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A Profecia do Caos

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Olimpo

Zeus estava realmente preocupado com seu irmão mais velho. Mesmo deuses feridos em batalha não pareceriam tão abalados quanto seu irmão. Quase pediu a Hermes que seguisse os deuses do submundo, mas Hera o impediu. Segundo ela "já bastava que cinco dos deuses maiores não estivessem presentes".

O rei dos deuses deu de ombros. Não valia a pena contrariar Hera apenas por um pequeno receio. Atena aproximou-se do pai preocupado.

— Meu pai? O que houve com o imperador Hades?

— Chame-o de tio, Atena. Não deves obediência a meu irmão para dirigir-se a ele com tanta reverência.

— Me desculpe, pai. Apenas quis parecer respeitosa.

— Sabes muito bem que sempre és respeitosa. Sei muito bem — abraçou a filha de leve — que és a mais sábia dos deuses e das deusas. Fazer-te de ingênua pode funcionar com os outros deuses, jamais comigo.

A deusa da sabedoria olhou nos olhos do pai e sorriu.

— Então os pais são imunes a sabedoria dos filhos?

— Sempre. — Zeus riu baixinho — Mesmo que nós estejamos errados.

Pai e filha riam quando outro deus aproximou-se.

— Será que estou interrompendo um daqueles momentos de pai e filha? — Poseidon sorria.

— Aproxime-se, tio. — pediu Atena — Também quero saber o que aflige vosso irmão mais velho.

O imperador do mar arqueou as sobrancelhas, impressionado com a sagacidade de sua sobrinha. "Ela é a personificação da sabedoria, apesar da aparência de inocente." — pensou.

— Sinto desapontá-lo, irmão. — disse Zeus — Mas não tenho idéia do que possa estar afligindo Hades de tal maneira. Até mesmo o cosmo dele parecia estar... perturbado.

— Provavelmente não é nada de grave. — disse Poseidon — Radamanthys deve ter mandado alguém pro lugar errado. — sorriu — Sabeis bem como nosso irmão é obcecado com a organização do reino dos mortos.

— Poseidon, Poseidon... Leviano como sempre... — disse Zeus abanando a cabeça.

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Inferno

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Hades, Prosérpina, Hypnos, Thanatos e Éris voam sobre o inferno. Estranhamente, a sensação de ansiedade que tomava conta de Hades se dissipa rapidamente assim que passam pela porta do desespero. Pousaram na frente do barqueiro do inferno, o espectro Caronte de Acheron, pois nem mesmo os deuses podiam atravessar o rio Estige livremente.

Ao ver o imperador e os deuses do submundo, o espectro jogou-se no chão, implorando piedade.

— Por que imploras minha piedade, Caronte? —perguntou Hades, curioso — O que fizeste contra minha lei que o impele a me pedir perdão?

— Senhor, piedade... — Caronte mal conseguia falar — Um ser, não sei se homem ou deus, vivo me forçou a leva-lo até o outro lado...

Hades controlou a ira que sentia e perguntou como era esse homem. Afinal, não podia ser um deus, todos estavam no Olimpo até pouco tempo atrás.

— Meu senhor, perdoe a ignorância desse vosso humilde servo... Não consigo me lembrar... Ele fez... alguma coisa com a minha mente. Manipulou-me.

Prosérpina notou como o espectro se comportava de maneira semelhante a Hades, até pouco tempo atrás. Lançou um olhar cheio de entendimento para o imperador do mundo dos mortos.

— Leve-nos para a outra margem rapidamente, Caronte — disse Hades, mais calmo — e eu te pouparei de minha ira.

— Claro, meu senhor... Entrai, poderosas divindades. Vou levá-los tão rapidamente quanto puder.

Na metade de rio Estige, Hades notou algo estranho. Os cosmos dos espectros... não podia sentí-los! Nem mesmo os poderosos Kyotos, os mais fortes dentre os espectros!

— Senhor? — Hypnos perguntou, cauteloso — Percebes que os cosmos dos espectros desapareceram?

— Claro que sim, Hypnos! — Hades respondeu ríspido. Não queria alarmar Prosérpina, mas o deus do sono cumpriu este papel com perfeição.

— Como? — A rainha do mundo dos mortos parecia assustada — Todos eles... Mortos? Todos os 108 espectros?

— Todos, não. — disse Thanatos com uma cara de profundo desgosto — Este verme aqui — apontou para Caronte — ainda vive. Não teve a decência de enfrentar os inimigos de seu imperador...

Caronte estremeceu com o insulto de maneira tão terrível que o barco parou, a poucos metros da margem esquerda do Estige (o inferno fica na margem esquerda, na margem direita ficam as almas que não podem pagar o preço de Caronte). Hades olhou furioso para o espectro, mas não pôde deixar de se impressionar com o poder enorme que emanava dele.

— Cuidado! — O imperador do inferno berrou, pondo Prosérpina atrás de si — Ele não é Caronte!

Hypnos e Thanatos seguraram os braços do barqueiro do inferno, antes que ele pudesse usar seu remo contra eles. Hades tomou as duas deusas nos braços e lançou-as da maneira mais gentil que pôde na margem esquerda do Estige. Elas abriram as asas e pousaram suavemente, vendo com algum temor os três deuses mais poderosos do submundo lutando com o espectro possuído.

— Saíam do barco! — Éris berrava, desesperada — Tem alguma coisa vindo pelo rio!

Os deuses olham para a onda enorme que vem em sua direção. Caronte aproveita a distração e ataca com seu Remo giratório, lançando os deuses para fora do barco. Os três caem nas águas do rio do inferno e lentamente começam a afundar. Nem mesmo um deus pode sobreviver a uma queda no rio Estige: as almas que nele caem são mandadas para o Caos, a região que circunda os céus, o inferno e a Terra.

Entretanto, Prosérpina invoca seu poder e, com um encanto, transporta os três deuses para a margem esquerda do rio. Ela caí logo depois, desacordada (não é fácil salvar deuses de uma queda no Estige).

Caronte salta para a margem para continuar a luta contra Hades, Hypnos e Thanatos mas Éris o golpeia violentamente com as costas da mão e o mata. Com a morte de Caronte, a onda enorme some de repente.

— No final, — disse Éris em voz alta — tudo não passava de uma ilusão criada pelo poder de Caronte... É surpreendente que um espectro tão fraco quanto Caronte tenha obtido poder para desafiar o imperador...

Do corpo morto de Caronte, uma névoa energética começa a se erguer. Ela flutuou por alguns instantes sobre o corpo do espectro e antes que Éris pudesse esboçar qualquer reação, saiu voando rapidamente na direção de Giudecca.

Hades ergueu-se, ainda atordoado pelo efeito das águas do Estige.Sacudiu Hypnos e Thanatos e ergueu sua imperatriz do chão.

— O que aconteceu com Caronte, Éris? — o imperador olhou nos olhos da discórdia e depois para o corpo do espectro.

— Eu o matei, meu imperador. — respondeu Éris, olhando nos olhos da única pessoa por quem jamais sentira alguma coisa — Espero que me perdoes...

— Não tens porque me pedir perdão, Éris. — disse Hades — Mataste um traidor que precisava ser punido. Entretanto, sei que ele estava sendo controlado, portanto — suspirou — devo controlar minha ira.

Hades olhou para o corpo do espectro e respirou fundo. Seu cosmo poderoso elevou-se e o corpo do imperador passou a brilhar com aquela luminosidade purpúrea característica.

— Erga-se, — disse Hades com uma voz cavernosa, muito diferente daquela que usava nas demais ocasiões — Caronte de Acheron, e sirva novamente ao seu imperador.

O espectro abriu os olhos, meio confuso e levantou-se o mais rápido que pôde. Curou-se diante de Hades em silêncio, pois sabia que havia cometido um crime dos mais graves ao atacar seu imperador.

— Vá e reúna os corpos dos espectros que puderes encontrar. Leve-os para Giudecca para que também sejam revividos. Dê atenção especial aos mais poderosos. Ah, sim, não tente encontrar os Kyotos. Eles já estão em Giudecca... — concluiu, com uma espécie de pesar no rosto.

Caronte, quase chorando de pavor e de alívio, Curvou-se e saiu correndo, sem dizer uma palavra. Thanatos estalou os dedos das mãos, como quem diz "mais tarde eu cuido dele".

Os cinco deuses seguem voando para Giudecca, com Prosérpina, ainda desmaiada, nos braços de seu esposo. Passam rapidamente pelas Prisões e pelos Malbolges e notam como a falta dos espectros interfere na rotina do inferno. Alguns condenados chegam ao extremo de rir! — percebe Hades. Pousam brevemente na segunda Prisão para que Hades reviva seu amado Cérbero.

O cão demoníaco late baixinho e praticamente sorri para o imperador. Ele esfrega gentilmente uma de suas cabeças nas pernas de Hades e parte para continuara a devorar as almas daqueles que cobiçaram enquanto vivos. "Um ser tão doce com uma função tão terrível... — reflete Éris". Hades sorri enquanto seu animal de estimação corre pelo inferno.

O imperador sai de seu devaneio quando Hypnos respeitosamente chama sua atenção. Nesse instante ouvem um estrondo fantástico e altíssimo, que lança todas as almas dos condenados para longe.

— Minha nossa! — exclama Éris — O que foi isso?

— Será que aquilo serve de explicação? — disse Thanatos, sarcástico como sempre.

O inferno havia sido aberto. As almas estavam livres para viajar como bem entendessem entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

E um anjo subia lentamente em direção aos céus com a espada do imperador nas mãos.