TERCEIRA PARTE

O senhor Del Buharro estava em seu escritório, os cabelos grisalhos sobre as têmporas demonstravam os anos vividos, quando uma lufada de ar quente invadiu a sala, tirando-o completamente de seus pensamentos. Ele voltou seus olhos escuros para a figura de uma mulher que acabara de entrar, se fosse qualquer outra pessoa que o atrapalhasse naquele momento muito que provavelmente experimentaria sua ira, mas não ela, e sorriu contido.

Anrika desenvolvera uma personalidade tão forte quanto a do pai, por muitas vezes na juventude suportara a autoridade dele controlando sua vida e guiando seus passos, mas havia dois anos, as coisas tomaram rumos diferentes. Pablo Castilho Del Buharro agora encarava a filha de igual para igual, depois de entrar de posse da parte que lhe cabia da herança da mãe, Anrika simplesmente tornara-se o braço direito do pai e com isso obtivera seu respeito, e garantira sua independência.

Foi assim que entrara para os negócios da família e foi com essa autoridade que estava no escritório de seu pai, fitando aqueles olhos escuros. Não baixou o olhar, não recuou e nem lhe lançou palavras ríspidas ou acusadoras, apenas devolveu-lhe o sorriso. Anrika tinha os cabelos escuros com reflexos acobreados, a pele demasiadamente clara e os olhos escuros como os dele davam a ela uma aparência aristocrática com certa nota de desafio.

– Não vou tomar muito tempo - disse em tom formal. - Vim apenas informar que parto no fim da tarde para Londres.

– Conseguiu marcar uma entrevista com ele? - Del Buharro havia projetado o corpo para frente e a encarava ansioso pela resposta.

– Digamos que sim, mas só saberemos melhor quando eu estiver lá - continuou falando no mesmo tom, destituído de qualquer familiaridade. - Entendo seu interesse por ele, não comunga das mesmas idéias, mas almeja a mesma coisa, poder - Anrika fez questão de enfatizar a última palavra e prosseguiu: - Espero que saiba em que está nos metendo, particularmente, não acredito que seja boa idéia, contudo farei o que me pediu.

– Creio que poderemos obter algum lucro maior financiando a causa desse tal Voldemort, e você se mostrou a altura de tal empreitada - seus olhos brilharam ao fitá-la. - Desejo-lhe sorte. Seremos um bom aliado e ele um meio para se atingir um fim.

Pablo voltou sua cadeira para as janelas e continuou a fitar a tarde ensolarada que preenchia o céu da Colômbia. Anrika tinha sérias dúvidas sobre o que estava prestes a fazer, porém ao deixar o escritório do pai também teve dúvidas sobre o que ele desejava. Naquele momento se sentia como a adolescente que deixara Hogwarts há três anos, seu coração estava comprimido no peito com a simples lembrança do rapaz de cabelos negros lisos, magro, de olhos pretos, que nunca deixara seus sonhos, Severo Snape.

Cerca de duas horas depois, ela embarcava na aeronave que a levaria de volta à Inglaterra, de volta a tantas coisas que ainda fervilhavam em sua mente. Anrika sentou-se na poltrona perto da janela, fitando o céu azul lá fora, o avião começou a taxiar pela pista, suas lembranças alçaram vôo junto com seu corpo. Lembrou-se da maneira como tratara a todos na escola, reflexo de seus medos... superara aquilo, conseguira se impor ao pai, mas será que Snape a tinha perdoado por tê-lo magoado? Afastou esses pensamentos, não adiantava se sacrificar, só saberia quando o encontrasse, se o encontrasse. Iria fazer o tal contato num hotel em Londres, muito freqüentado por bruxos, e aproveitaria a tarde livre para visitar o diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore.

Estava confortavelmente instalada no quarto quando olhou as horas: atrasara-se para seu encontro com o diretor. Dumbledore a esperava com uma bandeja de chá e biscoitos. Ankira fitou o professor: parecia praticamente igual desde quando deixara a escola, sorriu para ele, sabia a impressão que deixara em muitos dali, mas tinha consciência que o homem a sua frente enxergava bem além do que os olhos podiam ver. O Diretor retribuiu-lhe o sorriso e fez um gesto para que sentasse na poltrona a sua frente.

– Senhorita Del Buharro - falou bondosamente por detrás dos oclinhos meia-lua -, vejo que a menina que outrora conheci se tornou uma mulher muito segura de si - ele a fitou. - Meus parabéns!

– Obrigada, diretor - respondeu firme. - Aprendi a conviver com meus medos, minhas inseguranças e com meu pai.

– Fiquei muito feliz com sua visita - disse sorvendo um pouco de chá de sua xícara. - Nesses tempos sombrios é bom receber a visita de sangue novo que nos remetem às horas agradáveis que passamos em nossa juventude.

– Diretor - Anrika tentou ser o mais diplomática possível e não parecer óbvia em sua pergunta -, tem notícias de alguns dos meus colegas de escola?

– Bom, senhorita - ele pigarreou analisando-a demoradamente -, Lílian, Potter, Sirius e Remo, se juntaram a mim na luta contra Voldemort - a moça assentiu e para surpresa de Dumbledore, uma leve expressão de espanto cruzou o olhar de Anrika. - Criamos uma sociedade de combate às forças das trevas, a Ordem da Fênix. Empenhamos nossos esforços em destruir essa onda de maldade que desce sobre nós como uma tempestade.

– E... Snape? - seus lábios pronunciaram o nome sem que ela o sentisse.

– Temo que esteja um tanto quanto seduzido pelo poder. Voldemort está exercendo uma grande influência sobre jovens como ele - respondeu estreitando o seu olhar e fixando-o nela. - Contudo, acredito que um dia ainda o teremos de volta - colocou-se de pé, dizendo bondosamente: - Infelizmente tenho que ser descortês, mas preciso ir ao Ministério.

– Claro, professor - disse ainda atordoada com as informações dadas por ele. - Preciso ir também, foi um enorme prazer revê-lo! - estendeu-lhe a mão clara.

– O prazer foi meu, senhorita - apertou-lhe a mão e sorriu. - Nos veremos em breve.

Anrika se dirigiu para a lareira e usando a rede de Flu, chegou rapidamente ao hotel. Sua cabeça ainda girava em torno do que o diretor lhe dissera, Snape estava envolvido com Voldemort, aquilo simplesmente a chocou de forma drástica. Talvez por naquele exato momento lembrar de seu encontro de negócios, olhou para o relógio: 19:00h, tinha pouco tempo para se arrumar.

Pontualmente às 20:00h uma batida na porta se fez ouvir, Anrika foi até ela, abrindo-a. Um homem alto, envolto em uma capa negra entrou no quarto, alguma coisa nele chamou-lhe a atenção, mas Anrika esperou até que ele se virasse. Manteve seu semblante firme e o acompanhou com os olhos escuros, enquanto a figura soturna se posicionou no meio da sala.

Baixou o capuz e por segundos, a respiração de ambos acelerou, o choque foi mútuo. Anrika fitou curiosamente o rapaz a sua frente, os mesmos cabelos pretos caindo como cortinas sobre o rosto pálido, analisou satisfeita. O corpo em nada fazia lembrar o menino magro que conhecera, estava mais forte, ganhara músculos definidos. Encarou-o, os olhos pretos penetrantes a fitavam com igual curiosidade, mas ela pôde sentir uma frieza tão grande dentro deles que o ar subitamente lhe faltou.

Snape estava ali, diante de seus olhos, mas muito distante de suas lembranças, e ela temeu. Todas as palavras de Dumbledore lhe voltaram à mente, aquele não era o menino que a cativara e nem tampouco o homem que esperou encontrar. Afastou os pensamentos, parecia evidente que ele a reconhecera, mas também parecia certo que tencionava manter a conversa no nível de negócios.

– Você deve ser meu contato com Lorde Voldemort, estou certa? - tentou quebrar o frio da sala, contudo as palavras eram piores.

– Sim, sou - disse seco, sem lhe dar muita atenção. - O Mestre não se encontra com ninguém pessoalmente, a não ser que faça parte de seu círculo fechado, o que não é o seu caso.

– Então diga ao seu Mestre que eu não costumo tratar de negócios com um subalterno - Anrika lançou-lhe um olhar desafiador. - Não sou uma qualquer e não admito ser tratada como tal.

Snape a fitou intensamente, depois de três anos ela estava ali, o mesmo olhar, os cabelos escuros, a voz e toda a altivez pela qual se apaixonara. A cena em que a pedira em namoro voltou a sua mente, estavam no lago em Hogwarts, e ele encantara um tapete de peles que flutuava sobre a água junto com várias velas coloridas. Aquilo realmente tinha sido um arroubo romântico de sua parte, mas algo dentro dele revirava ao estar perto dela, exatamente como agora.

– Severo? - Anrika disse tentando trazê-lo à realidade.

– Você terá sua resposta ainda hoje - respondeu frio e sem lhe dar qualquer atenção. - Boa noite - resmungou dirigiu-se à porta.

Uma lufada de ar frio encheu o ambiente assim que sua capa preta esvoaçou para o corredor. Anrika ficou parada olhando um ponto distante entre o presente e o passado, alguma coisa que se perdera no tempo.

Ao chegar à rua, a mente de Snape fervilhava, a voz de Anrika dizendo ao pai que ele era um mentiroso e depois se dirigindo a ele com indiferença e humilhação. Aturara isso do pai uma vez, mas não deixaria mais ninguém tratá-lo dessa forma, muito menos uma mulher. Bufou, caminhando a passos largos dentro da noite, não podia negar que Anrika ainda tinha o poder de mexer com ele, e muito.