Lágrimas Vermelhas

Parte III


A viagem para a Terra não foi nada fácil. Duo nunca tinha pisado numa nave espacial e nem mesmo tinha autorização para ir a Terra. Havia uma série de impedimentos e não era qualquer pessoa que tinha passagem livre entre o espaço e o planeta Terra. Esses embargos eram aprovados por lei e visavam proteger a nação terráquea de pessoas que nada tivessem a oferecer ao planeta.

Wufei não teve outra opção a não ser cadastrar Duo como seu noivo. Somente assim o jovem tinha direito de acompanhá-lo à Terra para ir ao médico, uma vez que Chang teve que cadastrar aquela gravidez como sendo de sua responsabilidade também.

Por isso agora Duo era o futuro senhor Chang e estava esperando um filho de seu futuro marido.

-Ele tem cadastros no nosso sistema por pequenos furtos, senhor Chang. – a recepcionista insistiu para que Duo não embarcasse na nave para a Terra.

-Minha jovem. Ele era uma criança na época... – Wufei protestou.

-Alem do mais... Esse garoto nem existe nos cadastros de pessoas físicas. Ele não é legalizado...

-Agora ele está como meu dependente, senhorita. – o chinês falou impaciente. É claro que Duo nem mesmo existia como cidadão. Aquelas crianças usadas como experiência foram apagadas dos cadastros para manter o sigilo do laboratório.

-Mas senhor... Ele...

-Wufei. Deixa... Eu talvez não deva ir... – Duo falou. Estava acostumado com aquela forma de exclusão.

-Não. Você vai comigo. Essa moça não se oporá. Ela não será responsável pela morte dessa criança. – ele falou se voltando para ela. –Ele vai consultar um médico por causa do nosso filho. E se ele não puder ir e algo acontecer ao bebê eu vou processar essa joça por assassinato! – estava quase gritando.

-Ele... Está grávido?

-O que acha que é isso? – Wufei puxou Duo para sua frente levantando a blusa do rapaz mostrando a quem quisesse ver a barriga dele.

-Oh... Por aqui. Tudo bem... – ela se apressou abaixando a blusa de Duo. –Venham... Vou lhes dar um lugar bem confortável...

Duo ficou pensativo. Era a primeira vez que conseguia se beneficiar com alguma coisa. Em L5 quando sabiam que ele estava grávido o humilhavam por causa disso.

"Então é assim que ele ia ser tratado se fosse filho de um homem importante? Talvez Heero pudesse cuidar dele depois que nascesse..." – Duo pensou quando sentou na poltrona.

A viagem foi terrível para Duo. No segundo dia Wufei foi buscá-lo no banheiro depois de o garoto sumir por quase uma hora.

Ele estava praticamente desmaiado, como se seu corpo tivesse chegado à exaustão pelo vômito. Wufei torceu o rosto vendo que o rapaz estava muito abatido. Avaliando o líquido esverdeado que ele expelia viu que era a bile.

-Wufei... ahhh... Isso está acabando comigo... – Duo gemeu cansado.

-Tudo bem... – Wufei o amparou vendo como ele estava febril. –Vamos limpar isso aqui e voltar para a poltrona.

-Não... Eu estou sem ar. Estou enjoado demais... Tudo roda! Ajude-me... – ele já chorava angustiado vivendo a pior fase daquela gravidez.

Wufei não podia fazer muito por Duo a não ser torcer para aquela viagem acabar o quanto antes. Mas os dias que duraram a viagem foi um verdadeiro inferno para o grávido. Duo sofreu com vômitos e pequenos sangramentos... E quando finalmente embarcaram na Terra o rapaz estava tão debilitado e pálido que Chang achou ser já o fim. O menino reclamava de dores no ventre e náuseas, e falta de ar e um cansaço extremo. Em suma era uma imagem ruim de se ver. Estava pálido e debilitado demais, estava presta a desmaiar no meio da plataforma movimentada quando Wufei o alertou.

-Tenha calma, Duo. O Trowa está bem ali. Ele vai nos levar para a casa dele e você vai poder descansar.

-Quero vomitar, Wufei. – Duo gemeu fechando os olhos. Estava suando frio.

-Vomite no seu saquinho. – o chinês falou o amparando. –Use seu saquinho de papel... – pediu vendo que Duo estava ficando como o corpo mole. Estava tão pálido e frio.

Chang e Duo foram recepcionados por um amigo do chinês que vivia na Terra. Seu nome era Trowa. O rapaz era um jovem alto de olhos médios verdes e muito simpatizava com o jovem chinês.

-Chang quanto tempo... – falou sorridente quando se aproximou. –Ei? Ele não está bem. – afirmou vendo que Duo estava quase desmaiando. –Vamos logo, ele precisa descansar. – falou urgente.

-Obrigado por nos deixar ficar na sua casa, mesmo depois de toda a história que lhe contei. – Wufei o agradeceu.

-Você é muito caridoso... – Trowa comentou observando Duo de cima abaixo vendo como o garoto estava debilitado, porém mesmo assim o jovem era bonito demais. –Mas posso entender os seus motivos em ajudar esse menino... – ele sorriu os guiando até seu veículo. Duo adormeceu assim que sentou no banco e ficou imune aos acontecimentos da pequena viagem que os levaria até a casa de Trowa, onde ficariam por um tempo.

-Não é nada disso que você está pensando, amigo. – Wufei falou ao notar que Trowa não tirava seus olhos verdes do garoto adormecido no banco de trás e ele notava uma conotação erótica naquele olhar. –Eu não teria coragem... Apenas estou com pena dele.

-Quando você me contou naquela mensagem que vinha a Terra para esse fim eu imaginei tantas coisas... Até que eu poderia fazer um programa com esse garoto, mas depois que o vi chegar nesse estado tão debilitado... Mudei de idéia.

-O que quer dizer Trowa? – Wufei o olhou.

-Acho que não tenho problemas em aceitar um parceiro que já tenha um filho. – ele sorriu.

-Não tem graça... – Wufei o repreendeu. –Duo é sofrido demais para você brincar assim... Ele precisa de ajuda não de sexo. – ele completou. –E eu não sabia que estava disponível... E aquele seu namorado. O Quatre?

-Ele me deixou para ficar com um escritorzinho... – Trowa falou. –Depois de tantos anos de namoro ele veio com um papo de nosso relacionamento ter ido para rotina e acabou me deixando...

-Entendo...

-E você? Depois da Sally? – Trowa mudou de assunto.

-Ninguém... É difícil, Trowa. Eu tive com ela uma coisa muito forte. Acho que ninguém mais vai me interessar... – ele comentou pensativo.

-O Duo... Como ele é? Faz o gênero do prostituto vulgar? – Trowa brincou.

-Você tem uma visão preconceituosa demais. Ele não passa de um garoto... – comentou o chinês olhando para o rosto abatido do rapaz.

-Sei... – Trowa deu de ombros voltando a atenção à direção.

Wufei conseguiu marcar a consulta com o médico especialista para dali a quinze dias, enquanto isso ele cuidaria de seus trabalhos na Terra e Duo ficaria na casa de Trowa.

-Eu não posso aceitar tudo isso que estão fazendo por mim... – o garoto falou quando se sentou à mesa para o café da manhã. Haviam chegado de viagem no outro dia, mas era a primeira vez que ele falava com Trowa, uma vez que havia dormido durante um dia inteiro.

-Não se preocupe. Não Será problema. – Trowa rebateu.

-Eu lhe agradeço... – o jovem respondeu observando o homem dono da casa. Era um rapaz muito bonito, porém tinha um jeito sério de olhar. Os olhos médios tinham um tom verde. –É que eu não queria dar trabalho... – ele falou. –Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa para ajudar. Para lhe recompensar pelo que está fazendo.

Wufei o olhou impaciente. Não estava acreditando que Duo ia oferecer seus serviços a Trowa. Será que aquele garoto não aprendia nunca a deixar aquela vida de lado?

-Não, Duo. Nesse estado você não pode fazer nada por mim... Você precisa apenas de descanso. – Trowa falou imediatamente nem mesmo reparando que o jovem podia lhe fazer alguns favores de cunho íntimo.

-Posso arrumar sua casa... – Duo resmungou agradecido e Wufei quase sorriu por ele não ter se oferecido a Trowa. Nem tudo estava perdido naquele jovem.

-Bom... Sendo assim quando estivermos sozinhos eu seleciono alguma coisa bem leve para você fazer já que eu tenho uma moça que faz a limpeza da casa e ela não vai gostar nada de saber que eu tenho alguém para fazer isso no lugar dela... Ela tem muito ciúme dessa limpeza. – Trowa sorriu. –Ahhh... Wufei! Eu posso levá-lo comigo para a galeria se ele quiser... Assim não fica o tempo todo dentro de casa...

-Galeria!? – Duo se voltou para ele bem interessado.

-Tenho uma galeria de arte. Você vai gostar... – ele falou sorrindo.

Wufei apenas os observou como jogado de lado. Era estranho, mas Duo parecia muito bem disposto e Trowa tão aberto sorrindo para o garoto. De fato ele nunca havia visto Duo com outros olhos senão de um delicado irmão mais novo, porém se o garoto encontrasse alguém podia o ajudar a cuidar daquele bebê e o ajudar a viver. Quem sabe Trowa não podia ser essa pessoa? E pelo início amistoso entre os dois Wufei não descartava essa possibilidade.

E assim passaram os dias. Trowa não tinha o hábito de sorrir muito ou mesmo conversar abertamente sobre tudo com qualquer pessoa, mas Duo era aquele tipo de homem que consegue se meter dentro do coração de todos de uma forma doce e vasta, e lá estava o artista entregue aos encantos do jovem de olhos violetas.

Era uma troca justa. Duo era divertido e despojado apesar de tudo, e Trowa culto e educado. Em poucos dias havia ensinado ao garoto como se comportar numa mesa, e não sair atacando toda a comida, bem como lhe ensinava coisas sobre arte e pintura... Em poucos dias o jovem sem infância, que se prostituíra na adolescência vira abrir-se em sua frente um novo horizonte. Estava vivendo um momento muito bom com aquela amizade com Trowa e até ficava esquecido de seus problemas ao lado daquele rapaz.

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-Duo... Não pega isso. Eu arrumo depois. – Trowa falou quase num grito quando o jovem se abaixou para pegar uns livros.

-Eu não sou feito de cristal. – ele rebateu chateado. –Vocês estão me ajudando muito, mas não quero ser um idiota inválido. –completou. –E não quero ninguém mandando na minha vida, entendeu? – falou agressivo.

-Ei, Duo. Estou só preocupado. – Trowa falou ameno erguendo as mãos em rendição.

-Eu... Sei. Desculpa. É que eu não gosto de ninguém me dizendo o que faço. Não é ingratidão é só que... – Duo se desculpou, mas era seu jeito. Estava acostumado a reger sua vida sem ninguém lhe dizendo o que fazer.

-Que você é um cara acostumado a se virar, mas agora não está mais sozinho, está bem? Lembra sempre disso. – o artista falou sério.

-Eu sei... – Duo abaixou a cabeça, envergonhado por sua atitude.

-Trowa? – uma voz melodiosa o chamou.

-Quatre? - Trowa se voltou para o rapaz que estava à porta, recem-chegado.


Pov de Quatre

Trowa está mudado demais e em pouco tempo. Ele parou de me procurar... e ouvi dizer que tem um novo namorado e isso ainda me incomoda muito. Não devia, já que fui eu mesmo quem terminou nosso namoro, mas será que ainda o amo? Então porque essa suspeita de ele ter encontrado outra pessoa mexe comigo?

É um fato que Yui é um belo homem, mas está mais que na cara que não combinamos em nada... Certo, às vezes nos entendemos na cama, mas ele não me ama, eu sinto isso e ele sabe que eu também não o amo. Mas se sei disso, porque continuamos? Porque eu não volto logo para o idiota do Trowa antes que entre outra pessoa na vida dele?

E agora eu estou aqui, mais uma vez na galeria dele, sempre digo que estava passando e resolvi dizer um olá, mas todas as vezes venho porque não estou mais agüentando ficar longe dele, mas hoje, em especial vim conferir se ele tem mesmo outro namorado. E para minha dor total o vi derretido de preocupação por um menino, quase uma criança, mas devo confessar, esse garoto é lindo e Trowa sempre gostou dos mais bonitos... Será que está gostando dele mesmo? Se tiver juro que espero esse menino sair e dou uma surra... Mas desde quando me tornei assim tão passional? Sinto que Trowa está roubando minha sanidade.

Fim do breve pov


-Oi, Trowa. – Quatre estava parado à porta da galeria.

-Quatre. Quanto tempo... – Trowa o recepcionou com um beijou macio no rosto. Haviam se tornado amigos depois da separação, mas sempre que estava diante do loiro seu coração batia forte lhe dizendo que ainda havia uma carga grande de amor por aquele rapaz.

-Está tudo bem. Passei por aqui e resolvi te dar um abraço... – o loiro falou olhando fixo para trás do balcão aonde tinha agora um jovem muito bonito. –Poderíamos tomar um chá? – ele sorriu.

-Claro. Duo olhe a galeria. Eu volto já. – Trowa falou apressado. Quando Quatre estava em sua frente era como ficasse hipnotizado. Suas atitudes mudavam. Não conseguia disfarçar que ainda amava aquele rapaz.

-Ele se chama Duo? É muito bonito... – Quatre comentou quando se sentou à mesa olhando para os jardins do lado de fora. Estava na praça de alimentação da galeria.

-Quem? Ahhh... Sim... É sim. – Trowa sorriu.

-Gosta dele?

-Gosto de você. – Trowa falou ligeiro encarando aqueles olhos azuis do loiro.

-Engraçado. Diz que ainda gosta de mim, mas não demorou muito a colocar outro na sua cama e que outro. Esse garoto é lindo... O que prometeu a ele? – Quatre falou ríspido.

-Não seja bobo. Duo é um amigo que Wufei está ajudando. Não notou a barriga dele? Está com quase sete meses de uma gestação muito complicada. – ele comentou sem pensar.

-Como? – Quatre estranhou. Aquilo era um homem.

-Ai... Duo é um jovem sofrido demais. É daquelas experiências loucas que faziam com crianças de rua... Era prostituto em L2 quando engravidou. – Trowa explicou.

"Um jovem prostituto chamado Duo que vivia em L2 e serviu às experiências de um laboratório? É o personagem do livro do Heero. É muita coincidência... não pode ser..." – Quatre ficou pensativo. Ele ficara bem marcado pelo último capítulo do livro Lágrimas vermelhas de Yui, porque sabia que o personagem Duo era importante para o oriental, mas Heero lhe assegurara que era apenas uma personagem inventada por si e Quatre acabou por acreditar que era aqueles amores inexplicáveis que um autor desenvolve por suas crias. Mas agora se deparara com um garoto que era o esboço da personagem de Heero.

-Coitado do rapaz. Cadê o pai dessa criança? – o loiro quis saber.

-Não tem... Wufei me contou que ele se apaixonou por um cliente. Acho que esse é o pai do bebê. Duo nunca fala sobre isso... – ele comentou. –Mas qual seu interesse no garoto? Tudo isso é ciúmes? – provocou um Trowa sorridente.

-Não seja ridículo. Você não ficaria com um garoto de programa, grávido ficaria? – o loiro questionou.

-Duo é uma pessoa especial. Acho que pode ser um bom marido e seu filho um bom filho para qualquer homem, sabia? – Trowa rebateu.

-Não acredito. Está dando vazão àquela sua tara por grávidas? Isso é nojento. – Quatre comentou.

-Eu era bem jovem... Hoje em dia não me excita isso...

-Sei. Quantas vezes já transaram? Ele é bom? – Quatre o provocou.

-Está sendo bem desagradável. Mas é claro... – Trowa ergueu as mãos. –Influência daquele japonês de merda... – gemeu.

-Não fala assim... Heero é um cara muito legal. – o loiro o defendeu.

-Já perdi a conta de quantas vezes tracei esse garoto... E ele diz que eu sou demais. – Trowa falou se levantando. Queria afetar do loiro de alguma forma.

-Eles dizem isso para todos! – Quatre gritou. –Basta lhe encherem os bolsos, seu idiota! – completou.

-Pelo menos eles dizem alguma coisa quente. È melhor que transar com um bloco de gelo prepotente. – falou deixando o loiro sozinho.

-Idiota! – Quatre rebateu, mas o outro já havia ido embora. –Que ódio!

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Trowa voltou bem chateado para a loja e o resto de seu dia foi péssimo. Era sempre assim quando Quatre e ele se encontravam. E mesmo assim se o loiro voltasse lá no dia seguinte ele ficaria hipnotizado como se nada tivesse acontecido. O artista olhou Duo que pintava um quadro entretido, ele até levava jeito para a pintura. O artista olhou o garoto, Quatre havia se chateado por causa dele ali na sua galeria... Quem sabe não fosse melhor o mandar embora?

-Olá... Você tem aqueles pinceis de fios retos? – um cliente chegou até Duo e Trowa o observou mais uma vez em silêncio. O rapaz sorria demais e isso o incomodou. –Obrigado você tem um sorriso bonito demais. Eu agora vou voltar sempre aqui... – o homem falou saindo com seu embrulho.

-Que merda está fazendo? – Trowa não devia ter agido assim, mas a briga com Quatre o havia chateado demais e ele acabou vendo em Duo uma forma de desabafar.

-Como? – o garoto não entendeu.

-Deu seu cartão para ele? Vai cobrar por uma noite com aquele cara? Porque pelo jeito como você se ofereceu a ele... Você não tem jeito mesmo. Agente tenta ajudar e ensinar alguma coisa, mas nunca perde esse modo de vadio... – o acusou.

-Que está fazendo? – Duo o olhou assustado. Trowa o humilhava o segurando firme pelo braço. –Trowa, pára com isso!

-Te incomoda saber que não passa de um vadio!? – o artista gritou.

Duo sentiu o sangue ferver, como diziam em L2. Estava muito grato por tudo que Wufei e aquele seu amigo haviam lhe feito, mas nunca ia admitir que ninguém o tratasse daquela forma. Nunca foi um vadio, apenas era sua única forma de não morrer de fome e Trowa o estava ferindo muito. Ele sentiu as lágrimas chegando diante de tal dor. Sem pode mais suportar ouvir aquilo ele fechou os olhos deixando que sua mão batesse como força contra o rosto do artista.

O momento seguinte foi de um enorme silêncio vazio e constrangedor. Trowa o olhava imóvel e Duo apenas chorava magoado.

-Some daqui. – o artista falou com raiva e Duo não ficou para ver o que acontecia. Ele saiu correndo como pode sem olhar para trás.

-O que eu fui fazer? – Trowa levou a mão à cabeça completamente arrependido.

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A Terra era um lugar estranho demais para alguém que passara a vida toda em L2. Duo estava trêmulo quando saiu da galeria atravessando a rua. Foi tudo tão instantâneo... Um veículo se viu obrigado a parar bruscamente por causa do garoto que atravessara a rua. Infelizmente não deu tempo. Duo foi jogado ao chão com o impacto.

-Droga... Eu não acredito. – o motorista saiu nervoso. –Eu não tive culpa... Você está bem?– falou ajudando o rapaz a levantar. –É você? O garoto do Trowa? Lá da galeria? Você se machucou? – Quatre era o motorista daquele veículo. Havia acabado de sair do estacionamento e dirigia furioso com o ex-namorado quando viu um garoto se atravessar no meio da pista. Conseguiu frear a ponto de não o acertar em cheio, mas ainda assim o garoto havia sido atingido.

-Estou bem... Eu... – Duo gemeu tão confuso. –Me tira daqui?

Quatre nem soube qual o motivo que lhe levou a fazer Duo entrar em seu veículo e sair com ele dali. Eles deram voltas sem destino certo quando finalmente o loiro parou rente a um acostamento. –O que te deu para atravessar daquele jeito? – o loiro olhou o garoto ao seu lado. –Está grávido. Trowa me contou. Devia tomar mais cuidado.

- Ele me humilhou. – Duo gemeu lembrando das palavras. –Me chamou de vadio... E eu não fiz nada. – ele se queixou.

-Ahh... Foi isso? Não se preocupe. Ele sempre desconta tudo nos outros. Coisas de um artista maluco. Não se importe. – Quatre sorriu com pena do garoto. –Quanto tempo está com ele?

-Não estamos juntos... – Duo falou rapidamente.

Quatre voltou a dirigir enquanto ouvia a história de vida do jovem e finalmente entendera que ele e Trowa não tinham um caso como o artista insinuara e essa notícia lhe deixava muito feliz.

-Aonde vai? – o loiro perguntou amistoso quando deixou o rapaz de volta na frente da galeria. Já era tarde da noite.

-Não sei... – Duo falou. De fato não sabia. Não queria mais ver Trowa e nem Wufei, mas sua permanência na Terra era apenas por causa do chinês e ele não poderia ficar vagando por ali sozinho, sem seu falso marido. O que ia fazer?
Um bolo incômodo se moveu em seu estômago. –Tentar voltar para casa... – ele comentou.

-Procure o Trowa. Ele deve estar preocupado com você. – Quatre comentou antes de ir embora.

Duo não voltou para a galeria. Não ia olhar para o artista depois de tudo. Assim ele caminhou pela noite a fora. Estava na Terra, o lugar de Heero, aquele homem que tanto amou. Ele pensava que seria melhor ter esse filho e deixá-lo em algum orfanato na Terra, ele teria mais chances na vida, mas alguma coisa dentro de si insistia dizendo que Heero tinha direito de saber que aquela criança existia, mesmo que fosse apenas para humilhá-lo, e acusá-lo de interesse, mas talvez se tivesse o bebê e fizesse uma forma de deixá-lo com Heero, o homem poderia criá-lo... Mas como faria isso?

O jovem pai vinha pensativo. Caminhava pela noite naquele lugar estranho a seus olhos quando viu uma iluminada vitrine. Havia uma foto enorme de um Heero belo e sorridente. Os olhos de Duo se iluminaram no momento que bateram sobre o rosto amado do escritor.

Ele correu para a vitrine e leu tortamente o título Lágrimas Vermelhas. Heero era um escritor famosíssimo. O enunciado abaixo da foto de Yui revelava alguns detalhes do livro como o último capítulo onde o prostituto Duo mostrava que era gente e sabia amar se revelando completamente apaixonado por Heero ao ir embora sem receber pela noite, havia também um trecho de uma entrevista do autor explicando que Duo não existia de verdade, era apenas um personagem.

Por tudo que já havia acontecido a Duo em toda a sua vida ele sentiu aquelas palavras como um chicote feroz fazendo sua carne em feridas. Sua alma havia sido arrebatada. Heero, o único homem a quem Duo se entregou revelava ao público que ele não existia. Toda sua história não existia...

-Não pode ser. – o garoto gemeu entre lágrimas. Os dedos em garra contra o vidro da livraria. Ele foi sendo vencido pela tristeza, deslizando para o chão. As lágrimas que vertiam de seus olhos eram amargas e derrotadas. –Eu... Não posso acreditar. – gemia na sua dor se encolhendo naquela calçada fria, envolto em sua dor anônima.

Nessa noite Duo se sentiu mais abandonado que nunca. Ele perdera a esperança acolhedora que trazia dentro de si. A história que fantasiava com Heero não existia, uma vez que para o escritor ele não existia. Era só um personagem...

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Era noite feita quando Chang chegou na casa de Trowa. Seu dia havia sido atarefado e tenso, porém recebeu a notícia que o menino grávido havia ido embora.

-Como é? – Wufei quase berrou quando Trowa lhe contara que Duo foi embora.

-Sinto muito... – o artista falou. Estava mesmo chateado e culpado. Não fizera por mal.

-Não pode ser. O médico seria daqui a três dias e Duo estava muito alegre com você lá na galeria. Alguma coisa tem que ter acontecido. Trowa. – o chinês estava em pânico. Duo não podia estar sozinho uma hora daquelas e na Terra. –Merda, Trowa. Que aconteceu entre você e Duo!? – ele gritou esquecido de sua forma sempre calma de agir.

-Eu não fiz por mal. Quatre apareceu por lá e nós brigamos mais uma vez. Ele achou que Duo era um amante meu e me humilhou pelo fato de ele ser um garoto de programa... Depois eu vi o Duo todo sorridente para um cliente e acabei o humilhando... – o rapaz confessou.

-Que você fez? – Wufei estava quase chocado.

-Eu perdi a cabeça e o xinguei. Disse que era um vadio...

-Seu desgraçado... Aquele garoto está com um bebê de quase sete meses alojado na parede do útero implantado, nem sei como ele ainda está bem e a criança também. Ele pode estar passando mal agora... Pode até já ter...

-Eu sinto muito. – o artista falou abaixando a cabeça.

-Sente muito? Cacete, Trowa! Esse problema com Quatre está passando dos limites. Vocês brigam, você desconta sobre qualquer um. Agora só não podia ter feito com o cotado do Duo. Ele está grávido! – Wufei falou. – Vou atrás de Duo. Você fica, caso ele volte.

-Merda! O que posso fazer? - o artista sentia o peito pesado de culpa e arrependimento.

-Rezar para eu o encontrar! – Chang falou saindo apressado.

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Duo não se sentia bem. Os enjôos e mal estar haviam voltado com a mesma força de sempre, bem como agora sentia uma dor fina no ventre onde o bebê estava alojado.

-Até que é bonitinho... – Duo ouviu alguém falar, mas seu estado era tão ruim que as vozes estavam ficando distantes.

-É só um drogado... Um desses vermes de rua. Vamos embora. – eram dois jovens que passavam pela rua e viam o garoto no chão da calçada.

-Esse lugar maldito... Preciso dar um jeito de ir embora... – Duo gemeu no chão sem forças para levantar. A dor estava começando a se alastrar por seu abdômen.

-Garoto! – um homem se aproximou dele. –Aqui não é lugar para vadiagem. – era um policial. –Vamos! Levante! – falou ríspido.

-Não. Con... ahhh... Consigo. – Duo gemeu.

-Está drogado? – o policial se aproximou.

-Sentindo dor... – ele respondeu.

Nesse momento o carro de Quatre estacionou próximo. O rapaz não era má pessoa. Ele protelou várias vezes em voltar atrás daquele garoto, mas Duo não ia voltar para casa de Trowa e no estado dele não era bom ficar ali na rua. Por compaixão Quatre voltara à galeria, mas nada de Duo. Então dera algumas voltas no quarteirão e finalmente encontrara o garoto.

-Duo. Ohhh... Policial. – Quatre se aproximou.

-O conhece? Ele disse que está sentindo dores. – o homem falou.

-Ele está doente. Mas está tudo bem, vou levá-lo para casa. – o loiro falou amparando o garoto. Seus olhos azuis claros esbarraram com a imensa foto de Heero na livraria. A idéia de que aquele era o garoto da história lhe voltaram à cabeça. Ele ajudou o jovem a entrar em seu carro. O garoto não protestou tamanha a fraqueza que sentia, apenas se largou no banco confortável.

-O homem naquela foto, é o pai do seu filho? – Quatre falou sério antes de dar partida no carro. Duo apenas confirmou triste com a cabeça, preferiu o silêncio. O loiro não falou mais nada. Apenas guiou o veículo para a casa de Trowa.

Era madrugada Wufei finalmente pode abraçar Duo assim que Quatre chegou com ele na casa de Trowa. O garoto estava péssimo.

-Venha, Duo. Meu Deus! – o chinês o guiou até o quarto.

Trowa não teve coragem de encarar o menino. Estava tão envergonhado por sua atitude. Quatre deixou que Wufei saísse com o rapaz para olhar nos olhos verdes do artista.

-Duo me contou o que você fez... – o loiro olhou para Trowa com rancor quando os dois estavam sozinhos.

-Foda-se! A culpa é toda sua. – o rapaz respondeu se levantando. Estava tenso. –Eu amo você e não estou mais suportando essa loucura de ficar longe de você, Quatre. Eu sonho com essa pele... Esse cheiro... – ele falou angustiado.

Quatre ia abrir a boca para revidar. Mas Trowa o agarrou firme tomando seus lábios com violência para um beijo quente e demorado. O jovem loiro não teve como reagir, afinal ainda sentia queimar dentro de si o amor que tinha por Trowa, e talvez fosse hora de dar a famosa segunda-chance para aquele homem.

-Eu sabia que ainda me amava. – Trowa falou o empurrando no sofá mordiscando seu pescoço com força, o marcando como seu.

-Eu não devia... Mas não consigo te esquecer... – o loiro falou abrindo as pernas para confortar melhor seu antigo namorado entre elas.

-Eu te amo, Quatre. – novo beijo.

-Me prova isso... Faz amor comigo daquela forma. Como nos velhos tempos. – o loiro se entregou de vez ao que sentia. Haviam terminado porque segundo Quatre, o relacionamento havia caído numa rotina, mas agora que estavam uns tempos separados e nenhum dos dois conseguia esquecer aqueles beijos e toques.

Trowa o tomou nos braços o levando para seu quarto. Naquela madrugada não importaria se tivesse mais gente em casa. Eles iam se amar com paixão.

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Wufei ajudou Duo a se banhar e depois o pusera na cama. Eles não trocaram palavras, apenas olhares. Os negros olhos do chinês se encontraram com os grandes violetas do jovem. E Duo pode ver que o homem estava preocupado.

-Porque fez isso comigo? – o pesquisar quis saber. Estava com uma expressão pesada turvando seu rosto.

-Eu... Queria ir embora. Estou cansado de ser humilhado... – Duo falou firme.

-Quando eu te humilhei? – Wufei o cortou. –Tínhamos um trato e você me traiu.

-O que queria que eu fizesse!? – Duo gritou farto de tudo aquilo. –Eu não sou um vadio, droga! – ele completou. Sim estava farto, esgotado.

-Que parasse de ser tão infantil. Eu sei que as coisas nunca foram fáceis para você, mas agora você precisar crescer. Tem um bebê dentro de você! – Wufei também alterou a voz.

-Eu não escolhi isso... – Duo revidou da mesma forma alterada que Wufei já gritava.

-Vocês são engraçados. Você bem que gostou de abrir as pernas. Bem que você gostou... – Wufei falou rude. –Não me olhe assim. Você deu pro cara porque quis e agora que está grávido... E eu e nem ninguém vai ficar com peninha de você por causa disso. – ele falou se levantando. Estava tenso.

-Eu não preciso de sua pena! – Duo gritou com raiva.

-Tem certeza? Não basta todos aqui quererem te ajudar? Você tem mesmo que querer ser o centro da atenção de nossas vidas? Quer sempre nos dar preocupação? Vê se cresce, garoto. – o chinês falou o olhando. Estava tentando recuperar a calma que Duo sempre conseguia retirar de si. –Continuando assim não sei como vão ser as coisas. Você lembra que esse bebê não tem o outro pai? Quando vai começar agir como um homem de verdade?

-Eu não quero mal ao meu bebê... – Duo falou finalmente quebrado por aquela discussão. –Eu só queria ter esse filho em paz... E Deus, ver como as coisas ficam para o futuro, mas nada parecer ser fácil. Será que vou ser condenado à vida toda por ter tido um passado como o que tive? – ele olhou para Wufei, seus olhos cheios de lágrimas. –Estou esgotado de tanta angústia. Eu só quero ter meu bebê em paz... – ele terminou vencido.

Wufei não falou nada. Apenas suspirou vendo como Duo estava debilitado. O melhor a fazer era deixá-lo descansar. –Vou te deixar dormir... e pedir que esses dois diminuam esses gemidos. – falou se referindo a Trowa e Quatre no quarto ao lado.

Duo nada falou. Apenas se deixou afundar no travesseiro. Estava cansado e seu ventre doía insistentemente.

-Meu Deus. Como vai ser isso... – ele gemeu contra o macio travesseiro. Seus pensamentos estavam em Heero e naquele conto de fadas daquela noite. Como alimentou aquele sonho romântico. Mesmo tendo fugido ele continuava trazendo em si o cheiro de Heero. Aquela colônia masculina não saia de sua memória, mas hoje seus sonhos vieram por terra de forma vigorosa.

Aquele homem com expressão arrogante não era o mesmo com a qual transou naquela noite. O rosto na foto era impessoal demais.

-Não tenha medo, bebê. Aquele não era o seu outro pai. Eu juro, por Deus. O homem que me deu você era doce... foi tão carinhoso e atencioso. Os olhos dele brilhavam diferentes por mim, não tinha aquele brilho ganancioso e arrogante daquela foto. – o menino falou baixo acariciando sua barriga. As lágrimas vertiam lentas de seus olhos enquanto pequenos soluços tentavam escapar por seus lábios. –Eu queria tanto poder te mostrar para ele quando você nascesse. Queria poder te colocar nos braços dele, como meu presente, mas acho que não vai ser assim... Apenas rezo para que você seja adotado por alguém capaz de te amar. – ele falou.


Mais uma madrugada fria e solitária. Heero Yui era um homem belo e famoso. Era seu costume ter os mais belos amantes a seu lado, mas porque ainda assim sempre se sentia sozinho? Lembrava nitidamente que apenas uma noite não se sentira assim e foi com aquele prostituto.

-Onde e como ele deve estar hoje? Será que transando com alguém? – Heero se perguntou.

A tela do computador ardia em seus olhos azuis, estava mais uma vez lendo as primeiras impressões que digitou sobre Duo. E hoje pensava como seria a vida ao lado daquele menino? O que teria acontecido se não o tivesse deixado ir embora?

Ele estava sozinho em sua vazia mansão. –O que teria acontecido? – se perguntou em voz alta. –Eu nunca devia tê-lo deixado ir!! – gritou finalmente jogando com força o copo quadrado que tinha nas mãos contra a parede, em seguida abraçou o próprio corpo se encolhendo num choro doloroso. Estava farto de tanta solidão... Farto de pessoas o julgando... Ele não era o homem de gelo, como gostava de chamar a mídia. Era só um homem tentando ser feliz. Apenas isso.


Valeu. Beijos para vocês.
Hina

Hina