Amor de Meia-Noite
Tradução (autorizada) da fic "Amor de Medianoche" (reeditada)
Entrada: www(ponto)fanfiction(ponto)net(barra)s(barra)2086794(barra)1(barra)
Autora: Lady Verónica Black
Tradutora: Inna Puchkin Ievitich
Capítulo Três
Hermione cobriu a cabeça com as cobertas, encolhendo-se sobre seu estômago. Quando sentiu afundar o colchão de um lado, gritou de novo, presa do pânico.
- Hermione! – exclamou Harry, agarrando-a pelos ombros - O que ocorre com você?
- Um animal! - respondeu - Há um animal selvagem no quarto!
A morena sob os cobertores surpreendeu-se ao ouvir uma risada abafada.
- É Wolf…
- Um lobo! - exclamou a jovem, comprimindo-se contra ele – Atire nele! Atire nele!
- Saia daí debaixo, por favor. - pediu ele.
"Para que me coma viva? Está louco?" pensou a jovem, enquanto agarrava as cobertas com mais força, mas ele as arrebatou de repente para deixa-las a um lado. Hermione ficou imóvel, com os olhos fechados; ao ouvir Wolf latir, jogou-se, gritando, em cima de Harry, fazendo com que os dois fossem ao chão.
- Hermione! Pelo amor de Deus, basta!
Ao ouvir um grunhido animal muito ameaçador bem perto de seu ouvido, Hermione ficou completamente quieta, seu coração havia deixado de bater, nem sequer podia respirar. E com Harry sobre ela, tampouco podia mover-se. Lentamente abriu os olhos, temendo encontrar o objeto de seu medo.
E o encontrou, muito próximo, com o olhar dourado de uns olhos de lobo. Com um gemido de angústia, Hermione girou a cabeça. Sentia a frieza do chão de madeira contra sua bochecha. Harry a mantinha presa pelos pulsos, segurando-os firmemente de ambos os lados. Tinha a sensação de que ia desfalecer a qualquer momento. Ouviu o animal latir de novo, mas dessa vez o latido pareceu-lhe mais distante...
"Não a deixe escapar, maldito seja! Mate-a se for preciso, mas não a deixe escapar! Mate-a... mate-a..."
- Hermione...
Ouviu alguém chamando-a suavemente. Hermione? Esse era seu nome? Aquele sujeito, Harry, havia lhe assegurado. Abriu os olhos lentamente.
- Hermione. – chamou-a de novo - Este é Wolf. E não machucará você.
A jovem girou a cabeça vagarosamente até o animal, e viu que a observava curioso. O pânico voltou a apoderar-se dela e lutou para libertar-se do forte agarre de Harry.
- Não vai machucar você. - voltou-se a assegurar o moreno, segurando-a com mais força. - Wolf pensa que estamos brincando e quer intrometer-se no jogo. É um menino grande.
- Brincando? - grasnou - Um menino grande?
- Claro. - Harry sorriu-lhe - É apenas pouco maior que um cachorro.
- Um cachorro? - Hermione viu receosa o lobo que, com a língua de fora, sacudia alegremente a cauda. - Isso é como dizer que Moby Dick era um peixinho.
Com um latido, Wolf avançou até ela. E Hermione sufocou o grito que ia proferir, quando sentiu a úmida língua do animal lambendo-lhe a bochecha.
- Wolf! - chamou-o Harry, com tom severo - Para trás!
Relutante, o animal retrocedeu e sentou-se sobre suas patas traseiras. Ainda que só transcorreram uns segundos, pareceu a Hermione que havia demorado horas para recuperar o fôlego.
- Encontra-se bem? - perguntou-lhe Harry, olhando-a com expressão preocupada.
A jovem assentiu lentamente. E justo quando conseguiu tranquilizar-se, começou a ser intensamente consciente do corpo desse homem sobre o seu. Seus sentidos se aguçaram com terrível precisão. Podia sentir cada músculo daquele corpo, suas pernas comprimidas contra as suas, seus ombros, seu peito, seu abdômen, seus quadris, seu...
Ergueu o olhar para ele, com os olhos muito abertos. Harry observava-a, por sua vez, com seus incríveis olhos verdes, mas com um olhar escuro e penetrante, com uma intensidade que acelerou seu coração e encolheu-lhe o estômago. Um ardente calor emanava de sua pele, um calor que parecia queimá-la até a alma.
"Meu marido?", pensou então. Era possível que tivesse esquecido de um homem como aquele? Observou as feições de seu rosto, a forte linha de sua mandíbula, suas bochechas com uma ligeira barba por fazer, seus delicados lábios e úmidos...
Sentia que a pele lhe ardia, e um agradável calor estendeu-se por todo seu corpo. O tecido de sua camisa parecia-lhe uma prisão que não permitia respirar com normalidade, e começou a ser abrumadoramente consciente de sua nudez sob essa escassa roupa que levava. Ansiava tocá-lo, sentir aquela pele sobre a sua, e o simples pensamento a fez ruborizar-se.
"Meu marido?", voltou a perguntar-se. Seria possível? Poderia uma mulher feito ela ter-se casado com um homem como aquele? Essa pergunta a confundia ainda mais, nem sequer sabia que tipo de mulher era ela. Porém, sem dúvida, o homem que tinha sobre si era lindíssimo, e se era seu marido tivera muita sorte ao casar-se com ele.
Harry prosseguiu observando-a, e Hermione podia ver em seus olhos a mesma ferocidade que vira nos do lobo. Por um momento, pensou em utilizar a mesma ordem que havia usado ele com o animal, mas duvidava que desse algum resultado.
- Harry... – sussurrou - deixe-me levantar.
Ele não se moveu, ao contrário, pareceu como se não a tivesse escutado. Hermione sentia seu próprio pulso latejando com força em seu pescoço, enquanto uma selvagem excitação parecia concentrar-se em seu ventre. Olhando nos olhos desse homem podia sentir a corrente de tensão que os rodeava.
Ela não se sentia como se ele fosse seu marido, não recordava a sensação de estar em seus braços, pelo contrário, o mais mínimo contato de seus corpos a colocava nervosa e na defensiva, como se fosse uma experiência nova que não sabia como manejar. Era como se seu corpo não reconhecesse o do homem.
Seu olhar passou rapidamente da paixão e desejo a uma grande mostra de raiva e desprezo.
Se era seu marido por que a olhava dessa forma? Supostamente se amavam e ele teria que estar preocupado e olhando-a com doçura, não como se fosse uma intrusa inoportuna. Mas... e se ele não era? E se Harry Potter não era seu marido? Não sabia nada sobre ela mesma, nem sequer onde se encontrava, acaso ele a havia enganado para... Havia lhe feito crer que estavam casados para que ela não resistisse quando...?
Não, não acreditava que fosse isso. Ele teria se valido de todas as oportunidades do mundo se quisesse fazer-lhe isso. Embora, ainda pudesse fazê-lo. Ela encontrava-se tão fraca quanto um gatinho, e Harry era um homem grande e forte. Além disso, um homem como ele não necessitava enganar as mulheres para levá-las para a cama. Devia ter uma longa lista de admiradoras às quais recorrer.
- De verdade você é meu marido? - perguntou-lhe suavemente e com voz trêmula.
Ele dirigiu-lhe, se era possível, um olhar ainda mais penetrante. Lentamente negou com a cabeça, sem perder o contato de seus olhos.
- Mas... Por que... por que me mentiu? - perguntou-lhe, com a voz muito mais baixa.
Harry entrecerrou os olhos. Em meio ao tenso silêncio que se seguiu, Hermione voltou a ver esse olhar de receio em seus olhos verdes e em seu cenho sombrio. E, então, deu-se conta do que se passava...
Era ele que desconfiava dela.
- Você estava me testando, verdade? Acreditava que eu estava mentindo quando disse que não sabia quem era.
Harry levantou-se, então, do chão e olhou-a duramente. Hermione não apenas sentia-se débil quanto um gatinho, como também igual de pequena. Aquele homem devia medir, pelo menos, um metro e noventa. Sentira esse corpo tão próximo do seu, sentira seus músculos rígidos como pedra. Tudo naquele homem parecia obscuro e perigoso. E poderoso, muito poderoso, e tudo isso era-lhe incrivelmente excitante.
- Por que, Harry? - perguntou-lhe de novo - Ou esse não é realmente seu nome?
Ele a observava friamente, como se não a ouvisse.
- E meu nome... também o inventou?
Aproximou-se dela e pareceu vacilar quando ela se inquietou visivelmente, em seguida deslizou uma das mãos abaixo da gola de sua camisa, Hermione conteve a respiração enquanto seus dedos retiravam uma corrente de dentro de sua roupa, uma corrente que não sabia que levava.
- Você leva uma placa de identificação. - explicou-lhe, com um sorriso sarcástico.
Quando foi pegar a corrente, sua mão fez contato com a de Harry. A pele dele era cálida e áspera e a sua, tíbia e suave, uma evidente evocação de sua masculinidade contrastando com sua feminilidade. Uma mulher sozinha, com um homem que mal conhecia. E acima de tudo, um homem incrivelmente atraente.
Olhou a inscrição da corrente e leu o nome gravado em letras dourados, Hermione.
Desesperada, percorreu uma e outra vez os dedos pela inscrição tentando recordar algo, algo! Mas, como antes, ao fazê-lo apenas logrou incrementar a dor de cabeça que a torturava.
O quarto começou a dar voltas ao seu redor. Hermione cambaleou ligeiramente e sentiu as mãos de Harry sobre seus ombros, enquanto a deitava delicadamente na cama. A almofada aninhou-lhe suavemente a cabeça, e a dor começou a cessar.
- Precisa descansar. - disse-lhe ele, ao tempo em que se levantava.
- Não! - exclamou Hermione, levando a mão ao braço dele. - Tenho que saber algo, tudo o que você possa me contar, qualquer coisa...
- Era quase meia-noite... - com um suspiro, Harry voltou a sentar-se na beira da cama. - Contrário ao de costume, Wolf encontrava-se inquieto, agitado, como se intuísse que algo não ia bem, que algo estranho se passava. Eu o segui até o riacho, que agora mesmo é um verdadeiro rio, e literalmente tropecei com seu corpo.
Impressionada, Hermione olhou o animal que havia deitado, satisfeito, ao lado de sua cama.
- Eu estava sozinha? Estava sozinha no meio da noite, com a tempestade? - esforçava-se para clarear a mente, para tentar explicar-se, embora fosse somente um pouco, do que Harry estava lhe contando. - Por que não me levou a um hospital ou chamou a polícia?
- Nessa noite as ruas não estavam transitáveis, estava um completo dilúvio lá fora. Sair de carro com esse clima teria sido um suicídio.
- E agora?
Harry observou-a durante um bom tempo, em seguida levantou-se e aproximou-se da janela. A chuva repicava contra os cristais, e um súbito relâmpago iluminou sua figura. O trovão não tardou em retumbar à distância.
- Na noite anterior... - disse-lhe, voltando-se para ela - ... depois de trazê-la para a cabana, por uns momentos você recuperou a consciência e me suplicou que não chamasse ninguém.
- Eu supliquei? Por que haveria de fazer isso?
- Isso é algo que gostaria de saber.
"Aí está outra vez a sua desconfiança e receio", pensou, confusa, Hermione. Mas, por quê? Se realmente não a conhecia, nem ela a ele, que sentido teria sua desconfiança dela?
- Você me suplicou também que não deixasse que a encontrassem. - explicou enquanto aproximava-se dela, sondando seu rosto.
- Quem? - Hermione pressionou as têmporas com os dedos, no momento que a dor de cabeça voltou a fustigá-la.
- Esperava que você pudesse me responder isso. - devolveu Harry, com voz carente de emoção. - Você me disse: "Nada de médicos, nada de polícia; não permita que me encontrem". E não levava consigo nenhum documento de identidade.
Ela havia pedido que não chamasse ninguém? Aquilo não fazia nenhum sentido para Hermione.
- É por isso que não confia em mim, por isso que não me acredita? Pensa que sou uma delinqüente em fuga e que ando fugindo da lei? - perguntou-lhe incrédula.
- Poderia ser qualquer coisa, querida. - Harry rebateu secamente. - Definitivamente, você estava fugindo de algo ou alguém essa noite.
Hermione teria começado a rir se tivesse forças para fazê-lo. Por que haveria ela de estar fugindo de alguém? Era ridículo. Nesse momento, voltou a assaltar-lhe uma insuportável dor de cabeça.
Quando passou, sentiu que Harry lhe erguia a cabeça com delicadeza e introduzia uma aspirina na boca. Não queria engoli-la, queria aclarar as idéias para poder pensar. Mas o que podia conseguir lutando contra ele? Harry tinha razão, precisava descansar. Poderia pensar mais tarde quando se encontrasse melhor. Seguramente, quando acordasse já teria recuperado a memória e poderia chamar alguém para que fosse buscá-la. Ao fim de uma ou duas horas, todas as peças se encaixariam em seus devidos lugares.
"Poderia ser qualquer coisa", a recordação das palavras de Harry provocou-lhe um estremecimento. Depois de acercar-lhe um copo de água aos lábios, para que engolisse a aspirina, ajudou-a a apoiar a cabeça na almofada, com deliciosa delicadeza. Hermione sentia as pálpebras pesadas e a cabeça palpitante, mas obrigou-se a abrir os olhos.
- Harry? – murmurou, quando ele já se dispunha a sair.
- Sim?
- Creio que eu gostava mais quando era meu marido.
Quando terminou de tirar das sacolas as coisas que acabava de comprar no povoado, Harry dirigiu-se à sala. O fogo que acendera há mais de duas horas, quase havia se apagado, e a temperatura da cabana já era bastante baixa. Saltaram umas pequenas chispas enquanto metia mais lenha na chaminé, e o fogo começava a avivar-se.
Depois de Hermione cair dormida, a tormenta havia amainado durante um tempo e ele aproveitara para ir ao povoado, enquanto ainda era possível transitar pelas estradas. Tinha feito algumas investigações, tais como se teria acontecido algum acidente na montanha durante a tempestade, mas ninguém havia observado nada diferente ou estranho. Também acercara o Xerife para falar um pouco com ele, e tampouco conseguira averiguar algo. Depois de ter comprado algumas coisas, havia apressado-se para retornar à cabana justo ao tempo em que a tempestade reiniciava. Wolf, que se mantivera a postos na porta do quarto de Hermione, acabava de sair com rumo desconhecido, sem preocupar-se com a forte chuva que caía lá fora.
Harry jogou outra lenha no fogo e limpou as mãos nas calças. Não esperara que nevasse mas se, durante o seguinte par de horas, a temperatura continuasse baixando com a mesma constância, sem dúvida alguma nessa noite se formaria uma capa de gelo o suficientemente grossa para se patinar sobre ela. Franziu o cenho ao dar-se conta de que durante um dia ou dois poderiam ter dificuldades para sair da cabana. O que significava que seria igualmente difícil subir até ela.
Harry contemplou as chamas, com os olhos semi-cerrados. "Por favor, não deixe que me encontrem." As palavras de Hermione e seu tom desesperado ressoavam, uma e outra vez, em sua cabeça. Estivera quase inconsciente quando a resgatou da tempestade e levou-a à cabana. Por que devia dar crédito às incoerências que, naquele estado, havia dito a mulher? Especialmente quando tinha golpeado a cabeça e perdido a memória.
Harry aprendera a desconfiar de todo mundo, sem exceção. E, muito especialmente, das mulheres que apareciam nas margens dos riachos de uma montanha, em meio a uma tempestade... e muito próxima da cabana de um agente federal de muita alta classe, a quem meio governo queria localizar para reincorporar ao serviço, enquanto a outra metade queria assassiná-lo.
A agência bem podia fazer esse tipo de coisas: enviar um agente para encontrá-lo. E não especificamente para levá-lo de volta, claro. Embora houvesse passado seis meses apenas, sabia muito bem que ninguém poderia levá-lo à força. Se ela era uma agente, seu dever consistia em avaliar a situação e informar, nada mais.
Sorriu lentamente. Entre o seu intento de deitar-se com ela e em seguida sua queda no chão, Hermione teria muitas coisas que informar a seus superiores. Simplesmente pensando em suas longas pernas e na suavidade de sua pele conseguiu excitar-se por completo. E aqueles olhos... com um suspiro, recolheu o atiçador e cravou-o entre as lenhas. Não podia simplesmente acreditar que aquela mulher, a quem havia resgatado da iminência de morrer de frio em meio a tempestade, fosse uma agente do governo. Sempre tivera uma assombrosa habilidade para detectar outro agente, e não podia acreditar que sua agência tivesse caído tão baixo para pôr em perigo a vida de um dos seus.
Porém... acaso não fora esse mesmo pensamento que estivera a ponto de acabar com ele sete meses atrás? Esse pensamento havia matado Tom e sua mulher, Jenny. Os agentes do grupo de Harry raramente eram casados ou tinham família. Nem sequer tinham amigos. Era demasiado arriscado. Não apenas porque o trabalho era perigoso, mas também porque o risco a estar exposto à chantagem era muito alto. Quando algum agente entrava em seu mui especializado departamento, nunca mais voltava a sair. Se estava casado ou com filhos, eles corriam o mesmo risco, ou até mais que o próprio agente. Tom e Jenny, conscientes disso, haviam aceito o desafio. E nem sequer puderam celebrar seu primeiro aniversário de bodas.
A mão de Harry tensou-se sobre o atiçador, enquanto contemplava fixamente o fogo. Ainda despertava durante a noite com o som de explosão, ainda agora ouvia os gritos de Jenny...
Aquela operação fora um completo desastre. Uma vez que saiu do hospital, Harry havia procurado todos e cada um dos responsáveis, e lhes demonstrado graficamente a sua fúria. Se não tivesse sido por Ron, e pelo posto que este tinha no departamento, nesse mesmo momento estaria purgando sua pena no cárcere.
Ronald Weasley era a única pessoa na qual Harry tinha depositado sua total confiança. A única pessoa a quem considerava um amigo. Os dois haviam entrado na agência na mesma ocasião, há seis anos, e os dois haviam progredido rapidamente, embora em caminhos diferentes; Ron havia escolhido postos de logística e estratégia, enquanto ele havia preferido as missões, a ação. Juntos foram ao inferno e dele regressaram dezenas de vezes, e salvaram a vida um do outro mais de uma vez.
Por isso mesmo, pouco antes de ter ido ao povoado o chamara, o qual, por sua vez, assegurara-lhe que não havia enviado nenhum agente à sua procura. Mas Harry sabia que existia a possibilidade de que outra pessoa o tivesse feito sem seu consentimento. E também sempre existia a possibilidade, ainda que remota, de que Hermione trabalhasse em outro departamento ou para um governo diferente. Harry tinha informação de que muitos homens e mulheres foram capazes de matar por isso. E se essa gente tinha averiguado que ele se encontrava ali, talvez tivessem tentado contatá-lo através de uma mulher.
De todas as formas, logo saberia. Enviara a Ron o copo de água no qual ela havia bebido. Suas impressões digitais revelariam a identidade dessa misteriosa mulher.
- Harry?
Ao ouvir esse inesperado chamado voltou-se rapidamente, erguendo o atiçador, disposto a defender-se. Hermione olhava-o do umbral do quarto, com os olhos muito abertos e agarrando-se à gola da camisa que levava posta. Murmurando uma maldição em voz baixa, Harry baixou lentamente sua "arma"
O primeiro impulso de Hermione foi dar meia volta e fechar a porta com chave, mas seus pés se negavam a mover-se. Assim sendo, engoliu o nó que sentia na garganta e permaneceu onde estava.
- E-eu... sinto, não queria assustá-lo.
- Não deveria estar de pé. - disse ele, tenso.
- Já me sinto muito melhor.
Levemente atenuada pela luz do fogo da chaminé, a escuridão invadia o aposento, as sombras dançavam no rosto de Harry. Parecia feroz e perigoso. Perigoso mais que tudo.
Hermione perguntou-se porque a olharia com tanta atenção. Não parecia olhá-la a ela, mas sim dentro dela. Como se soubesse coisas que até ela mesma ignorava. Esteve a ponto de rir ante a ironia desse pensamento, já que a própria Hermione não sabia nada de si mesma. Ao ver que Harry voltava a colocar o atiçador em seu lugar, soltou o ar que estivera contendo.
- Não queria incomodá-lo. - deu um passo vacilante dentro do aposento. - Pensei que poderia usar seu telefone.
- Para chamar a quem? - perguntou-lhe Harry, arqueando uma sobrancelha.
- A polícia, para começar. Quiçá alguém tenha denunciado meu desaparecimento ou encontrado meu carro.
- Recentemente acabo de voltar do povoado. - informou-lhe, aproximando-se dela. - Ninguém denunciou nenhum desaparecimento, nem encontrou o seu carro.
- Isso... isso não é possível. - sussurrou.
- Ao que parece, sim, é.
A sala começou a girar ao seu redor e teve que retroceder até a porta, para segurar-se em algo e não cair no piso, mas de repente encontrou-se nos braços de Harry.
- Estou bem. - protestou. - De verdade.
Harry levou-a para perto da chaminé e a fez sentar-se num sofá frente ao fogo.
- Claro, e eu sou Dom Quixote.
- Não. - negou Hermione, tocando as têmporas com dedos trêmulos. - Você é muito mais atraente e tenebroso que Dom Quixote, eu diria que se parece mais a Heathcliff de "O Morro dos Ventos Uivantes"
Hermione não acreditava na audácia de suas poucas palavras. "Deus meu, realmente eu disse isso?" Um rubor incrível estendeu-se por suas bochechas enquanto erguia seu olhar para ele.
Harry permanecia de pé, frente a ela, com os polegares enganchados nas cinchas pelas quais passava o cinto de seu jeans, seus olhos brilhavam divertidos, e as chamas do fogo dançavam em seu escuro cabelo. Hermione, por sua vez, ansiava que a terra a engolisse. Não sabia o que dizer.
- Como está sua cabeça? - perguntou ele, rompendo o silêncio, ao pressentir a vergonha da morena.
- Creio que a equipe de construção que tenho na cabeça decidiu dar-se um descanso para, em seguida, continuar martelando. - respondeu, conseguindo ver um sorriso fugaz no rosto de Harry, justo antes que tomasse assento a seu lado.
- Deixe-me dar uma olhada.
- Não, de verdade, estou bem.
Mas Harry já se aproximava dela e Hermione não teve mais remédio que ceder, ou optar por saltar diretamente no fogo. Algo que esteve a ponto de fazer quando sentiu as pernas dele roçarem nas suas.
- Vire-se.
Tomou-a pelos ombros para fazê-la girar, até que ficou de costas para ele. Hermione não pode dominar um estremecimento quando sentiu que ele afastava seu cabelo.
- Pode ser que isto doa um pouco.
Não doeu, muito pelo contrário. Quanto ele retirou a bandagem, uma maravilhosa sensação, como um delicioso formigamento, espalhou-se por sua cabeça e seu pescoço, descendo até seus ombros.
Harry a fez girar a cabeça rumo a luz da chaminé. Quando Hermione sentiu sua respiração abrasando-lhe o pescoço, fechou os olhos de prazer e, apesar de si mesma, começou a relaxar, enquanto ele dava uma suave massagem na base do pescoço. Pensou, languidamente, que Harry levava impregnado em sua pele o aroma da tempestade e algo mais, algo, inclusive, mais potente e atraente. Era seu próprio cheiro. Uma mescla de sabonete, pinho e terra molhada. Por um momento, seu coração parou, antes que começasse a bater num ritmo frenético.
- É diferente...
- O quê? - Hermione dominou outro estremecimento, quando sentiu os dedos dele enredar-se entre seus cabelos.
- Seu cabelo.
- O que tem meu cabelo?
- A cor de seu cabelo é estranha, há várias tonalidades de castanho e loiro. Mas se vê que é natural. É uma cor muito rara...
Hermione demorou uns instantes para assimilar suas palavras. Com um gesto de desgosto afastou-se e voltou-se para olhá-lo.
- Eu estive a ponto de morrer, perdi a memória, e você se dedica a fazer-me piadas.
- Não é uma piada. Seu cabelo é natural.
Harry queria acrescentar que também era suave, tanto como a seda. Ansiava enterrar os dedos naqueles brilhantes caracóis castanhos. Porém, quando viu o brilho das lágrimas em seus olhos, se maldisse por seu desejo incontrolável e deixou cair as mãos dos lados.
- Olhei-me no espelho do banheiro... - sussurrou precipitadamente. - Foi como olhar a uma estranha. Tem idéia do que é isso?
"Mais do que imagina", pensou ele, mas não disse nada.
- Harry... Quero que me leve ao povoado, ante ao Xerife.
Harry tinha querido fazê-lo, tanto pelo bem dela como pelo seu próprio. Alguém tinha que estar procurando-a... sua família ou seus amigos. E, decerto, não precisava de um marido furioso que lhe atirasse porta abaixo. Qualquer que fosse o problema no qual havia se metido, era problema dela, não seu. Não tinha nenhum sentido permanecer ali.
Porém, não podia esquecer de seu desesperado tom de voz e da angústia que viu em seus olhos quando a encontrou. Se se tratava de uma representação, era uma atriz condenadamente boa. Mas, se não fosse isso, então alguém havia tentado matá-la, e esse alguém poderia tentar outra vez.
- De acordo. - levantou-se e a olhou. - Digamos que satisfaça seu pedido. E então, o quê?
- Não... não compreendo.
- Há uma hora não existia nenhum informe de uma pessoa desaparecida e ninguém havia encontrado seu carro. Meus vizinhos mais próximos, uma família alemã chamada Schulz, vive a uns três quilômetros daqui, e resulta que durante este mês ela está fora. Uma cabana de aluguel, propriedade dos Hamilton, encontra-se a um quilômetro mais além da dos Schulz, mas agora mesmo esta fechada para reformas.
- Não posso ter caído do céu. – protestou, frustrada.
- Provavelmente não, o que quer dizer que você teve que vir pela rodovia principal, mas esta está muito longe do riacho para que você viesse andando em meio a tempestade. Como não há carro algum, é evidente que alguém a trouxe até aqui.
- E me abandonou? - perguntou Hermione, abrindo muito os olhos.
- Parece que sim.
- Mas por que...? - se deteve bruscamente quando a assaltou um terrível pressentimento. - Acha que... é possível que alguém quisesse...?
Não pode pronunciar a palavra "violar-me". De repente, doía-lhe, inclusive, respirar. Desviou o olhar, lutando por manter a compostura, mas seu corpo começou a tremer.
- Não. - Harry tomou-a pelos ombros e obrigou-a a encará-lo. - Em seu corpo não há indício algum de que alguém houvesse infligido um dano físico desse tipo.
- Como sabe? – sussurrou, com voz rouca e os olhos cheios de lágrimas.
- Quando a trouxe aqui, estava coberta de barro...
- E? - olhou-o confusa.
- E tive que lavá-la. Suas roupas não estavam rasgadas, como teria sido lógico nesse caso.
- Oh… já vejo. - estava começando a compreender, com demasiada clareza, o que queria dizer. Até esse momento havia estado muito confusa e desorientada para pensar em seu estado físico e no estado de suas roupas. - Assim que nessa noite você teve que... ehmm... teve que...
- Tinha que fazê-lo, Hermione. Você estava ensopada, coberta de terra e sangrando. Tive que despi-la e enfia-la na ducha, não apenas para lavá-la e comprovar a gravidade de suas feridas, mas também para fazer que recuperasse o calor. Terá que confiar em mim quando digo que me portei como um verdadeiro cavalheiro.
Confiar nele? Sim, teria que confiar em Harry, não tinha outra opção. Contudo, o pensamento de que ele, um desconhecido, lhe tivesse tirado a roupa e a visto nua... de repente, a imagem, ou melhor dizendo, a sensação da pele nua de um homem em contato com a sua a assaltou de novo, como havia acontecido na noite anterior quando acordou pela primeira vez. Só que nessa ocasião, compreendia sua origem. Ruborizada, olhou-o com a boca aberta.
- Você também... duchou-se? Nu...?
- Temo que sim, era a forma mais fácil e rápida. Estava quase tão encharcado e coberto de barro quanto você, e até agora nunca me duchei vestido.
- Oh, Deus. - desviou o olhar, ardendo de humilhação e vergonha.
Tomando-a pelo queixo, Harry ergueu sua cabeça para que o olhasse e sorriu.
- Se você tem namorado, sou um homem morto. - brincou.
"Namorado?", perguntou-se Hermione. Acaso teria um? Se era assim, como podia ser tão incrivelmente consciente da presença de Harry nesse mesmo momento? Do aroma de sua pele, do calor de seu corpo, do contato de sua mão em seu queixo? Olhou seus lábios e sentiu que uma estranha cócega lhe percorria o corpo.
- Devo-lhe minha vida. - disse, baixando a voz.
Harry aproximou-se ainda mais e Hermione sentiu seu cálido alento em sua bochecha.
- E a Wolf.
A jovem sorriu e ele afastou-se lentamente.
- Levaremos um par de dias, seguramente você recordará quem é, ou alguém começará a procurá-la.
- E se ninguém me procura ou me reclama? - perguntou ela, deixando de sorrir.
Sua preocupação comoveu Harry. Compreendia melhor do que ela pensava. Via-se a si próprio doze anos atrás, com nove anos de idade: sozinho, separado de Sarah e esperando uma família adotiva que nunca chegou.
- Todo mundo tem alguém no mundo.
- E você? - Hermione levantou seu olhar até ele.
- Eu não. - respondeu, enrijecendo a mandíbula.
Tanta desesperança viu Harry em seus olhos, que se maldisse interiormente por não ter mentido.
- Por que está fazendo isto? - perguntou-lhe ela. - Por que está ajudando alguém que não conhece?
Harry disse a si mesmo que essa era uma boa pergunta. Poderia dizer que porque ela, talvez, fosse uma agente do governo que padecia de amnésia, e que, por isso, não seria boa idéia que a levasse à polícia. Ou também poderia responder-lhe que sempre estava disposto a ajudar as pessoas que se encontravam em problemas. Mas, claro, isso seria uma mentira. Ao olhá-la e descobrir a angústia que se refletia em seu rosto, decidiu que realmente só havia uma resposta. E estranhamente era sincera.
- Não sei.
Hermione assentiu, aceitando aparentemente aquela resposta.
- O que se passa com o seu trabalho, ou com o que está fazendo aqui? Não estou incomodando?
- Sou agente de seguros. - mentiu Harry, respondendo com cuidado. - Quebrei o ombro e agora mesmo estou de repouso por prescrição médica.
Disse a si mesmo que, em parte, aquilo era certo, Era agente e, além do mais, era rigorosamente certo que havia quebrado o ombro.
Hermione suspirou cansada e passou as mãos pelo cabelo, ao tempo em que olhava fixamente o fogo da chaminé.
- Hey, Harry. – disse, depois de um longo tempo em silêncio.
- Sim?
- Dado que você me salvou a vida, acha que também poderia me dar de comer? Morro de fome.
Hermione lhe sorriu com um brilho travesso no olhar.
Harry sentiu que lhe faltava o ar, vai-se saber por que, tinha a impressão de que essa garota, Hermione, lhe faria ter mais de um problema, mais que tudo cardíacos, se continuasse sorrindo-lhe assim, além de ter que dar-se umas tantas duchas frias...
Nota da Tradutora:
Bueno, aí está mais um capítulo de Amor de Meia-Noite, bem grandinho, por sinal. Aproveito a ocasião para comunicar que o próximo capítulo não sei quando publicarei, mas farei um esforço para que dentro de duas semanas eu consiga atualizar.
Em nome da autora e do meu, agradeço a todos que acompanham AdM, em especial àqueles leitores que deixaram review: FranciGranger (Obrigado pela parte que me toca, Franci, eu tento honrar as histórias que traduzo, buscando manter-me fiel à gramática espanhola, que é rica e uma das mais complexas – tão mais que o português. Além do mais, prometi a Lady fazer um bom trabalho de tradução de sua história – e assim espero estar fazendo. Sobre a sua pergunta, basicamente teremos Harry e Hermione como protagonistas, porém quatro personagens de Rowling farão sua aparição. Um deles, Harry já mencionou neste capítulo, é Ron – embora este só faça a sua "entrada triunfal" perto do fim; já os outros três, mais adiante você os verá "em ação". Basta ler para ver. ;-) Beijos.); Bárbara Jane Potter (ahauahauhauahau, eu também tenho uma queda por homens viris, que têm iniciativa e sabem o que querem. ;-) Quanto às cenas mais 'calientes', digamos que prometem tanto quanto as de PCU, embora sejam em número menor. Abre parênteses: a cena do dedinho bobo de Harry por entre a blusa da Hermione, é de mexer com os hormônios, não? Sutil e, ainda assim, quente, muito quente baby. ;-) Sobre as duas outras fics da Lady que pretendo traduzir, bueno, só estou esperando ela termina-las para iniciar os trabalhos. Além dessas duas, existem na fila mais duas outras fics extraordinárias, que foram sucesso absoluto entre os fic-leitores latinos, uma delas tendo superado a quota das 1000 reviews. Agora o projeto-projetão, que não sei se levo adiante, é traduzir a big fic da Rakaomi, "Una Hermione para Recordar". Mas isso... isso, por enquanto, está só na vontade. Não vou prometer nada. Beijos e até o próximo capítulo!); Pink Potter (ahuahuahauaha, amore se você estivesse no lugar de Hermione, certamente pensaria "coisas impróprias", não? Ah, pensaria sim, que eu sei! – ou quem sabe... faria! ;-) Beijos!); Lady Voldemort (Que bom que tenha gostado da história! Em nome da autora, agradeço. Beijos e volte sempre!); FAFA (Garota esperta! Anos de FFNET! Sacou desde o início que se tratava de Wolf. ;-) Quanto a não demorar em atualizar, não prometerei nada, mas, dentro de minhas possibilidades, me esforçarei para não atrasar. Beijos e até o próximo capítulo!); ...Miss Veronica... (A.S.: Eu percebi, depois, que a sua review em RU saiu cortada, mas de qualquer forma, inteira ou pela metade, eu respondi. ;-) Ho ho ho, sim, sim, eu sou uma menina má! Eu não 'adianto' as atualizações e não revelo dados importantes das histórias, mwahauahuahau! ;-) E só não sou mais má, porque ser má o tempo todo também me dá tédio. ;-) E não acuse Harry de safadeza, que eu sei que você, no lugar da Hermione, teria um treco – de prazer! – só de ter um homem desse porte brincando de "dedo bobo" dentro da sua blusa, ahauahauhaua! Ou, um homem assim pra aquecer os pés - só os pés? ;-) - em dias frios. Que tal? ;-) Bueno, Srta. Rudolph, A Rena de Nariz Vermelho, uma bitoca na ponta do seu narizinho e até o próximo episódio, digo, capítulo!)
Abraço e hasta pronto, amigos!
Inna
