QUARTA PARTE
O ambiente era escuro e frio, não possuía indícios de que alguém o habitasse, mas fora trazida até ali para conversar com o Lorde, isso teria que ser o suficiente para ela aceitar estar onde estava. Anrika olhou a sua volta, aquela sala não devia ser usada há anos, havia um sofá bolorento ao canto, um tapete puído e empoeirado ao centro e uma lareira, que a julgar pelas folhas ressecadas, não tinha uso. O homem baixo, com cabelos castanhos claros e rosto de fuinha, que a procurara no hotel, tinha se retirado havia meia hora, deixando-a entregue àquele vazio. Anrika começou a se impacientar, era uma mulher de negócios, não um brinquedinho na mão de um lunático. Ouviu um leve sibilar a suas costas e virou-se rapidamente, vendo uma enorme cobra passar aos seus pés e postar-se ao lado da poltrona onde agora, surpreendentemente, estava um homem forte, de pele muito clara, com cabelos escuros desalinhados e olhos avermelhados.
Os dois se mediram por um momento, e estreitando seu olhar sobre Anrika, quebrou o silêncio:
– Desejava me ver senhorita Del Buharro - sua voz soava fria e melodiosa, como se quisesse entreter sua presa. - Não costumo receber ninguém de fora de meu círculo de amigos, mas seu pai é um homem importante, logo, espero que não me faça perder meu tempo ao recebê-la - fitou-a desta vez com interesse.
– Meu pai não seria tolo ao me enviar aqui para brincadeiras - disse num tom seguro e igualmente frio. - Não somos reconhecidos no mundo bruxo por joguinhos infantis, se estamos dispostos a financiar suas idéias, acredito que teremos um mínimo de respeito, e algo em troca - dizendo isso o encarou. - E sabemos exatamente o queremos, não sabemos?
– Você é muito inteligente e ardilosa - falou acrescentando uma gargalhada maléfica ao final. - Gosto de mulheres assim, se permite o elogio, é claro - sibilou para ela. - Todos almejam o poder, poucos podem pagar por ele, e seu pai é um homem determinado, estou disposto a aceitá-lo dentro de meu círculo de amizade.
– Então, temos um acordo? - falou Anrika, não gostara daquele homem, era contra a conduta de seu pai, e agora tinha certeza de que não devia ter voltado para a Inglaterra.
– Não antes que você, como representante de seu pai, conheça meus amigos - seus olhos vasculhavam a mente dela.
Anrika sentiu como se alguma coisa lhe partisse a mente e, de repente, aquela angústia cessou. Sentiu-se cansada, como se tivesse feito um esforço descomunal. Voldemort continuava fitando-a com ar curioso, até levantar da poltrona e caminhar até ela.
– Lúcio Malfoy, um amigo meu - ele parou encarando-a bem de perto, apresentando o homem. - Creio que você conhece, não?
– Talvez - foi categórica. - Lembro-me de ter estudado com alguém com esse sobrenome em Hogwarts. Acho que é a isso que se refere, não? Hogwarts?
Ele sorriu se movendo em torno de Anrika, analisando cada emoção e filtrando-as. - Sim, é a isso que me refiro. Devo presumir que conhece também um de meus mais fiéis amigos, Severo Snape. Deve lhe parecer familiar... o que me diz?
– Acredito que sim, devo conhecê-lo - Anrika sentiu nojo daquele homem, e a simples menção do nome de Snape ligado a ele como um amigo fiel, era demasiado forte para suportar. - Você falou de uma apresentação, quando seria? Tenho que voltar à Colômbia, não tenho muito tempo aqui...
– Hoje à noite, minha cara - tomou-lhe a mão, depositando um beijo respeitoso, e então Anrika sentiu que Voldemort e Pablo tinham as mesmas intenções -, na casa de Lúcio. Permita que mande alguém buscá-la.
– Como queira - respondeu ríspida, retirando sua mão das dele. - Qual horário?
– Dez horas - sorriu malicioso.
– Muito bem - disse. - Não tolero atrasos.
– Nem eu... - mais uma vez sibilou, era insolente a menina. - Rabicho irá levá-la de volta ao hotel. Até a noite, senhorita Del Buharro.
Anrika fez um leve meneio de cabeça e se retirou com seu acompanhante. O retorno ao hotel lhe pareceu bem mais demorado, precisava ficar sozinha algumas horas para pensar, pensar muito. Não, ela precisava falar com uma pessoa, uma única pessoa!
Dumbledore a olhava fixamente por detrás dos óculos, seu rosto adquirira um ar preocupado e esperou pacientemente que Anrika terminasse seu relato.
– Senhorita Del Buharro, devo dizer que nada do que contou me surpreende, nem mesmo a atitude de seu pai - ele deu uma leve tossidinha e a fitou novamente. - Sei que está preocupada com seu amigo, mas compreenda, nós fazemos escolhas na vida, Anrika, Snape fez a dele, por motivos errados, mas fez! - Dumbledore manteve seus olhos azuis nos dela. - Temo ter que admitir que você tem deu certa contribuição para que isso acontecesse quando desistiu do que ele lhe oferecia: um amor sincero. Sabe, foi muito difícil para Snape admitir a si mesmo que estava afetivamente ligado a alguém, sempre foi muito fechado, humilhado por um pai irresponsável, teve uma infância difícil e cheia de problemas...
– Diretor, o senhor está colocando as coisas num patamar muito acima do que deveriam estar - Anrika se impôs. - Ninguém melhor que o senhor deveria saber o porquê de minha conduta na época. Ouso dizer, no entanto, que agora esses problemas estão definitivamente resolvidos. Mas minha infância foi tão difícl e cheia de problemas quanto a dele.
– Acho que não me fiz entender, Anrika - e piscou para ela. - Sei que superou os problemas com seu pai, mas naquela época desistiu de Severo. O que quero saber, senhorita, é o que estaria disposta a fazer para salvá-lo, retribuir o que ele lhe deu: a coragem para enfrentar seu pai.
– Ele me deu a coragem? O senhor não faz idéia...
Anrika parou, olhou para o diretor, as barbas longas e prateadas, os olhos azuis cheios de bondade, odiava ter que concordar com ele: fora justamente o amor de Snape que dera força à ela enfrentar o pai, e esperava que algum dia pudesse resolver as pendências com seu passado e recuperar o que perdera. Contudo, esse dia estava longe de chegar.
– Os amigos de Voldemort, quem são? - disse desviando do assunto anterior.
– Comensais da Morte. É como ele os chama. Jovens escolhidos a dedo, temidos pelo seu grau de crueldade e meticulosidade - ele soltou um falso sorriso. - O tipo de pessoa na qual não se pode confiar! Em nossa pequena sociedade, os combatemos. Não gostaria de fazer parte dela, Anrika?
– Não, diretor - disse reto, sem pontos, pegando a capa e dirigindo-se à lareira.
– O que pretende fazer? - olhou-a curioso.
– Pagar uma dívida - ela sorriu. - Estou disposta a tudo para isso.
Logo depois sumiu nas chamas verdes da lareira.
Dumbledore recostou o corpo na poltrona, cruzou as mãos por cima das barbas longas e fitou o que já não estava mais ali.
N.A.: Fiz umas pequeníssimas alterações por causa do final da fic.
