Olá, olá! Até que estou postando rápido os novos capítulos. Estava ansiosa para postar esse aqui. Finalmente, vamos ver Kia cair do palanque! Espero que gostem, pessoal. Comentários no final da fic. Obrigada sempre pelas reviews!
Capítulo 28
A cartada final de Saga
Após Mu ter se recuperado e voltado para a escola depois de muita insistência de Aldebaran, estava ficando difícil conviver com Saga na mesma classe. Os olhares que o grego lhe lançava eram como profundas facadas em seu coração e com isso, se sentia cada vez pior. Quando Mu se queixava com Aldebaran, o brasileiro sempre dizia para ele agüentar, afinal, tinha plantado e agora estava colhendo os frutos. Kia estava se sentido amarrada, pois Saga não saia de seu lado e como Aldebaran não desgrudava de seu amante estava sendo impossível o contato com outra pessoa a não ser seu namorado.
-Pára de sofrer e manda essa menina para o quinto dos infernos logo, Saga! - Dizia Kanon para o irmão, com tom revoltado.
-Isso vai acontecer hoje, meu irmão, e teremos platéia. Você passou no scanner aquelas fotos e as colocou do jeito que eu pedi?
-Sim. Me diz, o que vai fazer com isso?
-Você vai ver, na hora do almoço. Aliás, Kanon, na hora do almoço ou no intervalo do meio das aulas?
-Depende do que pretende fazer, Saga.
-Quero um espetáculo.
-Se quer mais gente vendo, melhor no intervalo então.
-Certo. Avise ao professor Galileu que não vou assistir às aulas. Preciso da ajuda do professor Platão.
-O Máscara da Morte manda bem em Literatura, não quer a ajuda dele?
-Não, vou diretamente na fonte.
-Está bem.
Mas Saga nem sequer ouviu as últimas palavras do irmão.
-O que seu irmão vai fazer, Kanon?
-É isso que me preocupa Mask, eu não sei.
Enquanto os alunos esperavam Galileu se ajeitar com seus tubos de ensaio no laboratório de química, Shaka e Aioria conversavam baixo, discretamente.
-Eu fiz exatamente o que você disse, Shaka. Devem chegar a qualquer momento.
-Foi sincero e disse o que sentia, né?
-Claro, você sabe que...
Foram interrompidos por alguém que batia à porta.
-Ganimedes, por favor, veja quem é.
-Pois não, professor.
O assistente de laboratório foi até a porta da sala e quando a abriu, levou um grande susto. Apenas um ramalhete enorme de rosas vermelhas estava parado, suspenso no ar. O perfume invadiu a sala, chamando a atenção de todos.
-Pediram para entregar essas flores para a senhorita Marin do terceiro ano A. - Disse o inspetor que estava por detrás das rosas.
A garota foi receber o buquê, cheia de curiosidade. Pegou as flores, aspirou o perfume e pegou o cartãozinho pendurado no papel de embrulho. Suspirou e leu para si mesma.
"Marin,
Sou orgulhoso, sou um estúpido e sou um louco. Mas tudo isso não chega nem perto de ultrapassar o amor que sinto por você. Sinto muito a sua falta. Espero que me desculpe por meus atos impulsivos. Não direi que esta será a última vez que vamos brigar, pois correria o risco de mentir, mas com certeza essa será a primeira das inúmeras vezes que eu te darei flores.
Te amo! Volta pra mim?
Aioria."
Marin tentou segurar as lágrimas, mas foi impossível. Saiu correndo e se atirou nos braços do rapaz com a tal impulsividade que havia aprendido com o próprio. Lançou-lhe um beijo apaixonadíssimo.
A sala toda, inclusive o professor Galileu, bateu palmas para aquela demonstração maravilhosa de afeto, repleta de paixão.
-Palmas para o amor! - Vibrava o professor lunático.
O problema foi conseguir a concentração dos alunos de volta.
Quando a turma foi se acalmando, Galileu conseguiu retomar a aula de Química experimental.
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Na outra turma o clima estava completamente diferente. Na tentativa de fazer como o irmão, Aioros também mandou flores para Ísis, um buquê de petúnias. O problema foi que quando ela recebeu as flores, teve um ataque alérgico de espirros. Teve de abandonar a aula e ir para a enfermaria. Aioros se culpava internamente por nunca dar uma bola dentro.
No entanto, as flores serviram de algo. Professor Kim teve a idéia de levá-los para o jardim da escola para uma aula externa.
-Vejam, pessoal - Kim apontava para uma magnólia - Esse é um exemplo de uma dicotiledônea. As Magnoliopsidas ou dicotiledôneas formam uma classe pertencente à divisão Magnoliophyta, ou plantas com flor, cujo embrião, ou seja, semente contém dois ou mais cotilédones. Outras características incluem raiz fasciculada e folhas com nervação reticulada. As partes florais podem ser pentâmeras, mais frequentemente, às vezes tetrâmeras e, raramente, trímeras ou monômeras.
Afrodite observava Shina e Shura juntos. Estava deprimido, faltando às aulas ultimamente e muito desanimado. Embora, não estivesse muito empolgado para se arrumar, continuava bonito. Dohko estava notando a ausência do sueco e começou a se preocupar.
-Afrodite, quer conversar?
-Não, eu não quero conversar com ninguém.
-Mas eu sou seu amigo, estou preocupado com você. Está com a camisa amassada...
Miro e Kamus que estavam por perto tiveram suas atenções quebradas. Embora o francês quisesse prestar atenção na aula, Miro não dava trégua, fazendo com que eles se aproximassem mais e ouvissem a conversa entre o sueco e o chinês.
-Não tenho amigos, nunca tive.
-Mentira, Afrodite. Eu sou seu amigo, o Aioros...
-Vocês preferem o Shura do que eu! No mínimo ainda acham que eu sou gay!
-Mas que complexo é esse, Afrodite? Não tem nada a ver!
-Até o Kamus me mandou parar de chorar! Vocês devem se perguntar porque eu não nasci uma menina!
-Quanta bobagem, Afrodite! O Kamus pega pesado as vezes e ninguém pensa isso de você!
-Pior que eu já fiz de tudo pra conquistar vocês! Nada valeu a pena! Foi só a Shina me largar que eu fiquei esquecido, nos finais de semana ninguém me chama pra sair, fico sozinho, em casa. Só me ferrei! E continuarei me ferrando!
Miro e Kamus trocaram olhares horrorizados.
-Afrodite, gostamos de você pelo que você é! Não tente ser outra pessoa.
-Quero sumir, sabe Dohko? Quero apagar os meus tempos de colégio!
-Ei vocês dois! Querem prestar atenção no que eu estou falando! - Kim falou em tom repressor. - Afrodite eu sei que vai bem na matéria, mas o outro mocinho não me lembro. Vamos agora ver um exemplo de uma monocotiledônea.
Dohko e Afrodite se calaram. O sueco tentava engolir o choro em vão. Miro e Kamus voltaram a atenção para a aula, porém com as mentes distantes, absortos em seus próprios pensamentos.
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A hora do intervalo chegou. Saga pediu que todos comparecessem ao anfiteatro. Nunca aquele lugar esteve tão cheio. Conforme as pessoas iam chegando e vendo que não havia mais lugares nas cadeiras, se sentavam no chão ou se aglomeravam e permaneciam em pé.
Miro correu e pegou três lugares na frente. Um para ele, outro para Kamus e o outro se caso Anisah aparecesse. Não deu outra. Os dois chegaram juntos, arrancando olhares desconfiados de todos. O francês ficava muito incomodado com aquilo.
Enquanto preparava todo o equipamento de audiovisual, Saga observava como o auditório estava lotado. Pegou o microfone pediu silêncio.
Uma música começou a tocar.
No matter how hard I try
You keep pushing me aside
And I can't break through
There's no talking to you
It's so sad that you're leaving
It takes time to believe it
But after all is said and done
You're gonna be the lonely one
-Gostaria de compartilhar com vocês momentos inesquecíveis que tive com meus amigos até a presente data... Homenagem a todos que estão comigo desde o começo do ano. Logo todos estarão seguindo os seus próprios caminhos.
Mu olhou aflito para Aldebaran. O resto do pessoal continuou sem entender aonde aquele grego queria chegar.
-O que essa música tem a ver com a gente? - Perguntou Aioria coçando a cabeça.
-Também não entendi. - Respondeu Shaka.
Saga apagou as luzes e abriu a apresentação que estava feita no Power Point. Logo, fotos de seus amigos foram projetadas na tela.
Shura e Aioros assoviavam acenando para Saga do fundo da grande sala. O garoto permanecia sério. Enquanto a apresentação se seguia, os outros alunos davam risada dos cliques engraçados. Fotos do começo do ano, do dia do cinema, festa a fantasia, estudos a tarde na casa do Mu, até que surgiu um slide totalmente preto. Saga parou a música no meio e apertou o botão do computador para pausar. Todos ficaram em silêncio. Mu ainda olhava apavorado para Aldebaran.
-Foi então, amigos... - Começou a falar Saga novamente - Que eu conheci uma pessoa que mudou por completo a minha vida.
Um murmúrio começou a invadir o anfiteatro.
-Aldebaran, preciso sair daqui...
-Não Mu, agora você vai ficar.
-Aldebaran! - O olhar do tibetano era de súplica.
-Agora agüenta as conseqüências, cara!
Dohko e Lígea também estavam aflitos. O chinês já estava mais preocupado com cadeiras voando, Saga arrebentando Kia e Mu juntos e com o fato de Lígea se juntar ao grego para o "acerto de contas". Já a garota não via a hora de poder partir para cima de alguém para "aliviar as tensões".
-Eu ainda não entendi onde o Saga quer chegar com isso, Shura!
-Aioros, dessa vez eu estou com você. Também não entendi o que o cara quer...
Saga soltou o botão do computador e uma foto belíssima de Kia apareceu no telão. Estava com os cabelos curtos penteados de uma forma extravagante e com uma maquiagem lindíssima. Foto da primeira vez que saíram juntos e foram ao cinema.
O pessoal começou a assoviar e gritar palavras do tipo "gostosa", "linduda" e "mulherão".
Kia que estava sentada perto de suas amigas começou a ficar encabulada. Ísis, Shina e Nínel fizeram a garota se levantar. Ainda contrariada, a árabe, com o rosto quase da cor de seus cabelos, se levantou. Começou a acenar para todos. Recebia aplausos e assovios.
-Dohko, o Saga é um G-Ê-N-I-O!
-Isso vai dar confusão, Lígea...
-Quero mesmo é que dê! A Kia merece!
-Mas aí no caso, o Saga vai se ferrar junto...
Máscara da Morte e Kanon só não estavam agitando o pessoal como o de costume, pois estavam com medo do que poderia se suceder. Não sabiam o que esperar, o que pensar.
-Meu irmão enlouqueceu, Mask... - Foram as únicas palavras que saíram da boca de Kanon.
O italiano apenas concordou com a cabeça.
-Nossa, isso vai dar problema... - Miro comentou baixo, próximo do ouvido de Kamus.
-Se eu soubesse que seria essa bagunça, nem estaria aqui.
-Por que, Kamus?
-Isso não vai acabar bem.
-Como você sabe? Olha, Kamus, eu também detesto esse tipo de manifestação.
"Hahaha! Olha ela já dando as dicas para o Kamus não fazer serenatas de amor em público!" - Pensou Miro segurando a risada o mais que pôde.
Kamus não respondeu a pergunta de Anisah. Preferiu olhar feio para seu amigo grego que disfarçava a gargalhada pela situação constrangedora.
Aquele olhar que Anisah lhe lançava incomodava muito, deixava o francês sem saber o que fazer ou pensar.
Depois daquela gritaria toda, Saga pediu silêncio novamente com os braços.
-Agora, vou declamar a mais bela poesia de amor para a minha amada.
Saga pegou o pequeno papel em suas mãos e começou a ler a poesia com uma grande entonação:
"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão . esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo.Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga.
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija!"
Quando Saga terminou de declamar, se uma borboleta passasse voando pela sala, suas asas fariam barulho. Todos estavam completamente sem reação. Na mesma hora, soltou a música novamente de onde tinha parado:
Do you believe in life after love?
I can feel something inside me say
I really don't think you're strong enough
Do you believe in life after love?
I can feel something inside me say
I really don't think you're strong enough
Kia ainda permanecia de pé. O sorriso do rosto tinha desaparecido. Quando fez menção de se sentar novamente, seu até então namorado a reprimiu.
-Continue de pé, minha linda. As homenagens ainda não acabaram. O que se segue é especialmente para você!
Ele soltou o slide show, fazendo com que todos ficassem perplexos com o que viam. As fotos dela com Mu na saída do cinema, na sorveteria, em bares a noite em grande tamanho, numa tela de projeção apavoravam qualquer um.
Coincidentemente em uma foto em que os amantes estavam se beijando, a música começou a dizer:
Well I know that I'll get through this
'Cause I know that I am strong
I don't need you anymore
I don't need you anymore
I don't need you anymore
No, I don't need you anymore
Kia ficou roxa de vergonha. Suas amigas olhavam para aquilo cada vez mais decepcionadas, ainda mais pelo fato dela não ter dividido a fofoca com elas. Mu tentava se esconder atrás de seus próprios cabelos.
Aioria e Shaka não conseguiam acreditar no que estavam vendo, enquanto Aioros e Shura discutiam:
-Isso só pode ser Photoshop!
-Claro! Montagem, Aioros!
-Que nada! - Se intrometeu Máscara da Morte no meio da conversa dos dois - Fomos Kanon e eu que batemos as fotos. São originais!
-Você acha que a vaquinha beija qualquer uma? Não, ele escolhe as vítimas a dedo... - Disse Kanon colocando mais lenha ainda na fogueira.
Mu não conseguia se mexer, sequer olhar para alguém.
-Ei, Mu! Que história é essa com a Kia? - Perguntou Aioria.
-Mas que falta de respeito! - Shaka comentou.
-É nada, o Mu tem total apoio meu! Saga deu mole, tinha mesmo que partir pra cima! Como eu fiz com o Dite-biba.
-Tinha que ser o Shura pra falar um negócio desses! Falando nisso, cadê a biba? Sumiu! Você a viu, irmão?
-Aioria, que decepção você chamando o Afrodite de biba.
-Mas ele parece uma mesmo. Que, que eu posso fazer?
Já as garotas estavam chateadas por Kia ter escondido o segredo delas.
-Kia, você traía o Saga com o Mu? - Ísis perguntava intrigada.
-O Saga beijava mal? - Perguntou Nínel.
-Como você faz e esconde uma coisas dessas, amiga? Podia ter contado pra gente! - Shina falava de modo decepcionado.
A árabe não respondia nada, não podia correr, pois havia pessoas por todos os lados e também não queria ficar mais nem um minuto ali. Se pudesse se desintegrar, assim faria.
-Zeus, que vergonha! - Anisah tentava cobrir o rosto com as mãos - Puxa Kamus, me desculpe!
A irmã mais nova de Kia saiu correndo e chorando do auditório.
Quando a música terminou de tocar e a palavra traidora parou de piscar no telão, um murmúrio maior começou.
-Eu não disse que ia dar pau, Kamus?
-O Saga não precisava ter feito isso. Existem outras formas de lidar com traição.
-Que outras formas, Kamus?
-Não queira saber, Miro.
Ele se levantou e saiu do auditório sem dar explicações.
Na hora que Kia conseguiu encarar Saga seu rosto estava coberto de lágrimas.
-Agora você chora, não é sua vadia?
-Saga, eu não sou vadia!
-Pode ser que na sua língua natal isso realmente tenha um outro nome!
A bagunça estava tão grande que os alunos não escutaram o sinal bater há 10 minutos. Platão caminhava juntamente com Calíope em direção ao anfiteatro tentando justificar a sua falha. Ela parecia não querer dar ouvidos. Quando a orientadora viu a desordem que aquilo estava e ouviu as palavras de baixo calão, resolveu se impor.
-O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?
No mesmo momento, todos se calaram. Ela voltou a falar.
-Existem mais de 130 pessoas neste auditório e NENHUMA é capaz de falar o que está acontecendo aqui? O sinal já tocou faz 10 minutos, estão todos fora da sala de aula por quê?
-É que acabamos de descobrir uma prostituta entre a gente, senhora orientadora! - Disse um rapaz do segundo ano.
O comentário do rapaz fez o murmúrio recomeçar. Calíope e o professor Platão procuraram por alguém que conduzisse aquela bagunça.Notou que a Kia e Saga se encaravam com os rostos cobertos de lágrimas. A orientadora optou conversar com o menino antes.
-Então é você que está conduzindo essa revolução, Saga?
-Senhorita Calíope, não é revolução, estou apenas mostrando a verdade para todos.
-TODOS OS ALUNOS PARA A SALA JÁ! Você e Kia vem comigo até a diretoria.
Os estudantes resolveram obedecer à ordem da orientadora. Os dois a acompanharam até a sala de Shion. Assim que Saga explicou o que havia acontecido, os dois superiores não precisaram nem pensar sobre o que fazer.
-Uma semana de suspensão para os dois.
-Mas vamos perder as provas mensais!
-Eu não fiz nada! - Kia começou a se desesperar.
-Aqui não é lugar para se resolver problemas particulares e amorosos. Em vista disso, com essa punição, não vai haver próxima vez. - Disse Shion sem piedade - E sorte de vocês que ainda existe a recuperação. Os dois fora da escola, já!
-Senhorita Calíope, eu te juro, eu não tive nada a ver... - Kia caiu de joelhos na frente da orientadora.
-Kia, a palavra final é do diretor. Enxugue suas lágrimas e vá para casa. Digo o mesmo para você Saga. É uma pena realmente suspender alunos como vocês.
Quando já estavam próximos a saída, Kia olhou com tristeza e arrependimento para Saga.
-Não adianta você me olhar assim, garota, eu não acredito mais em você.
-Se eu te dissesse, você não entenderia, Saga...
-Se você tivesse me dito, Kia, desde o início, eu não tinha feito papel de palhaço.
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-Ah! Você está aí, te procurei por toda parte, Anisah.
A pequena árabe enxugou os olhos inchados de chorar e olhou para aqueles olhos que a fascinavam tanto. O francês se sentou ao lado dela.
-Por que você está chorando, Anisah?
-Porque minha vida foi arruinada. A minha irmã foi a culpada dessa desgraça.
-Hm... - Kamus a olhou pensativo - Por que a sua vida foi arruinada?
-Ela traía o namorado dela, mentia pra ele, fingia que gostava dele e depois beijava o outro, sem consciência pesada nenhuma. Fazia as coisas na cara do Saga e ficava com o Mu...
-Entendo. Onde você entra na história, Anisah?
-Kamus, eu sou irmã dela! Vou ficar falada também! Vão falar que sou igual a ela! Que garoto vai querer me namorar? Ela me queimou junto com ela!
-O garoto que te der um fora por causa desse ocorrido, certamente não te merece, Anisah.
"Mas o que é que eu estou falando?"
-Kamus, você não entende! Calúnia é que nem carvão, quando não queima, suja!
-E quem foi que disse que você não pode limpar o que foi sujo com o carvão? Que eu saiba, Anisah, o carvão não mancha.
"Agora eu assinei o meu atestado de retardado mesmo..."
-Obrigada, Kamus, mas eu sei que você só está me dizendo essas coisas para me agradar...
-Anisah, lembra que você me disse... Er... Que gostava de mim do jeito que eu era? - Kamus estendeu um lenço para a pequena árabe enxugar os olhos cobertos de lágrimas.
-Sim... - Ela pegou o lenço das mãos do francês.
-Então, é isso. As pessoas que sabem quem você é não vão se deixar levar por fofoca, por falação, por intrigas... Quem for seu amigo de verdade não vai misturar as coisas. Sabe, Anisah, eu não gosto que façam fofocas ao meu respeito e por isso procuro não dar motivo.
-Mas eu não dei motivo.
-Eu sei, mas deixe-me completar. Não fique tentando se explicar pros outros, deixe eles pensarem o que quiserem. Se preocupe apenas quando alguém lhe causar um mal direto. Você quer um exemplo?
-Gostaria...
-Veja como todos ficam alvoroçados com a história do roubo das provas. Ficam perguntando uns aos outros, criando teorias, quando na verdade só existe um culpado. Ficam especulando pra ver quem descobre o verdadeiro bandido para uma reafirmação de egos. Não vou entrar nesse tipo de jogo nunca.
-É por isso que você não gosta de tocar nesse assunto?
-Exatamente, Anisah.
-Mas eu já ouvi a minha irmã comentando que você é um grande suspeito.
-Você acha que eu poderia ter feito isso, Anisah?
A árabe olhou bem no fundo dos olhos do francês. O olhar que o incomodava profundamente.
-Não, Kamus... Mas você sabe quem foi. Sei que sabe. E por ser suspeito, você pode acabar se complicando. Já pensou nisso?
-Minha consciência está limpa, não vou me complicar e como você mesma disse, na hora que as máscaras começarem a cair, eu me pronuncio.
-Por que você mesmo não entrega o bandido antes que ele saiba? Por que fica protegendo a pessoa, Kamus? É alguém que você gosta muito e não tem coragem de condenar?
-Anisah, eu te disse, não vou me envolver, tenho mais coisas importantes pra fazer, como estudar para as provas e me ocupar com a escolha da minha carreira na universidade. - Disse Kamus completamente desgostoso.
-Você pensa em fazer o que de faculdade, Kamus?
-Física, na Universidade de Lion, na França.
-Você... Vai voltar... Pra sua terra... - Anisah olhou para baixo. As lágrimas voltaram a cair.
-Eu ainda não sei... - Kamus começou a olhar para ela, desconfiado.
-Posso te pedir uma coisa, então, Kamus?
-Depende... - O rapaz se levantou e parou na frente da garota.
-Será que você... - O rosto da árabe ficou rubro - Podia me dar um abraço?
"É só para ela se sentir mais calma... Não tem nada de mais..."
-Sim.
Ela se levantou e abraçou o rapaz com ternura e desejo. Sem saber o que fazer com as mãos, Kamus a envolveu com seus braços, fortemente. Como não era alta, sua cabeça terminava nos ombros do garoto. Encostou sua cabeça no peito do rapaz e sorrindo, escutou o coração de Kamus pulsar ansioso. Olhou para cima, ainda sorrindo. Ele a soltou lentamente. Suas mãos suavam.
-Obrigada, Kamus, estou me sentindo muito melhor.
-Eu também.
-Sério?
-Sim, quero dizer. - Corrigiu ele rapidamente - Estou me sentindo melhor por você estar se sentindo melhor.
-Vou para casa, obrigada mesmo. Você é um ótimo... Amigo. - Ela começou a se ajeitar para partir.
-De nada, Anisah.
A garota pegou a mochila e saiu sem olhar para trás. Kamus punha suas mãos em suas têmporas. Com olhos fechados e apertados, balançava a cabeça como se estivesse tomado por algum feitiço.
"O que está acontecendo com você, Kamus? Que raio de sensação quente dentro do meu peito é essa?"
-Ela é bonita...
Kamus assustou-se e abriu os olhos.
-Você me assustou, Miro.
-Confesse, você está apaixonado por ela.
-Não estou. Quando é que você vai aprender, Miro, que a minha relação com ela é estritamente profissional?
-Eu vi, como é "profissional". Eu vi... O abraço. - Nisso se atirou e abraçou Kamus fingindo ser Anisah - Desista, Kamus, você já está condenado.
-Nossa, Miro - Kamus empurrou o grego para o lado - Você foi ver a Calíope hoje?
-Não, por que? Não tente mudar de assunto!
-Você tomou um banho de perfume, hein...
-Logo vai ser você que vai tomar banhos de perfume.
Kamus cruzou os braços e fechou os olhos. A posição impassível de sempre.
-Não tem graça, Miro. Eu já disse mais de...
-E eu também. - Interrompeu Miro - Não adianta fugir, Kamus. Você pode até tentar se controlar, pode correr pra longe, mas o amor é uma "prisão imaginária"...
-Você só fala besteiras, Miro.
-Se você se render, Kamus, vai aproveitar essa "prisão" muito melhor. Agora, se ficar aí, como você sempre faz, vai perceber como isso te incomoda e dói.
-Já falei - Kamus agarrou Miro pela gola da camiseta - Não tem nada a ver. Não estou apaixonado por ninguém. Cuide de sua vida.
Kamus soltou Miro, que vacilou por alguns instantes. Pegou sua mochila, se despediu do amigo um pouco nervoso. Miro sorria sarcasticamente ao ver o francês indo embora. Com certeza riria mais ainda, se pudesse ler pensamentos.
"Eu não estou condenado!"
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A música utilizada é da Cher – Believe. Achei que combinava com o contexto.
O poema é de Augusto dos Anjos, se chama Versos Íntimos. – Formidável!
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884.
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Bom pessoal, não sei se vocês queriam ver uma briga de socos e pontapés, mas achei melhor detonar a moral da garota. Os dois se ferraram, mas era esse o caminho. Espero que tenham gostado! Beijos e até a próxima!
