Lágrimas Vermelhas
Parte VI
-Tranqüilidade, finalmente. - Quatre se espreguiçou estando no sofá da sala de Trowa. –Wufei no hospital vendo os projetos dele, Duo saiu com Heero para comprar mais coisas para o bebê e nós aqui. Acho que as coisas estão ganhando seus prumos.
-É sim... Isso até poderia ser um livro do seu ex-querinho. - Trowa provocou.
-Muito engraçado. O Heero não escreve romances e principalmente finais felizes, seu bobo. - Quatre lhe sorriu. –Quando vamos nos acertar? - perguntou em seguida.
-Quando você vem morar aqui? - Trowa o olhou manhoso.
-Quando você vai morar lá em casa? - Quatre rebateu e eles sorriram. Aqueles dois talvez fossem feitos um para o outro mesmo. Tão divergentes, mas tão parecidos e apaixonados que não conseguiam se largar e agora pareciam ter encontrado o modo correto de caminhar juntos numa vida em comum.
Beijaram-se sossegados e ternos... Aos poucos, como os próprios disseram as coisas estavam se acertando e a vida de Trowa e Quatre também.
Nessa mesma tarde Heero e Duo haviam comprado o berço e um carrinho... Havia sido um momento muito importante para os dois, sobretudo para Duo que nunca teve nada daquilo na sua infância e nunca se imaginou vivendo aquele quase conto de fadas. Ele estava muito feliz quando se sentou no banco de cimento olhando a vista do mar ao lado de Yui.
-Daqui de frente as coisas parecem mais fáceis de enfrentar do que são. - Duo comentou deixando seus violetas se perderem no azul mistério do mar.
-Parece sim. O mar parece nos dar forças para ir adiante... - Heero comentou.
-Heero, às vezes eu penso que não vou suportar tanta pressão. As pessoas me apontando como um oportunista, me chamando de vagabundo... Eu sei que errei muito no passado vendendo meu corpo, mas eu não via outra forma de viver. E hoje... Eu queria apenas ser feliz. - ele comentou.
-Não faça isso com você mesmo. Nós dois sabemos que não foi um erro só seu. É um erro de todos nós... De todos que olham as diferenças sociais e injustiças e não fazem nada. Você, assim como tantos outros, é apenas uma vítima. Não se culpe mais. - o escritor pediu abraçando seu Duo. E eles ficaram ali em frente ao mar, como se juntos buscassem forças para enfrentar as coisas que pela frente viriam.
Mas os medos de Duo eram tolos. Ele talvez se esquecesse que ele era forte demais. E com o tempo a sua forma alegre e cativante ia acabar superando o preconceito das pessoas.
Ele se deixou abraçar por aquele seu amado namorado, mas se sentiu desconfortável em certo momento.
-Que foi, Duo? - Heero o olhou vendo que o jovem em seus braços não estava bem.
–Que foi? - insistiu.
-Eu acho que senti uma fisgada... aahiii... - o trançado gemeu se encolhendo por um tempo até respirar aliviado novamente.
-Duo? - Yui nada estava entendendo.
-Heero, por favor, eu quero ir para casa. - o garoto pediu e o escritor sem entender o ajudou a caminhar. O percurso era breve, talvez uns dez minutos de caminhada, mas Duo sentiu uma outra fisgada e depois de alguns minutos sentiu outra e outra. –Aiii... Eu estou tendo contrações, Heero. - ele gemeu quando sentiu uma forte contração lhe assolar por quase um minuto.
-Vou pegar um táxi e te levar para o hospital, está bem? - Heero falou firme.
-Eu acho que é alarme falso, Heero. O Treize, meu médico, falou que isso é normal. - Duo falou mais calmo quando as dores passavam.
-Eu sei, Duo. Mas foi seu médico mesmo que disse que sua gravidez é de alto risco. - o escritor insistiu. –Não tem conversa, agente vai agora ver esse médico.
Aquele era Heero Yui e havia uma coisa sobre ele que Duo teria que aprender. Yui era um homem extremamente altivo e determinado. Uma vez tomada uma decisão essa raramente era mudada e se ele achava que o garoto tinha que ir ver o médico, Duo ia ver o médico.
Sem ter como argumentar o jovem grávido se viu sendo levado para o hospital. Era estranho, porque Duo não sabia quem era o mais teimoso entre os dois, porém nesse dia Heero havia vencido.
-Quero ver o doutor Treize imediatamente. - Heero falou urgente ao chegar à recepção. –Rápido, mocinha! - o escritor falou tenso.
A moça na recepção apenas o olhou sem entender aquela forma arrogante e grosseira do rapaz, mas ao olhar quem o acompanhava seu rosto mudou de tom ganhando um sorriso terno. –Olá, Duo. Como vai nosso papai? - ela sorriu muito gentil.
-Eu vou indo bem, Gracy. É que senti umas fortes contrações, mas já estão passando. - ele explicou.
-Claro. É normal... Mas eu vou avisar ao doutor Treize que você veio vê-lo. - ela falou sorrindo.
-Muito obrigado... E desculpa o Heero. Acho que ele só ficou assustado por causa das contrações. - Duo sorriu.
-Eles apenas nos deixam mais nervosas. Quando tivemos nossa primeira filha, meu marido quase me pôs louca... O coitado nem se deu conta... – ela sorriu explicando.
-Moça. Por favor! - Heero a interrompeu de forma seca. –Chame logo esse médico. Não ver que ele não passou bem? - falou naquela sua forma antipática.
Mas Treize os fez esperar por quase uma hora. O médico sabia que não era grave... E quando os dois entraram no consultório ele avaliou o oriental, pelo que ouviu dizer sobre aquele rapaz era alguém duro e rigoroso, mas ao vê-los entrar imaginou algo diferente. Heero com Duo era um doce de pessoa. Atento a qualquer coisa que se referisse ao jovem. Como suspeitou, Yui era apenas um marinheiro de primeira viagem, pronto a se lançar no mar a qualquer sinal.
-Heero Yui, sou o médico que está cuidando do Duo. - ele falou. Tinha uma experiência muito vasta e durante algumas horas se doou por completo ao escritor que lhe fazia muitas perguntas sobre os riscos da gravidez. Notava-se que Yui faria qualquer coisa para ajudar Duo naquele parto.
Por fim estava tudo bem com o jovem e seu bebê. Eram apenas contrações antecipadas, mas o bebê logo estaria vindo ao mundo. Dali em diante seria necessário cuidado, agora qualquer sinal podia ser um início do trabalho de parto.
Mas os dias se passaram e o bebê não veio. Uma semana depois desse episódio, todos voltaram a levar sua vida de forma normal, ou quase normal.
Heero ia levar Duo para morar em sua casa, mas o jovem dizia que esperasse mais um pouco, afinal ainda não tinha contado a Wufei que aceitara o pedido de casamento do escritor. Não sabia como o amigo ia reagir... E não queria o magoar, afinal quando não havia mais ninguém o chinês esteve lá. Jamais faria nada que o ferisse.
Wufei por sua vez não contou a Duo, mas estaria voltando para L5 em pouco tempo, talvez nem mesmo esperasse o bebê nascer, afinal agora o menino não estava mais sozinho e o chinês tinha certeza que Yui não ia poupar esforços com Duo e com o bebê. Ele sabia que deixava Duo em ótimas mãos.
-Fei. - Duo se aproximou do rapaz. Estavam sozinhos em casa naquela tarde.
-O que foi? - ele se virou para o grávido vendo o semblante preocupado dele. –Algum problema? Está sentindo alguma dor?
-Não. Está tudo bem... É que... - Duo protelou. –O Heero acha que eu devia mudar para a casa dele. Ele me pediu em casamento e eu aceitei. - falou de uma vez.
-Ahhh... É isso então? - Wufei ficou pensativo. Não se sentia triste por ter que se afastar de Duo. Ao contrário, ficava muito feliz de saber que deixaria aquele garoto com uma família. Era mesmo como um conto de fadas, onde tudo estava terminando bem. –Acho que ele está certo. Ele quer ficar mais perto de você e do bebê e quando a criança nascer vocês vão mudar para lá mesmo... - Wufei comentou.
-Estou tão feliz, Fei. Nunca pensei que fosse acabar tudo dessa forma. E às vezes até acho que as coisas estão boas demais para ser verdade. Sei lá... - Duo falou sorrindo. Seu medo de que o chinês se chateasse com o pedido de casamento foi mesmo uma bobagem.
-Bobagem... Você merece ser feliz, Duo. - o chinês sorriu.
Pov de Wufei
Acho que as coisas que começaram ruins estão se acertando. Eu fico bem aliviado, afinal acabei adotando esse pirralho de uma forma muito doce. Apaixonei-me completamente por esse menino, assim, como um irmão se apaixona por um outro e tem aquela vontade de cuidar e proteger.
E em vê-lo assim, tão feliz ao lado de um homem que o ama... Isso me trás tantas felicidades. Eu, particularmente espero que Duo nunca mais tenha que sofrer tanto.
Fim do pov
No dia seguinte estaria na casa de Heero vivendo com ele. Mas as coisas nunca eram como Duo planejava. Naquele entardecer ele começou a sentir-se muito mal. Ondas de dor tomavam seu ventre e se espalhavam por suas nádegas e costas e rapidamente aquilo começou a aumentar de intensidade.
Wufei trabalhava no computador no outro cômodo, mas e se fosse apenas um aviso falso? Duo tentou suportar o máximo possível, mas quando as dores se tornavam bem agressivas ele viu que era o momento de pedir ajuda. Em silêncio se banhou notando com susto que suas peças íntimas estavam sujas de sangue.
Quando se vestiu com roupas leves a dor já era tão grande que ele quase não conseguia se manter de pé e logo veio a sensação de que coisas estavam erradas. Afinal a velocidade como tudo acontecia era bem estranha.
Nas consultas Treize lhe informava sobre as contrações, que nessa época seriam normais e poderia ser um alarme falso. Assim ele se sentou na cama rezando para que passasse logo.
Mal podia respirar naquela angústia, não conseguia manter a respiração equilibrada assim como não estava mais suportando aquela tortura. Suava quando decidiu que devia chamar o chinês. Esperando uma contração passar ele se levantou, mas teve que voltar a cama vendo que não tinha forças para caminhar.
-Fei! - ele chamou. –Fei, me ajuda!
Quando um Wufei muito assustado chegou no quarto viu Duo chorando deitado na cama. Ele gelou na hora. –O que foi?
-Acho... ahhh! Que vai nascer!
O pânico se instalou por um breve momento. Mas o chinês sabia o que fazer. Era simples, apenas precisava pegar as coisas de Duo, que já estavam em uma bolsa, avisar Treize e Heero e levar o jovem para o hospital e rezar para que desse tudo certo. Mas nem mesmo toda sua paciência e autocontrole lhes foram suficientes para fazer tais coisas.
-Certo. Faça aquela respiração que o Treize ensinou... Conte os minutos das contrações... – Wufei falou apressado.
-Aiii! - Duo gritou se contendo. –Deus! Como isso dói! Aihhh... - ele mal podia respirar. Suava frio e chorava. –Aiii... Fei!
-Calma, Duo. Faça a respiração. Eu estou ligando para o Treize e para o Heero... Onde está sua bolsa? Tente se sentar. Vou chamar um veículo! - falava tudo junto já perdendo a calma novamente. –Faça a respiração! Maldito telefone! Só chama! Vou deixar mensagem! – pronto, o chinês havia perdido a calma.
-Fei? - Duo piscou se sentando. Durante algum tempo esteve acostumado a ter aquele seu amigo lhe protegendo e fazendo de tudo por si, mas agora tinha que voltar a se virar sozinho. Ele estava apavorado, mas era necessário ser forte ainda, ao menos até ouvir o choro do bebê. –Fei! A minha bolsa está aqui do lado da cama. Vá lá fora tentar pedir um veículo que eu tento ligar para o Treize e para o Heero. - o garoto falou eficiente.
Heero estava trabalhando em um projeto piloto de um livro infantil, tudo influência do momento que vivia. Mas alguma coisa o fez parar. Estranhamente pensou em Duo e de uma forma preocupada.
Ele foi até o quarto que estava decorado à espera do filho, ou filha e ficou ali olhando o berço já montado. Tocou com a ponta dos dedos os delicados brinquedos. Ficava pensando, imaginando como seria bárbaro quando seu bebê estivesse ali lhe sorrindo.
-Espero que seja logo... – ele sorriu sozinho abraçando uma pequena girafa rosa felpuda.
-Senhor, Yui. - Dona Any entrou no quarto do bebê com o telefone na mão. Ela parou como num choque. Trabalhava para Heero desde de sua infância, ainda para seus pais, e nunca havia visto o garoto daquele jeito, tomado por uma paixão doce... Que quadro comovente foi esse para ela. –Heero... - falou para si surpresa. Talvez Duo e aquele bebê fossem mesmo um presente de Deus para o jovem Yui.
-Oi? - Heero a olhou soltando a girafa no berço. –Se a senhora contar a alguém isso que viu, lhe demito. - ele sorriu.
-Não se preocupe, não vou falar sobre isso, mas quando o bebê estiver ai dentro do berço, o senhor pode acreditar que fará bem pior. - ela sorriu. –Ahhh, sim. É telefone.
-Diga que não estou, Dona Any. - ele acenou com a mão.
-É o Duo! E foi tão urgente... Quase um estúpido. - a mulher lhe entregou o telefone sem fio e Heero quase o arrancou de sua mão.
-Sei... Claro! Meu Deus! Calma! Calma! - Heero quase gritou. Desligando o aparelho ele ficou zonzo. –Dona Any, vai nascer. Está nascendo. - sorriu.
-Ohhh, Meu Deus! Que nossa senhora do bom parto o ajude! - ela exclamou.
-Minhas chaves do carro! Meus charutos! Oh, Deus. Estou tremendo. - ele comentou quando saía. –Vai nascer! - sorriu com um orgulho fora do comum. –Eu vou ser pai!
Duo estava calmo agora. Só precisava se controlar e fazer aquele filho vir ao mundo. Parecia bem simples. Ele avisara Heero e agora conseguia falar com Treize.
-Duo!? O que houve? - Treize atendeu. Estava no meio do trânsito saindo de um plantão cansativo quando o telefone tocou e vendo que era o número da casa de Wufei teve que atender, afinal Duo era sem paciente de maior risco.
-Vai nascer! Eu não suporto mais a dor... Ajude-me! - o garoto falou urgente. –O que faço? Estou com contrações, saiu um pouco de sangue. - completou.
-Mantenha a calma! Quanto tempo está assim? - o médico perguntou. Queria saber detalhes como intensidade das contrações e intervalos entre elas.
-Quase três horas. - Duo respondeu.
-Certo. Tem alguém com você? - o médico sabia que era chegada a hora de por aquele bebê no mundo. Sentiu um frio no estômago. Já havia feito tantos partos, mas esse era especial demais. Era o maior desafio de sua vida.
-Wufei! Ahhhhh... aiii! - o menino gemeu sentindo mais uma contração.
-Venha para o hospital imediatamente. Toda nossa equipe estará a sua espera. - o médico falou desligando e dando meia volta no veículo.
O caminho nunca pareceu tão distante. Wufei havia conseguido um táxi. Duo saiu com a bolsa segurando a barriga, gemia envolto em dor. Para sua surpresa o motorista lhe foi doce e acolhedor. Era bem surpresa um homem grávido, mas a compaixão das pessoas era algo impressionante.
-Não pode ir mais rápido? - Chang perguntou preocupado enquanto amparava Duo em mais uma contração dolorosa.
-Estou fazendo o que posso. - o motorista respondeu.
-Ahhh... Eu não agüento mais! Não dá mais! - Duo gemia querendo fazer força, mas temia que doesse mais ainda... Ele não era uma mulher, simplesmente não havia passagem e se não chegasse logo o bebê poderia morrer. –Ahhhhhh... ahhhhh... Uhummm... - gemia agora numa contração constante. Foi quando se sentiu ensopado...
Pov de Duo
Nunca pensei que seria assim. Bem, eu li sobre partos e rezava para o meu ser daqueles calmos, onde a mãe não sofre muito, mas eu não era uma mãe. Era um pai. E isso estava me apavorando.
Agora nesse carro estou com muito medo, sei lá... Que alguma coisa de ruim possa acontecer. Meu Deus! Eu ainda nem contei ao Heero o nome que quero para o nosso filho.
E agora a bolsa estourou me deixando apavorado com uma sensação de desconforto.
De onde sai tanta água? E agora? O que vem a seguir?
Eu li que os bebês nascem logo depois que a bolsa estoura. Merda. Essa maldita contração... Que dor insuportável. Sei lá, mas tenho um extinto natural de querer expelir o bebê, meu corpo quer fazer força, mas se não chegarmos logo ele vai morrer sem conseguir sair de dentro de mim.
Estou com tanto medo... Medo de morrer e não vê-lo crescer, e mais medo ainda de o perder. Isso não. Eu jamais suportaria. Eu quero tanto ouvi-lo chorar, somente depois de ouvi-lo eu posso me entregar. Quero tanto realizar meu desejo de colocá-lo nos braços do Heero.
E essa dor... Essa dor horrível está me matando. Deus! Deus! Ahhh... Faça que esse veículo chegue a tempo.
Fim do pov
Duo estava zonzo e cansado. A bolsa havia estourado ele sentia-se muito mal.
-Duo! Tenha fé! Chegamos. - a voz de Wufei soou como um sinal de alerta. E Duo abriu os olhos ganhando mais confiança. Era hora de ser forte mais uma vez.
-Bebê. Não se assuste, isso tudo é só sua vinda aqui para fora, certo? - o papai falou entre gemidos para o bebê dentro de sua barriga. –Agora você só precisa fazer sua parte e vir para os braços do seu pai, está bem?
-Coloquem-no maca! A sala já está pronta. - uma enfermeira falou.
Wufei viu o garoto entrar na maca pelos corredores e sumir de sua vista. Daí em seguida ele experimentou quase duas horas da pior espera de sua vida. Nem mesmo quando Sally deu a luz ficara tão nervoso. Afinal a moça tinha tido um parto calmo e rápido.
Heero chegou pouco tempo depois de Duo ter dado entrada na sala de parto e o chinês teve muita pena do rapaz. O pobre oriental tinha um sorriso bobo quando entrou no hospital perguntando à recepcionista sobre seu filho, mas seus olhos perderam aquele brilho mágico quando ela lhe disse que devia esperar.
Um Yui apático sentou-se depois de mais de uma hora sem notícias, já era para seu filho ter nascido, a demora evidenciava que alguma coisa de ruim tinha acontecido.
Sentado naquela poltrona Wufei viu Heero chorar baixinho de forma discreta. Duo demorava demais na sala de parto e ninguém sabia dar informações.
Por volta da nove e trinta e cinco da noite daquele corredor escuro veio Treize. A roupa suja de sangue e o semblante abatido, mas seus olhos cor de mel trazia uma luz. Uma luz no fim do túnel. O médico sorriu ao se aproximar de Yui.
-Parabéns. É um menino. - falou. –Saudável e lindo! Fez um escândalo quando veio ao mundo. - o médico brincou.
Heero o abraçou forte chorando. O rapaz antes discreto agradecia com aquele abraço por ter dado tudo certo. Wufei sorriu também sabendo que Yui vivia um momento único na vida de um homem e que durante toda a sua vida ele lembraria.
-E o Duo? - emocionado o chinês perguntou.
-Ele... Vai ficar bem. O parto foi muito difícil... Depois que o nenê nasceu Duo sangrou muito, quase tivemos que retirar esse útero, mas temíamos que ele não suportasse a hemorragia... Eu cheguei a temer por ele. - Treize confessou. –Mas esse rapaz é mesmo muito resistente... Ele vai ficar bem.
-Eu quero vê-lo. - Heero falou urgente.
-Não. Ele está em coma. - Treize avisou. –Se ele resistir bem aos medicamentos deve sair desse estado em dois dias, mas estamos muito confiantes... Ele é muito forte. Nós o induzimos a esse estado para melhor recuperação. É uma rotina. - ele logo explicou.
Porque a sua felicidade não podia ser completa? Yui se perguntou várias vezes enquanto triste caminhou para o setor do berçário aonde ia ver seu filho pela primeira vez. Duo havia sofrido muito no parto, segundo o médico explicara. O menino perdera muito sangue e desfalecera ao ser retirado de dentro de si o filho, era evidente que ele havia se entregado após completar sua missão de por aquela criança no mundo. Havia entrado em um estado bem debilitado depois de ouvir o choro do filho pela primeira vez e foi melhor o induzir ao coma assim que a hemorragia foi controlada. E agora as coisas estavam assim. Heero perdido e Duo em coma.
-Heero? - uma moça o chamou no corredor. Era o pior momento possível para aquela mulher estar ali e como havia conseguido entrar?
-Não é um bom momento, Relena. - Heero falou cansado.
-Como não? É seu filho! O mundo quer saber todos os detalhes! - a moça loira se aproximou. Bloco e caneta em uma mão. Gravadores em riste. –Um depoimento. Como é ser pai pela primeira vez na visão realista do famoso escritor Heero Yui? - ela perguntou.
-Relena. Agora não! - Quatre apareceu no mesmo corredor. Foi a salvação de Heero que de tão atordoado que estava não ia conseguir se livrar da repórter naquele momento.
-Mas... - ela se chateou.
-Circulando, Relena. - o loiro a segurou pelo braço. –Ai. Odeio fazer isso, mas você está pedindo para ser expulsa... - ele comentou enquanto a levava para a porta.
-Estão proibindo o trabalho da imprensa. Isso vai sair na capa da revista. - ela falou magoada.
-Relena, não acha melhor a foto de capa ser Heero, Duo e o bebê? - Quatre sorriu.
–Assim que papai e bebê descansarem eles concedem uma foto e uma pequena entrevista. Está bem? Você fica quietinha agora? - o rapaz sabia como lidar com a repórter.
-Fechado! Mas vou cobrar! Deseje felicidades ao Heero e ao Duo. A nossa revista mandou flores... - ela sorriu piscando.
Heero agradeceu com os olhos ao loiro, a imprensa lhe cercava demais. E Nesse momento tudo o que queria era privacidade.
-Duo vai ficar bem. Eu falei com Treize. Amanhã mesmo o nosso papai acorda... - Quatre beijou o rosto do oriental com carinho. –Eu e Trowa e Wufei estamos na recepção... Mais tarde agente vai te levar para casa, você toma um banho e come alguma coisa e dorme um pouco para amanhã bem cedo esta aqui, certo? - o loiro falou.
-Obrigado, Quatre. Vocês são grandes amigos. - Heero sorriu ganhando forças para ir ver seu bebê finalmente. Que seria dele sem aquele trio de amigos? Nem gostava de pensar.
Ao se aproximar do berçário viu um garotinho bem pequenino numa espécie de estufa. O garoto era prematuro, e por isso a estufa ia simular as condições confortáveis do útero até que ele conseguisse peso suficiente para sair dali.
O filho de Heero era tão pequeno. Um ser tão frágil, mas que como qualquer outro bebê carregava uma gama de esperança tão poderosa.
O tempo pareceu não correr enquanto Yui olhava o filho e alguma coisa mudava definitivamente dentro de si.
Aéreo ele foi para casa de madrugada, confortado pelos amigos, uma vez que Duo estava ainda em coma e o bebê na incubadora não havia o que fazer no hospital. Estava esgotado quando entrou em sua mansão. Havia saído tão feliz...
-Senhor? A criança nasceu? - Dona Any lhe recebeu à porta.
-É lindo. É um menino, mas vai ficar alguns dias no hospital para ganhar peso. - Heero respondeu cansado.
-E Duo? - a senhora se apressou.
-Ahhh... Ele teve um parto muito complicado, Dona Any. O médico o induziu ao coma depois de conseguir parar a hemorragia e eu ainda não pude vê-lo... - ele não suportou falar. Nem de longe ia conseguir manter a aparência de frio que tinha, e como faria isso se estava se quebrando por dentro? A senhora se compadeceu vendo aquela dor.
-Vou fazer uma prece para ele. - falou se retirando para deixar seu patrão chorar sozinho, sabia que Heero odiava chorar na frente de outras pessoas.
Estava mesmo quebrado com tudo aquilo. Heero foi para seu quarto e depois de um banho praticamente desmaiou na cama.
Pov de Heero
Eu simplesmente apaguei. Quando dei por mim o Sol já estava com os raios fortes ferindo meus olhos recém-acordados.
-Merda! O hospital! - de sobressaltada pulei da cama como se um alfinete agudo me espetasse. Lembrei com urgência de Duo e de meu bebê. Rapidamente mil coisas começaram a passar na minha cabeça, como se mil flocos de neve caíssem dentro de meu estômago e eu vi que sou apenas um homem frágil morrendo de medo de perder as coisas que já lhe são as mais caras nessa vida.
Mas o Sol, talvez, ou qualquer outra coisa me fizeram sentir um calor no fim do gelado túnel. Sei lá de onde vem isso, mas agente sempre alimenta uma gostosa esperança de que as coisas vão ficar bem. E como eu me apeguei nessa esperança de chegar aquele hospital e saber que Duo estava bem... E que ia me dar aquele sorriso que só ele sabia. É que cada pessoa tem um jeito especial de sorrir e eu acabei decorando o jeitinho do Duo...
Fim do pov
Naquela manhã quando chegou ao hospital já se encontravam lá Wufei, Quatre e Trowa. E Heero sabia que durante sua vida inteira seria grato por eles estarem ali naquele dia. Era o típico momento onde por um olhar de compaixão se ganha uma gratidão eterna.
O oriental que sempre fora tão bravo estava tremendo quando foi falar com Treize. Seus olhos azuis turquesa estavam arregalados e em seu íntimo rezava para todos os santos que conhecia para que Duo estivesse bem... Que angústia lhe consumia por dentro até Treize sorrir e lhe dar a milagrosa notícia que ele ia entrar no quarto e falar com Duo.
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Entrando no quarto um abatido Duo lhe sorriu. Mas aquele sorriso, mesmo lânguido tinha uma força absurda, para Heero foi o mesmo que aquele raio de Sol em um dia frio.
O garoto estava tão pálido e fraco, mas assim que o viu lhe deu aquele sorriso lindo que ele sempre fazia.
-Como ele é? - Duo perguntou ansioso. –Você o viu? O que achou?
-Lindo... Lindo... Eu o vi atrás do vidro, mas ele é lindo, obrigado! - Heero o abraçou com vontade e ali ficaram por muito tempo, era natural essa reação, afinal podiam ter se perdido naquela noite. Choraram abraçados e emocionados... Haviam conseguido. Haviam conseguido.
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Naquela tarde um feliz casal pousou para uma foto para Relena, que vestida de enfermeira conseguiu invadir o quarto de Duo. Heero havia ficado transtornado, mas o trançado não deixou que ele esganasse a moça, e ainda achou tão engraçado a acusando de provocar a abertura de alguns pontos por fazê-lo rir tanto.
Nem Heero nem Relena entenderam o que era tão engraçado, mas era simples. Duo estava feliz, era apenas isso.
Ela saiu sorridente com sua foto e uma pequena entrevista de Duo e prometendo que a capa seria Duo o belo e Yui a fera. Era claro que o jovem trançado era a simpatia em pessoa, já Heero era aquele tipo de celebridade que é o terror da imprensa.
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Mais tarde e livres dos repórteres os dois gastaram horas olhando o filho por trás do vidro. Abraçados os pais choraram.
-Viu como ele é lindo, Duo? - Yui abraçou o trançado com amor.
-É sim... É o bebê mais lindo que eu já vi. - ele respondeu.
-Lembrei de uma coisa muito importante, Duo. - Heero falou olhando seu filho. –Nós ainda o chamamos de bebê. - era um fato. A criança não tinha nome.
-Ahhh... O nome. - Duo sorriu. Como esqueceria do nome? Ele pensara em um logo depois de Heero os aceitar com sua família. –Heero... Esse bebê foi a melhor coisa que já me aconteceu em toda a vida. -falou.
-A minha melhor coisa também, Duo. - Yui sorriu lhe fazendo coro.
-Eu sei... Ele é nossa coisa positiva, meu amor. - o trançado sorriu beijando os lábios de seu futuro marido. –Nossa coisa positiva, Heero. Nossa coisa positiva...
-Duo... Ele é nossa coisa positiva... - repetiu. –Obrigado. - Heero abraçou o rapaz com amor. –Nosso pequeno Yoko. - falou emocionado. –É muito especial para mim esse nome. No meu idioma natal quer dizer criança positiva... Como realmente ele significa na nossa vida.
Yoko era um pequenino guerreiro que até a morte havia deixado para trás. Forte e pesado ele foi ao colo de Duo pela primeira vez e esperto se aninhou nos braços do rapaz se sentindo protegido. Foi uma emoção para os presentes... E para Duo foi maior ainda quando entregou o menino nos braços de Heero. Era como se um filme passasse em sua cabeça. Um filme de tantas cenas de violência e terror, mas que contrariando as normas da vida havia terminado com uma cena de felizes para sempre.
Na recepção do hospital os três pousaram para a foto que ia percorrer a capa de revistas em muitos lugares, afinal aquela era a história de como tudo pode dar certo mesmo começando errado. Como? Amor e esperança, e um pouquinho de sorte também.
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Finalmente Yoko pode sair do hospital para a felicidade dos papais. E finalmente Heero se debruçou sobre as grades do berço já em sua casa fazendo uma série de barulhos estranhos e caretas engraçadas, aproveitando que não havia mais ninguém no quarto, mas o que ele não sabia era que por trás da porta Duo e Dona Any se continham para não caírem na gargalhada.
-Ora! Os dois nunca viram um pai apaixonado pelo filho antes? - ele sorriu quando se viu observado.
-Já sim, amor. Você. - Duo o beijou. –É hora do Yoko tomar a mamadeira. - ele a entregou ao marido.
-É sua vez, eu troquei as fraudas. - Heero sorriu provocando. Adorava fazer isso com Duo.
-Damos a mamadeira, juntos. - o trançado sorriu o beijando e Yoko, que esteve apático as caretas de Heero sorriu com gosto.
Yoko tem a cor de meus olhos. Duo acha que nossos olhos são como o mar, profundos e misteriosos. Nosso bebê é lindo, mas dá um trabalho. Um bebê hiperativo, e isso ele puxou ao Duo, afinal esse meu marido nunca fica muito tempo quieto. Eu posso dizer que os amo. Sou completamente apaixonado pelos dois homens da minha vida... Estamos casados e felizes.
O Duo é tão simpático que todos da imprensa o amam e eu não sei porque não consigo fazer o mesmo sucesso que ele... Deixa isso pra lá.
Uma coisa legal de dizer é que ele está completamente engajado em um projeto que visa ajudar jovens humildes e ainda aceitou participar da pesquisa de Treize para combater a infertilidade. Ahhh... Sim... Duo conseguiu unir Wufei e Treize, eles se tornaram grandes amigos, porque o chinês não quis mais ninguém e eu até o entendo. Quando se experimenta o amor verdadeiro uma vez, agente fica tão pleno que não precisa mais desse sentimento para viver feliz. Ele adora brincar com Yoko e tomar conta do Duo que nunca mais deixou de ser seu irmãozinho e minha casa, digo, minha casa e de Duo estará sempre aberta a esse chinês.
Outros que estão sempre aqui são Quatre e Trowa... Eles marcaram e desmarcaram casamento já duas vezes, mas nunca se deixam. Eles se amam muito.
E no fim todos aprendemos uma grande lição. Amar as pessoas é bem mais válido que afastá-las. Dar uma chance a alguém é algo admirável. Se Wufei não tivesse dado uma chance ao Duo nossas vidas não estariam felizes hoje. E hoje eu posso dizer que sou o homem, senão o mais feliz do mundo, sou um dos mais.
-Duo? Gostou? O que acha desse pedaço para o fim do livro? - Heero perguntou após ler o manuscrito para o marido. Estavam em sua casa deitados à cama.
-Achei tão bonito, Heero. Mas... Alguém já te disse que é um dos homens mais prepotentes que já vi? - o trançado sorriu.
-Mas você gosta disso em mim, não? - Heero rolou sobre o corpo menor de Duo o abraçando.
-Gosto de muitas outras coisas em você. - o trançado sorriu o beijando. Mas não foram longe naqueles carinhos, Yoko passou a chorar. Era a hora da mamadeira. –Arf... Sua vez, Heero.
Seis meses depois
Heero estava ansioso demais. Era o lançamento de seu mais novo livro. Um romance muito bem aceito pelos críticos, chamado de As ondas do destino, era só sua história com Duo... Que realmente era digna de um livro.
Duo estava lá firme ao lado dele. Lindo e elegante. Sua trança continuava lá como sempre e seus olhos tão brilhantes e felizes naquele violeta vivo. Yoko estava dormindo nos braços do pai mais jovem enquanto o escritor de renome pousava para fotos.
Como sempre um ou outro repórter se aproximava de Duo e dessa vez não foi diferente.
-Senhor Duo. Uma rápida entrevista? - a moça se aproximou.
-Ahhh... Olá Relena. - ele acenou.
-Sou Relena Peacecraft para o fofocas&boatos. Duo como se sente quando olha para trás e faz uma retrospectiva de sua vida? Assim, uma ex–experiência e ex-prostituto de L2? - ela perguntou.
-Me sinto como um cara de muita sorte. Tenho um filho lindo e um homem maravilhoso. - o garoto sorriu. Era bem um fato seu passado, mas não se envergonhava dele.
-Como andam os projetos que você defende junto com seu amigo Wufei? É verdade que vai se submeter aos testes e estudo de infertilidade?
-Nossa... Como vocês são informados. - Duo sorriu sempre tão agradável. –Eu e Wufei estamos empolgados demais com as constantes ajudas às vítimas de experiências daqueles laboratórios e eu vou sim participar dos testes e tentar ajudar na pesquisa de Treize contra infertilidade.
-Para quando você e Heero planejam um irmãozinho para o Yoko?
Duo sorriu quando o bebê em seus braços acordou e sorriu erguendo as mãozinhas.
-Acho que ele gostou da idéia. - o trançado sorriu brincando com o risonho garotinho de olhos grandes e azuis como os de Heero. –Desculpe, Relena, mas esse risonho acha que é hora do lanche.
-Claro... - a moça sorriu. –Vai ser uma boa entrevista. Sabe, John. - ela falou se dirigindo ao câmera. –Se todos os famosos fossem como esse garoto a nossa vida de repórter seria bem menos complicada. - comentou indo tentar entrevistar mais alguém.
Duo por sua vez procurou um local mais calmo para a mamadeira do bebê. Ele nunca teve leite e desde de cedo a alimentação de Yoko era feita pelo serviço de banco de leite, ele só tinha que recolher no hospital as doações de leite materno. Foi assim que acabou se convencendo que devia ajudar as pessoas com tudo que podia contribuir. E somente assim o mundo seria algo melhor... Com união.
Duo havia tido um começo árduo, mas agora quem o visse alimentar o pequeno bebê, nem diria isso. Sua criança era uma mistura perfeita de seus cabelos quase dourados com os olhos azuis turquesa de Heero, a pele branca era parecida com a sua e o sorriso também...
Agora era só caminhar para o futuro e fazer da vida algo menos pesado... Ajudar as pessoas no que pudesse e tentar ser muito feliz sem desperdiçar nada do que a vida lhe oferecesse.
Fim
Beijos da amiga Hina
