Capítulo Cinco: Artisticamente Escondido

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Ódio.

Estou molhada, debaixo do chuveiro. Estou praticamente nua e o contato com a água gelada faz os pêlos do meu corpo se eriçarem. Meus cabelos estão grudando às minhas costas, pingando desconfortavelmente enquanto eu tento me acalmar e resolver o que fazer.

Barulho irritante esse da água esguichando. Que mais há de me acontecer?

Plena madrugada. O cricri dos grilos lá fora. Minha janela aberta deixa o frio inundar o quarto e eu não tenho uma toalha ou o que vestir aqui.

Ódio. Puro e enorme ódio.

Sabaku no Gaara, tenho vontade de te enforcar.

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A Suna acordava junto do sol.

Ino jamais havia percebido, pois sempre dormia até que o sol estivesse bem no centro do céu. Mas o barulho se iniciava logo cedo. Cedo demais, na concepção dela.

E o vilarejo parecia amanhecer como todos seus demais dias (com a diferença de que ela amanhecia como todos os outros naquela manhã), mal bastara o sol aparecer no horizonte para que a movimentação da cidade começasse. A balburdia inicial logo se acalmava e abaixo da sua janela ela podia ver as pessoas abandonando suas casas para seguirem para o trabalho.

Suspirou e suspirou, entediada, com idéias homicidas e sem sono nenhum. Eram seis da manhã quando se esgueirou do banheiro até a janela, o corpo ainda molhado caminhando na ponta dos pés sobre o mármore. Ela vira Temari saindo pela porta central, o quadril gingando, e pensou "Já é manhã?", mas o sol apenas nascia.

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Nada.

Gaara aspirou o ar, abrindo os olhos subitamente.

É. Nada, constatou com um meio sorriso de satisfação. Não havia perfume algum.

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Ino atravessava o corredor com passadas que mais se assemelhavam a trotes de um animal – um animal bem furioso, a julgar pelo que ecoava no silêncio. Soltava resmungos e bufos de pura indignação entre meia dúzia de passos, as sobrancelhas loiras franzidas.

Ainda eram sete horas da manhã.

Ela remoera sua raiva no quarto, enquanto procurava o que vestir.

Desde a saída de Temari, Ino andou de um lado para o outro, os cabelos pingando às suas costas. A blusa rosa, com purpurina sobre o Princess, caía pelo ombro. Então ela resolveu tomar café, porque o chão já estava todo molhado.

"Hey, Ino!" Kankurou cumprimentou-a com um aceno de cabeça.

"Oi." Resmungou.

Ele passou pelo corredor, arrastando Karasu consigo.

"Gaara está na cozinha." Avisou, antes de dobrar na sala e tomar rumo para a saída da casa.

Ino estava mau-humorada demais para responder (ou mesmo se dignar a prestar atenção), por isso apenas ignorou o comentário, resmungando um seco "até logo" e ouviu a batida da porta.

Como as pessoas conseguem?

Havia uma aureola avermelhada em torno das suas pupilas, as pálpebras cedendo de vez em quando a sonolência que ela sentia. O mais incômodo, no entanto, era aquela irritação nos olhos, fruto da madrugada insone, que estava preste a lhe dar uma dor de cabeça.

Diante de tanto aborrecimento, Ino se perguntava então: como as pessoas conseguiam acordar àquela hora da manhã e manter o mesmo pique até o final do dia?

Era tão cansativo.

Considerava-se uma pessoa ativa e tudo o mais, mas, afinal, acordar com o nascer do sol era até um exagero. Uma boa noite de sono era extremamente necessária para manter sua beleza intacta e cada dia mais deslumbrante. Aquelas olheiras formavam um enorme contraste se postas em comparação com o resto da sua pele.

Sua péssima madrugada se dera por culpa de Gaara. Franziu as sobrancelhas diante do pensamento.

Quando empurrou a porta da cozinha, deu exatamente de cara com o dito cujo.

Gaara olhou para ela de relance, mal erguendo os olhos da sua xícara de leite. A boca dele estava um pouco suja de geléia de morango, o que tornava sua expressão impassível um tanto cômica.

"Já acordada?" Ele mostrou um meio sorriso.

Lançando seu melhor olhar mortal, Ino simplesmente não deu uma resposta.

Perguntava-se, às vezes, como podia gostar daquele garoto. Aos poucos ele ia se tornando uma confusão de sentimentos e gestos, sem tomar conhecimento dessas pequenas mudanças que iam se operando. E ela ficava apenas observando a metamorfose.

Era delicioso. Gaara era fantástico. A sua dificuldade para compreendê-la aos poucos estava sumindo e Ino tinha uma enorme vontade de beijá-lo. Beijá-lo até que ele descobrisse qual realmente é o significado de tudo aquilo.

Ela era uma garota instintiva demais para deixar de se guiar pelos seus súbitos pensamentos. E era exatamente essa mudança brusca de facetas que a tornavam tentadora. Porque Ino era tentadora e tinha plena consciência disso. Faria com que Gaara notasse cada pedacinho da sua sensualidade.

Mas aquilo não era para aquele momento. Por hora, era apenas necessária a desforra.

Aproximou-se com uma expressão aborrecida. A blusa rosa caía tanto pelo ombro direito que Ino se viu obrigada a puxá-la para cima, enquanto se escorava na bancada da cozinha.

"Sua ironia é odiável." Murmurou, pegando um guardanapo.

Passou-o pelo canto da boca dele com uma docilidade que não estava impressa no brilho dos seus olhos naquele momento. E Gaara ficou apenas observando seu gesto, até o muxoxo dela. "E você está sujo."

Não havia mais traço de sorriso no rosto dele.

Jogando o guardanapo sobre a toalha e voltando-se para Gaara, aplicou um violento beliscão em seu braço.

"Para você." Disse, em um tom que mesclava uma casualidade e uma satisfação sádica, como se estivesse entregando-lhe um presente – do tipo que ela detestaria.

Silêncio.

"Por que fez isso?" Gaara levou a mão ao braço, onde um pequeno hematoma aparecia.

"Por ter me acordado."

E beliscou-o de novo.

"E esse?"

"Por ter me jogado no chuveiro!"

Então, beliscou-o com tanta força que a pele do braço de Gaara – que estava quente de uma maneira que, para a temperatura natural dele, era de se desconfiar que estivesse com febre - retorceu-se junto do movimento dos seus dedos de tal maneira que Ino não se assustaria de ouvir um "rasg" de tecido rasgando.

Assoprando para tirar os cabelos da frente do seu rosto, ela resmungou: "Esse foi por ter me visto nua." Mas ainda não havia soltado-o.

"Chega, Ino!" Disse Gaara, irritado. Segurou a mão dela, apertando seus dedos.

Ela deu um sorriso diante da expressão dele.

A xícara de leite aos poucos parava de fumegar, mostrando o quanto esfriava. O café da manhã abandonado e a toalha cheia de farelos davam a impressão de estarem num cenário de filme.

Passando a língua pelos lábios, Ino pensou que, talvez, Gaara pudesse ser um ótimo ator.

O jogo deles se tornava cansativo de vez em quando, embora ela não tivesse intenção de desistir. Desistência era o tipo de coisa que jamais se passava por sua cabeça, apesar de tudo. E Ino não se criticava por encarar tudo como uma brincadeira. A marotagem era a melhor maneira de sapequear carinhos dele.

Beijou-o nos lábios, suavemente. "Isso foi porque te amo."

Os olhos de Gaara expressavam uma frieza derretida. Ela sentia a diferença do seu olhar. Finalmente, ele já estava acostumado a ter qualquer tipo de contato – ou quase qualquer tipo de contato – com ela.

Talvez ele ainda não fosse capaz de compreender com exatidão o que era tudo aquilo, embora tivesse certa noção.

"Me dê um beijo." Pediu.

"Um beijo?"

Gaara quase não se mostrou surpreso.

Pedidos e sorrisos, insinuações que simplesmente se forçava a ignorar. Olhares, toques, a companhia. Lábios, cabelos, cintura. Mãos. Ela era toda perfume. Ela era entrava em seu universo particular, sem bater na porta, interrompendo seu pensamento sobre as estrelas, destruindo suas barreiras.

Suor escorria de sua têmpora, despencando pelo rosto.

O calor o afetava como jamais afetara antes, pois Ino era a personificação do calor. O corpo quente sempre em contato com o seu ia derretendo-o, fazendo-o transpirar, esmigalhando-o. Ela era incansável e ardente.

Cada dia mais, os segundos que corriam, ela mudava as coisas dentro dele.

A areia arrastava-se sem vida atrás dele, incapaz de construir uma defesa decente. E mesmo que fosse, Gaara desconfiava ser tarde. Tudo já derretia. Estava boiando em pleno oceano. Seu próprio oceano. Ele era o mar.

Ino é o sol? O sol que mantém o sal no mar. Não. Ele era o lago.

Ouviu a risada dela, cortando seus pensamentos.

"Você gostou do meu beijo?" perguntou, piscando.

Os cílios de Ino eram tão loiros que, apesar de longos, pouco apareciam. Ainda assim, ela tinha olhos azuis que cintilavam como pedras preciosas, hipnotizadores.

"Gostou dos meus lábios?"

Então, pegou a mão dele, suavemente. Seus dedos acariciaram os dedos dele, fazendo uma carícia na sua palma, e os lábios, nos quais ela deslizava a língua, estavam corados.

Ela o olhava com aquele olhar travesso, de menina que quer fazer arte.

Conduziu a mão dele até sua bochecha, fazendo com que esta deslizasse suavemente, sentindo a textura, a quentura da pele. Era como tocar numa nuvem. Gaara jamais havia tocado numa nuvem, ainda assim, ela lhe trazia tal recordação. Nuvens. Eram brancas e pareciam macias, como Ino.

Seus dedos coçavam, deslizavam pelo suor. E ela foi conduzindo-os até seus lábios, molhados pela saliva. Com o dedo indicador, Gaara sentiu-os, lentamente.

Os olhos dele seguiam os movimentos dela e os seus próprios.

"Você gostou dos meus lábios, Gaara?" Ino repetiu a pergunta, passando a língua pela ponta do dedo dele.

Ele seria incapaz de negar.

Nuvens.

"Gostei." Murmurou.

Ino sorriu. "Então você me quer." Disse no seu ouvido.

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Inferno. Eu a quero.

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Inquietação.

O vento soprava uivante, balançando fortemente as cortinas brancas. E, sentado sobre a cama, seus cabelos vermelhos eram abanados para lá e para cá, como numa dança. Cobriam seus olhos e às vezes faziam cócega na pálpebra.

Já era a noite, descendo lentamente sobre o vilarejo, que tomava conta. As poucas estrelas do céu não estavam tão brilhantes como outrora estiveram, mas ainda assim estavam lá, apenas para que Gaara pudesse observá-las.

A tarefa, contudo, havia sido adiada. Não havia espaço em seus pensamentos para tal coisa. Pela primeira vez, sentia que havia realmente alguma coisa o perturbando e esse incômodo impedia que conseguisse prestar atenção nas constelações.

A casa estava vazia.

Ino saíra para fazer compras, a blusa rosa caindo pelo ombro como desde logo cedo. Deixara-o lá, com dúvidas que deviam ser inexistentes.

Naquela noite não havia grilos, não havia ruídos. Vaga-lumes brincavam sobre o parapeito da sua janela.

Pisca. Pisca. Pisca.

Enlouquecem-me.

Pisca.

Ventava muito, anunciando a mudança de tempo.

Pisca.

Tempestade.

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Ele assinava uns papéis quando se sentiu abraçado por trás.

"Gaara, quero ir a Konoha. Vamos comigo, vamos?" A voz de Ino soou manhosa, esfregando sua bochecha na dele.

Ela logo acariciava seu cabelo, um dos braços ainda rodeando seu pescoço, e os dedos dela estavam por todos os lados. Os cabelos loiros encostavam-se ao seu ombro, ela dependurava-se sobre sua cadeira. Não havia espaço para mais nada além de Ino quando Ino estava ali.

Havia flores na sua sala, presente dela.

Os lírios contrastavam com o resto da decoração de mogno escuro. O aroma se esvaecia no ar, lentamente. Ficavam perto da janela, sobre uma mesa. Ela vinha todos os dias regá-los.

Afastou a mão que acariciava sua bochecha. "Ino, tenho compromissos."

Ela riu. A risada alta enchia a sala.

Os lábios desceram até a sua orelha, deslizando a língua pela cartilagem. "Você pode adiar qualquer coisa que quiser. Você é o Kazekage." Murmurava, beijando sua bochecha. "Por favorzinho."

Silêncio.

Tornando a assinar os papéis, ele sentiu a caneta deslizar pelos seus dedos.

"Vamos, vai." Ela desencostou-se da cadeira, tirando os documentos do seu alcance.

"Não." Reiterou, impassível. Estendeu a mão. "Dê-me isso, Ino."

Com um sorriso travesso, ela maneou a cabeça em negativa. "Só se você for."

O vestido azul contrastava com o azul dos olhos. Era um tecido leve, ondulando de leve da cintura para baixo. Embora não houvesse vento, balançava continuamente com o movimento das pernas e quadris dela.

Gaara observou-a.

"Tudo bem." Assentiu, tornando a estender a mão. "Agora me devolva."

Ela sorriu quando caminhou até a janela, atirando os papéis todos.

"Ino!"

"Ohh, não fique bravo." Sentou-se no colo dele.

Os braços rodearam seu pescoço e os lábios vieram na direção dos seus.

Gaara não conseguiu pensar em mais nada depois disso.

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N/A: Nyaaa! Mais um cap aki o/ Talvez vcs nem percebam, mas a trama está evoluindooo. Nhá, isso me deixa feliiiz n.n Brigadinha pelos reveiws, pelo pessoal que acompanha, que tah sempre aih uhasuhuhas. E, gente, qualquer coisa q vcs n gostarem, enviem criticas tbm. Me esforçarei para melhorar tahh?

Sobre a fic: Gaara tah começando a lidar com os próprios sentimentos. Espero q a mudança esteja acontecendo lentamente, n abruptamente, pra n perder o fio da meada. E a Ino, bom, ela tá como sempre foi: ótima. No próximo cap vamos entrar meio q em uma nova fase, mostrando um pokito de Konoha e a trama começando a se encaminhar pro desfecho. N me perguntem oq vai acontecer, pq nem eu sei! xDD

Eh isso. Continuem acompanhando! Ateh o próximo post. Ja ne.