CAPÍTULO 2

Era um dia como qualquer outro, uma noite como qualquer outra. Bellatrix riscou outra marca na pedra fria. Outro dia, outra marca. Não importava. Ele não tinha vindo. Esperou durante a noite porque a noite era a hora Dele. A noite era quando havia alguma possibilidade de sentir a Marca, mas não sentiu.

Outro dia passou, e outro, e outro. Os dias passaram juntos. Queria saber por que sempre achou que devia se humilhar tanto a ponto de implorar a Rookwood por sabonete e água. Que coisa injusta. Ele deveria estar numa cela ao lado da dela. Era tão culpado quanto ela. Se ela e Narcissa tivessem tido permissão para ficar no mesmo tribunal, eles teriam encontrado um jeito de forçar os juízes a libertá-los? Tudo se resume a dinheiro e influência no final. Ela tinha muito pouco de ambos. Claro, Lucius poderia ter feito isso com sua língua afiada se quisesse, mas nunca tinha gostado dela. Ela não era o suficiente para servi-lo. Mas ele o fez para a irmã dela. Bellatrix não era burra a ponto de pensar que Narcissa tinha escapado de ir para Azkaban por si própria. Não. Foi o dinheiro e a lábia de Malfoy que lhe trouxeram a liberdade. Então por que ela estava condenada a apodrecer lá? Era da família. Não deviam já tê-la libertado? Riscou outra marca na parede.

Por que seu Lorde das Trevas não veio?! Era hora. Ele tinha tempo de sobra desde primeiro de setembro. Devia estar planejando. Ela devia estar planejando ao lado dele — sentindo e degustando sua magia. Ao lado Dele. Quase podia se fazer sentir. Desejou lembrar. Tinha que lembrar. Não podia esquecer a sensação da magia dele. Um pensamento passageiro a importunou. Tinha se esquecido de Rodolphus. Tinha se esquecido da magia de seu marido. Afastou o pensamento com sua vontade de ferro. Não importava. Só o Lorde das Trevas importava.

Naquela noite ela rezou. Não tinha rezado durante muitos anos. Todos os deuses e deusas tinham-na abandonado.

— Como Ele a abandonou — disse uma vozinha sarcástica.

— Não! — ela gritou. — Ele virá para nós! — esperou pelos ecos dos outros prisioneiros chorando, mas eles estavam silenciosos. — Ele voltará! — gritou uma, duas, cem vezes. — Devemos ser fiéis!

— Foda-se a fidelidade! — rosnou um colega, e finalmente Bellatrix silenciou, e lágrimas quentes e salgadas rolaram pelo seu rosto. Lágrimas, pensou. Já não tinha chorado o suficiente? Lágrimas não concluíam nada — mas deveriam. Deveriam ter um propósito. Ela deveria ter um propósito.

Liste todas as poções que possa lembrar em que lágrimas são um dos ingredientes, ela disse para si mesma. Lembrou-se de cento e cinco delas. Oitenta e nove ela mesma tinha criado, incluindo a poção do amor que fizera Rodolphus se apaixonar por ela em Hogsmeade há tanto tempo atrás. Rodolphus Lestrange. Por um momento seus olhos deslizaram e ela ficou zonza e lembrou — lembrou do rosto dele, mas não de sua magia.

Estava em seu sexto ano em Hogwarts, o mais agitado. Conheceu Rodolphus Lestrange, dois anos mais velho, numa festa dos Malfoy, e o encontrou em Hogsmeade no fim de semana seguinte. Sabia que seus pais tinham falado com os Malfoy sobre se aliar ao clã deles. Não importava qual irmã se casasse com Lucius. Pessoalmente, Bellatrix o achava bonito demais para seu gosto, mas quando Laurel decidiu que era hora de se casar com um corvinal e foi atrás de Marshall Avery com as garras de fora, a escolha sobrou para uma delas duas. Nunca achou que Narcissa poderia pensar em ninguém a não ser nela mesma, mas esta admitiu chorosamente para sua irmã que estava grávida e a criança era de Lucius. Bellatrix deu de ombros. O dinheiro e o nome dos Malfoy teriam sido bons, mas não era algo que ela não pudesse viver sem. Quando sua mãe a questionou sobre por que estava distanciando-se de Lucius, não poderia trair a confiança da irmã. Não que se importasse em guardar tanto um segredo, como se isso fosse criar uma ligação entre suas magias, mas ela não estava a fim de parar de dividir a magia com suas irmãs. Vivia para isso.

Bellatrix fez uma pausa, lembrando dos belos e complexos feitiços que elas tinham criado juntas e abruptamente sido pegas. Continue pensando nessa linha e você terá a colônia de dementadores inteira em cima de você, ela pensou. Tinha dito a seus pais, completamente sincera, que não estava pronta para se casar. Mas era uma Black de uma longa linhagem de puro sangue, e seus pais não estavam prontos para aquela verdade.

Bellatrix encontrou Rodolphus denovo e denovo. Fizeram tantas brincadeiras com grifinórios e trouxas que perderam a conta. Algumas eram inofensivas, mas a maioria não. Seus encontros secretos a inebriavam. Ele era divertido, engraçado e poderoso. Contou a ela que era um Comensal da Morte, alto na estima de Voldemort, e ela acreditou. Ele costumava seguir ordens, tanto dela quanto de Voldemort. Às vezes ele a deixava abruptamente no meio de seus encontros secretos, mas nunca a chateava. Finalmente ela se recusou a ser deixada de lado. Coaxou e praguejou alternadamente até ele rancorosamente aceitar que ela fosse junto com ele matar aurores e, igualmente, trouxas. Ela sabia que poderia convencê-lo depois de um tempo, o gosto salgado de sangue era melhor que o afrodisíaco que tinha feito.

Finalmente ele a levou consigo para Lord Voldemort. A dor da Marca Negra era inesperada, mas, uma vez que tinha sentido a magia dele, ela estava transformada. Era puro poder, e nada mais seria suficiente. Podia sentir a dor enquanto tivesse a magia também. Então precisava da magia agora. Lágrimas jorraram de sua face em rastros amargos e quentes. Ela tivera tanto, e agora não tinha nada. Sempre tinha que se esforçar para lembrar da magia dele, mas não a deixaria perder-se. Nunca.

Pôs a boca na Marca, tentando sentir algum resto do gosto da magia, e chorou porque não havia nada além de uma vaga tatuagem que estava lentamente escurecendo. E então, sem aviso, a Marca começou a queimar em sua boca e ela sentiu a magia dele queimando, mas não a Dele. Estava sendo enviada por uma mulher — uma garota, na verdade — uma Weasley, Bellatrix pensou surpresa. Tinha que estar enganada. O sinal da Marca era poderoso demais para uma mera Weasley, e tinha o gosto dele. Ponderou isso por um tempo. Como poderia acontecer? Eles estavam compartilhando magia? Compartilhando sexo? Talvez ela só tivesse recebido a Marca e não assimilado a magia dele ainda. Parecia mais provável. Deu-se conta de que tinha permitido o momento de fúria passar por ela. A magia tinha-se ido e tudo estava silencioso. Ninguém se queixava nas celas.

— Nós somos fiéis! Nós esperaremos! — O silêncio infinito retornou para somente ser quebrado por um ocasional soluço ou gemido.

A mente de Bellatrix voltou aos seus devaneios. Quando ele disse "Sangue e magia se misturaram. Você é minha", ela acreditou nele. Acreditou com todo o seu coração e alma. Sabia que ele estava certo. Ela era dele. O pensamento trouxe um sentimento de satisfação que ela uma vez teria classificado como alegria, e olhou ao redor ansiosa pelos dementadores, mas eles estavam fora do seu campo de visão no momento. Talvez Rookwood os estivesse mantendo na caixa. Em todo caso, ela controlou suas emoções.

Os pais dela estavam procurando-lhe um marido, agora que Lucius estava tão obviamente enamorado de sua irmã, mas ela não queria mais ninguém. Se não pudesse ter o próprio Lorde das Trevas, não se casaria, dissera a seus pais.

Mesmo numa lembrança, Bellatrix estremeceu. Os crucios de Carman nunca tinham sido tão fortes.

— Bem, se ele fosse viver para sempre e sua mulher não... — ela tinha dito.

Outro crucio mais forte que o primeiro a atingiu.

Não sabia como tinha retornado a Hogwarts, mas passou a semana na ala hospitalar. Tremendo, se imaginou lá agora. Sofria quase com tanta dor quanto daquela vez, mas a dor era mental: a dor da perda e da traição. Tinha certeza de que Madame Pomfrey entendia que o que ela sentia eram os efeitos colaterais de um crucio, mas tinha decidido ficar calada. Bellatrix temia que Dumbledore soubesse que o crucio tinha vindo de sua mãe. O que ele faria a seus pais se achasse que eles eram abusivos? Arrependeu-se de seus atos. Estava errada. Casaria-se com quem quer que eles escolhessem. Ainda pertenceria ao Lorde. Nada mudaria sua opinião quando tocava a Marca. Mandou uma coruja a seus pais e, mais tarde naquela noite, contou sua decisão a Rodolphus. Aqui nesse lugar provido de magia, ela tocou sua Marca, se lembrou, e fez outra marca na parede.

Já tinha deitado sua cabeça e fechado os olhos. Ouviu os barulhos dos ratos arranhando próximos. Tinha sido um dia maravilhoso. Sabia que ele estava vivo. Ele estava fazendo alguma coisa. Três Marcas dentro de um mês — e então a queimadura ficou em seu braço esquerdo.

Outra Marca foi enviada. Ela estava de pé, desesperada para ir até ele. O desejo de aparatar queimou mais quente que a Marca.

— Ele está vindo — sussurrou. Denovo e denovo o simples sussurro: — Ele está vindo! — o som ecoou como um mantra pela simplicidade. Não havia dementadores para atormentá-los porque Rookwood tinha ido para a cama. Permaneceu acordada durante toda a noite, maravilhando-se. Tinham sido duas Marcas Negras com somente algumas horas de intervalo entre cada uma. Não havia dúvidas. Ele estava se movendo.


— Você sabe quem seus pais escolheram para você? — Rodolphus perguntara.

— Não.

— Eu fiz uma... tarefa... um favor para Lord Voldemort — dissera Rodolphus. — Ele tem me perguntado várias vezes o que eu quero como recompensa — ele moveu os lábios para a orelha dela. — Eu gostaria de pedir você.

Ela se lembrava do momento muito bem. Tinha avaliado a proposta dele. Ele era poderoso e excitante. Tinha o sangue e posição dela e eles progrediriam juntos, o que ela supunha traduzir, ele não achava que tinha controle sobre ela.

Ele ainda estava olhando para ela, sua voz baixa e contínua, disse:

— Nós gostamos das mesmas coisas, necessitamos da mesma excitação. Eu pretendo ser o braço direito dele.

Ela acenou, mas com uma correção: ela seria o braço direito de Lord Voldemort, e não ele. Sorriu e disse "sim". A magia dele fluiu dentro dela quente e doce. Lembrava-se do momento, mas não da magia. Não neste lugar de morte.

Rodolphus fora sua escolha — dela e de Lord Voldemort.

Fechou os olhos e imaginou as mãos dele em seu corpo. Fingiu que era jovem, bonita e desejável e um súbito frio desanimador invadiu sua cela. As coisas negras vieram sentindo uma ponta de felicidade dentro dela.

— Rookwood — chiou. — Leve-os para longe de mim.

— Você parece positivamente obstinada — ele disse. — O esqueleto obstinado. Se o Lorde das Trevas vier, ele não virá para você. Vai te enterrar, te confundindo com uma trouxa morta.

— Rookwood!

— Eles não me causam dano enquanto eu tocar a caixa deles — zombou Rookwood.

— Rookwood!

Bellatrix não tinha tanta sorte. Os dementadores estavam fervilhando agora. A única razão pela qual ela ainda não tinha sido beijada era que havia muitos lá e eles estavam se amontoando um em cima do outro.

Rookwood entrou na cela dela e trancou a porta atrás de si.

— Vida e morte juntas numa única cela — disse ele, puxando-a para perto de si. — O único problema é que eu não estou certo de qual é qual. — Ainda segurando a caixa, abaixou a cabeça e beijou a boca dela. — Me chame de mestre — disse.

Quando os lábios dele encontraram os seus, ela não tinha certeza se o beijo era melhor que o dos dementadores. O frio eterno ainda tardava em suas costas. Eles se amontoaram próximos, ansiosos para se alimentarem dos poderosos sentimentos dela. Com as mandíbulas geladas deles em seu pescoço, e as quentes de Rookwood em seus lábios, Bellatrix se perguntou como tinha se rebaixado tanto. Desejou uma faca para fincar no coração dele.

Se lembrou de Dumbledore ensinando-a. Dumbledore exasperado.

— Transfigure o rato num cálice d'água.

Ela transfigurou num punhal.

— Transfigure a ave num copo de cristal.

Ela transfigurou numa lâmina afiada de estilete, os olhos perolados do pássaro ainda piscando surpresos, mas a lâmina era perigosamente afiada e perfeitamente feita. Gostava de facas. Esfregou suas mãos contra o peito de Rookwood, querendo a faca. Em qualquer lugar sem ser aquele, ela a teria.

Sentiu a batida rápida do coração dele e fantasiou as batidas acelerando de medo dela, a voz chorosa dele apelando e finalmente o sangue quente espirrando em suas mãos, e imaginou por um segundo que estava longe de Azkaban. Mordeu a língua em sua boca e sentiu o sabor metálico do sangue. O gosto era maravilhoso e, por um breve momento, a vida era boa. Estava cheia de vida.

— Sua puta! — Rookwood recuou e bateu na cara dela. O próprio sangue dela se misturou com o dele em sua boca. — Você quase arrancou minha língua fora! — ele reclamou.

Ela levantou um pouco mais a cabeça, ainda agarrada a ele para se proteger dos dementadores que estavam em êxtase, se alimentando de suas altas emoções.

— Ele voltará para nós — disse. — Para mim — murmurou, e Rookwood se afastou com desgosto, mas levou os dementadores com ele. Os elfos domésticos não trouxeram nenhum jantar para ela naquela noite, mas não importava. Queria saborear o gosto do sangue dele em sua boca. Era quase tão bom quanto magia.

Não era não, ralhou consigo mesma. Você esqueceu como é o gosto da magia, e é por isso que deseja aceitar essa pequena substituição. Nada é como a magia. Nada. Repugnada, cuspiu fora o sangue no chão da cela. Os ratos famintos vieram banquetear-se dele. Ela fez outra


Se ele não viesse em breve, não haveria nada dela para se resgatar, pensou. Lamentos e choros ecoavam pelos corredores escuros.

— Ele voltará e desgraçados sejam os que não foram fiéis! — exclamou.

— Cale-se, Lestrange maluca — murmurou Rookwood. — Ou eu solto os dementadores em você.

— Nos veremos no inferno — disse ela, os olhos queimando de malícia. Precisava amaldiçoar algo... qualquer coisa. Precisava sentir seu poder.

Ela fez outra marca na parede.

— Então, o que você quer hoje, Bella? Um pouco de xampu? Seu cabelo parece que foi roído por ratos.

— Um rato — disse. — Sim, é isso.

— Um rato? Sabe que você está tão louca quanto os loucos do St. Mungus? Por que quereria um rato? Imagino que viva com eles o suficiente aqui.

Ela levantou a cabeça um pouco mais, mas não respondeu.

— OK — riu ele. — Um rato então — ele tocou a pele nauseante dela no pescoço e disse: — Um rato e um sabonete. Quero minha mulher mais limpa do que você está.

— Não sou sua mulher — disse, régia.

— Eu sei — ele disse com um sorriso malicioso. — Você é a Rainha da Magia Negra.

— Sou — concordou. — Um dia você verá.

Ele riu dela e mandou sabonete e água. Não mandou um rato. Quando veio a ela mais tarde naquela noite, ponderou brevemente sobre o que Rodolphus pensaria dela se dando para ele — se vendendo por alguns pequenos confortos. Rodolphus entenderia a sobrevivência, pensou. Esperou por outra chance de mordê-lo, mas ele não a beijou.

No final, pegou um dos ratos da cela, prendendo-o em baixo das perneiras que Rookwood tinha dado a ela na semana passada. Enroscou a roupa em volta do pescoço do rato e lentamente estrangulou-o, sentindo seus esforços.

— Crucio! — murmurou. — Crucio! Crucio! Crucio! — Fingiu que o animal sofredor era Rookwood.

Por um momento fingiu que era o Lorde das Trevas que a tinha abandonado, mas então se deu conta do que estava fazendo. Como drasticamente o estava traindo, e enfiou seu braço na boca demente do rato. Ele mordeu em vingança e ela o derrubou, sua vítima correndo para um buraco na parede.

Dois dias depois seu braço tinha aumentado três vezes de tamanho e ela estava muito doente para continuar na cela. Foi levada à enfermaria para ser curada. Irônico, pensou, me curar, com a intenção de que eu possa morrer mais um pouco. Era exatamente o que queria fazer com o rato. Se o estrangulasse gentilmente e com cuidado o suficiente, poderia revivê-lo sem magia. Sua própria respiração seria suficiente para revivê-lo, mas ela o tinha perdido. Não sabia há quantos dias estava na enfermaria. Furiosa enquanto a conduziam de volta para sua cela, se deu conta que perderia sua conta de marcas.

— Que dia é hoje? — questionou primeiro o medibruxo e depois o guarda.

— Que diferença faz? — perguntou ele. — Você vai ficar aqui até morrer, Bellatrix.

— Eu tenho que saber. Por favor. Seja piedoso. Quero me lembrar do aniversário de meus filhos. O dia em que tirei magia dos elementos pela primeira vez. O dia em que conheci... meu... meu marido.

— Certo. Certo — concordou o guarda. — É 31 de outubro. Halloween. — Um alarme tocou e ele franziu as sobrancelhas.

Bellatrix prendeu a respiração.

— É Halloween? Hoje à noite?

— Sim — disse o guarda —, e eu encerro o expediente em cinco minutos para passar o feriado com a família — disse ele enquanto reajustava as defesas e proteções da cela. — Espero que esse alarme não seja nada que me faça ter que ficar aqui o resto do período.

Bellatrix o assistiu ir.

Conhecia o dia com todas as gotas de magia que já tinham estado dentro dela. Eram todos os Halloweens. Era uma noite de comemorações: encantamentos e festança. A noite em que seu Lorde das Trevas tinha sido tirado dela. A noite em que Laurel morrera... Sentiu o vazio da irmã no topo do intestino. Às vezes, parecia que o vazio era a única coisa que restava ali. Não havia mais nada. Nada pelo que viver. Nada pelo que morrer, tampouco. Andou pela cela se sentindo infinitamente deprimida.

Desejou poder passar o Halloween com sua família. Desejou tão arduamente que sabia que em qualquer ar, menos Azkaban, teria se realizado. O que estariam fazendo no Halloween?, pensou, o que estariam fazendo? E pela primeira vez na vida, sabia exatamente o que eles estavam fazendo. Estavam com ela. Bellatrix se surpreendeu em silêncio.


— Bellatrix — sussurrou Narcissa. — Irmã! — e o pequeno grupo silenciou, mas Bellatrix não falou. Não queria atrapalhar a maravilhosa miragem a sua frente.

Lucius deu um passo para trás com seu filho, quase completamente crescido, seus cabelos loiros esbranquiçados como o de ambos seus pais. Permitiram que Carman se aproximasse da cela. Narcissa enfiou sua mão entre as barras e segurou a mão de sua irmã. Um sopro de magia passou por seus dedos enquanto o marido de sua irmã se empenhava em abrir a cela. Tinha sido tão rápido, tão seguro, que Bellatrix não tinha certeza de ter sentido aquilo. Isto era sua irmã. Lembranças das vezes que elas tinham dividido magia, a qual seguia através dela. Tinham derrubado prédios juntas. Tinham movido montanhas. Sentiu o vazio que era Laurel e reparou que Narcissa sentia isso mais forte. Não estava acostumada a sentir o vazio.

— Esta aqui é um pouco mais complicada — disse o marido de Laurel enquanto trabalhava na tranca da cela. — Você deve ter dado a eles mais trabalho que a maioria, Bellatrix.

— Claro — ela disse com a voz baixa e rouca. Isso a aborreceu por um momento em que não pode lembrar do nome dele. Ele era um corvinal. Era o máximo que lembrava. Um corvinal com seu Lorde. Para ela não havia dúvidas de que o Lorde das Trevas estava lá. Em algum lugar. Seu coração estava saltando no peito. Devia estar sonhando denovo. Um pouco da empolgação a deixou. Claro que era um sonho. Tinha que ser. Ela realmente acreditou que ele voltaria para eles? Por quê? Não seriam úteis dessa vez. Ela se deu conta disso.

Onde estavam os dementadores? Quis saber, olhando exuberantemente por cima de seus ombros, mas eles estavam fora do seu campo de visão. Sua alegria foi temperada com a compreensão de que tinha que ser um sonho. Um sonho bom, mas um sonho, contudo. Outra criança estava com eles; uma garota, e Bellatrix lembrou-se de que sua irmã Narcissa também estava grávida quando eles torturaram os Longbottom. Era a criança dela? A criança não se parecia nem com sua irmã loira e pálida, nem com o alto e charmoso Lucius. A criança, na verdade, se parecia com um Weasley mas, com certeza, não poderia ser — bem, sonhos às vezes tomam rumos estranhos, pensou.

— Ela é sua? — Bellatrix perguntou para sua irmã Narcissa, mas esta se assustou e balançou a cabeça. — Não. Nossa garota já não é mais.

Morta, pensou Bellatrix. Narcissa tinha dado a luz a um aborto e ela estava morta. Morta pela maldição dos Longbottom, e ela se lembrava da noite — a noite que levou os Longbottom ao St. Mungus, ela a esse inferno e a criança de sua irmã à morte... Morta. Como uma única noite pudera ter um final tão desastroso?

Empurrou o pensamento para longe. Enquanto sonhava tinha alguma escolha sobre o sonho, não tinha? Então por que pensar nos malditos aurores? Por que pensar no aborto morto de Narcissa?

Tão diferente de seus anjos negros. Um lento sorriso cobriu sua face. Suas crianças estavam vivas e poderosas. Enquanto sonhava, pensou Bellatrix, podia muito bem ver seus filhos. Bellatrix procurou por eles, sua mente pregando peças nela. Ainda estava os imaginando com quatro anos, mas apesar de seus rostos serem irreconhecíveis, ela reconhecia sua magia. Seus olhos pararam nos gêmeos negros à sua frente e ela os abraçou, sentindo sua magia — a primeira magia que sentia em quinze anos. Quase chorou. Que sonho ótimo que a permitia sentir magia. Devia estar se lembrando, mas que lembrança! Enterrou o rosto em seus cabelos como tinha feito quando eram bebês em seus joelhos. O cheiro da magia deles era tão familiar. Era dela. A magia dela e de Rodolphus misturada, mas Ethan era mais como ela. Podia sentir o cheiro de fogo nele, como uma mina de combustão de magia. Podia sentir o gosto, como tinha sentido o gosto da Marca Negra quando ele a mandara um mês e trinta dias atrás.

— Você — disse ela suavemente. — Você projetou a Marca Negra no céu em primeiro de setembro. Meu primeiro filho. Meu Ethan. E meu Edward. — O frescor da água e do ar estava acima dele. Tão parecidos, pensou. Tão perfeitos juntos. Quis saber se eles já tinham dividido um feitiço antes, e lembrou-se de como Carman guardara esse segredo com ciúme quando ela e suas irmãs eram jovens, mas ainda sorriu. Eles tinham descoberto. Não tinha dúvidas de que os filhos deles também o fariam.

Tudo com o que ela se preocupava foi apagado pela presença Dele. Podia somente respirar. Queria cair aos seus pés e beijar suas roupas. Queria amaldiçoá-lo e xingá-lo por ter demorado tanto a ponto de ela ter achado que tinha sido abandonada, mas olhou em seus olhos e se lembrou do porquê de o seguir.

Ele usava sua magia em volta de si como uma capa de escuridão e dentro de seus olhos o fogo elementar brilhava como a chama do inferno. Nada poderia resistir a ele. Nada poderia tocá-lo, e ela era como uma traça para a chama dele. Lembrou-se do porquê de ter ido para Azkaban. Lembrou-se do porquê morreria por ele de bom grado. Ele era a personificação de tudo que era Slytherin. Era de fato a reencarnação de Salazar. Ela queria desesperadamente tocá-lo, mas não ousou.

— Bellatrix — o Lorde das Trevas disse suavemente, e ela se separou de sua família, virando-se lentamente, seus olhos travados nos dele, se abaixou a seus pés. Sabia que precisava contar a ele sobre sua fraqueza antes de ele tocá-la. Se ele a tocasse, saberia. Ficaria bravo. Uma parte dela não se importava. Até seu crucio seria bem vindo depois de anos de fome naquele lugar de horror.

— Nós fomos fiéis, Mestre — sussurrou, a voz rouca. — Rodolphus e eu... Rodolphus? — Queria estar bonita e régia para ele, mas não estava. Estava uma criminosa suja e acabada. Os aurores a tinham reduzido a isso, e subitamente uma velha raiva queimou dentro dela. Queria que eles morressem agora que estava livre. Podia fazê-los pagar. — Fomos fiéis — sussurrou.

— Eu sei — ele disse. — Você e seu marido foram fiéis, serão recompensados.

Que recompensa, pensou, seria melhor que estar viva e em sua presença?

— Rodolphus... ele está vivo?

— Está.

Notou que o Lorde das Trevas não elaborou a resposta, e não o pressionou. Veria Rodolphus em breve o suficiente. Tinha que contar ao Lorde sobre as horas em que tinha falhado em sua fidelidade. Talvez devesse contar também sobre amaldiçoar um rato por estrangulamento. NÃO, tremeu. Tentaria manter aquilo em segredo, pensou. Costumava ser boa nesse tipo de tarefa. Só manter uma pequena memória escondida dele. Manter-se falando sobre todas as outras memórias e não dar um único pensamento àquela. Era assim que faria.

Teria falado denovo, mas ele levantou a mão pedindo silêncio.

— Pense em que recompensa você quer — ele disse. — Você não tem que me dizer seus desejos agora. Pense nisso.

— Eu pensei, milorde. É tudo em que tenho pensado... — sua mente se voltou imediatamente para Rookwood e suas mãos cerradas não querendo nada mais que amaldiçoá-lo nesse minuto por todas as suas torturas, mas principalmente por fazê-la querer todo o luxo.

Seu Lorde das Trevas virou a mão dela com a palma para cima em cima da dele próprio e traçou os sulcos nela.

— O que aconteceu aqui? — perguntou, olhando para as profundas cicatrizes gravadas nas mãos dela. Tinha gentileza no toque dele. Não se lembrava dele sendo gentil com ninguém, certamente não com ela, mas ela não era uma mulher que apreciava gentilezas. Era força, almejou.

— Às vezes quando os dementadores... — ela pensou em explicar, mas não havia explicação. Decidiu ser burra. Era o melhor jeito. — Às vezes, eu falhei... — disse.

Passou a língua pelos lábios furtivamente, olhando para o chão, esperando ser punida a qualquer momento. Sentiria a magia dele, pensou num ímpeto, mas se lembrou de que até mesmo o grande Lorde das Trevas não podia fazer magia em Azkaban, mas faria. Ela sentiria sua fúria. Não estava com medo. Depois de tanto tempo sem magia, não se importava com a forma que ela tomasse. Dor ou alegria, ou somente um simples feitiço para cozinhar seria o paraíso para ela.

— Eu caí no desespero — disse. — Achei que você tinha nos abandonado — falou. Contou a ele que não acreditou. Era melhor que a verdade tivesse saído de sua boca do que se ele a tivesse extraído de sua cabeça. Sabia disso por experiência própria. Não escondeu nada dele exceto, talvez, a profundidade de seu desespero. As palavras vieram de uma vez. — Eu sabia que aqueles pensamentos eram perigosos. Era errado... punível... mas eu não tinha magia... nenhum caminho para concertar... meus sonhos destruídos...

— Vejo — disse Lord Voldemort traçando os sulcos com seu próprio dedo cicatrizado e fazendo algo tão surpreendente, tão totalmente inesperado que ela não acreditou. Ele pôs a mão no bolso e tirou sua própria jarrinha de ungüento prateado. Pôs dois dedos na jarra, tirou um pouco do conteúdo e espalhou nas mãos dela. As cicatrizes desapareceram imediatamente. Só ungüento de fênix faria aquilo, e fênix eram caras, e por vir de um pássaro da "luz", aquilo geralmente não era encontrado na Travessa do Tranco. Sabia que era um presente que ele tinha dado a ela, e estava maravilhada.

— Você agora sabe... se eu pudesse vir antes, eu teria vindo — ele disse, sua voz tão macia quanto a de um amante. Ela estava completamente negligenciada. Era como se ele estivesse se desculpando — se desculpando para ela!

— Sim, Mestre — ela disse, pensando que tudo que ele quisesse dela, qualquer coisa, na vida ou na morte, era dele.

Ele esticou a mão para alcançá-la e ela se inclinou contra a mão dele enquanto ele descia um dedo pelo lado de sua bochecha. Sentiu a magia dele, só para ela. A boca dele se contorceu num sorriso enquanto ele obtinha total devoção nos pensamentos dela.

— Está perdoada — ele disse, e Bellatrix suspirou denovo.

Uma vez que o toque foi retirado de sua mente, ela se sentiu vazia. Necessitada. Não era um sentimento a que estava acostumada. Ele pareceu sentir isso, e ela teria falado, mas se controlou. Tinha se preparado para esse dia. Ficaria orgulhosa. Ele sorriu para ela e se virou para saudar os outros.

Um homem tão bom quanto ele não podia ser detido. Ela tinha esperado. Continuaria a esperar. Sua hora chegaria.

Precisava olhar por si mesma. Se lembrar de quem era. Seus olhos foram atraídos para o mar. A água do oceano estava gelada, mas a magia em si estava na temperatura que ela queria, sem mais, pensou, ela deixou sua família e atravessou com dificuldade o oceano para encontrar a si mesma.

Por um momento sentiu a água frígida e sentiu somente magia. Ilusório e distante, mas estava lá. Diferente de Azkaban, a magia estava lá. Cavou profundamente dentro de si mesma usando seu desejo e poder para ganhar superioridade a ela e chamá-la para si. Por um momento, a teve; água escorreu por seus dedos e ela segurou um pouco mais de poder fora do elemento, encontrando o fogo. O som das faíscas sibilando contra água era como uma cantiga de ninar. Lembrou-se de Carman sufocando suas chamas quando ela era uma criança, mas não por muito tempo. O controle dela era impecável.

— Senhora? — ela se virou furiosa, lançou a magia quente em suas mãos em cima do elfo. Como esse elfo ousava interrompê-la?

— O que é, criatura? — exclamou. Outra parte dela estava maravilhada com o fato de que tinha elfos domésticos denovo. Elfos domésticos leais que obedeceriam a suas ordens como tinham obedecido as ordens de incontáveis gerações de Blacks, Doogles e Lestranges.

— Kriatura vem para levar senhora para longe daqui. Senhora deve ir para o Castelo de Neve — ele disse, hesitantemente apertando suas mãos. — Senhora deve tocar Kriatura.

O que isso significa?, pensou, e sua mãe, aparentemente sentindo a confusão, se aproximou. Desejou abraçar a mãe como tinha feito com os filhos. Não era por sentimentalismo que desejava tocá-la. Queria desesperadamente sentir sua magia. O gosto profundo e doce que tinha sentido de seu filho e de Voldemort não era suficiente. Sentia como se tivesse morrido de fome por catorze anos e desejasse suprir o tempo perdido. Queria dançar e pedir para alguém jogar i quit /i (1) com ela. Quase riu do pensamento, a magia que ainda tinha faiscando e chiando como a magia de uma estudante.

— Bellatrix — disse Carman. — Os guardas não permitem que os prisioneiros saiam. Sua essência mágica é reconhecida pelo guarda. A magia da criatura irá protegê-la. Não é isso que elfos domésticos fazem? Proteger e servir seus mestres?

— Eu tenho que tocá-lo? — perguntou Bellatrix, soltando faíscas que voavam no vento, acendendo brevemente e então ricocheteando no nada na barreira rochosa de Azkaban.

Narcissa se adiantou. A sempre prática Narcissa provavelmente a mandaria fazer um feitiço expirante em suas roupas antes que pegasse um resfriado. Em vez disso, Narcissa puxou uma varinha de suas roupas e entregou-a para sua irmã.

— Eu ia esperar para te dar isso — disse, limpando as faíscas que ardiam em suas próprias roupas. — Mas acho que você já precisa dela. Bellatrix pegou a varinha cuidadosamente, como se fosse o último copo d'água num deserto. Ao envolver a varinha em sua mão, ela sorriu.

— Como pode ser? — disse. — A minha foi quebrada... Espere... É de Laurel, não é?

— Sim — disse Narcissa. — Ela foi encolhida uma polegada.

Bellatrix virou-se e atravessou de volta a água frígida.

— Senhora? — o elfo doméstico ainda estava esperando por Bellatrix para tocá-lo e aparatar.

Ela olhou para o elfo e depois para a orla. Seus olhos retornaram ao Lorde das Trevas, ocupado numa conferência com alguns de seus Comensais da Morte. Ele precisava dela, Bellatrix pensou. Deu-se conta de que não era a única com aversão a tocar elfos domésticos. Alguns dos Comensais da Morte e alguns dos que tinham vindo voluntariamente estavam hesitantes em tocar os elfos domésticos.

Seu Lorde das Trevas nunca tinha se dado conta de que isso era um problema. Lembrou-se do que a tinha feito indispensável para ele agora. Olhou para a criatura, um pouco de sua aversão desaparecendo. Ela seria indispensável denovo. Juntou os pequenos restos de magia em torno de si e se levantou um pouco mais alta. Lembrou-se de quem ela era. Bellatrix Black Lestrange. Com um floreio, levantou as mãos acima da cabeça. Não tinha a energia para o elemento fogo vir e chiar na ponta de seus dedos, mas isso não parecia fazer diferença. Todos os olhos estavam nela.

— Eu disse que ele voltaria para nós! — ela olhou para eles acusando, lembrando-se de todos aqueles que a tinham chamado de Louca Lestrange e a mandado calar a boca. Teria sua vingança, prometeu a si mesma, mas não ainda. Não lá.

— Hoje, ele voltou para nós!

Alguns dos Comensais da Morte livres se viraram para escutá-la.

— No final ele veio — continuou. — Eu não vou falhar para com ele. Quem está comigo?

Enquanto todos os olhos estavam nela, ela conquistou seu desgosto, deu vários passos fora da água e se virou para Kriatura.

Sim, pensou. Iria para o Castelo de Neve, e nunca ficaria sem magia denovo. Seus olhos se fixaram no Lorde das Trevas que tinha se virado para assisti-la, um sorriso entortando sua face.

— Leve-me para onde o Lorde das Trevas deseja, criatura — disse em voz alta, continuando a segurar sua mão. Seus olhos, porém, nunca deixaram os marcantes olhos vermelhos do Lorde das Trevas.


(1) "quit" é um jogo criado pela autora. É um jogo de 'eu te desafio', um jogo onde quando você não aceita o desafio você diz 'quit' (desisto).