3. Buscando a liberdade através de uma fuga
No dia seguinte, Valey acordou muito bem disposta, para ela aquele era um dia muito especial. Quando desceu para tomar café, viu que havia um grande arranjo de flores sobre a mesa. Margaret apressou-se em dizer:
-Foi o senhor Dreik quem mandou para a senhorita. E também há um cartão. – Valey pegou o cartão junto das flores e leu:
" A minha querida noiva e futura esposa, de seu noivo que é perdidamente apaixonado por você, Dreik."
-Realmente é a coisa mais linda que eu já vi. – disse Valey tentando disfarçar o deboche em sua voz.
-Senhorita, seu pai está realmente ansioso com esse jantar. Comentou que vai convidar mais alguns amigos.
-Como ele pôde?! – disse Valey, contendo-se no momento em que raciocinava melhor. – Quer dizer, claro que ele pode. Quero que meu noivado com Dreik seja conhecido por todos, Margaret.
-Por um momento, pensei que não havia gostado, Srta.
-Foi porque pensei que seria algo muito íntimo, mas acho melhor que todos tomem conhecimento.
-A senhorita está mudada, pensei que não se casaria mais com o Sr. Dreik. Mas talvez sua finada mãe a tivesse feito perceber que assim seria melhor.
-Coisas que fiz, faço e farei são justamente por minha mãe, Margaret.
-Do que está falando, senhorita?
-Na hora certa você saberá.
Valey mal podia esperar pela noite e pelo jantar de reconciliação. Realmente, passou o dia tão ansiosa a ponto de despertar um comentário de seu pai, retribuiu com um sorriso simpático. Para que aquele dia parecesse mais curto, ela passou o dia na biblioteca sozinha, em meio a lembranças e lendo sobre temas diversos. Na hora do almoço, seu pai comentou sobre os amigos que havia convidado, poucos, apenas os mais chegados.
-Fico feliz, meu pai. Pena que foi algo decidido de imediato, porque se não eu teria dado uma grande festa. Contudo estava ansiosa para reatar com o senhor Dreik.
-Eu que fico feliz ao vê-la tão agitada.
-O senhor nem pode imaginar o quanto. – disse Valey deixando o Sr. Field muito satisfeito.
Naquela tarde, Valey cuidou dos preparativos com relação a sua aparência, até pediu ajuda a Margarett para escolher o vestido, o penteado, o perfume. Tudo nos mínimos detalhes, pois para ela aquela noite seria perfeita. Quando o relógio bateu as 19h, Valey comunicou a seu pai:
-Subirei agora, meu pai. Está na hora de eu me arrumar para a chegada de meu noivo. – E olhando para Margarett – Margarett, pode me acompanhar, preciso de sua ajuda.
-Claro, srta. Com licença, senhor.
-As damas da casa tem toda.
Assim, as duas subiram as escadas. Valey estava nervosa, esse era um fato, mas nada a impediria. Margaret pediu aos criados para prepararem o banho de Valey e lá estava ele, no meio do quarto cheio de pétalas de rosa, já que ela precisava estar bem perfumada para aquela noite. Naquele momento, Valey percebeu que precisava contar a Margaret sobre o que aconteceria depois que seu noivo chegasse, já que ela era a única pessoa de confiança naquela casa.
-Margaret, preciso falar sobre algo muito importante com você.
-Senhorita, se quer dicas sobre seu noivado e casamento, posso lhe dar algumas, pois já fui casada.
-Eu não vou me casar, Margaret! – disse Valey não suportando mais.
-Como não vai?! – disse Margaret surpresa – E esse jantar que você mesma marcou para reatar o noivado? O quê seu pai vai dizer?
-Se ele disser algo, já não vou estar aqui para ouvir.
-Não estou entendendo, senhorita.
-Vou explicar. Lembra que algumas horas antes de morrer, minha mãe me chamou no quarto para conversar.
-Lembro, mas o quê isso tem haver com o seu noivado?
-Eu vou lhe contar com detalhes.
Na sala, o Sr. Field degustava um cálice de vinho. Estava á espera de seu futuro genro e via que se aproximava a hora dele chegar. O relógio marcava 19:20h e mesmo sendo cedo, a mesa já estava posta, havia candelabros, vasos floridos. De repente, a campainha tocou, o próprio Sr. Field atendeu, já que Margaret estava ajudando Valey. Eram os amigos que ele havia convidado:
-Boa noite, senhores. Fico feliz que tenham vindo.
-Boa noite, Claus. Nós estamos muito felizes por você, realmente esperamos realmente que esse casamento saia.
-Vai sair, mas estamos esperando o noivo. – disse ele arrancando risadas dos convidados. E ao mesmo em que ouvia-se uma outra batida na porta.
-Deve ser a família Dower. – disse o Sr. Field abrindo a porta.
-Boa noite, senhor Field – disse Dreik á frente acompanhado de seus pais.
-Boa noite, fiquem á vontade, será uma ótima noite. – disse ele enquanto todos sentavam.
-Quando poderei buscar minha querida noiva.
-Ainda é cedo, poderá ir quando for 19:45h, aí acho que ela já estará pronta, sabe como são as mulheres.
-Mal posso esperar.
No quarto de Valey, Margaret não podia acreditar no que acabara de ouvir.
-Senhorita, essa história é impressionante. Não pode ser real.
-Mas é real e agora eu me orgulho que seja.
-Eu nunca pude imaginar que a sua mãe... Bem, mas o que pretende fazer, senhorita? Deve ser insuportável para a senhorita conviver com isso.
-Até que não, Margaret. Fico muito feliz em saber dessa história.
-Que a senhorita esteja feliz, eu posso compreender. Mas o que fará com relação ao seu noivo? Ele com certeza está lá embaixo esperando que a senhorita o chame para que ele venha pegá-la para que desçam as escadas juntos e reatem o noivado. Esta é uma situação muito séria.
-Eu já pensei em tudo, Margaret. – e Valey foi até seu guarda-roupa de onde tirou vária peças de roupa e outros objetos – É isso que vou usar hoje e não esse vestidinho de mocinha.
-Mas senhorita, isto são roupas .masculinas. E isto aqui é... como conseguiu isso?
-São armas, Margaret. São do Sr. Field, eu as roubei do acervo pessoal dele junto com a munição e as roupas, bem... também são dele, tenho certeza que não sentirá falta delas.
Margaret olhou para as roupas, a calça, as botas e pensou por um instante o que aquela menina estaria pensando em fazer.
-Senhorita, o que pretende fazer com tudo isso? – perguntou Margaret temendo a resposta.
-Eu vou fugir, Margaret. – repondeu Valey com firmeza – E você vai me ajudar.
-Eu?! O que posso fazer, senhorita?! – ela estava muito surpresa e assustada.
-Eu não posso ficar aqui depois de tudo que já soube. Eu não passo de um investimento e não suporto que aquele Dreik me toque. Você, Margaret, vai fazer o seguinte: ás 20h está marcado o jantar, eu disse que quero descer as escadas com o Dreik. Então, cinco minutos antes, com certeza, ele subirá para me pegar, mas já vou estar correndo e a uma boa distância desta casa. O que você vai fazer é descer e avisá-lo que já estou pronta.
-Para onde vai senhorita? Como vai viver?
-Eu tenho algum dinheiro que minha mãe me deu, será suficiente, pois preciso fazer uma longa viagem. Por favor, Margaret, preciso da sua ajuda. Você sempre foi como uma segunda mãe para mim.
-Certo, senhorita. Vou ajudá-la a vestir essas roupas e como escapará sem que ninguém a veja?
-Eu tenho uma corda, descerei pela janela. Quando chegar no chão correrei o mais rápido possível e pegarei um cavalo.
-Senhorita e pra quê as armas?
-Quem me ver nessas roupas não me reconhecerá e você deve estar se perguntando como tenho armas se supostamente não sei atirar. Mas sei, quando era menor, tinha grande curiosidade em pegar nestes objetos e toda vez que íamos para o campo eu aproveitava para manejar as armas e assim aprendi a atirar.
-Eu não contarei nada senhorita, mas rezarei para que a senhorita fique bem. Sua mãe a protegerá.
-Obrigada Margaret, temos que ser rápidas. Estou me assegurando que tudo isso não prejudicará você.
Assim, Margaret ajudou Valey a vestir as roupas e para disfarçar o cabelo longo ela fez uma longa trança e a escondeu por baixo da capa. No andar de baixo, Dreik começava a impacientar-se, estava muito ansioso para reatar com a sua noiva.
-Por demora tanto? – perguntou Dreik ao senhor Field.
-O amor é realmente impaciente. Calma meu futuro genro, a qualquer momento, Margaret que está ajudando Valey a se aprontar virá e avisará quando você poderá subir e então...chegará o momento que todos aqui esperam.
Todos riram á medida em que viram Margaret descer as escadas.
-Senhor Dreik, Valey está pronta. Ela pediu que eu viesse avisá-lo para que o senhor suba as escadas e a busque. Ela me disse que está ansiosa por este momento.
-Chegou a hora. Eu já estou indo. Com licença.
Dreik subiu as escadas até chegar ao quarto de Valey, pensou por um instante no que diria a ela, ou se entraria e a beijaria como tinha certeza que ela nunca havia sido beijada. " Quem sabe com isso ela se apaixone", pensou ele rindo. Aproximou-se da porta e deu uma leve batida.
-Valey, meu amor, você está pronta. – disse ele com uma voz suave – Estou ansioso por isso, querida, mal posso esperar para tê-la em meus braços. Eu vou entrar.
E ele abriu a porta e...não viu absolutamente nada nem ninguém. Á princípio ficou surpreso mas depois nervoso.
-Valey, onde está você?! Responda agora! Vamos! Temos que reatar este noivado!
Foi então que viu, uma corda feita de lençóis que descia até a rua. Foi aí que Dreik perdeu o controle, mas não o suficiente para não notar uma carta em cima da cama com a caligrafia de Valey. A pegou e leu-a rapidamente, o que estava escrito aumentou a sua fúria. Desceu as escadas e surpreendeu a todos com seus gritos:
-Whaleuskha Field acaba de fugir! Encontrei isto no quarto dela! Ela pulou pela janela e me deixou a ver navios! Eu sabia que ela não queria reatar o noivado, mas ainda tinha esperança que aquela louca pudesse reconsiderar! Mas agora vejo que a sua filha, Sr. Field desceu mais baixo do que eu pensei!
-Dreik, se acalme! – falou o Sr. Field, ainda sob impacto – Agora fale devagar, o que houve?
-Eu fui ao quarto de Valey como a sua governanta disse que ela queria, cheguei lá, bati, mas não obtive resposta, então decidi entrar, mas olhei e não vi Valey. Foi então que fui á janela e vi uma corda de lençóis e esta carta! Tenho certeza que ela tinha tudo planejado! E se o senhor ler esta carta ficará tão indignado quando eu! Ela fugiu, Sr. Field! Fugiu do compromisso!
O Sr. Field estava pasmo com a notícia mas estava muito envergonhado por causa dos convidados.
-Bem, Claus, acho que já não temos mais nada o que fazer aqui, não é? Então, minha esposa e eu vamos embora. – disse um dos amigos do senhor Field.
-Não, esperem! Nós podemos resolver isso, peço para que fiquem. – pediu ele.
-Não é necessário, Claus. Afinal, a sua filha fugiu e ela era essencial para esta ocasião. Já que não vai ter mais noivado, não temos mais nada o que fazer aqui. Boa noite. – disse o amigo com tom de deboche se dirigindo á porta.
-Eu os acompanho – disse o Sr. Field, com muita vergonha.
Foram até a porta e quando Field se virou, viu que a família Dower também queria ir.
-Isto é lamentável, Claus. Uma grande vergonha. Agora vejo que a sua filha não era mesmo normal nem bom partido para meu filho. E todos os nossos amigos saberão disso e á propósito não é preciso muito esforço, porque um escândalo deste se espalha rápido. Amanhã, com certeza todos ficarão sabendo. Boa noite, quero dormir para esquecer este incidente. – disse o pai de Dreik com firmeza, ele estava muito zangado.
-Meu filhinho não merecia isso! – rebateu a mãe de Dreik – Não precisa nos acompanhar quero distância desta casa! Vamos, querido. Dreik! Vamos embora! Agora mesmo!
-Eu já vou, mamãe, quero ficar mais um pouco para conversar com o Sr. Field sobre tudo isso. Mas quero que vocês saibam que eu não desistirei de Valey. É ela que eu amo! E mesmo que isto tenha acontecido, eu me casarei com ela de qualquer jeito!
-Falaremos sobre isso depois, Dreik. – disse o Sr. Dower com firmeza e seriedade saindo junto com a sua esposa da casa.
Vendo-se a sós, Dreik disse ao Sr. Field:
-Como isso pôde acontecer?
-Eu não sei, Dreik. Mas colocarei todos os homens desta cidade atrás dela! Ela não escapará assim tão fácil! Se casará com você nem que eu tenha que obrigá-la a dizer sim!
-Leia a carta que ela deixou. Podemos procurá-la mas não será fácil, de qualquer maneira eu me casarei com ela!
-Onde está a carta?
-Aqui senhor. – disse Dreik entregando-a para o Sr. Field.
Ele a pegou e ficou chocado, estava escrito:
" Meu querido e insuportável pai e mais insuportável noivo, gostaria de dizer-lhes que o clima nesta casa está horrível e o ar é tão venenoso, que eu mal consigo respirar aí dentro. Cometeram o maior erro de suas vidas ao quererem que eu case com este babão a que todos respeitam pensando que ele é respeitável, por isso estou fugindo e deixando tudo isso pra trás. E não tentem vir atrás de mim, porque perderão seu tempo. Agora não preciso fingir ser a menininha educada que todos os seus amigos vazios gostam de ver, eles só vivem de malditas aparências! Uma última coisa, meu noivo é um grande babaca mesmo por acreditar que eu seria mesmo capaz de casar com ele e o senhor meu pai, procure outra idiota para aumentar a sua fortuna.
Ass: Sua fugida filha, Valey."
Com toda a fúria, o Sr. Field pegou a carta, a rasgou e jogou-a no fogo da lareira da grande sala.
