5. Dentro do Navio

Para Valey aquela era uma espera interminável, ela queria sair o mais rápido possível daquela cidade mas á medida que esperava, ela via pessoas chegando com enormes malas. "Provavelmente eles vão para o mesmo lugar que eu", pensou Valey. Ao mesmo tempo que ela pensava isso, um navio se aproximou do porto e um senhor avisou que todos já podiam embarcar. Valey seguiu em frente, subiu as escadas e entregou a sua passagem ao homem à porta do navio.

-Onde fica a cabine 15, senhor? – disse ela tentando disfarçar a voz novamente.

-Siga por este corredor e depois vire à direita.

-Obrigado.

Valey seguiu em direção à sua cabine, decidiu que ficaria lá a maior parte do tempo para não chamar atenção. Então ela viu uma moça entrar na cabine com dois enormes malões, era uma moça negra.

-Ah, olá! Boa tarde! Meu nome é Mary, eu serei sua companheira de quarto, isso é um pouco constrangedor, já que o senhor é um homem, mas tudo bem, espero que sejamos bons amigos. Como se chama?

-Wanderlei, senhorita.

Prazer.

"Isso pode ser um problema para mim, essa moça pode descobrir o meu segredo", pensou Valey preocupada.

Os dias decorreram normais, eram muitos dias de viagem, mas para Valey até que estava sendo bem prazeroso, mas queria chegar logo ao seu destino. Sua companheira de quarto, Mary, não lhe causou problemas até então e isso a tranqüilizou, por pouco tempo, pois depois de uma semana ela começou a notar olhares estranhos de Mary e que a mesma passava a maior parte do tempo na cabine junto dela. " Era só o que me faltava, essa menina está se apaixonando por mim", pensava Valey e Mary começou a falar sobre o motivo de sua viagem em uma das tardes em que ela ficara na cabine junto dela.

-Minha família é descendente de africanos, mas meu pai é inglês, moramos na Inglaterra mas uma vez por mês fazemos esta viagem até à África, contudo como meus pais não puderam vir comigo estou indo sozinha, temos uma casa lá e empregados que cuidam dela para nós. Você deve estar se perguntando como uma família de negros pode ter uma vida tão boa assim? Bem, não somos milionários, nem ricos, mas meu pai trabalha em uma das melhores lojas da cidade, temos uma vida confortável. Minha avó teve meu pai na casa onde trabalhava, ela era dedicada, fazia de tudo um pouco e seus patrões colocaram meu pai para estudar, como um agradecimento aos anos de dedicação de minha avó. Meu pai, assim como eu quando pequena, sentia vontade de conhecer a África. E você, por que está indo pra lá? – perguntou Mary se aproximando de Valey.

-Buscando aventura, senhorita. – respondeu ela.

-Que tipo de aventura? – disse ela se aproximando mais.

-É melhor se afastar, senhorita.

-Pode falar pra mim, eu posso ser sua confidente, até mais...

-Controle-se, senhorita.

-Você tem lindos olhos, sabia?

-Isso não é apropriado, senhorita.

Em um gesto repentino, Mary começou a agarrar Valey tentando beijá-la. A única defesa dela foi cobrir o rosto.

-Senhorita, isso não seria normal! Por favor, controle-se!

-Vai dizer que não me deseja! – disse Mary – Você é tão calado, mas sei o que se passa pela cabeça de homens como você! Vamos, admita!

Valey de repente deu-lhe um empurrão e retirou a capa deixando-se ver.

-Escute aqui, se você não parar com isso agora eu serei obrigada a lhe dar um soco bem no meio das suas fuças.

Mary, completamente perplexa com os olhos arregalados não conseguiu dizer nada á principio, mas depois de alguns segundos conseguiu visualizar Valey melhor e notou os seus contornos, estes que a capa escondia, e disse somente:

-Você... você é uma menina?

Valey tentou esconder seu temor e sua surpresa, mas era inútil pois fora descoberta. Precisava explicar tudo aquela moça para que ela não tirasse conclusões erradas.

-Espere. Não pense nada errado, eu posso explicar tudo.

-Como explicar?! Eu me interesso por você e de repente descubro que você é uma mulher como eu! Como pode haver explicação para isso?!

-Deixe-me dizer o motivo que me levou a fazer isso e compreenderá. Por favor, não diga á ninguém.

-Tudo bem. Eu vou dar uma chance para que você se explique. Pode começar.

Daí Valey contou sua história. Contou sobre a morte da mãe, o pai e como fugira de casa.

-Seu pai fez tudo isso pra você?

-Fez, ele queria me obrigar a casar com um homem que não amo e nunca amei. Quer dizer, nunca pensei nessas coisas de amor nem sonhei com algum príncipe encantado, como a maior parte das meninas faz mas isso não quer dizer que podem querer me fazer casar com o primeiro que aparece.

-Por causa disso você fugiu de casa. E por que está indo para a África? O que vai procurar lá?

-Eu vou atrás das minhas origens e não há ninguém que me impeça disso.

-E se não achar nada? E se tudo isso em que você acredita for mentira ou tudo o que está fazendo for em vão?

-Eu preciso tentar. Melhor se arrepender por algo que se fez e deu errado do que se arrepender por algo que nunca se fez.

-Bom, ao menos eu ganhei uma amiga para conversar. Confie em mim, eu não trairei o seu segredo mas tome muito cuidado na sua jornada.

-Obrigada, Mary.

Depois de ser descoberta, Valey redobrou sua atenção. Mas pelo menos agora tinha alguém em quem confiar dentro daquele navio. Contudo ficou um pouco tensa quando passaram para checar os documentos. Teve medo de ser descoberta mas seu nome falso funcionou. Disfarçou a voz o quanto pode e afastou-se do oficial.

-Eu preciso ficar sozinho, senhor. Não gosto de lugares com muitas pessoas.

-É realmente estranho. O senhor praticamente nunca sai de sua cabine.

-É hábito.

Mary sempre lhe fazia companhia, conversava com ela, Valey sentia-se melhor, pois com Mary ela não precisava fingir que era homem. Faltavam poucos dias para que desembarcasse e a ansiedade era insuportável. Mas finalmente, Valey iria atrás de seu destino.