Lágrimas Vermelhas
Parte IV
Finalmente Duo entrou com Wufei na sala do médico que lhe examinaria. Normalmente ele tinha medo daquele lugar, numa associação ao passado, mas o local era diferente de um consultório. Era um ambiente claro e alegre. Nas paredes alvas haviam ilustrações animadas e ricas em cores e Duo pode se sentir mais seguro.
O homem que lhes recepcionou tinha um tom jovial, embora já fosse um homem maduro. Os olhos eram medianos numa viva cor de mel, os cabelos elegantes num corte baixo pendiam entre o castanho e o marrom. Ele apenas com os olhos parecia avaliar os dois rapazes a sua frente.
-Em que posso ajudar, Chang? – ele se sentou sem deixar de olhá-los.
-Um amigo meu, o doutor Tom lá de L5 nos enviou como se o senhor pudesse ajudar nesses casos de experiências... – Wufei começou.
-Entendo... É ele? – apontou para Duo. –Esse é o rapaz que está esperando o bebê?
-Sou eu... – Duo estava inseguro.
-Sou Treize. Ouvi sobre sua história por meu amigo Tom. É mesmo impressionante que tenha conseguido viver depois de tal experiência e mais impressionante ainda que tenha levado uma gravidez como essa até tal tempo de gestação, mas Tom me contou sobre o perigo que vocês dois estão correndo... O bebê está preste a morrer por estar alojado na parede uterina. – ele falou olhando alguns dados anotados e nem mesmo se dava conta que Duo não sabia daquilo.
Wufei não gostou do médico, embora parecesse um profissional fora do comum lhe faltava um tom de humanidade, ele tratava Duo como mais um caso. Sim era apenas um caso interessante.
-Doutor, está falando de um garoto e seu filho. Não de objetos. – Chang falou ríspido.
-Ahhh? Então o senhor Chang vai me dizer como devo tratar um paciente?
-Vou sim, se insistir em tratá-lo como uma experiência. – o chinês revidou.
-O que há com o meu bebê? – Duo quase gritou se levantando. –Meu bebê!? – olhou para Wufei preste a fazer algum tipo de escândalo e agir com aquela sua forma infantil e agressiva quando se via enganado.
-Duo, não fizemos por mal. Eu só ia te contar depois que falássemos com o doutor Treize. Ele podia nos dizer que daria um jeito, que não era nada grave. Eu não quis te preocupar a toa. – Wufei falou em defesa.
-Não gosto de me envolver em briga de casal, mas mocinho, o jovem pai de seu filho está certo. Na sua situação não é bom ter esse tipo de susto. – o médico comentou. –Já vi casos de mulheres com esse problema e a maioria se salva e o bebê também... Se você se cuidar acho que vai ficar tudo bem. Agora o que temos a fazer é uma bateria de exames. – Treize falou tentando amenizar a situação.
Duo suspirou nervoso. Porque sua vida insistia em ser um verdadeiro inferno sempre?
-Venha, Duo. Para o bem dessa criança, fique calmo. – o chinês pediu delicadamente.
-Está bem... – o garoto vencido falou. Ele não tinha outra opção.
-O garoto tem muita sorte. – Treize comentou quando Duo estava se trocando. –Ter um noivo como você... Será um bom pai.
-Se tivesse lido direito às informações veria que eu e Duo não somos noivos e que esse filho dele não tem pai... E que se conseguir vir ao mundo provavelmente será deixado em alguma instituição. – Wufei falou frio encarando aquele homem.
-Hum... Então isso melhora as coisas.
-Como? – o chinês olhou o médico.
-Depois que eu examinar seu amigo nós dois podíamos tomar alguma coisa juntos... Quem sabe você me explica mais sobre o paciente? – Treize sorriu.
-Já estou pronto. – Duo entrou na sala com a transparente roupa. –Atrapalhei alguma coisa? –ele sorriu em constrangimento vendo que havia um clima diferente ali, mas nem Treize nem Wufei parecia querer levar adiante o que quer que estivesse sendo tratado entre os dois.
---
Treize parecia um homem bem objetivo. Seus olhos médios cor de mel pareciam fitar as pessoas de uma forma extrema. Sua consulta com Duo foi algo bem profissional, quase impessoal, mas o jovem pai conseguia se sentir seguro nas mãos daquele médico.
Dessa vez Wufei não entrou com Duo, o médico acabou por informar que ficavam apenas ele e seu paciente na hora do exame, o garoto por sua vez não se sentira amedrontado por causa disso. Ele já havia confiado naquele médico.
-Toda jovem mãe fica nervosa. É natural e em seu caso, sendo um homem, é mais sensível ainda. – o médico falava enquanto verificava o interior do ventre fecundado com uma pequena sonda. –Eu tenho visto muitos casos de experiências, cheguei a estudar a fecundação masculina, mas nunca tinha conseguido um caso... Como o seu.– ele comentou impressionado. –É perfeito, a estrutura uterina apesar de falha é perfeita se trantando de uma experiência. – ele falava.
O médico achava Duo incrivelmente interessante e o jovem trançado sentia-se péssimo por isso. Um enorme desgosto turvava sua bela face com um ar tristonho.
-O que foi? Sente alguma dor? – Treize notou aquele abatimento.
-Um pouco, mas não é isso. É que o senhor já parou para imaginar como é ruim ser essa... Essa coisa? – ele comentou.
-Eu entendo, mas Duo. Existe um Deus que por tudo zela. O homem te tocou tal qual terra arada. E Deus veio em seguida semeando a semente das mais belas flores do campo. – o médico sorriu. –O que quero lhe dizer, é que lhe tornaram capaz de engravidar e você hoje trás dentro de si uma vida... E isso é lindo.
-Eu... Entendo. Sinto como se por ele tudo valesse a pena. – o rapaz falou sincero.
-Isso, mamãe. Já começou a exercitar essa força grandiosa que as mães têm. O extinto leoa. – a consulta foi se tornando de algo impessoal para uma conversa entre amigos. Treize foi apenas mais um a não conseguir ficar imune ao encanto do rapaz.
-Eu sei que há algo errado com o meu bebê. – Duo falou preocupado depois de um breve silêncio.
-Errado? – Treize o olhou. –Você é um milagre andante, meu jovem. Já parou para imaginar o quanto você é especial? Quanto você pode ensinar para o mundo, para a comunidade cientifica? – era uma visão cientifica.
Duo não respondeu e Treize notou que seu paciente ficara muito tenso, não ousara comentar mais sobre aquilo por hora, afinal o médico tinha uma experiência ferrenha e notara que o garoto estava muito fragilizado, era aceitável. Era um menino ainda e estava grávido, não era fácil para ninguém.
-Quer saber o sexo? – ele perguntou tentando fazer o rapaz se animar um pouco.
-O senhor consegue ver? – Duo sorriu de forma instantânea.
-Não. – Treize sorriu vendo que conseguia seu intento. –Seu bebê está virado, não tenho como ver, eu apenas queria saber se você tinha curiosidade, se tinha preferência?
Duo pensou um pouco, realmente ainda não tinha pensado no sexo do bebê, apenas rezava para que viesse com saúde. –Eu... Ainda não pensei nisso. – falou.
-Comece a pensar. Pode ser uma menina para te confortar os dias, ou pode ser um menino para cuidar de você. Garotos adoram proteger as mamães... Já pensou num garotão dentro de casa para te proteger? – Treize brincou e seu paciente finalmente se descontraiu. -Veja, bem, Duo. Você vai entrar para o sétimo mês de gestação. Faltam só dois meses, mas temo que teremos que tirar o bebê antes. Talvez com oito meses, porque ele está colado na parede do seu útero... E isso é muito perigoso. – ele explicou aproveitando que Duo estava mais maleável por causa da brincadeira do sexo do bebê.
As explicações de Treize foram muitas, mas a todo o momento o médico lhe assegurava que não havia nada de tão grave com aquela gravidez, apesar de ser diferente, estava tudo bem. Ele só devia manter um bom repouso e alimentação e de forma alguma se meter em aborrecimentos.
-Jovem papai. Acho que vamos conseguir pôr uma bela criança em seus braços. – Treize sorriu para Wufei quando voltou para a sala com Duo.
-Está tudo bem mesmo? – chinês falou nervoso.
-Pai. Repouso, alimentação saudável e pelo amor de Deus, nada de aborrecimentos. – o médico pediu a Wufei como se esse fosse tratar Duo como um bebê.
-Já disse que não sou o pai. – Wufei se apressou em falar e Duo sorriu achando engraçada aquela confusão que Treize fazia. Mas até que seria bom seu filho ter um pai como Wufei, seria muita sorte.
Duo saiu do consultório em silêncio. Tantas coisas mudaram para ele desde que conhecera o amigo Wufei. Era tão prazeroso estar com aquele chinês, mas Duo sabia que as coisas iam ter que ganhar um assentamento, afinal ele era um prostituto grávido de um famoso escritor e não podia ficar vivendo com o chinês, atrapalhando a vida dele dessa forma.
Eles caminharam pela calçada movimentada, as vitrines chamativas fizeram os olhos violetas se distraírem. Treize lhe dissera que seu bebê nasceria em dois meses, ou menos, afinal talvez o bebê tivesse que ser retirado antes. A loja que lhe chamou a atenção era uma em especial para gestantes. Na vitrine havia uma variedade das coisas mais caprichosas do mundo. As roupas minúsculas fizeram Duo sorrir imaginando como seria quando seu bebê estive ali fora metido em um macacãozinho amarelo daqueles. Ele parou na entrada não reparando no preço que sempre vinha pequenino. Não havia comprado nada para sua criança embora ela estivesse quase nascendo.
-Sinto muito, mas não temos ponta de estoque. – uma moça ríspida falou com arrogância.
-Como? – Duo a olhou sem entender. Estava apenas olhando a vitrine.
-Aqui não tem nada para alguém como você. Agora saia! - ela falou. –Uma mulher rabugenta dessa achando que pode comprar na nossa loja. - a moça fizera tão pouco caso do jovem que nem mesmo notara que se tratava de um homem grávido.
-Mas a vitrine é pública. – Wufei se meteu a olhando feio.
-Tudo bem. Eu não ia comprar nada mesmo. – Duo o segurou pelo braço o puxando para longe da loja. Não queria confusão. –Está tudo bem. Estou acostumado com esse tipo de tratamento... - ele falou triste. Era evidente que não se acostumava com aquela forma dura como era olhado.
-Duo... - Wufei odiava ver aqueles olhos violetas com aquele brilho de lágrimas. Porque o mundo tinha que o condenar por seu passado?
-Meu bebê está quase nascendo e não tenho sequer um sapatinho, Fei. – Duo falou com expressão de quem ia chorar.
Wufei abriu a boca e fechou. Nunca havia dado a Duo àquela intimidade. Mas não ia se chatear por isso, era até carinhoso e fazia anos que não o chamavam dessa forma. Essa era a maneira carinhosa de Sally o tratar.
-Meu Deus... Rezo tanto para que ele possa ter uma família descente. Não merece sofrer como eu... Merece uma chance de ser feliz. - Duo comentou falando de seu filho. –Que droga de pai eu sou? Está quase chegando o inverno e ele sequer tem roupas para aquecê-lo e eu nada posso comprar... – seus olhos agora estavam carregados por lágrimas.
-Vai ficar tudo bem, Duo. – o chinês falou. Mas não tinha certeza disso. Duo ia perder o filho de vista quando o entregasse para adoção e voltaria à sua vida de prostituto e não havia nada que pudesse fazer por ele. Não podia ficar com a criança, não tinha como manter um bebê... Mas não queria pensar nisso naquele momento.
Já era de tarde e Duo nada tinha comido. Wufei sabia que a alimentação do garoto grávido tinha que ser a mais saudável possível, mas pensou em fazer algo para animá-lo um pouco.
–Não está com fome, Duo? – perguntou mudando de assunto.
-Fome? – Duo falou. Claro. Estava faminto, mas não tinha um centavo nos bolsos. E já tinha explorando tanto o novo amigo. Queria dizer que estava morrendo de fome, mas tinha vergonha. Não era agravável a idéia de que dependia da boa vontade alheia para se alimentar. –Não... – falou baixo.
-Bom... Eu estou faminto. – Wufei mentiu. Ele sabia o quanto Duo estava constrangido com tudo aquilo e odiava aquele pai desnaturado que havia enchido a barriga de um menino com um filho e sumido no mundo. Era ele quem tinha que estar com Duo nesse momento, era ele quem tinha por obrigação alimentar ao menino e o filho. –Vamos! Conheço um lugar muito legal.
Era uma lanchonete daquelas bem coloridas e confortáveis. Duo nunca havia entrado em um lugar como aquele e quando finalmente se sentou no macio banco vermelho já estava esquecido de toda a tristeza. Seus olhos brilhavam num tom infantil e sonhador. Tudo era uma gostosa novidade.
Wufei sorriu vitorioso quando viu Duo devorar o lanche tamanho extra e em seguida o sorvete com calda de chocolate enfeitado com uma cereja. Era bom ver como Duo era só um menino divertido se lambuzando com a calda de chocolate.
O chinês pagou a conta vendo que havia conseguido o seu intento. Duo estava muito animado agora, nem lembrava das roupas de bebê. Apenas era sorrisos.
-Nunca comi nada tão gostoso! – ele sorriu alto quando saíram. –Nunca entrei em um lugar como esse, Fei! – sorria.
-É um shopping, Duo. – Wufei sorriu da admiração do rapaz.
Duo arregalou aqueles olhos bonitos e inocentes observando com espanto todas as novidades. Passavam pela praça de recreação aonde havia tantas crianças saudáveis brincando.
-Ele vai conseguir, não vai? – perguntou envolvido com as crianças que brincavam ao longe.
-Ah? – Wufei não entendeu.
-O bebê vai conseguir ser feliz como elas são. – falou certo disso.
-Claro que vai. – Wufei falou.
Do outro lado havia uma agitação em uma loja ampla. Duo curioso observou as pessoas elegantes dentro da loja. –Vamos ver! - chamou o chinês o arrastando para a vitrine e foi assim que viu uma pessoa que conhecia. Lá dentro. Cercado de pompas e luxos estava um homem alto vestido elegantemente. A pele morena e os cabeços num tom quase chocolate levemente rebeldes. Era Heero Yui.
---
Quando o azul de seus olhos se voltaram para a vitrine encontrou os violetas de Duo e o mundo parou por um momento para ambos.
-Senhor, Yui. O senhor não vai autografar? – uma moça lhe perguntou, mas ele parecia não ouvir.
–Autografar? – piscou confuso.
-Sim... – ela sorriu sem jeito.
-Quem se importar com esses rabiscos que faço? – ele falou largando a caneta luxuosa. Aquele era Duo, o garoto que roubara sua paz. Ele se apressou desviando dos fãs e repórteres. Era como se só visse o menino a sua frente. O menino com quem sonhou nesses últimos meses.
Duo viu Yui vir em sua direção, mas não conseguiu se mover. Porque diabos não conseguiu correr para longe como fizera há meses atrás naquela noite?
-Duo? É mesmo você!? – Heero falou se aproximando. Seus olhos antes tão frios já ganhavam um brilho humano diferente. –Onde esteve!? Eu te procurei...– ele falou meio suspendo. –Há tantas coisas que eu queria te falar... Meu Deus e agora você está aqui... – falava meio sem graça, na verdade estava agindo num impulso do coração e para alguém tão metódico era algo no mínimo diferente.
-Eu... – Duo não tinha o que dizer. Ele lembrava que fora usado por aquele homem apenas para ser o personagem de uma história. –Eu andei por ai... Não gosto de repetir programas quando não são bons. – falou vestindo uma máscara de frieza.
-Do que está falando? Aquilo não foi um programa, você nem mesmo cobrou... – Heero comentou. O que estava havendo? Nesse momento era para Duo estar pulando em seu pescoço lhe beijando apaixonado. Ao menos esse era o filme que imaginava em sua cabeça.
-Esqueça Yui. Eu estou em outra. – Duo se apressou expondo sua barriga e buscando os olhos negros de um Wufei que nada estava entendendo, mas ele leu a mensagem de socorro nos olhos do menino. E pela conversa deduziu que aquele homem era o pai do filho de Duo.
-Como assim? – Heero viu a barriga de Duo. –Não foi isso que eu planejei para nosso reencontro. – o escritor estava ficando tenso.
-Ei! – Duo o olhou com raiva. – Isso é vida real, senhor Yui. Não pode usar seus scripts o tempo todo! – gritou.
-Qual o problema, meu amor? – Wufei segurou firme a mão de Duo. –Ele está te incomodando? – falou fitando Heero.
-Está sim, vamos sair. – Duo falou aliviado.
-Espere! Quem é esse cara!? – Heero falou ficando nervoso. Quem aquele sujeito pensava que era para estar segurando a do seu Duo?
-Sou o marido dele, cara! – o chinês falou. Mas o que viu nos olhos daquele homem o fez repensar. Jurava que alguma coisa morrera nos olhos do rapaz. Viu como ele ficou desnorteado com a falsa revelação. Será que aquele arrogante escritor havia mesmo se encantado por Duo? Wufei achou que sim, afinal, Yui era um homem acostumado a determinado meio, e o contato com Duo lhe mostrara o outro lado das pessoas, um lado encantador e real. Duo era real, diferente dos personagens de Yui.
-Marido? – ele falou débil. Juntando os fatos, de alguma forma Duo estava grávido e casado. E isso lhe arrebentou por dentro. Aquela era sua idéia perfeita de felicidade, seu sonho de família e agora pertencia a outro homem. Culpou-se amargamente se fechando em seu mundo escuro de dor. Se não tivesse sido tão covarde e não tivesse deixado Duo ir embora naquela noite talvez hoje aquela fosse a sua família. –Eu sinto... Muito. Duo. – ele comentou triste. Eu... Sinto muito mesmo. – falou dando as costas ao rapaz.
Se um dia ele alimentou um Heero sonhador e esperançoso esse acabara de morrer nesse exato momento, como um personagem que não chega a ganhar o campo das ilustrações animadas e vive apenas na imaginação de seu criador.
Duo ficou ali parado olhando o homem que amava voltar para seu mundo frio de autógrafos.
-Foi melhor assim... – comentou triste. –Vamos voltar para casa? – ele pediu.
Wufei passou a tarde em casa naquele dia. Duo adormecera logo que chegaram. Depois do encontro com Heero ele ficou calado demais e o chinês ficou pensativo. O que era aquilo que vira nos olhos de Heero Yui? Será que ele não tinha mesmo direito de saber de seu filho? Aquele homem pareceu feliz em rever Duo... Como se o estivesse esperando.
Mas não tinha o direito de falar. Apenas suspirou pensando que se Duo tivesse agido diferente talvez pudesse ficar com seu filho ao lado de Heero. Era tudo muito louco, imaginar que um homem frio como aquele famoso escritor fosse assumir um relacionamento com outro homem, que havia sido um prostituto em L2 e que estava grávido, mas por um breve momento o chinês pode ver nos olhos daquele escritor que ele poderia sim ser capaz disso.
Pov de Wufei
O que eu vi nos olhos daquele oriental era algo estranho de se ver. O cara podia ter todos os defeitos do mundo, podia ser arrogante e prepotente, mas o que eu vi naqueles olhos foi a mais simples humildade. Por um momento eu pensei que aquele homem caía bem no papel daquele pai extremamente zeloso, eu até pude ver Yui babando com um embrulho infantil chorando em seu colo, talvez eu esteja exagerando nisso, mas eu realmente achei que tudo que Heero mais queria era Duo ao seu lado e aquele filho também.
E o Duo? Ele finalmente encontraria alguém para o proteger...
Eu nem ousei dizer isso a Duo, mas fiquei com pena de Yui e se isso fosse uma novela das oito, nesse capítulo, eu teria achado Duo o vilão e Heero o mocinho, mas estamos falando de vida real, e na vida real não existem vilões e mocinhos... Por isso nenhum dos dois agiu certo com o outro.
Duo praticamente desmaiou na cama quando chegamos e eu nem tive sono, nem vontade de trabalhar, droga. Eu fui pai e quando Sally esperava Sarah eu repetia todos os dias na frente do espelho que nada mudaria, mas quando vi aquele anjinho sorrindo para mim por trás do vidro do berçário, eu soube que nada mais seria como antes. Pode acreditar, a vida de um homem muda quando ele tem um filho, a transformação pela qual passamos é muito grande. Agente fica mais responsável, porém mais alegre e eu achei que Heero Yui tinha o direito de saber que ia ter um filho e de vê-lo sorrir inocente para si quando nascesse. Mas eu devia me calar por hora, talvez mais tarde tentasse convencer Duo a contar a verdade àquele infeliz, afinal se o cara entendesse tudo errado eu ia estar lá com Duo e era só quebrar ao nariz daquele idiota e ficava tudo bem, mas eu sabia que as coisas não eram assim tão simples. Eu pude ver que meu irmãozinho torto amava aquele baka e se Yui o ferisse dessa forma ele podia nunca se recuperar e Duo já tinha sofrido tanto.
Eu entendia que se Duo se mostrasse para Yui esse escritor teria em suas mãos o maior presente do mundo, mas que com ele podia fazer o que quisesse. Podia tanto aproveitar a oportunidade de ser feliz como jogá-la do alto da ponte.
Fim do pov
Heero chegou em casa pela noite. O que faria? Ele sentia aquela angústia de uma pessoa que sabe que estava respirando pela última vez, um desespero mudo trancado dentro de sua alma. Como alguém que se via encurralado com o fogo se aproximando.
Estava louco? Duo era um prostituto de L2, como podia querer uma vida ao lado de um prostituto?
-Merda! Maldito coração! – ele gritou. –Eu não podia ter me apaixonado por ele. – estava perdendo sua sanidade. Era a primeira vez que não conseguia ser frio com alguém. Era a primeira vez que não conseguia arrancar uma pessoa de seu pensamento. Era a primeira vez que um personagem ganhava vida e o dominava.
Ele estava parado no meio da sala quando Quatre entrou. O loiro estava diferente, mas Yui também, não teria paciência para aturar aquele namorado por quem não sentia absolutamente nada.
-O que quer? Não ver que não estou com paciência hoje? – ele foi ríspido.
-Eu quero apenas te mostrar isso! – o loiro jogou o livro de Yui sobre a mesa de centro. –Sua imaginação é fértil, não? – falou com ironia. –Me dá nojo saber como usa as pessoas. Como joga com as pessoas para ter sua fama e seu poderzinho de merda! – o loiro gritou. Quatre quase nunca perdia sua elegância, mas Yui o tirava do sério.
-Que está falando, pirralho!? – ele olhou o rapaz de forma ameaçadora.
-Vou estar nas páginas do próximo livro seu? Assim como o Duo? – Quatre perguntou. –Ele fala sabia? Você tem um poder e tanto porque um personagem seu ganhou vida... É de carne e osso. – Quatre o ironizou.
-Então é isso? – Heero revirou os olhos. –Já disse que não tenho tempo e nem paciência.
-O que você devia ter era vergonha na cara e não tem. Engravidar o coitado do menino e deixar passando fome... – os olhos do loiro brilhavam. Odiava injustiças.
-Como disse? – Heero não acreditou. Duo estava grávido dele? Como? Quando? –Aquela camisinha, Deus! Aquele filho é meu!? - ele se voltou para o loiro. Estava rindo como um bobo. De repente achou que seu mundo havia ruído quando soube que Duo estava casado e grávido de outro homem, mas agora as coisas se assentavam como peças de um quebra-cabeça. O filho era dele, pela barriga já devia ter quase sete meses. –O que sabe sobre isso, Quatre? – ele sorriu. Seus olhos azuis turquesa brilhavam numa vida renovada.
-Ahhh? – o loiro viu aquele brilho de vida tomar os olhos do rapaz. –O Duo... Está esperando um filho seu, mas eu achei que você...
-Eu tenho que falar com ele. Saber como está a criança. Se ele precisa de alguma coisa, mas aquele idiota do marido dele deve estar cuidando de tudo. Deve estar ao lado de uma forma que eu não estou. - Heero falou pensativo já calculando uma forma de se aproximar.
-Ei! Do que está falando? Duo está passando por um momento muito ruim. Não tem grana para nada e vive de favor na casa do Trowa. De onde tirou essa idéia que ele é casado? – agora era Quatre quem nada entendia.
-Não tem marido? – Yui ergueu a sobrancelha.
-Não. Nunca teve. – o rapaz falou. –Mas...
-Quatre. Eu gosto desse garoto. Eu sei que ele é um prostituo, mas acredite, é a pessoa mais doce que já vi na vida. Eu posso estar pirando. Posso estar ficando louco, mas estou farto dessas paredes brancas e essa mansão sem vida. Quero colorir minha vida, entende? – ele falou sonhador.
-Não era você quem odiava romance? – o loiro provocou.
-Baka. O que estou tentando dizer é que estou apaixonado e só tenho duas opções: Me trancar dentro de casa ou ir atrás de Duo... – ele falou sem paciência.
-Vá atrás dele. Mas... Ele não vai querer te ver. – o rapaz logo avisou.
-Eu sei. Mas... Eu tenho que agir. – falou sonhador. –Vou usar aquele carro branco, vou vestir um terno de gala e me armar com um ramalhete de rosas vermelhas. Correrei até a casa daquele cara e roubarei Duo para mim, como um príncipe que salva sua princesa das garras de um dragão chinês. – ele falou teatral. –Devia anotar isso, pode ser um bom enredo no futuro. – comentou.
-Deus, Heero. Você realmente não sabe estar apaixonado. Sente-se e fique quieto, vou lhe contar o que sei sobre essa gravidez de Duo. – completou.
Por momentos a expressão de Yui passou daquela brincalhona para uma séria. Quatre lhe contou sobre as provações que o jovem passava e lhe contou sobre o risco que corria.
-Estive tão contente com essa descoberta que agi feito um bobo, mas eu vou cuidar do meu filho e do Duo. Eu os quero bem e ao meu lado. Afinal isso não é como esses livros enjoados de romance, é só a vida. Deve ser mais simples... – ele comentou.
Heero estava errado ao achar que a vida e as pessoas eram simples. Nos livros sim, tudo terminava bem se o autor assim quisesse, mas na vida qualquer coisa podia acontecer. Qualquer final poderia estar reservado para aquela história que tivera ares de conto de fadas no início. Ele tanto podia fazer o par perfeito com Duo e viver o "felizes para sempre", como podia reviver a história de Romeu e Julieta, ou qualquer outra de amores e dores e desencontros e despedidas e saudades... O que faria agora dependia de sua coragem e vontade de ser feliz.
Para todos um grande beijo da Hina.
