Amor de Meia-Noite

Tradução (autorizada) da fic "Amor de Medianoche" (reeditada)

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Autora: Lady Verónica Black

Tradutora: Inna Puchkin Ievitich

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Capítulo Cinco

Dois dias mais tarde, quando a tempestade, por fim, já havia amainado, Harry encontrou o outro sapato de Hermione. Durante um momento permaneceu ao pé do barranco, examinando-o. Abaixo havia uma parede rochosa de mais de dez metros de altura; a uns dois metros acima de onde encontrara o sapato, havia outro pedaço de tecido azul marinho, enganchado num ramo. O tecido procedia da saia que Hermione usava na noite em que a encontrou.

Hermione havia caído nesse mesmo lugar. Era incrível que não houvesse morrido, ou que não houvesse ficado gravemente ferida. Sobreviver à queda já fora suficientemente surpreendente, mas o fato de que houvesse continuado andando pela margem do riacho, até cair tão próxima da cabana, fora um milagre.

Fechando, com força, a mão sobre o sapato,pensou que o terror podia explicar essas coisas; fazer com que uma pessoa cometesse atos que, em circunstâncias normais, pareciam sobrenaturais. Era o mesmo terror que, há dois dias, vira nos olhos de Hermione, quando assaltou-lhe aquela fugaz recordação na cozinha.

Desde aquele dia não voltara a pressiona-la, em busca de informação. O que, então, necessitava era descansar. Ficara dormindo a maior parte daqueles dois dias. Já haviam-lhe desaparecido as dores de cabeça e a ferida estava curando-se bem, o único que precisava era descansar e muito.

Quando Harry deixou a cabana um tempo antes, ela acabava de entrar no banheiro. Ao ouvir o som da água da ducha, vira-se assaltado pela lembrança de seu suave corpo despido; as sensações que despertaram essa imagem nele haviam sido tão intensas, que obrigaram-no a sair da cabana para não acabar fazendo uma loucura. Havia decidido que já era hora de rastrear os passos que Hermione dera naquela noite, quando encontrou-a no riacho.

Voltou a olhar o cume do barranco, a rodovia principal passava por ali acima. Teriam arremessado Hermione de um carro, de modo que logo havia caído, rolando pelo barranco? Ou teria sido uma queda acidental? Restava outra possibilidade, cada vez mais improvável: que fosse uma agente, e que tudo isto fosse uma farsa. Certamente, requeria uma grande capacidade para fazer um trabalho como esse, além de uma grande dedicação, mas existiam agentes desse calibre. Harry havia sido um deles. Homens e mulheres que dariam sua vida por seu trabalho. Teria feito ela um trabalho semelhante, para, em seguida, cair vítima de seu próprio plano?

Porém, não conseguiria mais respostas permanecendo ali todo o dia meditando, pensou desgostoso. A chuva já devia ter apagado todas as pegadas dela, do topo ao despenhadeiro, mas, quiçá, restasse algo... por pequena que fosse a pista. Poderia escalar a parede rochosa ou, melhor, voltar à cabana para subir ao cume pela estrada principal.

A cabana... o banho...

Ao pensar em Hermione, com a água quente deslizando por seu corpo nu, decidiu que a melhor opção, por ora, era fazer algum exercício físico e subir ao cume do despenhadeiro. Já havia deixado o sapato no solo e dirigia-se até a parede de pedra, quando sentiu que alguém o estava observando. Conhecia demasiado bem essa sensação para ignora-la, era como um arrepio no pescoço e nas costas. Com um gesto natural, abaixou-se como se fosse amarrar o cordão do sapato, com a intenção de tirar a arma que levava no bolso de sua jaqueta. Ao detectar um movimento procedente de uma árvore próxima, jogou-se no chão, tirando a pistola e gritando, em tom imperativo:

- Saia detrás da árvore! Agora mesmo!

Era Hermione.

- Que, diabos, está fazendo aqui? - perguntou-lhe Harry, abaixando a arma e lançando uma maldição mentalmente.

- Eu... - Hermione deu outro passo adiante, com os olhos fixos na pistola - ... estava dando um passeio... - acertou dizer, por fim.

Vestia a calça jeans e as botas que ele havia trazido do povoado, e também um suéter seu. Era impossível não fixar-se na forma como os jeans destacavam a voluptuosidade de seus quadris e suas longas pernas, ou a forma como seu peito avultava no insipiente suéter verde musgo dele. Harry passara duas noites dando voltas sem descanso no sofá, imaginando-a em sua cama, vestindo apenas sua camisa.

Hermione aproximou-se cautelosamente dele, e Harry notou que ainda tinha o cabelo úmido da ducha, a brisa agitava os cachos em torno de seu rosto, ainda ruborizado pela ação da água quente e, desde onde estava, podia sentir o cheiro do sabonete, além do seu cheiro natural, lavanda. Com um suspiro, guardou a arma em seu bolso.

- Não deveria estar aqui. - disse-lhe, com mais severidade do que havia pretendido.

- Já não podia suportar mais estar encerrada na cabana, Harry. - replicou ela - Está tão lindo aqui fora.

- E se alguém está procurando você? Alguém que você não quer que a encontre? Não crê que este seria o primeiro lugar ao que viria, onde tudo começou?

- Não tinha pensado nisso. - olhou-o assustada.

- Pois deveria começar a fazê-lo, Hermione.

A cabelos castanhos disse a si mesma que Harry tinha razão, muita razão. Era estúpido sair a campo aberto, sabendo que alguém desejava matá-la. E não tinha dúvida de que alguém havia tentado assassina-la, como também sabia que poderia tenta-lo novamente. Embora, fosse por uns minutos, sentira a necessidade de sair da cabana. Havia seguido o curso do riacho, escoltada por Wolf, até que o animal desviou-se para ir perseguir uma esquilo. E quando vislumbrou Harry, havia sentido o impulso de esconder-se detrás das árvores para observa-lo.

Sabia que fora uma estupidez observa-lo dessa forma, mas durante o tempo que passara acordada na cabana com ele, realmente nunca se sentira capaz de olha-lo diretamente. Não ao menos sem que ele devolvesse-lhe, de imediato, um olhar frio, com aqueles profundos olhos verdes que tinha. Uns olhos que faziam-na estremecer de inquietude e de algo mais, algo não de todo desagradável, mas sim perturbador. E, a exceção daquela sua tentativa de deitar-se com ela no primeiro dia, parecia que ignorava-a totalmente. De fato, Hermione pensava que com essa saída, de alguma forma ele havia querido afastar-se de sua presença.

Instintivamente sabia que nunca havia conhecido um homem parecido. Cada movimento que fazia, cada palavra que pronunciava, cada gesto de seu rosto, estavam calculados com um determinação impressionante. Não era um homem que confiasse facilmente em alguém, e Hermione intuía que ainda desconfiava dela. Às vezes, tinha a impressão de que Harry se ressentia com ela por imiscuir-se em sua vida, e outras vezes parecia divertido com a situação. Porém, acima de tudo, a inquietava, embora também a fascinasse ao mesmo tempo.

Hermione notou que ele se abaixava para recolher algo. Era seu sapato... seu outro sapato perdido.

- Você o encontrou aqui?

- Não se sente como uma espécie de Cinderela? - perguntou-lhe Harry, com um tom seco, depois de concordar com a cabeça.

Hermione olhou o sapato encharcado, cheio de barro e depois seus jeans e a roupa que levava posta.

- Uma vez desaparecido o feitiço da meia-noite, você quer dizer.

Harry sorriu, algo que rara vez fazia, constatou a jovem. "E melhor que continue assim", pensou de imediato ela, já que aquele sorriso havia-lhe provocado uma estranha espécie de estremecimento interno, que não gostou. Depois de examinar o sapato, perguntou-lhe:

- Como o encontrou? Onde estava?

- Acima do despenhadeiro passa uma estrada principal, que vai até o povoado, ao que parece... você caiu de lá de cima.

Hermione ergueu a vista, apertando o sapato em sua mão.

- Eu...? Aqui é onde...?

- Onde você caiu. - assinalou um lugar uns dois metros acima de onde estavam. - Ali há um pedaço de tecido de sua saia, naquele ramo.

- Isso esta... tão alto... - sussurrou.

- As rochas estavam úmidas e escorregadiças. - comentou Harry, após assentir sombrio. - Você deve ter deslizado, golpeando-se nas rochas e pedras, que frearam a sua queda. Ali vejo uns arbustos quebrados que também devem tê-la freado.

"Deus meu, como pude sobreviver a uma queda assim?", perguntou-se Hermione. Ao olhar o pedaço de sua saia no ramo, gelou-lhe o sangue. Voltou a reviver as imagens que haviam-na assaltado na cozinha um par de dias atrás. A voz furiosa, o sabor de sangue em seus lábios, a chuva...

- Hermione.

Piscou e olhou-o. Nem sequer dera-se conta que ele fizera-a sentar-se em uma pedra lisa, para depois ajoelhar-se a seu lado.

- Está recordando algo? - perguntou-lhe.

- Nada que não tenha contado antes a você. - respondeu ela, depois de negar lentamente com a cabeça.

Harry observou-a durante um longo tempo, como se estivesse pensando com cuidado uma delicada decisão.

- Hermione – disse-lhe, lentamente, escolhendo cuidadosamente suas palavras. - Quero tentar algo, mas você tem que estar de acordo e confiar em mim.

Algo em seus olhos, no tom de sua voz, a fez estremecer-se. Até esse momento, havia confiado em Harry porque era sua única opção. Agora ele estava permitindo-lhe escolher. Queria que confiasse nele voluntária e completamente. Poderia fazê-lo?

Sentiu um nó na garganta ao fita-lo e ver sua sombria expressão. Se Harry quisesse feri-la, ela não poderia fazer muito para evita-lo. Continuava estando tão indefesa como quando a resgatou. Se não havia-lhe ferido até esse momento já nunca o faria. E, suspirando lentamente, concordou.

Harry levantou-se e atraiu-a para si.

- Feche os olhos, e passe o que passar, não os abra.

Hermione fez o que lhe ordenava. Aspirava o cheiro do bosque em torno de si: a pinhos e terra úmida. E a Harry, sentia como seu aroma invadia todos os seus sentidos. Quando aproximou-se mais dela, a jovem reconheceu qual era seu cheiro característico. Cheirava a bosque. Logo ouviu-o situar-se às suas costas.

- Vou colocar meu braço ao redor dos seus ombros.

Começou a acelerar-se o coração. Harry estava recriando aquela noite, tentando abrir uma brecha em sua amnésia e obriga-la a recordar. Sentiu seu braço rodeando-lhe os ombros, atraindo-a até seu peito.

- Está chovendo. - sussurrou-lhe ao ouvido. - Você tem frio e medo.

Tinha medo, embora desde já não era porque recordasse algo daquela noite. Era de Harry que tinha medo, ou melhor dizendo, de si mesma e da reação que estava experimentando ao contato de seu corpo. Ardia-lhe a pele e respirava com rapidez. Sentia seu corpo tenso, e também a leve carícia dos lábios dele na orelha quando sussurrava-lhe.

- Um trovão... - agregou, com voz rouca - ... e relâmpagos. O solo está enlameado, é difícil caminhar.

Hermione tentou concentrar-se no que dizia, mas estando tão próxima dele resultava-lhe impossível. Sentia débeis os seus joelhos.

Sem prévio aviso, Harry apertou seu braço e atraiu-a mais para si. A jovem ofegou, confusa, ante esse súbito movimento.

- Está escuro. - disse ele, com voz fria -, e você quer escapar de mim. Sabe que vou mata-la…"

Hermione começava a assustar-se, forcejava com seu abraço mas era demasiado forte.

"Mate-a... Mate-a... Maldita seja, não a deixe fugir... Se é necessário, faça-o... Mate-a, digo-lhe... Mate-a..."

Envolveu-lhe a escuridão. A chuva açoitava-lhe o rosto. Retorceu-se freneticamente nos braços que não a soltavam de seu feroz agarro, e gritou, gritou com toda sua alma, ao ver-se a si mesma arrastada de volta a um carro azul e sabendo que a matariam se a alcançassem. Mordeu-o com força, e quando ele a soltou, voltou-se rapidamente para seu agressor... para dar-lhe, com todas as forças, uma joelhada no meio das pernas.

Harry perguntou-se porque estava vendo estrelinhas quando estava em pleno dia. Também perguntou-se porque estava sentado no barro, tentando encher de ar uns pulmões que pareciam não funcionar.

- Harry!

Ouviu Hermione pronunciar seu nome, mas a dor era tão intensa que não podia nem falar.

- Oh, Deus meu, Harry! Você está bem?

"Bem? Se estou bem? Claro que não estou bem!", dizia ele para si mesmo.

- Eu sinto tanto. - desculpou-se Hermione, terrivelmente envergonhada. - Não pensei, quero dizer, não me dei conta... Ai, por favor, perdoe-me, não quis golpeá-lo...

Harry aspirou uma profunda bocada de ar e, em seguida, pestanejou várias vezes. Viu o rosto de Hermione muito próximo do seu. Seus olhos estavam escurecidos pela preocupação, e suas bochechas vermelhas pela vergonha da situação.

- Harry, por favor. - disse, frenética, enquanto passava-lhe uma mão pelos olhos, ao ver que este não reagia. - Fale comigo, diga algo, estou começando a me preocupar seriamente... Harry!

- Estou bem. - respondeu ele, elevando a voz, embora lhe saísse mais aguda que o normal. - Perfeitamente bem.

- Oh não, Harry, eu sinto.

Ajoelhou-se a seu lado e aninhou-lhe o rosto entre suas mãos. Harry sentia seus suaves dedos acariciando-lhe ternamente as bochechas. Já podia respirar bem e a dor ia desaparecendo pouco a pouco.

- Diga-me a verdade, o machuquei muito?

Harry custava admitir que havia-lhe ferido... seu orgulho mais que tudo. Duvidava que ela pesasse mais de cinqüenta quilos, e ele pesava o dobro que ela, além de ultrapassa-la em mais de trinta centímetros de altura. Sem mencionar o fato que era experto em mais de seis disciplinas de artes marciais e que fora treinado para repelir qualquer tipo de ataque surpresa. Podia desmantelar uma bomba atômica em dois minutos ou desarmar todo um grupo de agentes ele sozinho, no entanto... Não podia repelir o simples golpe de uma mulher. Não queria nem imaginar a cara de Ron se se inteirasse disto, nem ele mesmo poderia acreditar...

A verdade era que quando, uns momentos antes, a abraçou tão estreitamente e sentiu o corpo dela unido tão intimamente com o seu, não havia pensado em nada que não fosse suas longas pernas, seu traseiro pressionando em seu quadril, e o aroma de seu cabelo e pele depois da ducha. O desejo havia disparado dentro dele como um foguete.

- Estou bem. - repetiu, com certo desgosto.

- Está seguro?

- Eu disse que sim, Hermione. Se a faz sentir melhor, pode fazer-me um exame para ver que está tudo em ordem e que não há dano. O que lhe parece isso?

- Definitivamente está melhor. - replicou Hermione, ruborizando-se, mas com uma ponta de irritação em sua voz - Creio que já está perfeitamente bem.

Retirou as mãos de seu rosto e começou a levantar-se, mas ele impediu-lhe.

- Recordou algo.

Sua tez, ruborizada um momento antes pela vergonha, tornou-se pálida. Sentou-se a seu lado, sobre o solo forrado de folhas e agulhas de pinho, e suspirou profundamente com o olhar baixo e ausente.

- É como olhar-se num espelho embaçado. - explicou ao cabo de uns segundos. - Vejo rostos e imagens incompletas, estão difusas... não posso ver nada definido, é como ver por uma lente mal enfocada.

- Diga-me igualmente, Hermione. Diga-me o que vê.

- Ele me deixou ir quando o mordi, depois eu... - tragou saliva, com os olhos cheios de lágrimas - ... me voltei e dei-lhe uma joelhada com toda a força que pude.

Ao divisar que ela começava a tremer, Harry segurou a mão dela entre as suas, seus dedos estavam frios como o gelo.

- Espero que tenha dado uma bem forte nesse desgraçado.

- Eu também. - sorriu ela.

Dar ou receber consolo sempre havia sido algo alheio a Harry, mas quando viu que começava a tremer, abraçou-a com um movimento tão natural quanto respirar. Ela afundou o rosto em seu pescoço, enquanto agarrava-se com força em seus ombros. Ele sentiu a umidade das lágrimas através de sua camisa.

- Tenho muito medo. - sussurrou ela.

- Ninguém vai machuca-la. - apartou-lhe, com ternura, o cabelo do rosto, para olha-la nos olhos. - Não tirei você da lama para nada, sabe?

Sentiu que ria suavemente contra seu peito e depois, quando ouvia-a soluçar, tensou-se visivelmente. O que tinha essa mulher que fazia-lhe desejar saltar de arranha-céus e parar as balas com os dentes? Tentou dizer-se que teria feito o mesmo com qualquer mulher numa situação semelhante, mas sabia que não era certo. Aquilo já não era mais um trabalho. Havia-se tornado algo pessoal. Ela o tornara algo pessoal.

Inclusive nesse mesmo momento, ainda tentou dizer-se que Hermione não era seu problema, que deveria leva-la à polícia para que se ocupasse dela. Mas seu instinto disse-lhe que isso seria um erro, que fazendo isso poderia firmar sua sentença de morte.

De repente,Hermione afastou-se dele, com os olhos ainda cheios de lágrimas.

- Você disse que era perigoso que eu saísse daqui, que alguém poderia estar me procurando. Isso quer dizer que eu poderia pôr em perigo a você também... devo ir-me, não posso permanecer mais tempo aqui.

Dispôs-se a levantar-se, mas ele impediu, tomando-a suavemente pelos braços.

- Hermione, não há por que preocupar-se por mim, sou...

"Sou o quê? Um agente especial do governo, treinado para combater todo tipo de terrorista e criminosos? Que, por isso, sou mais que capaz de cuidar de mim sozinho?, perguntou-se a si mesmo. Ela não apenas não lhe acreditaria, senão que, além disso, pensaria que estava louco. Não, ainda não era adequado dizê-lo. E se não era necessário, nunca o saberia.

- Sou mais que capaz de cuidar de mim mesmo.

Hermione sacudiu a cabeça, apoiando as mãos no peito de Harry.

- Mas você não sabe, não pode estar seguro. Não posso deixar que corra esse risco. Não por mim.

Suas palavras o surpreenderam, e ao mesmo tempo tocaram uma fibra de seu ser que, até esse instante, acreditara morta. Quando fora a última vez que alguém se preocupara com ele?

Hermione olhou-o fixamente, com expressão séria, e os lábios apertados num gesto de decisão que o fascinou. De repente, Harry foi incapaz de tirar o olhar desses lábios. O aroma dela enchia-lhe os sentidos, uma limpa e suave fragrância que era somente sua, tão doce quanto sedutora. Em seguida, fitou seus olhos, de um castanho escuro com reflexos dourados. Viu que se escureciam conforme sustentava-lhe o olhar. Seus lábios entreabriram-se como para fazer-lhe uma pergunta. Nenhum dos dois se moveu. Apenas se observavam.

- O que ocorre, Harry? - sussurrou-lhe Hermione silenciosamente, incapaz de desviar seus olhos do verde de seu olhar.

Harry não compreendia nada. Ou, quiçá, não queria compreender. Fosse o que fosse, uma irrefreável necessidade se impôs à toda lógica. Suas mão retesaram-se em seus braços, enquanto a jovem inclinava-se até ele.

- Nem sequer sabe quem sou. - disse, precipitadamente. - Nem eu mesma sei quem sou.

- Não parece que isso me importe. - replicou Harry, e se dispôs a beija-la.

Tinha gosto de sol e menta fresca. Hermione deslizou as mãos por seu peito e emitiu um suspiro tão suave quanto a brisa que os acariciava.

"Estou completamente desequilibrado. Decididamente, estou louco", recriminava-se Harry mentalmente. Não tinha direito de beijar aquela mulher, de abraça-la e aproveitar-se de sua vulnerabilidade. Mas atraiu-a mais para si e aprofundou o beijo, completamente desesperado por encher-se de seu sabor. De percorrer a suavidade de sua boca. Ela respondeu-lhe igual ou mais avidamente que ele, logrando que apenas pudesse apagar em sua garganta um gemido de prazer, ante a suave carícia de sua língua em sua boca.

Ali estava outra vez, pensou ele. Aquela inocência tão atraente quanto intrigante. Uma ternura e sensualidade capazes de deixar louco qualquer homem. E quando Hermione deslizou os braços por seu pescoço e pressionou-se ainda mais contra ele, isso foi precisamente o que conseguiu: deixa-lo completamente louco.

A noção de tempo ou lugar haviam deixado de existir para Hermione. Ouviu o distante canto dos pássaros e em seguida o som de sua própria voz, sussurrando seu nome: "Harry". Era uma desconhecida não somente para ele, senão para si mesma, para seu próprio corpo. Os violentos sentimentos que assaltavam-na eram-lhe estranhos, ainda que familiares, de uma forma primitiva e inconsciente os reconhecia, como se sempre houvessem estado dentro dela, esperando ser despertados. Assustava-a e excitava-a ao mesmo tempo. Sua pele eriçava-se ante o contato do peito de Harry, e deu-se conta que ansiava que ele a acariciasse por todos as partes. O simples pensamento de suas mãos sobre sua pele a enlouquecia. Tê-la-ia tocado um homem daquela forma antes? Poderia ter esquecido um prazer tão inefável como aquele?

Não somente havia perdido a memória, mas também a cordura, pensou desesperada. Por que, caso contrário, respondia Harry com tanta paixão? Estava ali, com ele, como se aquilo fosse o mais natural do mundo. Como se beija-lo e entregar-se a ele, sem reservas, fosse o mais natural e lógico nessa situação.

Harry saboreava, ansioso, seus lábios, insistente, implacavelmente. Tremendo de desejo, de repente, Hermione encontrou-se deitando-se de costas sobre a terra úmida, o aroma das folhas e do bosque enchiam seus sentidos. Beijou-a profundamente, arqueando o corpo sobre o dela, e Hermione adiantou-se para recebê-lo, abraçando-se em seu pescoço e suas costas, com ânsia. O desejo enroscava-se e amarrava-se em seu interior, e quando sentiu que Harry deslizava uma mão por sob seu suéter e roçava suavemente seu seio, com a palma de sua mão, aquele nó de necessidade estendeu-se entre suas pernas, em meio a uma deliciosa dor.

Hermione gemeu ansiando mais, desesperada por tê-lo mais próximo, por senti-lo sem a barreira de sua roupa, por senti-lo contra ela, dentro dela. Seus gemidos sussurravam súplicas para que se apressasse, para que a tocasse. E quando Harry beijou suavemente a suave pele de seu pescoço, não pensou em nada mais, tudo foi inconsciente, tudo eram puras sensações, tudo era paixão e desejo. Todo o seu mundo reduziu-se às carícias desse homem. Tudo reduziu-se a Harry.

De repente, Wolf latiu de algum lugar próximo e Harry, em meio ao beijo, franziu o cenho. Maldizendo, entre dentes, o animal, levantou-se lentamente. Hermione olhou-o, reclamando com todo o seu corpo e sua alma que voltasse com ela, que continuasse o que estava fazendo. E, com um suspiro bastante notório, Harry ajudou-a a levantar-se.

- Não deveria ter feito isto. - disse-lhe, com voz rouca.

Que não deveria ter feito o quê? Realmente havia dito isso, perguntou Hermione desviando o olhar, negando-se a que visse as lágrimas de vergonha que inundavam seus olhos. Desejava, com toda a sua alma, que a terra lhe engolisse nesse mesmo momento. Como pudera deixar-se levar dessa forma, rolando pelo chão com um homem que mal conhecia, deixando que a tocasse e a beijasse de forma tão íntima? E se não houvesse parado por insistências de Harry... Nem ela mesma sabia o que teria chegado a fazer!

Mas Harry sim, o sabia: era exatamente o que havia desejado fazer... e o que ainda queria fazer.

- Será melhor que eu volte. - disse a jovem, enquanto sacudia a roupa, para que ele não visse a forma como tremiam-lhe as mãos. - Sinto-me um pouco cansada, quero preparar a ceia e...

- Hermione – tomou-a por um braço. - Eu sinto. Isto não deveria ter acontecido. Perdi o controle, e... eu sinto muito.

"Que não haja acontecido já é o suficientemente mau", pensou ela. Suspirou lentamente e retirou o braço de seu agarre, sentindo que sua pele voltava a arder sob seus simples toque.

- Eu também sinto, Harry. Não tenho causado mais que problemas desde que você me trouxe para a sua casa. Encontrarei uma forma de compensa-lo por todas as moléstias que lhe provoco, eu lhe prometo.

E partiu antes que ele pudesse respondê-la, ou que suas forças fraquejassem e se pusesse a chorar como uma menina, diante dele.

Harry ficou olhando, confuso, como partia... estivera muito próximo, muito próximo de cair num abismo que, há muito, prometera-se não voltar a ver. Perdera o controle, algo mais forte que sua razão-lógica o havia manipulado, e isso era algo que não se permitia em sua vida. Não, se queria continuar vivo. Não, se queria ajudá-la.

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Nota da Tradutora:

Meu muito obrigado aos leitores de AdM, em especial a: Bárbara Jane Potter (Eu entendo o professor da Pink. Eu, por exemplo, vivo dizendo que gosto tanto de homem, mas tanto, que se fosse homem seria gay, ahauahauahuahau! Porque homem é bicho bão, claro, tirando aqueles que estão mais para bichos do que para homens. E sim, eu entendo perfeitamente o seu gosto por esse tipo "vilão", já que uma parte de mim também sente atração por homens misteriosos, que emitem uma intensa aura de segurança e auto-domínio. ;-) Quanto a fic que pretendo traduzir e está à espera da autorização da autora, bueno, sinto em informar que ainda estou aguardando uma resposta. Mas, enquanto isso, talvez eu comece as traduções assim mesmo. Já sobre a fic da Rakaomi que você torce pra que eu traduza, como sempre eu não prometo nada, exatamente para não decepcionar o leitor. Só tenho mesmo uma pretensão, se vou leva-la adiante, só o tempo dirá. Quem sabe, num belo dia, eu pinto com a fic traduzida e pego todos de surpresa... quem sabe. ;-) Olha, tem tanta fic boa em espanhol, mas tanta, que eu chego a ficar nervosa, querendo traduzir todas, mas sabendo que é humanamente impossível, porque são muitas para uma pessoa só que já dispõe de pouco tempo. Justamente por conhecer os meus limites é que não saio pegando uma porrada de fic pra traduzir, sabendo que não daria conta e acabaria deixando o leitor na mão, com a demora absurda das atualizações. Porque eu também sou leitora e sei o quanto é chato esperar por um novo capítulo. Então, eu já disse a mim mesma que só vou começar a tradução de uma fic, quando uma outra já estiver sido finalizada. No momento, pelo menos uma já está em fase de fechamento, que é Luzeiros Negros. Quando o último capítulo for publicado, aí sim eu vou me dedicar à tradução de outra história – do grupo seleto que tenho para escolher. Wow! Você me adora? Que coincidência! Eu também me adoro, ahauahauhaua! ;-) Tá, eu entendi a essência da sua declaração e fico lisonjeada. ;-) E sim, concordo que homens do pedigree de Harry são um delicioso produto da imaginação feminina, porque na vida real é praticamente impossível encontrar um homem que concilie a sua masculinidade com um caráter elevado, terno, protetor, compreensivo, fiel, e por aí vai... Finalizando: mulheres seriam perfeitas se não fossem tão suscetíveis aos homens. Mas nós gostcha, fazer o quê? ;-) Beijinhos e até!); FranciGranger (Claro que pode e deve me chamar de Inna! A menos que queira arriscar escrever meu nome inteiro, Inna Puchkin Ievitich, toda vez que quiser me chamar. ;-) Mas já vou logo dizendo que não sou fã de formalismos, então por que a dúvida? É Inna e só. ;-) Com relação à sua pergunta: Sim, em breve veremos outros personagens conhecidos em ação, como também teremos mais "ação" entre Harry e Hermione, se me entende. ;-) Quanto às fics da Rakaomi, minha boca é um túmulo, lá-lá. ;-) Beijos e até o próximo capítulo!); FAFA (Como dizia Pele Le Gambá: Et vive l'amour! Enquanto isso, a gente vai ficando só no desejo de estar no lugar da Hermione. Oh vida, oh céus. Beijinhos e até breve!); ...Miss Veronica... (ahauhauahaua, você SEMPRE vai achar um capítulo curto demais para a sua eterna ânsia. ;-) E eu sei que você achou o capítulo de tamanho razoável só pra remediar. ;-) Por que o mundo é tão cruel, você pergunta? Porque eu não estou no comando dele. Se o mundo fosse meu, homens com selo de qualidade Puchkin seriam embalados para presente e entregues às mulheres que os merecessem. Sim, porque nem todas as mulheres estão habilitadas a manusear homens de verdade. E as minhas criações seriam de primeira linha. ;-) Porém – limpando a garganta -, voltando aos assuntos pendentes: Sim, eu li a fic inteira (ela já foi concluída há tempos) e posso garantir que no próximo capítulo um personagem muito conhecido do universo potteriano fará sua primeira aparição e alegará algo que surpreenderá a todos, mwahauahauhaua! gargalhada diabólica E não se preocupe (melhor seria dizer, não fique ansiosa... ¬¬), as "ceninhas lemon" hão de vi, mas primeiro deixe que a autora termine de construir a ponte de ligação sentimental entre Harry e Hermione. Acredite, você não vai perder nada esperando (com exceção da sanidade ;-)) Beijunda e hasta! P.S.: Que bom que eu ajudei a liberar o demônio que há em você, assim a franga que corre solta em mim terá companhia, ahahuahauahauahau!);

Hasta pronto, galera!

Inna