Capítulo II
Draco piscou enquanto ainda se livrava da sensação desconfortável de quem se locomove por chave de portal. Quando ela enfim se esvaiu por completo, o loiro começou a andar pelo quarto notando cada pequeno detalhe, na busca por alguma armadilha. Ele adoraria ter algum motivo, qualquer que fosse para tomar até o último nuque do cofre dos cunhados encrenqueiros.
A um primeiro olhar atento, Draco não encontrara nada, absolutamente nada de diferente ou demais no quarto. Embora estivesse quase surpreso com o requinte do ambiente. Os gêmeos ainda eram irmãos do seu namorado E Weasleys, no fim das contas.
Não havia muita coisa no quarto, é verdade. Era a cama de dossel 'double king size', uma pequena cômoda, e um conjunto de mesa com um par de cadeiras. A mobília seria quase austera se a cama não estivesse forrada com os mais finos lençóis de algodão em um tom leve de champanhado, e as cortinas de um tecido incrivelmente fino num tom de dourado fosco, contrastando com a madeira escura.
Se num segundo olhar, a até então cômoda, não se mostrasse na verdade um invólucro para manter o que quer que fosse numa temperatura mais baixa que a ambiente. Se não contivesse um balde de gelo com champagne, um pote com morangos e um vidro de calda de chocolate. Clássico. Desse modo, Draco se via obrigado a concordar com o padrinho, quando este uma vez dissera que Fred e George eram engenhosos.
O luxo ainda gritava nos entalhes da mesa e no estofado das cadeiras. Aliás, o quarto inteiro gritava isso, luxo, riqueza e o despojo deles. Até no próprio champagne gelado. Sim, ele olhara a marca. Por mais que para ele não fosse sair da rotina. O quarto lhe trazia-lhe lembranças dos inúmeros quartos da mansão da família.
Enquanto tirava as vestes e ficava com o jeans e uma camiseta, a recordação amarga do fim de semana em que levara o Weasel para a mansão veio. E ele amaldiçoou os cunhados uma vez mais. O ruivo alegara que aquele luxo não condizia com ele, que lhe sufocava, tirando todo o seu tesão. Ou seja, gastara galeões e galeões para não ter sexo.
A única porta no ambiente, Draco supôs que daria num corredor do motel. Supôs errado, como veio a descobrir logo em seguida. A porta dava entrada a um banheiro, fazendo do quarto, uma suíte. A banheira, parecia ter sido esculpida do chão, já que o mármore dela se confundia com o do próprio piso. Seu tamanho e as inúmeras torneiras recordavam de longe o banheiro dos monitores da escola, deixada a poucos anos para trás.
O restante do banheiro seguia os mesmos moldes – mármore e ouro. Embora o grande destaque mesmo fosse para a banheira. Enquanto ainda a olhava, um sorriso de quem planeja algo se formou no seu rosto. Afinal, talvez os galeões não fossem desperdiçados tão em vão assim.
Um pequeno barulho nos aposentos informou ao loiro que sua companhia para as 24 horas de sexo fora da rotina havia chegado. Voltou ao quarto em passos largos, contente demais consigo mesmo para reparar quem havia acabado de chegar. Só foi se dar conta que a pessoa que havia acabado de abraçar por trás não atendia pelo apelido de Weasel, que o pescoço que acabara de plantar um beijo não possuía as sardas que ele gostava de 'perseguir', quando era tarde demais.
Foi com uma rapidez incrível que soltara a pessoa que tão voluntariamente agarrara, deixando que ela se virasse para encará-lo com dois olhos âmbar, enquanto a última sílaba do apelido do namorado morria nos seus lábios.
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Remus ainda se sentia atordoado após ser abraçado de forma tão envolvente e possuidora por braços que não os de Sirius. E ainda mais após ter sentido um arrepio percorrer a espinha com o selinho na nuca, coisa rara de Pad fazer. Mas se sentiu incomodado ao ver que, as íris azuis acinzentadas que encarava não eram as do amante. Pertenciam à um Malfoy.
De certa forma, o garoto que já não era a mesma criança que uma vez ele ensinara, ainda mantinha a pose ereta e aristocrática de antes. Mesmo após todo o turbilhão que passara durante a guerra. E como ele tinha que reconhecer, de certa forma, era a mesma pose que ele gostava de ver em Sirius. Embora nele, viesse junto com a atitude rebelde, de rejeitar tudo o que possuía pelo sangue dos Black.
Por fim, se deu conta que estava ainda no mesmo lugar que chegara, e provavelmente com uma cara de pasmo. Embora a pasmacidade se espalhasse na face de Draco. Mexeu-se ainda desconfortável, embora sem retirar seu olhar do outro, quando lhe chamou à realidade:
-Draco? – Mordeu a língua pra não perguntar o que ele estava fazendo ali, mas lembrou-se que estava num motel, e bem, dos gêmeos Weasley. Não sabia onde estava com a cabeça quando deixou Sirius lhe convencer a ir. Na verdade sabia, mas preferia não lembrar para não se repreender mais ainda.
O loiro finalmente saiu do seu estupor e respondeu com um aceno de cabeça, chamando-o pelo nome. Trabalharam juntos durante a guerra, depois do choque da morte de Dumbledore. E ele passara a considerar o loiro por ter simplesmente sobrevivido ao ter todo o seu mundo, todas as suas crenças desmoronarem, quando ainda era uma criança. O sacrifício de Albus não fora em vão. Embora não só a pose tenha permanecido desde a infância de Draco.
Reassumindo seu ar esnobe e senhor de si, Draco andou em volta do quarto até se sentar em uma das cadeiras que acompanhavam a mesinha. Com uma pose quase displicente, ao mesmo tempo em que mostrava que sabia exatamente o que estava fazendo ele continuou a falar com o ex-Professor:
- Creio que ambos não esperávamos ver um ao outro por aqui. Não? Mas em se tratando dos gêmeos, eu já deveria saber... Pode se esperar tudo.
Remus ainda gostaria de dar uma olhada no quarto, afinal parecia conter o conforto, embora não fosse nada assim. Era muito Grimauld Place para Sirius, embora não tivesse nem o verde, nem cobras e nada sombrio e triste no lugar. E observando a figura da sua companhia, ela simplesmente parecia pertencer a lugares assim. O que fugia completamente da proposta inicial dos gêmeos de fugir da rotina, mas, sabia que eles não gostavam do cunhado. E Draco não era tão fácil assim quando não o queria ser. Sentando-se na outra cadeira, enquanto espiava o que conseguia com o rabo dos olhos respondeu ao loiro:
- De fato. Você em razão em ambas as partes. Quanto aos gêmeos, e à companhia inesperada. – Não que seja desagradável, é claro, a companhia. – Remus se viu acrescentando apressado ao final da frase, com receio de ter soado grosseiro.
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Draco sorriu ao ver Lupin tentar corrigir o que achara ter dado brecha pra alguma grosseria, embora tivesse entendido perfeitamente o sentido sem o adicional. E notando o professor mais uma vez, viu que ele espiava o quarto, tentando conferir tudo. Já que não havia nenhuma saída do quarto, ao menos tornar agradável a estada necessária ali era essencial. Levantando-se novamente estendeu a mão à Remus, a guisa de convite:
-Que péssimo anfitrião me tornei, Remus. Deixe-me corrigir o lapso e lhe mostrar o aposento.
Recolhendo a mão, o loiro começou a se movimentar pelo quarto.
-Isso aqui eu achei particularmente interessante. Parece uma simples cômoda a um primeiro olhar. Mas invés de ter que usar um feitiço para resfriar, acaba já mantendo as coisas meio geladas, olhe. – terminou abrindo a porta e mostrando o conteúdo da 'cômoda' – champagne, chocolate e morangos.
Remus colocou uma mão dentro do invólucro, como se fosse pegar alguma coisa, mas com a intenção de checar a temperatura dentro do invólucro. Ficou intrigado ao ver que, estava na temperatura ambiente. Fresca talvez, mas não gelada. Mas ao tocar a garrafa de champagne e o vidro da calda, notou que estes estavam frios. Pegou um morango para tirar a prova dos nove. E ao mordê-lo, comprovou que Draco estava certo. Ele não notou o loiro morder os lábios ante a vista tentadora ao fechar os olhos para apreciar melhor o sabor do morango.
Com um meneio de cabeça ele simplesmente prosseguiu, não perguntando a opinião do lobisomem sobre a cômoda, ou sobre os morangos.
- E atrás da porta... Um banheiro, ou uma banheira na verdade. Já que é o que mais chama atenção, mesmo – O sonserino e ex-espião para o lado da luz terminou abrindo a porta e deixando a mostra a banheira. Vendo o olhar saudoso de Lupin acrescentou – Lembra a banheira de Hogwarts não lembra? Do banheiro do monitores? Mas não cheguei a testar as torneiras ainda. Foi quando você chegou. – Largando a porta e abrindo a torneira mais próxima de si, ele deixou-se prestar atenção às bolhas peroladas um instante antes de voltar a fechar a torneira.
Não precisou chamar Lupin de volta ao quarto, ele continuava no batente da porta. Mas quando foi passar pela porta, Remus não se movera, fazendo com que roçassem um no outro. Foi com a voz um pouco mais rouca que acrescentou:
-Vamos, ainda tenho que checar a cama, antes de aproveitar minhas 23 horas restantes fora da rotina, Draco.
