Olá garotas. Fico feliz em terem gostado do capítulo do Kamus e é claro que ele começará a sentir os "efeitos colaterais" de sua mais nova descoberta. Porém, vamos deixar o pingüim um pouco de lado e dar mais ênfase ao resto? Espero que gostem. Reta final pessoal... Obrigada mesmo pelas reviews! Beijos

Capítulo 32

Acusação

Já faltava um pouco mais de um mês de aula para o ano letivo terminar. Durante esse tempo, muita coisa aconteceu. Eugeu ficou surpreso com o resultado dos alunos nas provas mensais e já estava preparando o pacote final com entusiasmo. Miro tinha conseguido 8 na prova e isso ainda aumentou ainda mais o seu complexo de grandeza. No final do último bimestre a matéria para a prova era a do ano todo, causando pânico geral nos alunos do terceiro colegial. Saga e Kia já tinham certeza que teriam de estudar mais um mês além da formatura, afinal, como foram suspensos, perderam o direito de fazer as provas, levando zero em todas as matérias. O mesmo se aplicava aos outros professores. Kim estava feliz, estava conseguindo atingir seu objetivo. Nenhuma nota abaixo de 5. Exaltava Mu, no terceiro ano A e Afrodite no terceiro B. Pitágoras anunciava um futuro brilhante para Shaka e dizia que se ele quisesse, poderia muito bem ser um excelente matemático. Estava contente também com o pessoal de ambas as salas. Galileu, como sempre alegre e extrovertido, também fazia muitos elogios, embora alguns alunos não demonstrassem ter tanta "simpatia" com a matéria.

-É preciso ter uma mente abstrata o suficiente para se entender a Química. – Dizia ele.

Mas não acabava com ninguém. Todos os resultados eram satisfatórios. Os sobressalentes eram sempre Kanon e Kamus. O mesmo acontecia com a Física. Sócrates tinha Aldebaran e Aioros como preferidos. Quando o garoto grego o procurou em um dos intervalos e disse que pensava em se dedicar à Filosofia, quase estourou um champagne. Aldebaran já preferia estudar algo como Ciências Sociais, ligado às causas da humanidade atual. Aristóteles já ganhava uma simpatia maior dos alunos. Seu jeito sério que intimidava as crianças no início, não passava de um grande escudo contra a zombaria por suas disciplinas ensinadas. Como não eram matérias de cálculo e que envolvia mais memória a raciocínio, tinha medo que não o levassem a sério. Aioria, como sempre, muito bem falado por ele em reuniões de conselho de classe. Aristóteles acreditava muito no orgulhoso aluno grego. Todos davam risada quando Platão comentava que Shura e Máscara da Morte eram excelentes poetas. Era incrível como não davam créditos aos garotos. Mas quando o professor de Literatura mostrava as redações dos alunos, os outros ficavam pasmos. Eram de grande sensibilidade, quando usavam os lápis e os papéis. Por fim, Ptolomeu conversava sempre com Dohko após as aulas e tentava fazer com que o garoto estudasse algo como História e depois se pós-graduasse em Mitologia em geral. O chinês dizia que até tinha interesse, mas não sabia ainda o que ia estudar.

Calíope voltou do congresso mais agitada do que nunca. Não parava na escola e com a aproximação da formatura, estava se sobrecarregando. Quando pensava no roubo das provas, ficava aflita, mas logo surgia outro problema para resolver.

A situação amorosa dos garotos estava bem para quem tinha namorada. Aioria e Marin estavam se entendendo como nunca, o mesmo acontecia com Shina e Shura, embora a garota ainda ficasse constrangida na frente de Afrodite, era uma situação que o sueco tinha de aceitar. Dohko e Lígea estavam saindo sozinhos juntos, mas o chinês comentava sempre com os colegas que não acontecia nada. Estava preocupado se aquilo tinha se tornado uma grande amizade e que os desejos da paixão tivessem se esvaído. Miro explicou para ele que era realmente importante uma base forte para um relacionamento duradouro. Ele então resolveu esperar um pouco mais. Kamus não estava sabendo lidar direito com o que tinha descoberto e assim que podia, se esquivava de Anisah. Mas não era por maldade. Era porque não entendia os "fenômenos pelos quais estava passando". Como Anisah conseguia entender o rapaz, não ficava chateada. Apenas não queria passar a vontade que passava, sabendo que o seu sentimento era recíproco. Miro ainda não tinha conseguido falar com Calíope desde então. Todos começaram a provocá-lo, afinal, até Kamus já estava meio encaminhado.

Aioros não passava de um pobre coitado. Numa aula de Educação Física se empenhou tanto num chute que acabou acertando a sua tão sonhada Ísis com a bola de futebol.

-Esse menino é um perigo para a sociedade! Não sei como ele ainda não se matou! – Disse ela deixando a quadra amparada por suas amigas.

Shaka e Nínel começaram a andar de mãos dadas pelo colégio, mas ele jurava que não a tinha beijado ainda.

-Shaka, você quer que eu passe super-bonder na sua boca e na hora que a Nínel passar eu te empurro na direção da boca dela?

-Aioria! Pega leve com o Shaka! Já não falei que ele tem o tempo dele?

-Mas é tempo DEMAIS! O cara precisa tomar uma atitude! Daqui a pouco o Kamus cata a Anisah e ele fica para trás!

-Agora isso virou competição pra ver quem beija mais rápido, Aioria?

-Marin, o Shaka é O cara depois de mim. Ele precisa ser O cara no amor também, pra se igualar a mim! Ele é o irmão que eu nunca tive!

-Mas você tem um irmão, Aioria. – Disse o indiano.

-Mas meu irmão me envergonha nessa parte! É um desastre! Você tem tudo pra ser O cara, Shaka! Lógico, depois de mim.

Marin não sabia se ria ou se chorava com os comentários do namorado.

Aldebaran continuava na dele, como sempre. Não falava de garotas. Vez ou outra comentava da "amiga brasileira" que estava vendo se conseguia vir para a sua formatura.

A dupla dinâmica continuava apavorando garotinhas mais novas, entretanto, se a idéia agradava Máscara da Morte, Kanon se sentia meio mal. Procurava algo mais. Suas investidas em Nix até que estavam dando certo. Deixava tudo pairar no ar, como a professora. Um dia, em um intervalo entre a aula de Pintura e Esgrima, ele a convidou para sair. Ela disse que aceitaria o convite se ele esperasse até a formatura. Desde então, as baladas perderam a graça, pararam de fazer sentido.

Mas a complicação maior era do triângulo amoroso entre Saga, Mu e Kia. Os três estavam sozinhos. Mu estava sendo muito julgado nas últimas semanas e só tinha o apoio de Aldebaran. Saga, que ficou sendo a vítima, estava com mais contatos do que nunca, mas tinha parado de falar mal da ex-namorada. Era melhor não falar dela. Quem sabe assim, o sentimento que ainda nutria por ela, terminava logo. A árabe ficou completamente isolada dos garotos. Foi instalado contra ela um medo enorme,tanto que nenhum menino chegava perto. Chegaram até fazer analogias sobre a roupa de vampira que usou na festa à fantasia do colégio. Estava contando mais com as meninas do que nunca.

Os garotos da comissão de formatura chamaram um fotógrafo, precisavam registrar os últimos momentos dos alunos do terceiro ano na escola. Tiraram a fotografia com todos os alunos reunidos e depois outra, somente com os treze amigos inseparáveis.

Foi então que na última quarta-feira de julho surgiu a brecha que Miro precisava para conversar com Calíope sobre o autor do roubo das provas. Subiu para a classe e deixou seu material em cima da carteira.

-Ué, Dohko, você viu o Kamus?

-Ontem à noite ele me ligou para saber se eu tinha toda a matéria de Mitologia copiada, eu disse que sim. Mas ele estava péssimo.

-Péssimo? Péssimo como?

-De saúde. Tossindo, acho que ele não vem pra aula hoje, Miro, estava bem malzão mesmo.

-Tudo bem então.

Miro se sentou em seu lugar e logo Kim entrou na sala, sempre pra cima. Afrodite apareceu logo depois. A aula começou.

"É hoje... É hoje que o autor vai ser descoberto."

Esperou até o intervalo ansiosamente. Quando o sinal tocou, saiu em disparada atrás de Kanon e Máscara da Morte. Os três seguiram juntos para a orientação.

Miro bateu à porta de Calíope e quando esta abriu a porta, notava-se que estava extremamente perturbada. Quando o viu acompanhado da dupla, fechou-se a expressão do seu rosto.

-Nós viemos te trazer as notícias sobre o roubo.

Na hora seus olhos se encheram de curiosidade. Pediu que entrassem e se acomodassem. Sentou atrás de sua mesa, seu lugar de sempre.

-Podem começar a falar, se quiserem.

-Melhor a senhorita chamar o diretor Shion para cá. Assim não teremos de repetir a história mais de uma vez. – Sugeriu Kanon.

Calíope os olhou desconfiada.

-E pode chamar um investigador da polícia. – Acrescentou Máscara da Morte.

-Então vejo que já têm todas as provas concretas nas mãos. – Disse ela enquanto discava o ramal de Shion.

-Sim, o negócio é bem sério.

-Alô, Margaret, avise ao Shion que estamos subindo até a sala dele. Eu e mais três alunos.

Ela colocou o telefone no gancho.

-Vamos. Já perdemos tempo demais.

Os quatro subiram juntos de Calíope até a sala de Shion. Dava um frio na barriga de qualquer aluno que tivesse que passar por a grande porta para a diretoria. Miro ia à frente e estava confiante. Kanon e Máscara da Morte estavam se sentindo um pouco intimidados por causa da situação.

-E se não levarem a gente a sério, Kanon?

-Vão ter que levar, temos todas as provas, Mask. O que vai dar errado?

-Sei lá, né...

-Pense assim, estamos provando nossa inocência.

Máscara da Morte olhou para frente. Kanon olhava para o teto, para as paredes todas em estilo clássico.

O senhor de olhos cor de violeta e cabelos compridos verdes abriu a porta. Já estava os esperando. Aos ver os três garotos olhou para Calíope confuso.

-Mais suspensão, Calíope? Essas crianças devem ser possuídas! Não é possível!

-Não, senhor Shion, viemos para falar do roubo. Eles disseram que sabem quem foi o autor.

-Esses três? – Shion os olhou sem dar crédito. – Calíope, tenho mais o que fazer!

-Sim, eu sei. E se for alguma espécie de brincadeira deles, nós vamos os expulsar. – Falou a grega com firmeza.

Os três se entreolharam.

-É sério, senhor diretor! – Arriscou Miro – O que viemos falar é muito importante!

-Então, vamos logo com isso. Quero ver se o que vocês tem a dizer é mesmo verdade.

Os quatro entraram na sala. Shion mandou buscar mais duas cadeiras. Logo estavam todos acomodados.

-O que estão esperando para começar? – Perguntou o diretor irritado.

-É... Melhor o senhor ligar pra polícia. – Dessa vez quem falou foi Máscara da Morte.

-Hum... – Shion discou para o investigador – Agora já estou sentindo mais firmeza.

Falou com o investigador e desligou. Cruzou os braços e encostou-se na cadeira. Calíope cruzou as pernas e permanecia observando os três alunos. Levou Miro ao delírio. Ela estava usando saias.

-Quem é que vai começar a falar então?

-É melhor esperarmos o investigador chegar. – Disse Kanon prudentemente.

Hipérion chegou na Escola do Zodíaco rapidamente. Sua entrada foi autorizada e logo subiu as escadarias com pressa. Chegou até a sala de Shion exausto. Bateu a porta. A orientadora abriu. Era jovem, aparentava ter menos de 40 anos, tinha olhos verdes, vivos, pareciam sempre estar em alerta. Cabelos curtos e negros.

-Bom dia, senhor Shion. Em que posso servi-lo?

-Bom dia, investigador Hipérion, houve um roubo de provas aqui neste colégio no mês de outubro do ano passado. Além das provas foram roubados as chaves reservas do carro do professor, documentos e o cheque com o pagamento do mês.

-Minha nossa, mas por que não notificaram a polícia na época? Como deixaram isso passar?

-A culpa foi minha. – Calíope entrou na conversa – Eu pedi a Shion que não envolvêssemos a polícia no caso, pois não queríamos escândalos, além do que, achávamos que íamos conseguir encontrar o culpado nós mesmos.

-E conseguiram, pelo menos? São estes três? – O investigador apontou para Miro, Kanon e Máscara da Morte.

-Não, eles dizem que sabem quem foi. – Respondeu a orientadora.

-Interessante. E por que ficaram calados esse tempo todo se sabiam quem era o criminoso?

-Não sabíamos. Descobrimos há pouco tempo, mas aí a senhorita Calíope viajou e só pôde nos atender agora. – Respondeu Máscara da Morte.

-Já que tinham descoberto, deviam ter avisado a polícia, não acham? – Hipérion olhou diretamente nos olhos do aluno italiano.

-Sabe que, que é, cara, a gente não ia fazer isso sem a autorização da orientadora, como ela mesma disse, não queria escândalo.

-Qual é o seu nome, rapaz?

-Kanon.

-Ótimo, Kanon. Eu sou uma autoridade. Não me chame de "cara" pois posso prendê-lo por desacato.

-Prisão de novo não!

-Ora, ora então você já foi preso?

Miro e Kanon olharam feio para o italiano.

-Sim, investigador Hipérion, Kanon e Máscara da Morte já foram indiciados por estelionato. – Disse o diretor Shion em tom de desânimo.

-Que documentos eles falsificaram? Espero que não sejam suas identidades. – Ele disse em tom de deboche.

-Não. Falsificaram os boletins de quase todo o colegial. – Disse a orientadora enérgica. Quando se lembrava do episódio tinha altas dores de cabeça.

-E foram soltos? Mas que raio de lei é essa?

-Eram réus primários. – Shion mudou de posição na cadeira.

-Bom saber que ex-presidiários estão liderando a descoberta do autor do crime do roubo. Ainda mais de provas.

-O que o senhor quer dizer com isso? – Perguntou Kanon.

-Quero dizer que vocês podem muito bem ter achado alguém para simplesmente colocar a culpa.

-Não! Nós já nos envolvemos em problemas demais! Estamos nisso pra não nos ferrar mais! – Se exaltou Máscara da Morte.

-Tome cuidado com o jeito que fala comigo também rapaz. – Hipérion olhou profundamente para os olhos do italiano antes de se virar para Miro. – E este aqui, que não fala nada?

-Esse é Miro, investigador – Calíope docemente – Está comigo investigando desde o início. É um aluno brilhante.

-Aluno brilhante... Sem antecedente nenhum?

-Completamente isento de culpa.

-Bom, então, vamos começar com as explicações.- Hipérion tirou o gravador da bolsa que levava consigo e o colocou em cima da mesa. - Vou gravar todos os depoimentos. Podem falar. Quem vai ser o primeiro?

Os três garotos se olharam novamente. O clima estava ficando tenso. Ninguém se decidia.

-Como é? Me fizeram chamar a polícia e não vão dizer nada? – Shion começou a se irritar – Ótimo, comece você, italiano.

-Mas por que eu? Eu achei que o Miro que fosse começar, ele que iniciou a investigação!

-Vocês não acham que estão enrolando demais? Senhorita... Como é mesmo seu nome?

-Calíope.

-Vou levar os três comigo para a delegacia. Meu tempo é precioso demais. Enquanto estou aqui, existem pessoas cometendo crimes.

-Está bem, vou começar. – Miro começou a ficar nervoso com a pressão – Nós temos um professor, Eugeu, ele nos ensina Grego.

-Então devemos chamar o professor também.

Calíope quase teve um ataque nervoso. Como tinha esquecido de chamar o professor? Em poucos minutos, Eugeu entrou na sala, encarando os três alunos.

-Bom dia, em que posso ser útil?

-Bom dia Eugeu, os garotos vieram falar sobre o roubo das provas.

-Resolveram assumir o crime? Mas... Até você, Miro?

-Se acalme Eugeu, eles disseram que vão esclarecer tudo. – Calíope dizia isso para o professor, mas ela mesma estava tentando se acalmar.

-Pode prosseguir, Miro.

-Bom, o professor Eugeu é uma pessoa muito severa e muito exigente. Nós ficamos muito preocupados quando fizemos o teste surpresa dele e conseqüentemente todos fomos mal.

-Foram mal, pois não sabiam a matéria. Não estudam, não prestam atenção nas aulas, conversam paralelamente. Este só podia ter sido o resultado.

-Miro, prossiga.

-Então, aí, nós nos reunimos para discutir o resultado da prova, Kanon e Máscara da Morte deram a idéia de roubar as provas do colégio.

A dupla olhou perplexa para Miro.

-Você não precisava contar esse detalhe! – Protestou Kanon.

-Sabia que você ia nos ferrar! – Máscara da Morte ficou injuriado.

-Vocês não aprenderam a ficar quietos quando uma outra pessoa está falando? Estão lidando com a polícia, precisam falar a verdade. Vejo que este rapaz, Miro, é muito sincero.

-Não é tanto assim!

-Quieto, Kanon! – Calíope disse rispidamente – Deixe o Miro continuar.

-Eles seguiram o professor Eugeu até a sala dos professores e enquanto Kanon observava o número do armário dele, Máscara da Morte forjava uma dúvida de Literatura com o professor Platão.

-Melhor chamar esse tal de Platão aqui.

E lá foi Calíope novamente chamar o professor que faltava. Platão chegou um pouco nervoso na sala onde todos estavam. Se sentou em uma das cadeiras disponíveis. A orientadora aproveitou para passar em sua sala e pegar a pasta com a ficha dos alunos do terceiro ano, pois assim, evitaria outro transtorno.

-Então, Máscara da Morte forjou uma dúvida de Literatura para ajudar Kanon a descobrir o número do armário do professor Eugeu?

-Se ele forjou ou não, senhor investigador, não posso dizer, mas que no dia anterior ao crime ele me procurou, procurou.

-Certo.

-Mas acho que infelizmente não vou poder ajudar na investigação.

-Mesmo assim, gostaria que o senhor ficasse por aqui.

Assim Platão fez.

-Continue, Miro. – Pediu Shion.

-Esperem. Antes do garoto prosseguir com o relato, existe mais alguém que deve estar presente neste momento... Especial, Miro? – Perguntou Eugeu.

-Acho melhor trazer Dohko e Afrodite para cá.

-O sueco, Miro? – Calíope ficou intrigada.

-Sim, ele mesmo.

-Vou buscá-los.

Calíope desceu correndo as escadas pela quarta vez, já atordoada. Invadiu a sala B sem pedir licença a Aristóteles.

-Afrodite e Dohko, por favor, queiram me acompanhar.

Os dois se olharam assustados.

-O que foi que eu fiz? – Perguntou o chinês preocupado.

-Não façam perguntas, apenas me acompanhem.

Os garotos se levantaram arrancando olhares da sala toda. Foram até a sala de Shion em silêncio e se assustaram quando viram Miro, Kanon e Máscara da Morte reunidos com Eugeu, o próprio diretor, Platão e o investigador da polícia. Afrodite olhou diretamente para Hipérion, sentindo arrepios. Dohko não estava entendendo nada.

-O que vocês três estão fazendo aqui? – Perguntou o chinês agoniado – O que nós estamos fazendo aqui?

-Sou eu quem faz as perguntas nessa sala. – Disse o investigador. – Quais os nomes de vocês?

-Eu sou Dohko.

-Afrodite.

Hipérion encarou os olhos do sueco. Parecia um garoto muito frágil. Notou que ele estava com muito medo.

-Mais alguém, Miro?

-Podiam chamar o Kamus. – Arriscou Kanon.

-Kamus faltou. Está doente. – Disse Dohko enquanto se sentava.

-Mais alguém?

-Não.

A sala de Shion estava cheia e o nervosismo que pairava por lá era quase palpável.

-Continue, Miro, de onde parou.

-Estávamos todos reunidos.

-Quem são todos?

-Mu, Aldebaran, Saga, Kanon, Máscara da Morte, Aioria, Shaka, Dohko, eu, Aioros, Shura, Kamus e Afrodite. Kanon e Máscara da Morte deram todas as coordenadas para a execução do plano. Poderia ter sido qualquer um. Até eles mesmos.

Afrodite congelou junto de Dohko. Finalmente perceberam que estavam falando do roubo.

-Então devemos trazer todos para cá.

-Não, não é preciso. O ladrão está entre nós.

O sueco e o chinês começaram a tremer.

-Como chegou a essa conclusão, rapaz?

-Pelos motivos que teriam para roubar as provas. Kanon e Máscara da Morte começaram uma investigação por conta própria e mais tarde vieram conversar comigo. Os dois tinham reunido uma boa quantia de evidências e como eu tenho contato com a orientadora, me procuraram e juntos fizemos um estudo sobre o caso.

A dupla foi tirando de suas mochilas o que tinham e depositando sobre a mesa.

-A palavra agora é de vocês, Máscara da Morte e Kanon.

-Fizemos a reconstituição da cena do crime. Chegamos à conclusão de que o ladrão invadiu a escola tarde da noite, correu para a sala dos professores, abriu o armário do professor Eugeu e roubou todo o conteúdo que lá tinha. Como a escola é protegida por alarmes, a pessoa que roubou se assustou com o barulho da sirene e pegou tudo para não cometer enganos. Na correria de volta, trombou com as estátuas e as quebrou. Driblou os seguranças, correu para a quadra de esportes, jogou os envelopes para fora da escola e usou a vara de salto em altura para sair do colégio pulando o muro. Na hora do pulo, sobrou um pedaço da roupa que o ladrão vestia. – Contou Kanon.

-Bom, até aí, pode ter sido QUALQUER um desses treze.

-Sim, senhor investigador – Máscara da Morte disse com todo o cuidado – Mas um dia, Kanon e eu estávamos cumprindo uma detenção aqui no colégio e precisávamos ficar até o começo da noite. Foi aí que vimos o ladrão em ação.

-Viram o ladrão agindo e não procuraram a polícia?

-Claro que não. Ele estava todo encapuzado, não dava para ver quem era. Vimos apenas os olhos dele e que ele era um homem. Os olhos pareciam ser azuis, grandes e brilhantes.

-Não se esqueça da altura dele, Mask.

-Ah sim, ele não era alto. Então podemos descartar Aldebaran da jogada. Ele tem 2 metros de altura. E Shura também está fora, pois ele tem olhos pequenos e escuros, como o senhor pode observar na foto.

Calíope entregou a foto de grupo dos rapazes do terceiro ano. Depois, o investigador pegou as fotos que a dupla havia tirado.

-Boa observação, mas temos uma infinidade de pessoas com olhos claros aqui nessas fotos.

Dohko e Afrodite permaneciam quietos.

-Sim, mas agora, vamos aos motivos.

-Prossigam.

A dupla sentiu que estavam ganhando a confiança de Hipérion.

-Todos tinham motivos. Na nossa discussão após a prova, afrontamos Mu e Saga, chamando-os de covardes.

-E por que vocês dois próprios não executaram o plano se tinham tudo nas mãos?

-Porque os outros começaram a nos chamar de malucos, falaram que iam nos dedurar. Enfim, botaram uma banca enorme em cima da gente. Ficamos receosos.

-Certo, então, vamos começar a ser práticos agora?

-Claro. Como te disse, todos tinham motivos, a começar que ninguém gosta de nota baixa, mas a partir daí, começamos a pensar nas personalidades dos caras... Digo, dos outros amigos.

-Mu, apesar de ter se ofendido com nosso comentário, já foi inocentado.

-Como?

-O garoto do Tibet tinha uma jaqueta rasgada, preta. Nós conseguimos a prova e trouxemos para a orientadora. Ela comparou o pedaço que tinha com o tecido da blusa e não conferiu. Logo, não pode ter sido ele.

-Como é que vocês conseguiram essa prova?

Kanon e Máscara da Morte perceberam o fora que tinham dado.

-Hipérion, vamos prosseguir com o assunto do roubo das provas? Eu estou doido para saber com quem estão os meus 800 euros.

O investigador não engoliu muito bem a história, mas decidiu dar continuidade. Depois voltaria àquele assunto.

-Certo... Então não é o garoto da cabeleira roxa. Vamos, continuem.

-Meu irmão... – Kanon respirou fundo – Não teria outro motivo a não ser responder à minha provocação, pois sempre foi ótimo aluno. E vai bem da matéria.

-E isso não seria um ponto a favor para o seu irmão fazer isso, Kanon?

-Poderia até ser, senhor investigador, mas meu irmão não procura se meter em encrencas. Inclusive, ele só entrou no rolo com as falsificações porque eu insisti.

-Então ele também teve parte neste acontecimento?

-Quase que o colegial todo teve parte disso, mas nós já assumimos a culpa, nós que fizemos o comércio e pagamos por isso.

-O Saga vive brigando com Kanon por causa das coisas que ele apronta junto comigo. – Máscara da Morte veio em defesa do amigo.

-Continuando o assunto do roubo, Shaka, o indiano loiro, nem pisca nas aulas e é muito correto. Ah é, verdade, Shaka não participou da falsificação dos boletins.

-E este garoto moreno, de cabelos castanhos claros e olhos esverdeados?

-Aioria. O Aioria tem personalidade forte é orgulhoso e convencido, mas é muito impulsivo. Estoura com facilidade, se fosse pra ele executar a idéia, jamais teria a paciência e meticulosidade que teve o verdadeiro culpado.

-Olha, para quem é péssimo em Grego, vocês dois são muito inteligentes. – Disse Eugeu admirado.

Embora tivessem gostado do elogio, a dupla permaneceu séria.

-Miro, agora é melhor você falar do pessoal da sua sala.

Afrodite e Dohko estavam pasmos. Depois dos relatos de Kanon e Máscara da Morte, o ladrão só poderia ser da sala deles. E pelo andar da carruagem, poderiam ser acusados a qualquer momento.

-Segundo o raciocínio de Kanon e Máscara da Morte, Aioros, irmão de Aioria não poderia ter sido. Ele é extremamente desajeitado e imprudente.

-Mas e as estátuas quebradas?

-Também pensamos que ele poderia estar envolvido nessa história, mas depois constatamos que as estátuas quebradas foram conseqüência de um ato de desestabilização do culpado. Quem conhece Aioros sabe que ele seria INCAPAZ de fazer tal façanha e não ser pego. Ele destruiria todo o colégio... Sozinho.

-Ainda não me convenceram.

-Bom, se o senhor estiver duvidando disso, pergunte ao Dohko e Afrodite se eles realmente acreditam que tenha sido o Aioros. Eles ainda não se manifestaram.

Hipérion se levantou da cadeira que ocupava e caminhou até os dois. Tanto o chinês quanto o sueco suavam frio. Afrodite notou que o policial estava armado.

-Podem confirmar o que o Miro diz?

-Sim... O Aioros só faz e fala besteiras. Não ia conseguir sair ileso dessa situação. Seria pego ao entrar no colégio. Ele é barulhento.

-E você? – O investigador encarou Afrodite. O sueco apenas respondeu positivamente com a cabeça.

-Pode prosseguir, Miro. Mas ainda quero conversar com este rapaz.

-Temos o Dohko, como o senhor está vendo, mas ele não seria capaz de fazer algo tão sórdido. Além do mais, ele é calmo e equilibrado. Kamus também é muito correto. Detesta fofocas e olhem as notas dele, são fantásticas. Nunca se ouviu uma reclamação dele durante as aulas.

Na mesma hora, Dohko olhou para Afrodite.

-Então, só me resta dizer que o culpado de tudo é o Afrodite.

Todos olharam para o sueco no mesmo momento.

-Eu?? Miro, você... Você só po-pode estar brincando! Não me acuse! Eu-eu nã-não fiz nada!

-Miro, por que acusa o Afrodite? – Hipérion perguntou com calma, enquanto coçava o queixo.

-Afrodite é um menino quieto, sem amigos, cheio de complexos, que perdeu a namorada para um colega nosso de classe, sempre tentou se aproximar da gente e nunca conseguiu. Vai negar?

-Não! Isso eu não posso negar! – Afrodite já estava visivelmente alterado – Ma-mas isso, isso não me-me faz o autor do roubo da-das provas!

-Dohko, lembra quando me disse que o Afrodite comentou contigo sobre o rolo das provas?

A mente de Dohko deu um estalo. Se lembrou do dia em que se reuniram na casa de Aioros e o sueco fez sim um comentário comprometedor. Arregalou os olhos.

-Miro... Eu não... Eu não acho que tenha sido ele...

-O que foi que ele te disse, Dohko? O que foi mesmo?

O chinês olhou para Afrodite. Os olhos do sueco estavam transbordando de pânico.

-Dohko, se você o encobertar, será pior para você – Advertiu Hipérion – Será acusado de cúmplice e falso testemunho.

O chinês encarou a todos. Primeiro a dupla dinâmica, depois Miro, o investigador, Eugeu, Platão, Calíope e por último o diretor Shion.

-Dohko... – Afrodite implorava com o olhar para o chinês não confirmar as palavras.

O destino do sueco estava em suas mãos. Se pudesse, sairia correndo daquele lugar o mais depressa possível e não responderia nada.

-Cara, de boa, vai ser pior pra você se você mentir... – Disse Máscara da Morte preocupado.

-Você vai querer levar a culpa junto com ele? – Kanon cruzou os braços.

Dohko levou as mãos às têmporas. Não conseguia pensar sob aquela pressão. Respirou fundo de olhos fechados. Quando os abriu, grossas lágrimas tinham se formado em suas pálpebras inferiores. Decidiu então o que fazer.