Capítulo 2

Kingsley Shacklebolt terminou de reportar a seus superiores o trabalho que realizava com o Ministério Muggle. Com o fim da guerra, foi estabelecida uma nova política bruxa e eles acreditaram que Kingsley seria um bom contato com o Primeiro Ministro inglês.

O ex-Auror e Arthur Weasley saíram da sala de reunião e ficaram conversando um pouco mais. O interesse do atual Ministro pelos Muggles rendia longas e divertidas conversas entre eles e dava a oportunidade perfeita para Kingsley permanecer algumas horas a mais no Ministério, além do horário de expediente.

Discretamente, consultou as horas e, como se notasse seu gesto, Arthur se despediu. Kingsley amava seu trabalho e achava tremendamente gratificante a iteração que vinha conseguindo entre bruxos e Muggles. Poderia ficar toda a noite falando sobre o assunto com quem estivesse disposto a ouvir, mas naquele momento, não poderia ter ficado mais grato com o gesto do Ministro. Passou pela sala de aurores e seguiu para o elevador. Dentro, seus dedos automaticamente apertaram o nove, conduzindo-o ao Departamento de Mistérios.

Kingsley caminhou com tranqüilidade até a Sala da Morte, não se perdendo pelo labirinto que era aquele departamento. Quando entrou na sala, sentiu um misto de alívio e pesar. Alívio, pois a ausência de Severus poderia ser um indicativo de que finalmente o outro estava se recuperando. E pesar, pois havia aguardado com ansiedade toda a noite pelo momento em que poderia ver o ex-Comensal.

A sala estava vazia e o Véu imóvel, mas bastava se concentrar um pouquinho para ouvir. As vozes. Era inquietante. Perguntou-se, não pela primeira vez, se Severus ouvia Sirius quando estava ali. Apurou a audição e quase pulou de susto, ao ouvir em alto e bom som:

- Boa noite, King. Sinto dizer, mas ele não veio hoje.

Kingsley virou-se e sorriu ao reconhecer o meio-gigante.

- Boa noite, Hagrid. Acho que isso é um bom sinal, não?

Hagrid coçou a barba e respondeu, pensativo:

- Não sei. Mas já faz alguns dias que ele não vem. Falei com Harry e o rapaz ficou de verificar.

Os dois voltaram ao elevador e trocaram mais algumas palavras até o átrio. Despediram-se, e Hagrid foi para a cabine do segurança enquanto Kingsley se dirigia à saída pela cabine telefônica. O ex-Auror estava tão concentrado que não ouviu o murmúrio do meio-gigante:

- Boa sorte, meu amigo. Tomara que consiga resgatar o coração do Snape de trás do Véu...

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A hesitação de Kingsley durou quase nada. Assim que ganhou a rua, andou a passos largos até o ponto de aparatação e seguiu para Spinner's End. Chegou à casa de Severus e ficou indeciso sobre o que fazer. Já passara há muito do horário conveniente de visitas, mas não conseguia ignorar a vontade de ver como ele estava. Já estivera ali outras vezes, depois da guerra, mas nunca tão tarde. Havia uma luz na janela do segundo andar e, antes que se arrependesse, bateu a porta. Aguardou que fosse atendido, mas ninguém apareceu. Resolveu testar a maçaneta e a porta abriu.

Kingsley ficou chocado. Nunca Severus deixaria a porta aberta e sua casa desprotegida. Ignorou tudo ao redor e subiu a escada, pulando de dois em dois degraus e, empunhando a varinha, foi em direção ao cômodo com a luz acesa.. Parou no batente, encarando a cena a sua frente: Severus, sujo e desgrenhado, sentado no chão, murmurando sozinho, com uma garrafa de firewhisky caída perto dele, e vários livros e papéis ao seu redor. Havia um caldeirão fumegando com alguma poção mal cheirosa que parecia uma lama cinza.

Kingsley baixou a varinha e deu um passo na direção do outro homem que sequer parecia ter percebido sua presença. Por fim, chamou baixinho:

- Severus?

Não recebeu nenhuma resposta. Severus apenas cessou os murmúrios e o remexer nos papéis que lia. Kingsley se abaixou e insistiu:

- Severus? Está tudo bem? – Estendeu a mão para o outro e disse: - Vem, levanta daí. Onde está sua hospitalidade?

Kingsley franziu o cenho ante a falta de reação dele. Por fim, sentou-se de frente para ele, com as pernas cruzadas.

- Tudo bem. Não me incomodo de sentar aqui com você desde que não me faça beber dessa sopa que está preparando.

Nada. Nenhuma reação. Nenhuma palavra mordaz ou tirada sarcástica. Nenhum olhar mortal ou alguma explicação sobre a tal poção. Aquilo era assustador. Kingsley sentiu um desespero que há muito não sentia. A cada visita que fazia a Severus, podia notar mais e mais os gestos descontrolados, a tristeza, mas sempre havia um resquício da personalidade difícil do homem. E era àquele pequeno indício de que Severus ainda não havia se entregado a dor que mantinha as esperanças de Kingsley vivas.

- Você não devia fazer isso. Não depois de tudo que sofreu e passou. – Kingsley falou, não se contendo. – Está se matando. Há quanto tempo não come direito? Ou dorme? Ou sai de casa a não ser para ir aquela maldita sala?

Kingsley ficou calado, aguardando a resposta. Ele não era um homem emotivo. Ao contrário, era extremamente racional e era justamente essa sua capacidade que sempre o ajudara em seu trabalho como auror. Mas pela primeira vez na vida, ele não quis ser racional. Desejou falar o que sentia e que tentara demonstrar de todas as formas nos últimos tempos para o homem imóvel a sua frente. Precisava arrancar alguma reação do outro, por menor que fosse. Pelo bem de ambos.

- Você não morreu com Sirius. Continua vivo e devia seguir em frente. Não é justo com você, com Sirius... ou comigo. Severus, por favor, esquece isso. Eu poderia te ajudar, se você permitir. – Apenas silêncio. – Será que você consegue me ouvir? Compreender o que eu falo? Você está se matando! E isso não trará Sirius de volta! Sabe tão bem quanto eu que isso é verdade. Dói em mim te dizer isso. Dói dizer a verdade, mas dói mais ainda saber que dizê-la não muda nada. Que você vai continuar se matando lentamente. E que será completamente inútil...

Kingsley esticou a mão para tocar Severus e fazê-lo olhar para ele. Mas se conteve ao notar a linha rígida do maxilar do outro, o modo obstinado como ele encarava o livro que segurava. Deu um suspiro derrotado e se levantou. Pensou em obrigar Severus a se deitar, mas não queria infligir aquela indignidade ao outro homem.

- Até mais, Severus. Pense no que falei. Eu volto amanhã.

E foi embora, decidido a voltar no dia seguinte. E no outro. E em quantos mais fossem necessários até alcançar seu objetivo. Que era só um: Severus Snape.

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Severus fechou os olhos por um momento, único sinal que ouvira tudo que Kingsley dissera. É claro que compreendia o que o outro falava. Não era nenhum Gryffindor idiota que não entendia as coisas! E sua compreensão ia além: conseguia vislumbrar um possível final feliz com o auror. Mas para isso, teria de abdicar de tudo que passou com Sirius.Talvez lançar todas às lembranças através do Véu maldito. Estaria Shacklebolt interessado apenas na casca que restaria?

No entanto, Severus sabia que aquelas eram apenas considerações sobre o que certamente não seria. Ele não podia. Não podia! Não podia virar as costas e deixar Sirius naquele lugar. Não! Ele faria tudo para trazê-lo de volta. Mas seria tão mais fácil ser amado. Só um pouquinho que fosse...

- Não! Não! Preciso terminar a poção. E então, trazer Sirius de volta. – disse. - O que vai ser, Black? O que dirá primeiro? Vamos discutir como daquela vez quando Harry olhou a Penseira? Quando ele, surpreendentemente, somou dois e dois, e percebeu que toda nossa raiva era puro tesão reprimido? – Severus deu uma risada baixa e sem alegria alguma. – Estou enlouquecendo. Falando sozinho. E desprezei a única pessoa que ainda quer me ouvir, sem dizer uma só palavra. Mas o que eu poderia dizer? Contar sobre o que Harry viu? Você lembra? A briga, o quase beijo. Hoje eu sei que boa parte era ciúmes de Remus. Você perdeu como o garoto transformou o lobisomem em filhotinho quando resolveu colocar a história em pratos limpos. Você teria achado divertido. Eu, pelo menos, achei. Me senti vingado pelo Levicorpus que vocês me lançaram na frente de toda a escola, na época...

Com muita dificuldade, Severus se ergueu e caminhou até a bancada, continuando a separar os ingredientes de acordo com os livros. Os gestos eram descontrolados, tão diferentes de seu estilo calculado de fazer uma poção. Continuou seu monólogo enquanto acrescentava os ingredientes ao caldeirão:

- Não se preocupe com o auror. Eu não vou te abandonar. Falta muito pouco para ficarmos juntos. E quando eu te encontrar, vou te azarar porque não me ouviu quando disse para ficar naquela casa. Por que tem de ser tão cabeça dura, Black? Tão teimoso? Mas falta muito pouco agora. – Remexeu a poção em sentido horário. – Teimoso, burro, idiota, prepotente, metido a herói. Mas que merda, Black, por que tinha que ir até lá e se meter com a vaca? Mas eu cuidei dela direitinho. Você ia gostar. Ah, se ia... E eu fiquei furioso com Potter. Como ele tinha a audácia de olhar na minha Penseira? Meus pensamentos privados! Você sempre foi o meu tormento, Black. Minha maior fraqueza. Meu maior desejo. Como sinto sua falta, Sirius...

Severus permaneceu murmurando, falando, sem se importar com a passagem das horas, com o fogo que se extinguia na lareira e o frio que pouco a pouco se infiltrava no quarto. Apenas remexia o caldeirão e consultava o livro.

- Muito pouco agora... Logo, estaremos juntos...

Acrescentou o último o ingrediente. Olhou a poção que deveria estar de um tom rosado quase translúcido naquele instante. Ficou observando, sem entender, aguardando que aquela massa quase sólida e cinza se transformasse na fluída poção rosa.

E a vizinhança Muggle se surpreendeu pelo duplo som que ouviram logo em seguida, naquela madrugada: um estouro, seguido por um grito de puro lamento.

Continua...