Lágrimas Vermelhas

Parte II


As ruas haviam lhe ensinado da pior forma possível a sobreviver e ele bem sabia que os ensinamentos das ruas deixavam marcas profundas, marcas que reverberariam nas paredes do futuro. Sua vida nunca foi de longe algo fácil. Filho de pais desconhecidos Duo cresceu como uma cobaia em um dos muitos laboratórios de L2, isso era uma prática normal naquela época, uma vez que precisavam testar suas experiências e aquelas crianças, assim como Duo, não tinham família ou qualquer um que lhes ajudassem. Felizmente depois de tanto sofrimento ele conseguira escapar ganhando os becos de L2. Tinha então seis anos.

Aos doze, depois de muito conseguir escapar havia sido vítima de uma gangue qualquer, daquelas que existiam por ali em L2 e sofrera um abuso sexual que definitivamente o levara à vida de prostituição... e assim foi até encontrar um programa de uma noite com um homem chamado Heero Yui e Duo pela primeira vez na vida fizera amor. Perdidamente se apaixonara por esse homem.

Vivendo um amor impossível por um importante jovem da Terra, ele sumiu no mundo ciente que seu conto de fadas durara uma noite apenas. Mas por essa noite valiam todas as outras da sua vida. De fato a entrega a Heero foi uma entrega perfeita... uma entrega de corpo e alma. Nunca havia sido tocado por um homem com tanto amor e isso é que não lhe saía da cabeça. Ele conhecia a profissão há bastante tempo, sabia quando um homem fazia sexo e quando fazia amor e o que Heero havia feito com ele fora amor. A forma como o tocava, os beijos e carinhos.

Mas ainda assim se tratava de um homem importante e um prostituto, por isso Duo enterrara no fundo de sua alma aquele sentimento e fugira de L2.

Seguiu sua vida deixando para trás L2, queria mesmo sumir, afinal Heero podia o procurar outra vez se ficasse no Quarteirão. Assim foi para L5, uma outra colônia exercendo a única profissão que sabia, mas algo havia mudado em si desde aquela noite. Duo passara a ser tomado por tonturas sem precedente, enjôos, vômitos...

Hoje, seis meses depois, Duo sabia qual era o motivo desses sintomas. Estava em seu ventre crescendo um filho. Por incrível que pudesse parecer ele estava grávido. Não lhe foi tanta surpresa quando visitou o museu de ciências experimentais que havia em L2 e viu que uma das mais comuns experiências feitas naquelas crianças eram os implantes e modificações moleculares para que elas pudessem engravidar em situações nada normais, assim esses cientistas visavam garantir a continuidade da espécie em qualquer condição. Cruel, mas possível e real.

Ele soube que aquele filho era de Heero. Haviam usado preservativo todas às vezes, mas Duo bem lembrava que numa trepada naquela noite sentira o esperma quente e espesso daquele homem lhe tocar intimamente. Não comentou nada com o cliente... e depois de meses quando se viu grávido não tinha mesmo como achá-lo, e se tivesse o que lhe diria? O melhor foi sumir.


Pov Duo

Quando decidi ir embora de L2 estava com meses de gravidez. E como soa estranho dizer isso... "Estou grávido." Ainda não me acostumei com essa minha nova condição. Uma condição estranha que me faz ter muito medo, mas me faz ter novos sonhos. Por incrível que pareça eu amo essa criança e rezo todos os dias para que ela nasça e seja feliz. Como essa criança virá ao mundo é outra coisa que me faz temer. Eu a sinto crescer dentro de mim, e sinto falta de alguém comigo para dividir essa gravidez, mas o que posso fazer? Ele não tem pai, embora eu saiba que ele foi gerado na noite com Heero não posso simplesmente ir atrás dele e lhe revelar essa gravidez. Fico imaginando a cena.

"Heero, lembra de mim? Aquele prostituto que você comeu numa noite dessas... estou esperando um filho seu..."

Realmente está fora de cogitação revelar essa paternidade. Esse filho é só meu... o problema é que estou muito assustado com todas as modificações... tenho medo de algo dar errado com meu bebê, ele se mexe muito, apesar da pouca idade de gestação, sinto dores constantemente...

Ahhh... uma coisa que vim a saber era que passaríamos fome, eu e meu bebê, porque ele me impediu terminantemente de trabalhar. Sentia tanta dor quando transava que tive que deixar os programas. Assim quando fui para L5 meus programas se resumiam a chupadas e gozadas no rosto. Eu que nunca tive gosto para isso, agora me via obrigado a fazer tal coisa para não morrer de fome.

A vida anda dura demais. Vivendo em L5 estou num quarto-sala alugado, mas terei que sair essa semana por falta de pagamento. Minha geladeira está vazia, e eu nada comi durante todo o dia e meu bebê está reclamando bastante hoje. Infelizmente vou ter me sujeitar a um humilhante gozada no rosto hoje... como me enoja isso. E tem homens que sentem prazer em fazer isso. Acho que gostam de mostrar que são superiores.

Meu corpo ainda está discreto, embora todas as minhas curvas estejam mais ofensivas... ao menos posso vestir uma roupa bem provocante e ir para as ruas de L5 em busca de alguém que pague por um carinho... modéstia parte faço um como ninguém. Eu às vezes tenho que fazer piada dessa vida que elevo, porque tem dias que não agüento tanta dificuldade e me deixo ficar chorando na cama, mas hoje é dia de ir à luta.


Duo havia conseguido um cliente para essa noite fria de L5.

-Vamos, logo! – o homem alto falou rude o puxando pelo braço. –Vai ser aqui mesmo. – gemeu brutal abrindo a calça e puxando o garoto pelos cabelos o levou até seu falo.

Duo sentiu o fétido odor daquele homem que parecia não ver uma higiene pessoal já há alguns dias. Estava acostumado a isso, afinal enchia seu currículo com cinco anos do Quarteirão do capeta em L2, mas seu estado atual o fazia delicado a certos cheiros e odores. Mesmo enjoado ele começou a chupar levemente aquele homem, mas jamais conseguiria dar prazer ao cliente... Estava sendo mais forte que ele. A sensação de náuseas cresceu em si bem como um mal estar o tomou. Sentia-se sujo por ter que fazer tal coisa no estado que se encontrava, sentia como se ultrajasse seu filho com aquilo, mas lhe era importante ganhar aquele dinheiro.

-Vamos logo com isso, me faz gozar nessa sua boquinha! – o homem gritou lhe puxando os cabelos com força entrando mais em sua boca quase o sufocando no ato e isso foi demais para Duo. De forma incontida ele empurrou o cliente.

-Não... – gemeu quando sentiu o estômago rodar e sem se conter expeliu o vômito.

-Seu... seu vadio! – o cliente saltou para trás assustado. –Eu devia te espancar por isso. Quase me sujou todo. Ordinário! Porco! – gritou puxando Duo pelos cabelos. –Se está grávido devia se dar ao respeito... – gemeu por fim largando o garoto ali no meio daquele beco escuro na qual estavam.

Duo apenas se deixou ficar ali largado. Estava sem forças no momento para impor seu corpo e caminhar. A fome que passava era grande e ele sabia que em seu estado devia ter alimentação e descanso adequado, sem falar que nunca havia ido ao médico ver a saúde de seu bebê. Ele apenas chorou ali ao chão... Estava péssimo e humilhado. As palavras daquele homem vertiam em sua cabeça uma reação cruel. Ele se sentia a pior das pessoas por não conseguir manter a si e a sua criança de forma digna.

Ele se deixou ali... esquecido no meio da rua até chegar a madrugada e vir com ela uma chuva fina e fria.

Nesse momento virava a esquina um veículo de aparência desleixada. Um modelo bem antigo que se movia fazendo estranhos barulhos.

A chuva caía em L5 naquela madrugada quando o veículo virou a esquina parando bruscamente. Minutos depois o motorista saiu furioso o chutando.

-Lata velha! – gemeu vendo que o veículo não ia se mover. –E justo nessa chuva... – comentou consigo mesmo.

Duo viu aquele homem. A dor e angústia, o mal estar lhe obrigaram a implorar ajuda, numa situação daquelas que se tem que implorar com todas as forças por ajuda... e ele o fez. -Por favor... senhor! Ajuda!! - ele gemeu se aproximando do homem.

-Ah? – o homem se voltou para ele achando que fosse algum vagabundo drogado.

Era um jovem apresentável. Vestia-se bem, apesar do carro bem desgastado. O porte elegante e os olhos sérios. O rosto, mesmo no escuro, era bonito, a pele clara amarelada fazia contraste com os cabelos lisos e extremamente negros presos atrás da cabeça. –O que quer?

-Pelo amor de Deus... Ajude-me. – o garoto de trança gemeu. Sua vista escureceu rapidamente. Não comia há tempo e desde que vomitara no cliente, mais cedo nessa noite, não se sentia bem, temia por seu filho. Ele gemeu se aproximando usando suas últimas forças antes de desmaiar.

-Eiii? – o rapaz nada entendeu. Mas foi rápido ao segurar o garoto antes que esse chegasse ao chão. –Desmaiou... Como pode está com tanta febre debaixo dessa chuva? O que faço agora?

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Quando a chuva se tornou mais forte naquela mesma madrugada felizmente Duo já não estava mais ao relento. Era perigoso, mas aquele homem a quem pedira ajuda se compadeceu de sua febre e o levara para sua casa. Um modesto apartamento na zona central de L5. Duo havia tido sorte, afinal aquele homem era médico e pesquisador e assim que vira o rapaz notara que ele estava muito doente. Comovido ele o levara para sua casa.

E quando o dia começou a nascer com os raios de Sol quase nulos pelas nuvens carregadas o garoto estava sob cobertas quentes.

-Ahhh... – o garoto de olhos violetas gemeu abrindo-os. Moveu-se na cama com seu cérebro assimilando como era quente e confortável, bem como os lençóis macios e cheirosos, lembrava um lar. Ele finalmente vira o homem a quem pedira ajuda antes de desmaiar. Ele estava ali ao pé do leito. Era bonito. Duo agora pode reparar melhor. Tinha traços orientais que muito lhe fez lembrar de Heero.

-Acordou finalmente. – o rapaz falou. Seus olhos negros tomando um tom cuidadoso. –Deixe-me ver a febre. – falou já se aproximando.

-Ahhh... –Duo o olhou espantado. Seus olhos violetas bem abertos quando aquela mão macia tocou sua testa. Aquele homem, mesmo que fosse um total desconhecido estava preocupado com ele. Estava lhe tratando com tanto carinho e Duo, agora mais que nunca necessitava sentir esse carinho para consigo. A gravidez o havia deixado muito emotivo e se sentir amado por alguém, mesmo que fosse um estranho com pena de si era algo muito confortante.

-Está sem febre. – ele sorriu. –Como é seu nome?

-Eu... sou Duo. – falou tímido.

-Só Duo? – o rapaz sorriu. –Eu sou Chang Wufei. – se apresentou. –Onde estão seus pais? Um garotinho como você não devia estar com uma febre daquelas debaixo da chuva numa madrugada em L5. – comentou.

-Eu... não tenho pais. – Duo respondeu triste.

-Certo... e o pai desse bebê? – perguntou simples, mas não houve resposta. Apenas os olhos de Duo ganharam um tom desolado e Wufei suspirou sabendo que Duo era mesmo o que pensava que era. Um garoto de rua... –Seu bebê não tem pai. – ele afirmou.

-Não... – o garoto respondeu acariciando a leve barriga que já se mostrava.

-Duo... você não está bem... Ontem quando lhe trouxe você tinha febre. Você não tem ninguém que possa lhe ajudar? Eu acho uma irresponsabilidade da sua parte ter um filho sem ao menos fazer acompanhamento. Sei que a vida é dura, mas temos médicos gratuitos e ...

-Eu sou grato por me ajudar. – Duo se levantou jogando as cobertas com raiva. Odiava sermões e aquele homem nada sabia de si.

-Espere, rapaz.

-Esperar? Você não sabe nada sobre minha vida. Como vou ir a um médico e dizer que tenho um bebê na barriga? Eu sou um homem. – ele falou furioso. –Eles vão me colocar em um quarto e fazer exames, todos vão me olhar curiosos... – ele gemeu querendo ficar de pé, mas seu corpo parecia não concordar com sua vontade e ele caiu sobre a macia cama zonzo.

-Está muito fraco. – Wufei falou paciente o deitando novamente. –Qual o problema em ser examinado? – perguntou com seu tom calmo.

-Não perguntaria isso se tivesse passado sua infância preso num laboratório de testes. – o garoto gemeu amargurado.

-Eu... Entendo. Você é só mais uma daquelas pobres crianças usadas como cobaia. A possibilidade de engravidar veio dessa época? – ele perguntou.

-Sim.

-O pai?

-Desconhecido. Fruto de um de meus programas em L2. – ele falou simples.

Wufei suspirou. Duo tinha pouco mais que dezoito anos e lhe enchia o peito de pena a situação daquele garoto. Era jovem demais. Sem infância, se tornava sem passado e sem futuro. Era um jovem garoto de programa, grávido de um pai desconhecido. E Chang se perguntava se era mesmo justo deixar aquela criança nascer. Afinal que futuro teria esse bebê? Que educação um jovem como Duo poderia dar a um bebê? Mas não tinha que se meter, depois que o rapaz se alimentasse e pudesse ir embora não tinha mais nada haver com aquilo, ou tinha? Wufei não soube como, mas de alguma forma já sentia um pouco responsabilidade. Ele era um médico engajado em casos sociais, não conseguiria simplesmente jogar aquele garoto nas ruas e voltar a viver sua vida sem culpa.

-Vou preparar algo para você comer... – Wufei falou se levantando.

-Não... Precisa. Estou bem. – Duo mentiu. Estava péssimo por precisar da ajuda de um estranho que lhe olhava com pena. Tinha ainda seu pouquinho de orgulho. Mas não ia longe, seu estômago o denunciou roncando alto.

-Claro... Mas você tem um bebê dentro de si que precisa se alimentar. –Wufei sorriu vendo que Duo estava corado de vergonha. Era só uma criança. E era evidente demais: precisava de ajuda.

Duo suspirou quando se viu sozinho naquele quarto. Erguendo seus olhos violetas ele viu como o quarto era acolhedor. Pequeno, mas delicado nos detalhes, como ele pensou ao acordar, aquilo lembrava a vaga idéia que tinha de um lar. E como sonhou com um assim quando era criança, infelizmente esse sonho se perdera em algum momento no tempo e no espaço.

Notou os biscuit sobre a mesinha de cabeceira e as fotos de Wufei com uma moça bonita e uma garotinha, eles sorriam e naquelas imagens congeladas eles estavam felizes de uma forma que Duo não sabia como era. Levou a mão ao ventre já alto o acariciando, seu bebê estava ali dentro e ele temia o futuro que podia ter aquela criança, que antes de tudo carregava todas as esperanças que ainda moravam dentro dele. Em silêncio desejou que seu bebê tivesse um lar e uma família feliz como aquela da foto na mesinha.

-Gosta de fotos? – Chang sorriu ao entrar no quarto. Trazia uma bandeja com uma refeição leve. –Eu não sei se vai gostar, mas era só isso que eu tinha em casa... é mingau de nata e suco de nata, uma maçã como sobremesa. – ele completou. Eram comidas simples e típicas de L5.

Duo estava faminto e nem mesmo lembrou de agradecer, ou então manter as aparências, ele literalmente avançou sobre a comida com modos horrendos sorvendo o cremoso alimento como podia. Wufei apenas o observou, em parte assustado, mas entendia. Aquele garoto não devia se alimentar a um bom tempo e em seu estado... a barriga estava enorme e o bebê precisava de proteínas.

-Vocês estavam com fome... – o rapaz comentou, mas não queria deixar Duo sem jeito. –Escute. Imagino que esteja pensando porque estou fazendo tudo isso.

-Estou sim. – o garoto o olhou. –Eu não tenho muito a lhe oferecer, nem mesmo meu corpo posso lhe dar, se fosse em outro momento, mas hoje em dia, eu sinto muitas dores quando faço sexo... Mas eu posso lhe chu... – Duo falou sem pensar. Era sua forma de agir, a única maneira que a vida lhe havia ensinado e não fazia isso por mal.

-Deixe disso. – Wufei o cortou ríspido. –Imagino que na sua vida só tenha conhecido pessoas cruéis, mas ainda existe gente diferente. Eu apenas quero lhe ajudar porque estou vendo que precisa de ajuda. Esse bebê precisa de cuidados e você também. – ele falou firme.

Duo fez um breve momento de silêncio. Não era hora para manter orgulho. Ele sabia que se nada fizesse talvez seu filho não chegasse à vida. –Eu preciso muito mesmo. – gemeu baixo sem olhar naqueles olhos negros e sérios. Engolia pelo amor que sentia por aquele bebê dentro si todo seu orgulho.

-Que bom que sabe disso. – Wufei falou. –Vamos descansar hoje e amanhã vou ter levar ao médico para ver esse bebê, estamos combinados? – ele sorriu. Nem mesmo sabia o motivo que o levava a fazer aquilo, mas Duo era mesmo uma criança. Tanto na idade quando na mentalidade, ele jamais poderia enfrentar tanta coisa sozinho e por algum motivo Chang Wufei se via numa máxima obrigação de ajudar o menino.

-É sua família? – Duo perguntou apontando para a foto.

-Era sim. Minha esposa e minha filha... morreram há três anos atrás num acidente de carro. – ele falou. Mas não trazia mágoa nas palavras. –Durante algum tempo me culpei pela morte das duas. Eu dirigia o carro, mas depois... – ele fez uma pausa olhando a foto aonde os três sorriam felizes. –Eu as amava e se pudesse teria dado minha vida para salvá-las. Deus e elas sabem disso aonde quer que estejam agora... E eu também sei. Por isso hoje levo minha vida sem culpas... - ele falou.

-Sinto muito...

-Tudo bem, Duo. Veja se entende. - Wufei sorriu. –Perder alguém que se ama e assim sem esperar, é uma dor sem igual, mas quando se ama de verdade esse sentimento consegue sanar, consegue superar qualquer outra coisa. Eu as amava tanto que nossa missão foi cumprida. Quando entendi que o meu amor era maior que minha culpa, ela simplesmente não existia mais. - ele sorriu sonhador.

-Ahh... - Duo não teve palavras. Apenas olhava admirado para aquele homem entendendo porque aquela mulher sorria com vivacidade na foto. Era uma mulher de sorte por ter tido um homem como aquele.

-Está vendo a foto? Foi uma semana antes do acidente. Estávamos realmente felizes. Esse momento gravado na foto durará dentro de mim para sempre como a prova de que amei e fui amado de verdade. - Chang sorriu.

Duo sorriu também. Ele de alguma forma conseguia entender que Wufei não era triste pela dolorosa perda. Ele parecia satisfeito por ter sido feliz de verdade. Agradecido por ter conhecido um amor daqueles incondicionais.

-Duo. Quando se há amor de verdade... Isso nunca acaba. - o rapaz falou se levantando. –Mesmo que as coisas caminhem diferentes do planejado o amor segue o caminho traçado. Bem... - ele sorriu sem jeito. –Não sou assim sentimental o tempo todo, então vamos parar de falar de mim. - estava corado de uma forma quase infantil.

-Eu... Sinto muito por sua família... - Duo falou sonolento.

Wufei se aproximou quando o menino já dormia e ficou ali o observando. Era talvez a criatura mais linda e doce que já havia visto. Teria que ajudá-lo a ser feliz.

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O dia seguinte Chang cumpriu o combinado levando Duo ao médico. O garoto estava com medo, mas sabia que era o melhor para seu bebê e aproveitaria aquela ajuda. Era estranho, mas era como se o Deus, que ele há tempo deixara de acreditar estivesse finalmente lembrando de si e lhe dando uma chance de ser feliz. Era como se Deus lhe tivesse enviado um anjo.

-Olá, amigo. Quanto tempo. Como está? - o médico sorriu para Wufei apertando firme sua mão.

-Olá, Tom. Estou bem. - Chang sorriu de volta.

-Bom, vejo que trouxe um paciente. - o médico era um rapaz jovem de cabelos escuros e sorriso fácil. –O que ele tem? - perguntou.

A história foi contada por Wufei, ao menos as partes que conhecia daquela história triste de Duo, o rapaz apenas ficou sentado quieto e constrangido enquanto Wufei contava ao médico o que se passava.

-Bom, amigo. Isso tudo é muito chocante. - ele falou finalmente. –Não é minha especialidade, mas eu vou examinar esse garotinho. - falou simpático. –Seu nome é Duo, não é? Vamos ver como vai esse bebê? - sorriu tentando tornar as coisas mais fáceis para o menino, mas seria complicado. Duo estava ali parado sem encará-lo.

-Tudo bem. Pode confiar nele. - Wufei falou lhe passando uma força, mas via que seu novo amiguinho estava relutante em ficar sozinho com o médico. Entendia o medo do rapaz, afinal sua traumática infância devia estar pesando nesse momento. –Eu vou entrar com você, está bem? - ele falou e isso trouxe a Duo uma nova esperança.

Sem palavras aquele garoto de rua levantou os olhos brilhantes de esperança. Um sorriso doce e inocente se formou em seu rostinho.

-Obrigado. - ele sorriu.

Quando finalmente Duo estava na maca notou que as coisas estavam diferentes do passado. Aquele médico era gentil e seu consultório não era aquela concentração de dor e angústia do passado. Ele passou a relaxar.

-Isso, Duo. Relaxe que logo acaba... - o médico falava. –Agora fique calmo, eu só vou lhe tocar, nada mais. Está bem? - falava abrindo suas coxas e lhe tocando delicadamente.

-Ahhh... - o garoto olhou confuso para Wufei. Estava ficando tenso.

-Tudo bem. É assim mesmo... - Wufei o acariciou no rosto sorrindo levemente.

-Pronto... - o médico o deixou. –Por fora parece tudo bem, mas vamos ver como está ai dentro. - falou preparando os aparelhos.

Duo se emocionou ao ver a imagem do bebê. Estava já formado dentro de si apenas esperando para ganhar peso e vir ao mundo. Era tão pequenino e frágil, mas lindo e dotado de esperança.

-Wufei... - o médico chamou baixo mostrando alguma coisa na tela ao rapaz. Mas Duo não notou, apenas estava concentrado em admirar a criança dentro de si.

-Duo... está tudo bem. Vista-se e venha para minha sala. - o médico falou calmo deixando o rapaz a vontade para trocar as roupas.

Mas na sala ele mostrou uma expressão preocupada a Wufei.

-A criança está bem, mas por hora. Ela está alojada na parede uterina. Provavelmente uma falha provocada pela experiência. A natureza sabe o que faz, amigo. E mesmo assim ela erra, imagine o que acontece quando o homem começa a brincar de Deus e imitar a natureza? Muito me admira que a criança seja normal. - o médico desabafou.

-Isso... quer dizer que o bebê não vai sobreviver? - Chang sentiu seu coração doer antecipadamente.

-Se visto de início poderíamos tentar remover o feto para seu lugar normal, mas agora é tarde, uma tentativa mataria pai e filho. Quando o bebê crescer mais um pouco os dois estarão condenados à morte. – o médico falou.

-Deus. – Wufei se sentou triste Era um destino cruel o do jovem pai. Uma vítima da maldade dos homens.

-O que esse menino é seu? Esse bebê não é seu filho, não é? - o médico o olhou.

-Claro que não. Duo é um garoto de programa, mas nunca tivemos nada. O encontrei dois dias atrás com uma febre enorme no meio da chuva pedindo ajuda e eu tive que cuidar dele. Não sei ao certo, mas senti vontade de ajudar. Sally me incentivava muito a usar meus conhecimentos a favor de pessoas menos favorecidas... Ela teria gostado de ajudá-lo.

-Eu sei. Lamento muito. - o médico sabia da perda de Wufei e que ele depois da morte da família havia se entregado a luta contra a pobreza e miséria prestando serviços sócias em orfanatos e hospitais. –Eu tenho um amigo na Terra. Um médico respeitado. Ele é especialista em experiências mal sucedidas. Vai custar caro, mas ele pode ajudar o Duo.

-Iremos até lá. – Wufei se resignou.

Chang Wufei era um jovem descente de chineses que se casara cedo demais. Sally sua esposa, lhe dera uma filha linda e risonha, e por alguns anos os três foram felizes demais, porem um trágico acidente retirou de Chang sua pequena família. A vida havia lhe sido dura, mas ele, como médico e pesquisador havia se entregado às obras de caridade, agarrando aquilo como única forma de sobreviver a tanta dor.

Naquela noite quando se deparou com o jovem Duo voltava de uma festa. Ali começava outra parte de sua vida. Quando Duo cruzou seu caminho Wufei sentira que estava ali uma missão sua: ajudar aquele rapaz.

Duo por sua vez sentira que confiava naquele homem como se fossem velhos conhecidos, amigos e cúmplices.

Wufei não contou a Duo sobre o perigo que seu filho corria, mas o jovem pai não era nada bobo e sentiu o clima ruim ao voltar já devidamente vestido para o consultório do médico. Mas ninguém lhe disse nada. Embora tivesse pressionado, eles nada disseram. Apenas que teria que ver um especialista na Terra porque a gravidez era arriscada.

Duo temeu pelo filho, sentia que alguma coisa podia lhe tirar aquela criança.

Quando voltaram para casa já era tarde. Wufei notara como Duo havia passado de feliz a preocupado. Havia visto o menino sorrir lindamente na sala do exame quando via o pequeno filho se mover debilmente dentro de si, mas agora estava com aquele violeta pesado de dúvidas e medo e Chang por alguma razão odiava vê-lo triste. Tratou de animar o garoto, afinal, alguém como ele já sofrera demais na vida, era bom um pouco de diversão de vez em quando.

-Está com fome? - o chinês perguntou.

-Estou bem... - Duo tentou mentir, mas era péssimo quando tentava. Seus olhos sempre o entregavam. Ele não tinha como pagar por comida e já estava constrangido demais por tudo que Wufei já havia feito por ele.

-Ahhh... sério? - Wufei fez uma cara divertida de espanto. Tentava deixar o jovem mais confortável. –Estou morrendo de fome... quase passando mal de tanta fome. Vamos comer em um lugar que eu adoro. - ele sorriu puxando Duo pelo braço. No caminho ia brincando, fazendo piadas bobas e sentia que Duo ia relaxando aos poucos.

-Aqui é muito caro... - Duo falou baixinho quando estavam sentados à mesa de uma lanchonete famosa em L5.

Wufei procurou ignorar o comentário de Duo. Chamando a garçonete ele pediu algo exagerado e fez o mesmo para Duo. Em pouco tempo Chang sorriu vitorioso observando em silêncio Duo comer com gosto o enorme sanduíche e fritas. Aquele garoto ali, parecia só mais um garoto, como todos da sua idade. Era lamentável que ele já tão cedo, tivesse que sofrer tanto.

A sobremesa foi uma enorme taça de sorvete decorada com uma cereja delicada. Duo se perdeu no gosto doce do sorvete achando que aquilo era a coisa mais saborosa do mundo.

A noite estava salva. Wufei havia conseguido dar um brilho novo aqueles olhos grandes de um violeta intenso. Satisfeitos foram para casa... e naquela noite, ao menos naquela noite, graças a simpatia de Chang Duo não se lembraria de seus medos e problemas.

De fato o jovem papai nem mesmo teve tempo para lembrar suas angústias. Ele apagara logo depois de tomar um banho e escovar os dentes... Wufei suspirou o observando. Estava virando um gostoso hábito seu velar o sono daquela criança... Duo era como alguém que já tivesse conhecido há tempo atrás. Era como um irmão mais novo.

-Vou te proteger, Duo. E farei o que puder para fazer seu bebê vir ao mundo. - era uma promessa.

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No dia seguinte quando Duo levantou seus olhos instintivamente buscaram pela imagem segura de Wufei, mas ele não estava no quarto. Ao sair a sua busca o garoto o encontrou em ou quarto concentrado numa tela de computador.

-Wufei. – Duo entrou no cômodo que o rapaz usava para trabalhar.

-Oi, Duo. – Chang sorriu ao vê-lo entrar.

-Esse é seu trabalho? – o garoto se sentou ao lado dele observando a tela do micro.

-Isso. Eu sou médico, mas me dedico às pesquisas sociais e descobertas de remédios. Uma forma de ajudar as pessoas. - ele falou.

-Nunca conheci ninguém assim... -Duo comentou.

Wufei não fora assim a vida toda. Era um rapaz fechado para o mundo, embora não ignorasse os problemas que o cercava, mas somente depois de conhecer Sally Pô, uma jovem sonhadora que tinha um forte código de justiça ele começara a trabalhar por melhorias. Depois que a esposa morrera, lhe deixou muitas pesquisas iniciadas e ele apenas havia dado seguimento à obra maravilhosa dela.

-Eu tenho que ir embora. Você já fez tanto por mim... Mas eu tenho que ir. - o garoto falou. Era uma despedida. Claro que tinha que ir embora. Não podia ficar o resto da vida com Wufei.

-Ao menos tem para onde ir? – Chang lhe perguntou calmo.

-Para as ruas. Não se preocupe... Estou acostumado. - é claro que Duo tinha aquele costume, mas as coisas agora eram diferentes. Ele estava grávido e o bebê era problemático e Wufei sabia disso. Se aquele menino voltasse para as ruas estaria morto em pouco tempo.

-E seu filho? Acha que essa criança merece ter a mesma vida que você? - ele perguntou. –Duo, me diga. Esse filho... Porque não se livrou dele? Você sabe que não tem condições de criá-lo. - Wufei reclamou. Era duro fazer uma pergunta daquelas, mas estava bem curioso.

Era verdade, mas o rapaz não falou. Apenas sentiu aquelas palavras lhe esmagarem o coração por dentro. Ele queria o melhor para aquela criança, mas tinha certeza que não podia dar nada de bom a ela.

-Eu... Não sabia que estava grávido até desmaiar no meio de um programa com um cliente violento. Eu estava com três meses de gravidez nessa época. Ficou tarde para eu tirar... E mesmo assim. - ele olhou para o rapaz a sua frente. –Chorei muito quando soube o que haviam feito comigo nas experiências, mas esse bebê me encheu de uma esperança... Ele era a chance de dar certo que eu nunca tive. Era fruto do sentimento mais profundo que senti na vida e... - ele se calou. Havia falado mais do que queria.

-Então esse bebê tem um pai? Achei que era fruto de um programa. - Chang comentou.

-Eu... Amei esse homem. Foi um cliente meu... Mas não quis receber por isso. Fui embora sabendo que estava apaixonado por ele. - Duo falou.

-Entendo. Apaixonou-se pelo cara... – Chang comentou. –Ele sabe do bebê?

-Não... Ele nem mesmo deve se lembrar de mim. Foi apenas uma noite... – Duo falou com tristeza. –Um anônimo rico da Terra... - ele completou. –Se eu entregasse essa criança a ele talvez pudesse ter mais futuro e eu poderia voltar a trabalhar como sempre fiz... - o garoto não queria isso. Não queria voltar a vida de prostituto nem mesmo se separar do filho, mas sabia que não teriam como sobreviver se ficasse com seu bebê. –Ele terá mais chances longe de mim. - falou por fim e isso lhe partia o peito em mil.

-Vai entregá-lo no orfanato? - Chang se alarmou.

-Não tenho outra opção. Se ele conseguir uma família que lhe dê carinho e amor... ao menos estarei feliz. - era mentira. Seu coração gritava que era mentira. Como ia ficar longe daquele bebê? Não podia, mas era o destino.

-É uma decisão muito dolorosa, mas você quem deve tomá-la. - Chang falou, mas em seu íntimo havia decidido que no que dependesse de si ia fazer de tudo para que pai e filho não tivessem que se separar, afinal ele conhecia bem a dor que era para um pai se ver longe de um filho. Experimentara isso na morte de sua filha Sarah e jurara que pai nenhum ia perder seu filho se ele pudesse evitar.

Duo estava sentado acariciando seu ventre. Até que falou. –O médico disse para ir ver um especialista na Terra, alguma coisa grave deve estar havendo com o meu bebê. E eu não tenho grana ir à Terra. - Duo falou se levantando.

-Eu vou levá-lo. Tenho umas coisas para resolver na Terra e te levo lá. - Wufei o segurou pelo braço.

-Não. Eu tenho que voltar a minha vida... e... - o garoto o olhou. Não podia aceitar tal envolvimento.

-Duo. Você não tem como voltar a sua vidinha. As coisas não vão ficar nada bem se você voltar. Está grávido e vai perder esse bebê senão se cuidar. - o chinês falou firme.

-Mas... - o garoto ia protestar.

-Escute. Fazemos um trato, certo? Você faz o que eu te peço apenas até o bebê nascer e se ficar tudo bem você faz o que quiser depois. - o chinês o olhou com força, quase lhe impondo aquela decisão.

Era uma proposta, mas Duo não podia aceitar. Afinal Wufei tinha a vida dele... Não podia abusar de sua boa vontade, mas seu bebê precisa de cuidados...Seria bom ver um especialista.

-Eu... Se eu aceitar. Vai ser só pelo bebê, certo? Não preciso de ajuda... - Duo concordou sem jeito.

-Beleza. Está fechado assim.

Começava uma nova jornada.


Beijos

Hina