Cap. 2 – Silêncio
Mal pude acreditar quando o ouvi dizer aquelas palavras. O corpo dele, de costas para mim, trêmulo. E eu imaginei a boca dele dizendo que me ama. Me ama. É, milagres acontecem. Devo contar que eu também o amo? Que sempre amei? Que se pedi a ele para que deixasse Hyoga passar, foi não para ensinar uma última lição a meu pupilo, mas sim para proteger Milo. Protegê-lo. Eu jamais me perdoaria se ele se machucasse. Jamais.
E quando retornei do inferno para matar Atena, regozijei-me por poder vê-lo. Vê-lo uma última vez. E foi em júbilo que morri novamente por suas mãos. Pelas dignas mãos de meu amado Milo de Escorpião. Quando voltei prometi que não iria jamais confessar-lhe o que sentia. Não... e se eu perdesse a amizade de Milo? Era melhor tê-lo como amigo do que não tê-lo de forma nenhuma.
Eu sou Camus de Aquário. Um guerreiro, soldado nas fileiras divinas. Mas, acima de tudo, sou um homem. E é como homem que me sinto livre. Livre para voar, livre para viver. Milo é diferente, sempre teve o dever como sua pedra fundamental. Somos tão diferentes! Acho que é por isso que o amo tanto. Mas eu sou um cavaleiro do gelo, e fui treinado para não ter emoções. Ou ao menos para não demonstrá-las. Meus olhos são como dois flocos de neve azuis, parados, congelados num estado de impassibilidade perene. Mas são esses mesmo olhos que agora choram. De emoção. Sem fazer barulho, sem causar o menor ruído. A menor mudança no ar que nos rodeia.
Talvez seja sadismo, mas adorei vê-lo se confessar. Completamente fora de si, completamente desbaratinado. Sim, fiquei observando a confissão. E o jeito dele de procurar as palavras. Eu sorri, e ele não percebeu. Está tão agitado que não percebeu. Só me aproximo quando o corpo dele, trêmulo, pende para o lado e se encosta ao batente da porta de minha cozinha. Envolvo sua cintura com meus braços, colo meu corpo ao corpo dele. Afasto com uma mão aquelas longas mechas douradas, e colo minha boca ao ouvido de Milo. Estou tão próximo que posso sentir os batimentos cardíacos acelerados dele. E ele, tenho certeza, pode sentir os meus.
Ele procurou as palavras certas o tempo inteiro. As palavras capazes de fazer com que eu me apaixonasse por ele. Quem se preocupa com palavras quando se pode agir?
-X-X-X-
Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little boy
Palavras como violência
Quebram o silêncio
Vem invadindo
Meu pequeno mundo
Doloroso para mim
Perfuram-me
Você não entende
Oh meu pequeno garotoSinto que ele se apóia em mim. E que se esforça para não chorar. Tolo. Será que ele sente? Será que ele vê que eu choro? Percebo que Milo abre a boca, que quer dizer algo. Tolo. Não entende! Não vai entender nunca! Levo uma de minhas mãos aos lábios dele... como quero beijar esses lábios... mas não. Ainda não. – Você é mesmo um tolo, Milo de Escorpião! Procurando palavras, um repertório inteiro de palavras. E para quê? Palavras não são nada se não há sentimento, Milo. É isso que você precisa entender!
Ele se mexe, se remexe em meus braços. Quer se virar, quer me encarar de frente. Eu também quero. Mas Milo é impaciente... como é impaciente, por Zeus! – Milo, tenha calma. Eu não vou embora. Mas quero que você perceba. Que você se acalme. Que você sinta. Quieto, Milo. Quieto, mon ange. Acalme-se. Quero que você saiba que camisas de seda preta e perfumes cítricos ficam extremamente sensuais em você, mas não foram capazes de me conquistar. Não mesmo. Muito menos palavras, Milo.
Se eu permitisse ele diria "então o quê?". Tenho certeza que diria isso. Mas minha mão passeando por seus lábios entreabertos é bem convincente. Ele não irá falar nada enquanto eu não permitir. Ver Milo de Escorpião subjugado dessa forma me faz bem, confesso. Agora sei que, aconteça o que acontecer... eu terei Milo, e eu serei dele. É uma sensação tão boa... – Milo, você me conquistou pelo que você é, e não pelo como você é. Me conquistou por suas ações, e não pelas palavras. Eu também te amo, Milo. Há tanto tempo que nem sei...
Sorrio. Choro. Aperto mais Milo contra mim. Milo, Milo, Milo... perco-me no dourado daqueles cabelos e no calor daquela pele.
-X-X-X-
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm
Tudo o que sempre quis
Tudo o que sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são tão desnecessárias
Elas só servem para machucarNão digo nada. Ele não diz nada. Não precisamos dizer nada, e isso me alegra. Aos poucos percebo que Milo se acalma. Ele apóia a cabeça em mim e se solta. Ele se deixa levar pela primeira vez em meus braços. Eu espero que seja a primeira vez de muitas. Meus dedos continuam brincando com seus lábios. E os braços dele envolvem os meus. É um momento único, quase lírico, que pretendo guardar para sempre comigo. Para sempre. Protegê-lo. Tê-lo. Para sempre.
– Vê, Milo? Para que palavras? Palavras podem ferir alguém, um abraço não. E o que eu sempre quis, Milo, está aqui, comigo. Envolvo com meus braços aquele de quem mais preciso nesse mundo. Nada mais importa.
Ele respira pausadamente. Eu beijo o pescoço dele. A pele é macia e quente. Desejosa. Ah, Milo, se você soubesse o quanto desejei isso...
-X-X-X-
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intenseWords are trivial
Pleasure remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
Votos são ditos
Para serem quebrados
Sentimentos são intensos
Palavras são triviais
O prazer fica
Assim como a dor
Palavras são insignificantes
E esquecíveis
Ele tomba mais a cabeça, dando-me completo acesso a seu pescoço. E eu ouço um suspiro, um pequeno arfar. Milo fica mais leve. Posso sentir que o peso que ele carregava simplesmente se dissipou. Sumiu. Evaporou-se e subiu às estrelas. No céu. Eu, que conheci o inferno, pela primeira vez conheço o céu. O paraíso está na pele de Milo.
– Sabe de uma coisa, Milo, mon ange? De nada adianta dizer eu te amo. Preciso te fazer sentir. Pois as palavras são completamente desprovidas de significado. Não servem para absolutamente nada. Os sentimentos, estes sim, são importantes. E intensos. Muito intensos. Ao menos os meus por você. Daqui pra frente, Milo, minha missão nessa vida vai ser fazê-lo se sentir amado. Querido. Desejado. Pois você o é. Não preciso te dizer eu te amo, preciso que você sinta que te amo. Espero que você esteja disposto a isso.
Ele estremece em meus braços. Eu sou capaz de traduzir todo e qualquer gesto de Milo de Escorpião. Afinal, nos conhecemos desde... sempre. Milo sempre foi meu melhor amigo, meu único amigo. O único que sempre soube que eu não demonstrar sentimentos não significava que não os tivesse. O único para quem eu contava sobre minhas angústias, sobre minhas vontades. Vontade de sair, de deixar tudo, de ser livre. Completamente e totalmente livre. Mas o amor à deusa nunca me deixou fugir. E nem o amor por Milo.
Mas ele está muito quieto. Por mais que eu tenha pedido... esperava que ele fosse se agitar, virar-se em meus braços, tomar-me de assalto. Esperava que o autocontrole de Milo fosse às favas. Talvez eu esteja esperando muito. Ele confessou que me ama, e isso já basta. E como basta!
Escorrego meus braços pela lateral do corpo bem feito, sentindo os músculos dos braços e do tórax. Músculos bem trabalhados, corpo másculo de homem bem feito. Com uma mão afasto os cabelos longos mais uma vez. Forço a cabeça dele para frente e encaro a nuca desnuda. Encosto meu nariz naquele pedaço de Milo, logo em seguida meus lábios e minha língua. Demarco um território que daqui pra frente será meu. Tão somente meu.
-X-X-X-
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm
Tudo o que sempre quis
Tudo o que sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são tão desnecessárias
Elas só servem para machucarAfasto-me do pescoço dele, sentindo-o arfar. Milo é sexy, muito sexy. E eu sou cavaleiro do gelo mas não sou imune ao fogo. Minha pele queima, meus olhos estreitam, meus lábios tremem, minhas mãos passeiam pelo corpo bem torneado. Meu corpo todo clama pelo toque, clama pela pele, clama por ele. Por Milo.
– Mon ange, sei que pedi para que calasse, mas está quieto demais. Agora sou eu quem precisa que você fale. Por favor, me diga. Vamos ficar juntos, Milo? Vamos? – meu coração está prestes a sair pela minha boca. Sinto-me como um adolescente em frente ao primeiro amor. Bem, em grande parte isso é verdade. Milo, Milo, Milo, Milo... mil vezes Milo... para sempre.. droga, Milo, diz de novo que me ama! Preciso ouvir! Mais uma vez... uma vezinha só...
-X-X-X-
Enjoy the silence
Aproveite o silêncioMilo se livra de meus braços. Vira-se para mim e sorri encantadoramente. Percebo que seus olhos verdes brilham mais intensamente pelas lágrimas que ele teima em segurar. Ele leva seus dedos a meu rosto e enxuga minhas lágrimas, prova da emoção que toma meu peito. Eu sou Camus de Aquário, Cavaleiro de Atena. Eu sou Camus, um homem apaixonado. Eu sou simplesmente um homem, e nada mais. E é como homem que agora me sinto jubiloso. Feliz. O sorriso dele é tão intenso, ilumina minha alma. Diga-me, Milo. Por favor. – Diga-me, Milo...
– Camus! – ele diz e me abraça, encostando a boca em meu ouvido, num gesto que me faz estremecer por completo. – Sim? – eu consigo balbuciar.
– Aproveite o silêncio!
Um beijo. Lábios doces e macios envolvendo os meus. Mãos fortes percorrendo minhas costas. Uma língua quente massageando a minha. Sofreguidão, desejo, paixão e amor. É, realmente, palavras são desnecessárias. Os sentimentos, estes sim, são intensos. Acate o conselho de Milo, Camus, e aproveite o silêncio.
A cama é macia e o amor é doce.
-X-X-X-
A/N: Fic pequenina, pequenina, bobinha, que nasceu de minha vontade de fazer algo bem açucarado, bem fluffy mesmo.
Camus e Milo diferente do que se vê por aí. Mas me fizeram enxergar que Milo julga Kanon e Camus passa a saga inteira às lágrimas. Huuuuum, será que Milo é mesmo o impulsivo e Camus o controlado? Quis fazer essa aqui um pouquinho diferente... enfim, espero que tenha ficado bom.
Aliás, meu primeiro e único POV. Não sirvo pra isso não.
Músicas, ambas do Depeche Mode.
Cap. 1 – I promise you I will
Cap. 2 – Enjoy the Silence
Preciso dizer? Deixem uma autora feliz: REVIEWS, pls!
Obrigada!
