia que aquele casamento a estava matando. Era a única razão que encontrava para aquele estado miserável em que se encontrava.
Ela ouviu o duche fechar-se e segundos depois a porta abrir-se. Nem abriu os olhos para olhar para ele. Habituara-se a jogar o jogo dele. Fingia que não o via, mas dentro de si mil e um sentimentos acordavam. Dor, angústia, raiva, ódio, amor... Ela queria odiá-lo mas acabava se odiando por ainda o amar. Ouviu o som de tecido a cair ao chão e abriu os olhos. Encontrou Draco Malfoy de costas para ela, do outro lado do quarto, completamente nu, com as gotas de água ainda escorrendo pelas costas. Por mais que tentasse esconder, era impossível ela não deixar de se sentir atraida pelo marido. No entanto agarrava-se ás crueis memórias do que aquele corpo masculino tinha feito ao dela, numa noite de chuva, dentro de uma carruagem. Era a única maneira que encontrava para afogar os sentimentos que nutria por ele. Fechou os olhos, tentando apagar da sua mente as imagens que a invadiam. Esta simplesmente demasiado cansada.
Ouviu-o vestir-se e ele desmaterializou-se.
Draco sabia que ela não estava dormindo, no entanto via o cansaço escrito em todos os traços do rosto dela, em todas as células do corpo de Ginny. Mas não disse nada. Estavam habituados a não falarem, a não se olharem, a fingirem que não vivam juntos e ele não se importava. Ele odiava ter que voltar para aquela casa. Odiava ter que vê-la e ver o filho não era algo que lhe agradasse. por isso, foi ter com Pansy. Ela, como sempre, recebeu-o de braços abertos. Estava á espera dele, como sempre, e usava uma roupa sensual, como sempre. Agarrou-se a ele e beijou-o fervorosamente, um beijo que ele retribuiu com igual fervor, mas apesar da atracção que havia entre os corpos deles, não havia qualquer calor entre eles. Agiam mecanicamente, os gestos eram sensuais mas frios. Era sexo puro, nada mais, nem paixão. Draco começou a despi-la, enquanto que ela acariciava o seu peito. Ele agarrava-se aquele momento erótico com todas as forças. Ele não estava com Pansy porque gostava dela, se gostasse não teria outras amantes, na verdade ele só as tinha para fugir a uma única mulher, para não ter que estar em casa, para não estar próximo dela. Dela, ele queria distância. Era por isso que quando estava com as outras, concentrava-se nelas. Era a única maneira de se afastar completamente da sua mulher. Mas naquela tarde foi-lhe impossível afastar os seus pensamentos de Ginny. A lembrança da vulnerabilidade e fraqueza dela naquela tarde cegou-o enquanto Pansy lhe arrancava a camisa com brutidão.
-Espera!- ele disse sem sequer pensar. Pansy olhou para ele como se ele a tivesse dado uma bofetada.
-Desculpa?!- ela disse muito devagar, como se não acreditasse no que acabara de ouvir. Ele nunca lhe tinha pedido para parar.
-Eu não estou bem hoje!- ele disse afastando-a delicadamente. Ele sabia que Pansy era capaz de lhe lançar um Avada Kedavra se ele desse um passo em falso.
-Desde quando é que isso é um problema?- ela disse suavemente mas os olhos dela estavam flamejando.
-E não é, só estou cansado!
-Cansado? Desde quando te sentes cansado para isto? Sempre disseste que isto te relaxava...
-Hoje estou... não sei explicar, mas estou bloqueado!
-Não brinques comigo Draco Malfoy!- ela ameaçou- Deixa-me adivinhar, é a tua mulherzinha? Está de cansando demais durante a noite? Ela é incansável? Está te esgotando?
-Não sejas parva! Sabes bem que eu não toco na Ginny!
-Agora é Ginny? Ontem era Weasley!
-Agora estás com ciumes?
-Não é para ter? Tu apareces aqui com a cabeça sei lá onde e dizes-me que estás cansado, que não te apetece! Que se passa Draco, já não me queres? Ou será que a Senhora Malfoy é melhor que eu?
-Não comeces Pansy, sabes perfeitamente que o meu casamento é uma mentira!
-Então porquê isto? Porquê? DIZ-ME AGORA!- ela ordenou-lhe. Foi esse o erro dela e ela apercebeu-se tarde demais. Ele olhou-a com um sorriso reprovador nos lábios.
-Adeus Pansy!- ele disse. Ela agarrou-lhe no braço.
-Não, espera! Desculpa, eu não queria dizer aquilo, não quero obrigar-te a nada, não era uma ordem...
-Adeus!- ele disse e afastou a mão dela do braço dele. O que mais odiava que fizessem era que lhe dessem ordens e ela acabára de o fazer, se já não estava disposta a estar com ela, agora o que queria era dispensar a companhia da amante. O único lugar que lhe apareceu na mente foi o lugar de onde tinha querido fugir há alguns momentos atrás. Apareceu na biblioteca da Mansão Malfoy. Sentia-se frustrado. Queria fugir dali e ao mesmo tempo, estar entre aquelas paredes. Que se passava com ele naquele dia?
Ele agarrou um copo e encheu-o de Firewhisky.
Ginny não sabia bem como tinha adormecido mas tinha a certeza do que a tinha acordado. O som de vidro partir-se. O som tinha vindo de fora do quarto, parecia vir da biblioteca. Ginny levantou-se com dificuldade e caminhou até ao fundo do corredor. Abriu a porta cuidadosamente.
-O que aconteceu?- ela perguntou ao homem que estava em pé olhando para a mancha de líquido ambêr escorrendo pela parede negra. Os olhos percorreram as gotas de uisque até ao chão onde viu vidro partido.
-Foi só um copo que se partiu.- ele respondeu.
-Tinhas necessidade de parti-lo?
-Reparo!- ele disse, apontando a varinha para o copo despedaçado. Os fragmentos de vidro uniram-se e o copo voltou ao normal.- Accio Copo!- o copo voou até a mão dele- Satisfeita?
-Não foi o copo que me preocupou, foi o barulho! Fabián está dormindo!
-Para a próxima tento parti-lo sem fazer barulho! Melhor assim?- ele perguntou visivelmente irritado. Ginny já o vira perturbado, mas ele geralmente disfarçava muito bem. Naquele momento ele não fazia o minimo esforço por disfarçar fosse o que fosse.
-Tu não te preocupas minimamente com o teu filho pois não? Tu não te preocupas com ninguém e...- mas ela não acabou a frase. Simplesmente esbugalhou os olhos em choque. Draco exercera tanta força sobre o copo que ele acabara se partindo na mão dele. Ela viu o sangue abrir caminho por entre os dedos da mão ainda fechada fortemente sobre os fragmentos cortantes.
-Abre a mão!- ela disse numa voz aguda.- Estás louco?
-Talvez! Talvez esteja ficando louco. Deixa-me sozinho!- ele disse sem abrir a mão.
-Não!- ela teimou- Abre as mão, por favor!- ela disse quase desesperada ao vê-lo fazer ainda mais força com a mão. Ele já tinha os dedos cobertos de sangue e havia uma pequena mancha no chão. Ele acedeu ao pedido dela e abriu a mão. Ela aproximou-se dele e tentou agarrar-lhe na mão, mas ele afastou-a.
-Deixa. Já abri a mão. Agora posso ficar só?
-Não sejas tonto. Deixa-me cuidar disso!- ela disse, já com o sangue ferver. Ele conseguia ser tão teimoso e orgulhoso que quase fazia as orelhas dela fumegarem de irritação.
-Não é preciso!- ele disse friamente.- Amanhã Blaise põe isto como novo.
-E entretanto vais deixar sangrar até ficare ssem pinga de sangue? Não sejas orgulhoso Malfoy- ela disse agarrando-lhe no pulso. Desta vez ele não afastou o braço. Ela olhou para os danos, já se sentindo mais calma. Haviam várias feridas na palma da mão dele, muitas delas eram profundas e algumas tinham os pedaços de vidro cravados profundamente na pele dele. Ela retirou os vidros cuidadosamente, tentando magoá-lo o menos possível, mas sabendo que aquilo deveria doer mais do que ela queria. No entanto ele nem se mexeu, parecia não sentir, parecia que o seu corpo estava tão gelado e dormente quanto o coração dele.
-Posso saber a razão desta raiva toda?- ela perguntou, tentando distrai-lo e a ela também daquela difícil tarefa.
-Não tens nada com isso!- ele respondeu. Como é que ela ainda era capaz de cuidar dele? Era suposto ela odiá-lo. Era isso que ele queria, que ela o odiasse tanto quanto ele merecia ser odiado. Queria que ela se afastasse dele, não a queria por perto. Então porque raios ela ainda se preocupava? Ele preferia quando ela se mantinha á distância, quando ela era fria com ele. Aquela situação era desconfortável para ele, embora ele não revelasse.
Ela tirou a varinha dela e murmurou alguns feitiços. Ele sentiu a dor desaparecer e a ferida começar a cicatrizar lentamente.
-Dentro de umas horas está como nova.- ela informou. Largou a mão dele e afastou-se. Ele olhou para ela mas não disse nada.- eu vou para o quarto.
Ela virou-se caminhou até á porta.
-Espera!- ele surpreendeu-se, ao ouvir a palavra sair dos seus lábios. Não sabia de onde ela tinha saido mas a verdade é que de repente ele queria que ela ficasse.
Ela estava tão surpreendida quanto ele.
-O que disseste?- ela perguntou para ter a certeza que tinha ouvido bem. Virou-se e surpreendeu-se novamente por ele estar mesmo atrás dela.
Ele não respondeu. Ficou simplesmente olhando para ela, com aquele solhos cinzentos que um dia a haviam encantado. Ela sentia se perder dentro dos olhos dele. Eram como um mar furioso que a puxava para longe da costa, e por mais que ela nadasse, a corrente arrastava-a, puxava-a, não a deixava alcançar nenhum porto seguro.
Quando ela sentiu o polegar dele acariciar a sua face, sentiu o seu corpo enfraquecer. Maldito era ele, por apanhá-la naquele dia em que ela se sentia demasiado fraca para lutar contra ela própria.
Quando sentiu os lábios dele sobre os dela, o seu corpo foi invadido por um turbilhão de sensações que ela reprimira durante muito tempo, tanto tempo que ela julgou que essas sensações tivessem sido apagadas, mas apenas tinham adormecido. A sua cabeça foi invadida por um furacão de pensamentos contraditórios. Ela esperara tanto tempo por aquele beijo, ela desejara tanto que ele a tocasse carinhosamente. Ela queria se perder nos braços dele, queria se sentir segura ao lado dele, queria que ele a agarrasse e a protegesse. Queria que ele a amasse novamente.
"MAS ELE NUNCA TE AMOU!" uma voz gritou dentro dela, com mais força do que todas as outras e ela acordou da mentirosa fantasia em que o beijo a tinha envolvido. Foi dessa voz que ela arranjou forças para o afastar. Julgou que ele fosse lutar contra a vontade dela como ele fizera há meses atrás, mas pelo contrário. Também ele parecia desprovido de forças.
Ela viu a confusão nos olhos dele ser substituida pela habitual frieza.
-Se queres carinho, beijos, sexo... vai procurar uma das tuas amantes!- ela respondeu depois de finalmente conseguir erguer as suas defesas.
-Sai!- ele disse. Ela não disse mais nada e fez o que ele lhe disse. Quando fechou a porta do quarto, correu até á cama e sentiu as lágrimas correrem pelas suas bochechas. Fazia muito tempo que ela não chorava por ele, julgou que as suas lágrimas tivessem secado de tanto chorar. Mas naquele momento, as forças abandonaram-na novamente. As únicas forças que possuira desvaneceram. Estava tão fraca que só aguentou as defesas durante alguns segundos, os suficientes para fugir dele. Agora estava só e não sentia vontade nenhuma de ser forte, não queria ter que ir buscar forçar onde não as tinha. Não naquele dia, não naquele momento. Simplesmente deixou a sua mágoa transformar-se em lágrimas. Talvez a aliviasse. Talvez a magoasse mais, mas não importava. Amanhã ela voltaria ao normal, e agiria como sempre, mas agora ela só queria chorar.
N/A: O nome científico da flor em que a noiva de Fabián é Centaurium erythraea se tiverem interessados em saber. Respondendo a monique, eu sei que o nome dela é Virginia, quero dizer, sei agora, mas tenho tido alguma confusão, porque eu costumava tratá-la por virginia e disseram que era Ginevra, fiquei na dúvida. Espero que gostem deste capítulo. Já estou trabalhando no próximo.
P.S. Só uma curiosidade mas este capítulo foi escrito todinho ouvindo a música "Cry" da Faith Hill, acho que a música tem tudo a ver com esta história, não acham? Ah e desculpem qualquer erro ortográfico neste e nos outros capítulos, eu leio os capítulos sempre depois de escrevê-los mas acabam sempre escapando uns poucos. Bjs e obrigadão pelas reviews.
Ah e desculpem pelo tamanho do capítulo, está enorme mas eu não me contive.lol.
