Capítulo 5
Quando Harry viu a luz prateada se abrindo a frente de Snape, sentiu-se mais uma vez atraído pela pelo véu. A primeira vez fora há muitos anos, quando Sirius ainda estava vivo e ele ouvira as vozes do outro lado. Ele se sentiu atraído pela morte. Dessa vez não foi diferente. Sentia vontade de entrar na luz. Quando Snape desapareceu e somente o véu negro restou, seu coração deu um solavanco.
– Não, outra vez não. – sussurrou. E novamente foi Remus quem o impediu de correr até o arco. Ele estava logo atrás do véu, logo ali. Eles poderiam salvá-los. Os dois.
Minutos passaram e Harry continuava lutando contra a força de Remus, ele chorava e pedia que voltassem, implorava que ouvissem seu pedido, e todos na sala perceberam que ele Chamara por duas pessoas e não uma.
Harry ouviu Remus lhe confortar, sentindo seus braços enfraquecerem quando lhe disse que eles não voltariam nunca mais. A familiaridade das palavras não fez com que a dor fosse menor. Harry não sabia se chorava por Severus, por Sirius ou por si mesmo.
Hagrid e outros seguranças foram atraídos pelo barulho. Logo que viu o estado de Harry compreendeu o que acontecera.
Hagrid observou King, que olhava para o tecido negro, parecendo esperar que tudo não passasse de um sonho. Tinha a expressão serena de quem está em choque, o mesmo olhar que das crianças nascidas trouxas quando descobriam Hogwarts em seu primeiro ano. Pavor, admiração, surpresa.
Viu King mover a mão como se fosse tocar no tecido negro e depois a descer, sentiu a garganta fechar. Fechou os olhos e desejou que Dumbledore ainda estivesse com eles. Albus sempre sabia mostrar o caminho quando as coisas pareciam escuras demais. Ele olhou para as pessoas naquela sala e percebeu o peso que a situação tinha em cada um. Seria um longo período de luto para eles.
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Sirius estava tão feliz que mal podia respirar. Severus estava com ele e nada poderia ser mais perfeito. Não precisariam de mais nada ali, tudo estava onde deveria estar, finalmente.
– Nunca mais deixarei que se afaste de mim, ouviu bem, Black? – Severus dizia, sua voz embargada de emoção.
– Não vamos nos afastar nunca mais, Severus. – disse, a alegria de tocar de novo seu companheiro, companheiro que, somente depois que o perdeu, percebera o quanto era importante.
Sirius estava eufórico, abraçou Severus e disse em seu ouvido:
– Eu quero te mostrar tudo.
– Espere, Sirius, temos que voltar. – Disse Snape, com o rosto enterrado na curva do pescoço do outro homem. Ele respirava profundamente, como alguém que finalmente encontra ar depois de longo tempo submerso.
– Para que? – Disse Sirius, rindo. – Aqui temos tudo o que precisamos, temos um ao outro, não sentiremos fome ou medo ou dor.
– Quero viver com você, Sirius. Viver. – Snape finalmente separara seu rosto da pele do outro tempo suficiente de olhar em seus olhos. – Quero poder ter uma relação humana com você.
– Você quer mesmo abandonar tudo isso? Porque, se esse for mesmo o que quer, eu volto. Eu não conseguiria te perder novamente. – Sirius o segurou pelas mãos. – Mas o amor existe aqui, Severus. E o amor é tão grande e profundo que o sentimos em todo lugar.
– E quanto aos seus amigos? Harry? Remus?
– Eles tem um ao outro, não me preocupo com eles. – Disse Sirius, sorrindo. – Mas a escolha é sua.
– Depois do tempo que levei preparando a poção...
– Aquela poção só foi suficiente pra trazer você aqui, Severus.
– Então, como é que me oferece a chance de voltar?
– Você já sabe, posso sentir daqui. – Sirius acariciava seu rosto.
Era uma escolha difícil, Sirius sabia. Viver em função de um corpo, o apego material era forte para qualquer recém-chegado.
– Eu quero ficar. Por agora.
– Ótimo. – Sirius sorriu. – Venha, tem alguém aqui que estava morrendo de saudade de você. Sempre tentou falar com você quando eu sentia sua presença do outro lado, mas nunca pode, óbvio.
– Mas ele não...
– Sim, ele mesmo. – E Sirius se sentiu ainda mais feliz ao ver as lágrimas de felicidade dele.
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Ninguém, além de Harry, Remus, Shakebolt, Diego e Arthur, compareceu ao funeral. Severus não se importara em fazer muitos amigos e as pessoas não acharam que o evento seria tão importante assim, mesmo ele sendo um herói consagrado da guerra.
Harry ficara indignado, mas Remus o acalmou. Snape não se importaria com nada disso, de qualquer maneira, sempre odiara essas demonstrações.
King passou o funeral em silêncio. Nada tinha a falar sobre Mestre de Poções que ele quisesse dividir com os outros. Retirou-se da cerimônia em silêncio. Não queria olhar para uma tumba vazia e fria. Ele iria onde Severus fora visto pela ultima vez. Diria adeus a sua maneira.
Quando viu Kingsley saindo sem dizer adeus, Diego não comentou nada com Remus, mas disse que tinha coisas a tratar e o seguiu. O auror estava silencioso demais desde o ocorrido. Todos os outros falaram com ele, choraram, mostraram sua dor de uma maneira ou outra. Shakebolt se manteve em silêncio.
Ele andou com naturalidade até o corredor do Departamento de Mistérios. As portas pareciam indicar a ele o caminho certo. Ou talvez já tivesse feito o caminho tantas vezes que elas já soubessem aonde ele queria ir.
Diego o seguiu de perto, sabia que não encontraria seu caminho sozinho por aquelas portas traiçoeiras, e King não havia notado sua presença – prova de que não estava em seu juízo perfeito.
Kingsley entrou na sala, mas não parou de andar. Ficou de frente ao véu e falou rispidamente:
– Eu sei que você não pode me ouvir, não sei se queria que você ouvisse. O mais provável seria ouvir de você algum tipo de comentário sarcástico sobre um auror estar falando sozinho.
Andava como um tigre enjaulado, de um lado para o outro enquanto falava:.
– Queria dizer que, para um sonserino, o que você fez foi digno do mais acéfalo dos grifinórios. Eu sei que não acredita, mas eu gostei de você. Acho que poderia um dia chegar a te amar. Agora, você se foi. Conseguiu o que queria, ficar ao lado de Black.
Ele parou então. Sorriu tristemente para o véu.
– Eu não posso viver como você viveu. Eu preciso continuar e acho que será melhor assim, prefiro pensar que você está feliz, que ambos estão. – Respirou fundo. – Preciso dizer adeus.
E Diego ouviu a cada palavra em alegria e alívio. Havia esperança.
...Continua
