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A Profecia do Caos

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Olimpo

Os deuses já estavam sentados em torno de Zeus, e o senhor dos céus ia dar início as formalidades quando foi bruscamente interrompido pelo seu irmão mais velho. Hades, o senhor do submundo, havia se levantado e não parecia que iria pedir permissão para falar.

- Antes que nos percamos num longo marasmo de formalidades – disse Hades, sendo observado pelos deuses – devemos nos centrar em alguns pontos muito simples... Primeiro: quem é o anjo que invadiu o inferno? Segundo: por que abrir a divisa entre o mundo dos mortais e o Érebo? Terceiro: O que é a planície do Armageddon?

- Não sei quem é esse anjo, meu tio. – disse Athena, visivelmente incomodada pela impertinência do imperador – Mas creio que conheço a planície do Armageddon...

Hades não demonstrou nenhuma reação, limitando-se a manter seu olhar fixo nos olhos da deusa da sabedoria. "Isso é um consentimento, pensou Athena".

- Pelo que sei, a planície do Armageddon foi o local onde, no começo dos tempos, Urano lutou contra o Caos primordial.

Um murmúrio de preocupação atravessou aquela assembléia. Com certeza, não era o que os deuses queriam ouvir.

- Isso aconteceu há vários milhares de anos, quando o próprio universo era jovem... Não existem registros da batalha, mas podemos afirmar com certeza que Urano venceu. No embate final entre as forças do céu e do caos, houve uma enorme explosão, que quase destruiu o planeta. E bem no centro dessa explosão, fica a planície maldita do Armageddon, onde os deuses estão proibidos de entrar.

- Eu também já vi a planície do Armageddon, há vários anos agora – disse Ares, o deus da guerra – É um lugar calcinado, destruído por séculos de esquecimento e maldição. Esse tal anjo de que fala, meu tio, provavelmente não é outro senão o próprio Caos, para ter escolhido tão bem o local de seu refúgio...

- Então... Estamos de mãos atadas, não é? – perguntou Poseidon – Se os deuses não podem entrar na planície do Armageddon, não há esperança...

- Sempre há esperança, meu irmão... – disse Zeus, com um sorriso – Os deuses podem não ser capazes de entrar na planície, mas...

- Pretende mandar mortais para lutar contra o Caos, meu irmão? – interrompeu Hades, apertando levemente os olhos de desprezo.

- Na verdade, tinha outro tipo de idéia... Existem alguns mortais cujas forças são consideráveis... – completou o rei dos céus, sem se irritar com a interrupção do imperador das trevas.

- Mesmo assim, meu pai... – disse Apolo – nenhum mortal pode ter esperança de vencer o Caos, ainda mais se o próprio Urano não pode fazê-lo de maneira definitiva...

- Há cerca de cinco mil anos, quando eu destronei Chronos, recebi um presente da própria Gaia: esperança. Ela me deu o ouro mais puro existente e com ele, forjou minha armadura divina. Entretanto, quando concluiu o trabalho de criá-la, sobrou material...

- Irmão! Seja mais claro. – disse Demeter.

- A mesma esperança que recebi já tantos anos, deverá ser empregada novamente: está na hora de buscar o que escondi nas estrelas...

Zeus elevou seu cosmo e as nuvens que o ocultavam o cimo do Monte Olimpo foram afastadas. O sol já havia se posto há algum tempo e as estrelas dominavam o céu. O senhor do céu ergueu a mão na direção das estrelas e chamou:

- Voltai, esperança recebida há tanto tempo. Tu, que por milênios recebeste a luz das estrelas e do sol, brilhai novamente. Voltem, fragmentos da armadura de Zeus! Atendam ao meu chamado, como atenderam ao de Gaia no passado distante, para salvar esse mundo mais uma vez!

Doze estrelas brilharam em resposta a voz poderosa. E, num instante, doze pedaços disformes de ouro puro brilhavam, flutuando pouco acima da cabeça dos deuses.

- Hefesto! Aproxime-se, meu filho!

O deus do fogo e da arte de forjar aproximou-se do pai.

- Tu, cujas artes não conhecem limites, deverá forjar doze vestimentas para doze mortais. Estas armaduras representarão as estrelas que protegeram os fragmentos os quais Gaia não usou ao criar minha própria armadura. Vá e trabalhe depressa!

Ares, Apolo, e Hefesto levaram os enormes pedaços de ouro para as forjas do Olimpo, enquanto Zeus se voltava para Hades:

- Já fiz o que podia por esse planeta. Agora é a sua vez meu irmão...

O monarca do inferno e o soberano dos céus já se mantinham há um bom tempo a distância dos outros deuses. Pareciam discutir algo que não agradava ao soberano do inferno. Mas, após alguns minutos mais de confabulações, chegaram a uma aparente decisão, voltando-se para os outros deuses ali presentes.

— Athena! — disse Hades — Preciso que nos fale mais sobre a guerra entre Urano e o Caos.

Athena assentiu, meio desapontada; era bastante óbvio que seu pai e seu tio não haviam chegado a conclusão alguma.

— Não sei muito sobre acontecimentos tão remotos... Posso afirmar, com certeza, que o Caos desfechou o primeiro ataque, assim como o fez agora. Urano e os demais deuses antigos, chamados de Titãs pelos mortais, lutaram durante longo tempo contra o Caos, até o embate final entre Urano e o Caos, onde o céu saiu vitorioso. Mas ao empregar a "Concórdia celestial", Urano ficou gravemente enfraquecido...

— Esse ataque de Urano... — interrompeu o senhor da guerra, Ares — Não é o mesmo que foi usado no começo de tudo para colocar os orbes e as estrelas em suas devidas órbitas?

— Suas curiosidades sobre táticas bélicas podem esperar, irmão...— advertiu Ártemis.

Ares fez um sinal leve com a cabeça para Athena, pedindo que continuasse, meio envergonhado.

— Continuando, então...— disse Athena — Não tenho certeza sobre que ataque o Caos utilizou para contrabalançar o enorme poder de Urano, mas sua técnica devastou completamente a área onde se encontravam, criando a planície do Armageddon.

— Por que os deuses não podem entrar na planície, Athena? — perguntou Hera, enquanto se abanava com um leque similar a cauda de um pavão.

— Aparentemente, foi Urano que gerou um encanto sobre os quatro cantos da planície. Ele criou quatro altares e enquanto esses altares existirem, o Caos não poderia voltar ao Armageddon.

— Então, devemos deduzir que após tantos anos, o poder do Caos pôde superar o encanto de Urano para que ele pudesse retornar? — perguntou Apolo.

— Creio que essa é a única explicação possível, Apolo... Afinal de contas...

O imperador ignorou o que sua sobrinha dizia para poder se concentrar nos próprios pensamentos por alguns instantes. Havia lago de errado nas deduções de Athena e Apolo, algo que ele não conseguia entender com clareza.

Hades ergueu-se, calando a deusa da sabedoria e o deus solar. Quando percebeu as atenções de todos os deuses sobre si (exceto por Vulcano, que agora forjava armaduras com o ouro de Zeus), disse:

— Não temos outra saída, então. Devemos confiar o destino da Terra, dos céus e do inferno a homens mortais. Eles entrarão na planície do Armageddon e destruirão os altares para que um grupo de deuses possa combater o Caos.

O sol, que já começava a se erguer nos céus, pareceu escurecer por alguns instantes. Apolo queria se manifestar, mas Hades o impediu. Já era bastante difícil para o senhor dos infernos lidar com seu orgulho divino maculado por ter que recorrer ao auxílio de mortais sem ter que levar em conta o sentimento semelhante que brotava em Apolo.

— E onde acharás mortais tão poderosos assim, — disse Afrodite — soberano dos infernos?

— Vocês me ajudarão a encontrá-los... Eles estão nos campos Elísios... Os heróis da humanidade voltarão a vida pelo poder dos deuses!